Questões Portuguesas


Al Berto, J.Barrento e o Pós-Modernismo em Portugal

 

Al Berto

Alberto Raposo Pidwell Tavares

(Coimbra, 11 de Janeiro de 1948 - Lisboa, 13 de Junho de 1997)

 

Como Al Berto trata da dor em sua obra poética e/ou de ficção? (O aluno deve necessariamente abarcar o debate instaurado por J.Barrento em “Receituário da dor para uso pós-moderno”)

 

Em seu “Receituário da Dor”, J.Barrento faz uma reflexão da vida a partir dos conceitos desenvolvidos por Schopenhauer, entendida pela dicotomia existente entre o ‘desejo’ e a ‘dor’ que lhe é inerente. Daí, prossegue afirmando a positividade da dor e a negatividade do prazer, chegando a correlaciona-las com as pulsões de vida e de morte, conforme a teoria freudiana. Cria, assim, as bases do que conceituaria, mais adiante, como “o estado de férias permanente”, algo típico do “individualismo sem subjetividade”, nestes nossos tempos pós-modernos de “dissolução da dor no tempo”.

 

A sensação do indivíduo na pós-modernidade é de total irrealidade e nihilismo. O mundo atual é um mundo confuso e que direciona os indivíduos ao consumo, alimentado por um neo-hedonismo, onde o que reina é a busca do prazer e da satisfação consumista, sendo tudo ao seu redor composto de simulacros, sem identidade definitiva, gerando nos indivíduos um processo narcisista de “travestização de toda a experiência”.

 

Assistimos passivos, diariamente, o “grande espetáculo vulgar da política e da cultura mediática”, formador das opiniões, e, neste cenário, é de se esperar que a poesia seja, por si só, algo totalmente antagônico a tal processo de simplificação da subjetividade e aglutinador das diferenças. Mas, no caso de Al Berto, a voz do indivíduo se contrapõe a todo este contexto de pós-modernidade, pois, nela, o sujeito se revela com densidade incomum, ao mesmo tempo em que afirma a sua singularidade, exteriorizando a sua mais íntima dor.

 

Não se afirma que a causa da morte de Al Berto tenha sido a Aids, mas há uma grande probabilidade que tenha sido este o motivo de seu desaparecimento. Ao mesmo tempo, a poesia de Al Berto é reconhecida como sendo uma espécie de literatura gay, o que me fez pensar numa outra característica destes tempos pós-modernos: não pretendo reduzir a vitória da afirmação dos grupos homossexuais, no que diz respeito ao reconhecimento de suas conquistas, mas é oportuno notar que tal reconhecimento – assim como o de todas as demais diferenças – se dá, “oportunisticamente”, junto com a consagração daquilo que se chama de “nicho” de mercado, remetendo-nos às reflexões propostas por Guy Debord em seu “La Societé du Spetacle”, quanto ao papel da “mercadoria” no mundo atual.

 

Hoje, está implícito, na aceitação do grupo homossexual, a existência de toda uma gama de produtos e serviços, desde Shopping Centers e Agências de Viagens específicas, até griffes de roupas e uma rede de boates, bares e restaurantes. Assim, acima de tudo, o importante é direcionar is indivíduos para o “gozo” implícito no ato de consumir, algo que se vincula, quase automaticamente, às reflexões pós-marxistas a cerca do “fetiche da mercadoria”, conforme relatado por Raymond Williams, em seu “Problems in Materialism and Culture”.

 

E, assim, ainda que este grupo específico venha conquistando, historicamente, o seu reconhecimento desde os eventos de Stone Wall Inn em 1969, na prática o que vem acontecendo é a sua afirmação como “úteis” e “oportunos” consumidores potenciais: são recorrentes frases como “o poder de consumo do público gay está em crescimento”; “com esse mercado ascendente, mais empresas buscam investir no setor”; ou “os casais homossexuais não têm filhos, então, os gastos que teriam com fraldas e escolas são revertidos para cultura, lazer e turismo”.

 

Contudo, todo o “gozo” propiciado pelo consumo desenfreado – algo que nos remete ao “estado de férias permanentes” mencionado por J.Barrento – foi acidental e involuntariamente “freado” por outro evento mais recente: a epidemia de Aids, desencadeada com m ais intensidade desde o início dos anos 80, inicialmente concentrada no meio gay. Assim, o que ia “evoluindo” rumo à constituição de um grupo a celebrar o lúdico e a felicidade “travestida” no ato de consumir, teve que aprender a conviver, forçosamente, com a dor e a tragédia do mundo real. É sintomático notar a insistência de tantos que simplesmente ignoraram o poder devastador da nova doença, optando simplesmente por negá-la, em nome do prazer sexual mais imediato.

 

Evidentemente, o melhor exemplo deste “freio” dentro da poesia de Al Berto é, justamente, o poema “Sida”, que, em meio de frases simples e contundentes (“aqueles que nos telefonam um dia emagrecem – partem...”), reafirmam o sujeito a partir do sofrimento, exatamente conforme descrito por J.Barrento (que, conforme vimos, afirma, em determinado ponto, a positividade da dor e a negatividade do prazer). Outras passagens podem ser entendidas dentro desta mesma linha, a saber:

 

·        “no interior duma dor inútil” (linha 4): revela-se o desejo de negar a dor, através da sua depreciação;

 

·        “o passageiro ardente nas veias” (linha 9): fala-se do mal internalizado em forma de vírus;

 

·        “acordamos trémulos confusos” (linha 12): revela a constatação do mal pelos indivíduos infectados;

 

·        “a ausência fulgura na aurora das manhãs” (linha 17): é a dor da perda, que elimina toda alegria de viver;

 

·        “aqueles que amamos e não voltam” (linha 24): dá-se conta da inexorabilidade da dor, através da perda.

 

 

Porém, o mais contundente relato da dor pós-moderna – não necessariamente vinculado à epidemia de Aids mas, sim, a um entendimento mais sistêmico da ‘dor’ existencial – é o poema “Notas para o Diário”, que repete, de forma recorrente (e, portanto, também sistêmica), a ‘estrofe’ “a dor de todas as ruas vazias”, quase um mantra que constata a falta de lugar da ‘dor’ nos tempos atuais, fato este reforçado por outras idéias afins, a saber:

 

·        “deus tem que ser substituído rapidamente” (linha 1): deus, neste caso, pode ser entendido como a vida de todas criaturas e, portanto, a real subjetividade;

 

·        “por poemas, sílabas (...), lâmpadas (...)” (linhas 1-2): poemas e sílabas são equiparados a objeto de consumo como lâmpadas;

 

·         “corpos palpáveis, vivos e limpos” (linhas 3-4): é característico da pós-modernidade a ‘coisificação’ dos corpos, sempre ‘higienicamente’ malhados e produzidos em academias de musculação e afins;

 

·         “sinto-me capaz de caminhar na língua aguçada deste silêncio” (linhas 5-6), aqui, o eu lírico reconhece-se como alguém apto a de falar do indivíduo real.

 

·         “na sua simplicidade, na sua clareza, no seu abismo” (linhas 6-7): a pretensa simplicidade dos fatos e sujeitos ‘coisificados’ esconde o abismo dos tempos atuais;

 

·         “mas gosto da noite e do riso de cinzas” (linha 11): o prazer individual pode ser genuíno, não sendo apenas a ‘dor’ algo que deva marcar a individualidade;

 

·         “[gosto do] deserto, e do acaso da vida, gosto dos enganos, da sorte e dos encontros inesperados” (linhas 12-13): reforçam a idéia explicita na linha 11;

 

·         “pernoito quase sempre no lado sagrado do meu coração” (linha 14): idem acima;

 

·         “ou onde o medo tem a precaridade doutro corpo” (linha 15): aqui, a idéia da alteridade em forma de ‘medo’ é expressa de modo negativo, através do termo ‘precaridade’, como se ambas as dores fossem capazes de se anular, quando juntas;

 

 

Mas é nos versos e estrofes finais, que esta dualidade entre ‘dor’ e ‘prazer’ (prazer este existente não apenas a partir do consumo de objetos e situações ‘coisificadas’, mas representado pela presença do outro), se torna mais evidente:

 

·        “sujo os olhos com sangue, chove torrencialmente, o filme acabou, não nos conheceremos nunca” (linhas 23-24): o sentimento de dor causado pela impossibilidade de se ter o outro pode representar não somente numa determinada pessoa em específico, mas todas as pessoas que, massificadas, vivem a ‘euforia’ de ser tudo, menos eles mesmas;

 

·         “os poemas adormeceram no desassossego da idade” (linha 25): nos tempos atuais, talvez nem mais os poemas reveladores do ‘prazer’ genuíno dos indivíduos, baseado em outros valores além daqueles da massificação mercadológica, tenha mais lugar;

 

 

·        “na perturbação de um tempo cada vez mais curto” (linhas 26-27): uma característica da pós-modernidade é, justamente, a aceleração do ritmo da vida;

 

·        “por vezes, ouço-os no transe da noite” (linha 27): considerando-se o valor matafórico do termo “noite”, constatamos a “falta de lugar da poesia” hoje em dia;

 

·        “rasgam-me as metáforas insidiosas, porcas... e nada escrevo” (linhas 28-29): o eu lírico confessa sentir-se, por vezes, impossibilitado de romper com a força do estado atual das coisas;

 

·        “o regresso à escrita terminou. A vida toda fodida” (linha 30): reforça-se, aqui, as idéias contidas nos versos imediatamente anteriores;

 

·        “a alma esburacada por uma agonia tamanho deste mar” (linha 31): há de se notar o valor metafórico do termo “mar”, que é abstrato, pois pode significar qualquer coisa dentro do atual estado de coisas, onde se encontra inserida a ‘alma esburacada’ dos indivíduos.

 

Na sua comparação entre Helder e Al Berto, Rosa Maria Martelo revela, através de “Corpo, Velocidade e Dissolução”, a característica do poeta em evidenciar a experiência do corpo, como algo “inseparável de uma espécie de efeito de dissolução da identidade”, reforçando a idéia de que, do ponto de vista do sujeito designado por Al Berto, caminha-se “da euforia da possibilidade do encontro com o outro ou consigo mesmo” (ou o ‘prazer’, na sua forma mais simples e legítima) para “uma solitária melancolia” (ou aquilo que deveria ser a ‘dor’, caso não houvesse outros sofrimentos mais contundentes) cada vez “mais envolvente e desamparada”. Assim sendo, a “imagem apocalíptica do fim-de-século e do fim do milénio (...) tem muito que ver com a perplexidade perante um mundo, que não vale sequer a pena tentar compreender”, conforme nos relata Martelo.

 

Enquanto isto, vivemos um paradoxo: somos e não somos ao mesmo tempo. Na pós-modernidade, a afirmação das diferenças (de gays, negros, mulheres, idosos e outras ditas ‘minorias’) é, ao mesmo tempo, a negação dos indivíduos em prol de uma coletivização repressiva das vontades e dos gostos. Assim, na perspectiva neo-Marxista, a dominação não se dá mais simplesmente pelos detentores dos meios de produção sobre a classe operária, mas sobre todo e qualquer indivíduo, sendo, agora, os seus “algozes”, justamente o seu semelhante, estando, paradoxalmente, ambos imersos numa lógica consumista hedonista, que busca o prazer pelo consumo.

 

Ou, como dizem os estudiosos da micro-economia, “o componente do ‘gosto individual’, dentro da curva de demanda de necessidades”. Ou, ainda, como diria o publicitário, “o desejo inerente ao consumo do produto, muito além da sua simples necessidade, e quase sempre evidenciado por um ‘design’ variável”, revelando, explicitamente, o caráter fetichista de bens e serviços.

 

Melhor mesmo seria sintetizar a percepção (e perplexidade) quanto ao momento atual, através da simplicidade desconcertante das palavras de Al Berto: “sinto-me vazio, hoje, [pois] a compreensão do mundo escapa-me”.