Questões Portuguesas IV


A Heteronímia Pessoana

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I n t r o d u ç ã o :

  

Conforme analisado em aula, a Simbólica Geral de Carl Gustav Jung – discípulo dissidente de Sigmund Freud que aprimorou os conceitos originais da Teoria Estrutural da Personalidade Topográfica (‘ego’, ‘id’ e ‘superego’) através do novo conceito de ‘self’, encontra eco na composição da heteronímia pessoana, como segue:

 

ü     Alberto Caeiro: as “Sensações”;

ü     Álvaro de Campos: os “Sentimentos”;

ü     Ricardo Reis: o “Pensamento”;

ü     Fernando Pessoa: a “Intuição”.

  

Estamos num tempo de busca pela melhor compreensão do homem e das complexas relações inerentes à alteridade e, desde as meditações cartesianas do cogito até os nossos dias atuais, o debate filosófico contemporâneo vem suscitando novas interpretações a cerca do sujeito, especialmente a partir da crítica hegeliana ao modelo solipsista moderno e da experiência da intersubjetividade, enquanto uma sinergia entre o si-mesmo e o outro. O mundo humano passa, então, a compreende-se a partir de uma desigualdade originária, estabelecendo-se como sociedade consensual, sob o signo da Razão. A questão inerente ao sujeito – e a sua relação com o seu outro semelhante – tornou-se, a partir daí, recorrente ao longo dos séculos, englobando as mais diversas abordagens, como a “comunidade das mônadas” de Husserl, o “inferno são os outros”, de Sartre ou o “rosto do outro”, de Lévinas, sendo a consciência-de-si um retorno a si mesmo, a partir do seu outro.

 

            Assim, desde as mais remotas noções do sujeito inserido num mundo coletivo (quando começam a ser esboçados os primeiros contornos do “eu”, ainda na Antiguidade Clássica) até as bases do pensamento fenomenológico de Sartre, Husserl e Merleau-Ponty (passando pela construção da noção de indivíduo no Iluminismo de Kant e Hegel, através do exame racional dos sonhos), o sujeito vem se afirmando através do seu psiquismo e desejo, ao longo dos séculos. Contemporâneo de Jung, Pessoa, o ortônimo, tem a possibilidade de reconstruir o objetivo iluminista do Século XVIII com muito mais propriedade, dados os avanços das teorias psicanalíticas de então. Há de se ressaltar que a primeira composição da heteronímia data de 1914, enquanto que o início do rompimento entre Freud e Jung começa em 1912 (discussão sobre o incesto e o episódio Binswanger) e se efetiva só em 1913.

  

Mas é somente durante o período compreendido entre 1918 e 1920 que Jung aceita o ‘self’ como o centro de toda a psiquê, sendo a sua primeira conferência proferida sobre o “si-mesmo” datada de 1948, publicando, em 1951, o seu “Aion: Estudos sobre o Simbolismo do Si-Mesmo”. E, apenas em 27 de maio 1961, termina o ensaio de “Símbolos e Interpretação dos Sonhos” para o livro “O Homem e seus Símbolos”, dez dias antes de morrer. E, conforme também discutido em sala, as coincidências temáticas entre a heteronímia pessoana e o esquema simbólico jungiano deve-se ao fato de ambos terem recorrido às mesmas fontes de pesquisa, conforme explicitado a seguir:

 

·     Ricardo Reis: Epicurista (com traços sutis de influência Estóica) que defende a busca de uma felicidade alcançada pela indiferença à perturbação através do carpe diem, tem uma poesia construída com bases em idéias elevadas e odes de raízes Neoclássicas. Lídia, por exemplo, (“vem sentar-se comigo, Lídia, à beira do rio”) segue o modelo horaciano ao compor a figura de uma musa inspiradora;

 

·     Álvaro de Campos: Engenheiro de educação inglesa (verdadeira alegoria do homem moderno nos tempos de Pessoa) e origem portuguesa e que sempre tem a sensação de ser um estrangeiro em qualquer parte do mundo, considera que sentir é tudo o que importa. Começa sua trajetória como um decadentista de origem Simbólica, mas logo adere ao Futurismo e ao Nihilismo, após uma série de desilusões;

 

·     Alberto Caeiro: Apesar de sua pouca instrução, é considerado o mestre dos heterônimos. É o autor de uma poesia complexa e enigmática, mantendo vínculos estreitos com a natureza, enquanto despreza qualquer tipo de pensamento filosófico que, segundo ele, retira-lhe a visão, não permitindo ver o mundo tal qual este realmente é: simples e belo;

  

Portanto, se Ricardo Reis tem raízes Epicuristas e Estoicistas, Álvaro de Campos tem traços de Nietzsche e Shopenhauer, enquanto que Alberto Caeiro tem suas matrizes Kantianas e Hegelianas, conforme anteriormente analisado. Mas, de qualquer forma, não cabe dizer que Pessoa buscou inspiração ou copiou Jung para a sua criação dos heterônimos, a julgar pela própria cronologia e evolução dos estudos e publicações do psiquiatra suíço. Ao contrário, há que considerar, talvez, a repetição do mesmo gênio português refletido em Sá de Miranda (1481-1558) que, séculos antes da primeira edição de “Das Ich und Es”, em 1923, já antecipava o arquétipo freudiano, através de sua Sextina.

 

Todavia, o intuito principal do presente trabalho não é o de teorizar quanto à gênese da heteronímia, mas buscar um entendimento maior quanto ao ethos de Campos e Reis, além da relação destes com o “mestre” dos heterônimos, Caeiro, através da análise de Poemas e alguns outros fragmentos das Odes de Ricardo Reis e das Poesias de Álvaro de Campos.

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Mestre, são plácidas

Todas as horas

Que nós perdemos,

Se no perdê-las,

Qual numa jarra

Nós pomos flores.

 

Não há tristezas

Nem alegrias

Na nossa vida.

Assim saibamos,

Sábios incautos,

Não a viver.

 

Mas decorrê-la,

Tranqüilos, plácidos,

Tendo as crianças

Por nossas mestras,

E os olhos cheios

De Natureza...

 

À beira-rio,

À beira-estrada,

Conforme calha,

Sempre no mesmo

Leve descanso

De estar vivendo.

 

O tempo passa,

Não nos diz nada.

Envelhecemos.

Saibamos, quase

Maliciosos,

Sentir-nos ir.

 

Não vale a pena

Fazer um gesto.

Não se resiste

Ao deus atroz

Que os próprios filhos

Devora sempre.

 

Colhamos flores.

Molhemos leves

As nossas mãos

Nos rios calmos,

Para aprendermos

Calma também.

 

Girassóis sempre

Fitando o sol,

Da vida iremos

Tranqüilos, tendo

Nem o remorso

De ter vivido.

 

Ricardo Reis

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Mestre, meu mestre querido,

Coração do meu corpo intelectual e inteiro!

Vida da origem da minha inspiração!

Mestre, que é feito de ti nesta forma de vida?

 

Não cuidaste se morrerias, se viverias, nem de ti nem de nada,

Alma abstracta e visual até aos ossos.

Atenção maravilhosa ao mundo exterior sempre múltiplo,

Refúgio das saudades de todos os deuses antigos,

Espírito humano da terra materna,

Flor acima do dilúvio da inteligência subjectiva...

 

Mestre, meu mestre!

Na angústia sensacionalista de todos os dias sentidos,

Na mágoa quotidiana das matemáticas de ser,

Eu, escrevo de tudo como um pó de todos os ventos,

Ergo as mãos para ti, que estás longe, tão longe de mim!

 

Meu mestre e meu guia!

A quem nenhuma coisa feriu, nem doeu, nem perturbou,

Seguro como um sol fazendo o seu dia involuntariamente,

Natural como um dia mostrando tudo,

Meu mestre, meu coração não aprendeu a tua serenidade.

Meu coração não aprendeu nada.

Meu coração não é nada,

Meu coração está perdido.

 

Mestre, só seria como tu se tivesse sido tu.

Que triste seria como tu se tivesse sido tu.

Que triste a grande hora alegre em que primeiro te ouvi!

Depois tudo é cansaço neste mundo subjectivado,

Tudo é esforço neste mundo onde se querem coisas,

Tudo é mentira neste mundo onde se pensam coisas,

Tudo é outra coisa neste mundo onde tudo se sente.

Depois, tenho sido como um mendigo deixado ao relento

Pela indiferença de toda a vila.

Depois, tenho sido como as ervas arrancadas,

Deixadas aos molhos em alinhamentos sem sentido.

Depois, tenho sido eu, sim eu, por minha desgraça,

E eu por minha desgraça, não sou eu nem outro nem ninguém.

Depois, mas porque é que ensinaste a clareza da vista,

Se não me podias ensinar a ter alma com que a ver clara?

Porque é que me chamaste para o alto dos montes

Se eu, criança das cidades do vale, não sabia respirar?

Porque é que me deste a tua alma se eu não sabia que fazer dela

Como quem está carregado de ouro num deserto,

Ou canta com voz divina entre ruínas?

Porque é que me acordaste para a sensação e a nova alma,

Se eu não saberei sentir, se a minha alma é de sempre a minha?

 

Prouvera ao Deus ignoto que eu ficasse sempre aquele

Poeta decadente, estupidamente pretensioso,

Que poderia ao menos vir a agradar,

E não surgisse em mim a pavorosa ciência de ver.

Para que me tornaste eu? Deixasses-me ser humano!

 

Feliz o homem marçano,

Que tem a sua tarefa quotidiana normal, tão leve ainda que pesada,

Que tem a sua vida usual,

Para quem o prazer é prazer e o recreio é recreio,

Que dorme sono,

Que come comida,

Que bebe bebida, e por isso tem alegria.

 

A calma que tinhas, deste-ma, e foi-me inquietação.

Libertaste-me, mas o destino humano é ser escravo.

Acordaste-me, mas o sentido de ser humano é dormir.

 

Álvaro de Campos

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A Ode 310 de Ricardo Reis:

 

“Não é poesia, pois não tem alma!”

(diria Campos, ao ler Reis)

 

 

 

Nesta ode, Reis, discípulo que tem a marca do pensamento, trata de viabilizar a proposta do seu Mestre sensorialista e pagão, a partir de um aparato resgatado da tradição clássica.

 

Em sua evocação sentimental do mestre, Reis filosofa, portanto, numa linguagem clássica e serena, como que se pretendesse criticar os excessos da arte moderna de seu tempo. A Ode revela uma característica da Ética do Epicurismo, uma vez que tal serenidade revela a condição humana ideal da não-ação, além da busca pela razão como forma de eliminar as euforias e depressões.

 

Mas a calma do sábio Reis que nos dá conselhos impossíveis esconde um profundo drama espiritual. Na sua Ode 399 (“sim, sei bem que nunca serei alguém”), deixa aberta uma fresta, onde escapa o seu dilaceramento e o seu fingimento, pois também sabe que a realidade só é suportável se for fingida. Já na quarta estrofe, da Ode 310, por exemplo (“À beira rio, à beira-estrada...”), revela que brincar é mais importante do que se envolver no cerne das coisas.

 

Sua menção a um “deus atroz”, na sexta estrofe, refere-se a Cronos, o deus grego que devorava seus próprios filhos, assim que nasciam. E, na sétima estrofe (“Colhamos flores...”), o termo “flor” funciona como uma metáfora emblemática daquilo que é finito, que murcha (para Campos, uma flor seria apenas uma flor...). Mas, apesar da sua lucidez quanto à inexorabilidade da morte, sua preocupação principal é a de colher o que há e transformando-o em algo estético pois, afinal, tudo vale em nome da harmonia, já que as horas que passamos aqui deverão ser, necessariamente, “plácidas” (3ª.estrofe), revelando a apatia Epicurista. E, na última estrofe, a menção ao ‘girassol’, recorrente em sua poesia, revela toda a sua pretensa frieza “conquistada” poeticamente, ao declarar-se “sempre fitando o sol da vida”, tranqüilo e sem remorso.

 

Este heterônimo representa, portanto, o fiel discípulo que, apesar de todo o seu convencimento quanto à utopia sensorialista de Caeiro, mergulha nos ensinamentos de seu Mestre tomando, contudo, a precaução de munir-se com a lucidez de seu pensamento, aparentemente tão comedido, tão sistemático – quase fragmentado –, evidenciado através de suas rimas econômicas que, muito além da mera sedução pelo ritmo ou melodia, convida-nos à reflexão, uma vez que, motivados pela riqueza do valor individual de cada palavra – e pelas seqüências destas em cada verso –, somos levados mais à avaliação racional do conteúdo destas do que, propriamente, um encantamento pela formal.

 

Ricardo Reis é o símbolo do homem fincado no passado, mas que tratava de viver o seu presente sem a angústia dos tempos modernos, o que, certamente, levaria Campos a interpretá-lo, erroneamente, como um poeta sem alma.

 

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A Poesia de Álvaro de Campos:

 

“Não é poesia, pois não tem forma!”

(diria Reis, ao ler Campos)

 

 

 

Neste poema, Campos também reverencia seu Mestre, mas deixando clara a sua total impossibilidade de desaprender, uma vez que está imerso e impregnado da cultura dita moderna, essencialmente urbana. Suas estrofes são irregulares e seus versos, desprovidos de rimas, exibindo uma verborragia ansiosa, típica do novo homem “moderno” daqueles tempos.

 

Até conhecer Caeiro, Campos acreditava na modernidade. Mas, após o seu contato com o Mestre, tudo o que sobrou foi um eu melancólico, disfarçado. Contudo, o fingimento de Campos é tênue, pois a sua máscara é fingir que não tem máscara alguma. Campos enuncia, veementemente, o seu eu, que se derrama e espalha na realidade exterior, vendo, portanto, em tudo o reflexo deste seu “eu” pretensamente forte. Mas há nele, também, o grande vazio de um eu estilhaçado, conforme evidenciado em seu poema Apontamento (“A minha alma partiu-se como um vaso vazio”).

 

Diferentemente do carpe diem de Ricardo Reis (que, através da força de seu pensamento, organiza, assimila e supera a noção proposta por Caeiro de conhecimento sensível do mundo exterior), Álvaro de Campos desvia-se dos ensinamentos do Mestre, levando a sua poesia a extremos sentimentais, sempre na busca frenética de “sentir tudo de todas as maneiras”. Contudo, cai na armadilha destes tempos ditos modernos, onde o aqui e agora existem apenas como forma de endossar a crença num futuro utópico, onde talvez não haja mais espaço para quaisquer perplexidades (“tudo é cansaço neste mundo subjetivado”), chegando a alienar-se de qualquer sublimação da sua realidade (“Tudo é mentira neste mundo onde se pensam coisas”), em nome da vã materialidade do presente (“Tudo é esforço neste mundo onde se querem coisas”).

 

A armadilha que captura Campos faz com que ele creia, a priori, que o seu sentimento exacerbado – evidenciado por sua verborragia freneticamente moderna – seja um elemento libertador de sua alma. Mas, por vezes, o heterônimo já começa a demonstrar o reconhecimento de que a “angústia sensacionalista de todos os dias sentidos”, endossada “Na mágoa quotidiana das matemáticas de ser”, pode converter-se num poderoso elemento que poderá, inexoravelmente, aprisionar-lhe a alma.

 

Na sua Ode 391 (“Quer pouco, terá tudo / Quer nada: será livre”), Reis, a propósito do amor, parece dizer algo importante para o homem moderno de então, como Campos. E, ainda, na Ode 395, diz, com todas as palavras, que “ninguém te dás quem és”, enquanto que, na sua Ode 337, revela a frieza dos jogadores de xadrez, impassíveis enquanto que os arredores eram saqueados. Contudo, é impossível um diálogo direto entre os dois heterônimos, que vivem tempos, lugares e modos de compreensão da realidade tão distintos, o que nos leva à constatação de que se faz necessária a intermediação intuitiva do ortônimo Fernando Pessoa, para o pleno sucesso de um diálogo que apenas pode se materializar na mente do leitor.

 

O certo é que, para Ricardo Reis (que vive restrito no seu dia presente pastoral de padrões estéticos clássicos), nunca seria possível a plena compreensão da dimensão – e angústias – de Campos, provavelmente limitando quaisquer eventuais críticas quanto à obra do outro heterônimo aos seus elementos meramente formais, num diálogo que se revelaria surpreendentemente estéril.

 

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C o n c l u s ã o:

 

 

 

Ricardo Reis e Álvaro de Campos encontram-se, em relação a Alberto Caeiro, cada qual num extremo de um mesmo eixo: enquanto que o primeiro busca a significação a partir de uma maior objetivação das palavras do Mestre, o outro heterônimo, ao contrário, busca a sua subjetivação a partir das palavras de Caeiro, no afã de alcançar o seu próprio significado. E (principalmente, mas não exclusivamente) considerando os dois poemas analisados, chega-se a uma interpretação das diferentes visões de mundo de cada um deles, evidenciada através da análise do diálogo intertextual que os dois heterônimos mantêm com o discurso proposto por Caeiro.

 

            Surpreendente é notar que a composição do ethos individual de Reis e Campos (que, aparentemente, parecem estar enraizados cada qual num extremo do referido eixo) releva uma instabilidade que poderá fazer com que eles, a qualquer momento, despenquem de suas posições originais “seguras”, rumo exatamente aos seus respectivos opostos, uma vez que ambos fingem ser o que são, mostrando a fragilidade de suas personalidades. Tal polarização nos remete, inclusive, às mais diversas teorias psicanalistas que tentaram classificar, em vão, os homens e seus humores, como se não estivéssemos falando de seres mutáveis, moldados pelo tempo e espaço em que habitam.

 

A título meramente ilustrativo, é interessante registrar as semelhanças entre a criação do ethos destes dois heterônimos com a teoria que primeiro buscou designar os traços característicos dos cinco tipos de personalidade: trata-se da Teoria Psicológica dos Traços Psíquicos (‘cardinais’, ‘centrais’ e ‘secundários’) de Allport e Odbert (1936) que, a partir de um universo de 17.000 palavras, chegou a 171 designações de traços, característicos de 16 diferentes fatores de personalidades, dentre as quais se destacam: o ‘eu forte’ versus o ‘eu fraco’; a ‘inteligência concreta’ versus a ‘inteligência abstrata’; o ‘submisso’ versus o ‘dominador’; o ‘moderado’ versus o ‘impulsivo’; o ‘despreocupado’ versus o ‘consciencioso’; o ‘tímido’ versus o ‘sociável’; o ‘realista’ versus o ‘sensível’; o ‘confiante’ versus o ‘desconfiado’; o ‘prático’ versus o ‘imaginativo’; o ‘ingênuo’ versus o ‘perspicaz’; o ‘confiante’ versus o ‘ansioso’; o ‘conservador’ versus o ‘aberto’; o ‘incontrolado’ versus o ‘controlado’; o ‘descontraído’ versus o ‘tenso’.

 

Deve-se ressaltar, porém, não ter sido os cinco tipos resultantes desta investida psicanalítica (‘openness’, ‘conscientiousness’, ‘extraversion’, ‘agreeableness’ e ‘neuroticism’) o elemento conscientemente constitutivo dos heterônimos: a curiosidade despertada pela menção registra, sim, não só coincidências eventuais, mas, principalmente, certa inutilidade da classificação, uma vez que, a qualquer momento, qualquer um deles pode perfeitamente “despencar” de seu pólo original rumo ao caos, apesar do aparente e inquestionável confinamento de cada um em seus mundos próprios, tão peculiares e diferentes entre si.

 

Por fim, a inventividade de Pessoa parece também dar continuidade à idéia do “movimento pendular” envolvendo passado e futuro, algo tão intrínseco não somente à prosa e à poesia portuguesas, mas, também, ao próprio espírito nacional lusitano, conforme descrito pelo crítico Álvaro Manuel Machado ao analisar a mescla literária recorrente, exaltando-se um passado histórico com vistas à invenção de um futuro promissor para Portugal. Mas, no nosso caso, o passado não serve para inventar um futuro, que, por sua vez, anuncia-se angustiante e incerto, não garantindo a felicidade daqueles que, no presente, vivem em função desta utopia.

 

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Álvaro de Campos, a propósito de Caeiro:

 

“O que o mestre Caeiro me ensinou foi a ter clareza; equilíbrio, organismo no delírio e no desvairamento, e também me ensinou a não procurar ter filosofia nenhuma, mas com alma”.

(Páginas Íntimas e Auto Interpretacão, p. 405)

 

 

 

Ricardo Reis, a propósito de Caeiro:

 

“Quando mais não pudéssemos ir buscar a obra de Caeiro, poderíamos sempre ir lá buscar a Natureza. Cheia de pensamento, ela livra-nos de toda a dor de pensar. Cheia de emoção, ela liberta-nos do peso inútil de sentir. Cheia de vida, ela põe-nos aparte do peso irremediável da vida que é forçoso que vivamos”.

(Poesia de Ricardo Reis, pp.111-112)

 

 

 

Fernando Pessoa, a propósito da Heteronímia:

 

“Começo pela parte psiquiátrica. A origem dos meus heterônimos é o fundo traço de histeria que existe em mim. Não sei se sou simplesmente histérico, se sou, mais propriamente, um histero-neu­rastênico. Tendo para esta segunda hipótese, porque há em mim fenômenos de abulia que a histeria, propriamente dita, não enquadra no registo dos seus sintomas. Seja como for, a origem mental dos meus heterônimos está na minha tendência orgânica e constante para a despersonalização e para a simulação. Estes fenômenos — feliz­mente para mim e para os outros — mentalizaram-se em mim; quero dizer, não se manifestam na minha vida prática, exterior e de contato com outros; fazem explosão para dentro e vivo-os eu a sós comigo. Se eu fosse mulher — na mulher os fenômenos histéricos rompem em ataques e coisas parecidas — cada poema de Álvaro de Campos (o mais histericamente histérico de mim) seria um alarme para a vizinhança. Mas sou homem — e nos homens a his­teria assume principalmente aspectos mentais; assim tudo acaba em silêncio e poesia...”

(Revista Discutindo Literatura – Especial – p. 31)

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B i b l i o g r a f i a:

 

 

 

  • PESSOA, Fernando. Odes de Ricardo Reis. Porto Alegre: Editora: L&PM, 2006

 

  • PESSOA, Fernando. Poesias de Álvaro de Campos. São Paulo: Martin Claret, 2007

 

  • ROUANET, Sérgio Paulo. As Razões do Iluminismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.

 

  • JUNG, Carl Gustav. O Homem e Seus Símbolos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1991.

 

  • HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. Fenomenologia do Espírito. Petrópolis: Vozes, 2002.

 

  • SARTRE, Jean-Paul. L’Être et le Néant – Essai d’Ontologie Phénoménologique. Paris: Gallimard, 1943.

 

  • SARTRE, Jean-Paul. La Transcendance de L’Ego. Esquisse d’une Description Phénoménologique. Paris: J.Vrin, 1965.

 

  • ALLPORT, G. W. & ODBERT, H. S. Trait names: A psycholexical Study. In Psychological Monographs. New York: Journal for the Theory of Social Behaviour, 1972.