“Luis Vaz de Camões” e “Fernando Pessoa”


(trabalho final do Curso de Literatura Portuguesa da USP)

 

 

“navegar é preciso...”

 

 

 

 

 

Q u e s t õ e s   P r o p o s t a s:

 

1)  Eleja um trecho de Os Lusíadas e o compare com alguma das obras vistas em sala (ou trechos delas) que reflitam o “movimento pendular” e a “interrogação sobre a razão de ser de Portugal”, conforme definido no texto do crítico Álvaro Manuel Machado.

 

  

2)  Os poemas “O das Quinas” e “O Quinto Império”, do Livro “Mensagem” de Fernando Pessoa, têm em comum o fato de expressarem uma mesma imagem.

  

 

a)  Detalhe qual é essa imagem e, em seguida, transcreva os versos de cada poema que melhor a expressem;

 

b)  Os seguintes versos do poema “O Quinto Império” dialogam com uma imagem presente em “Os Lusíadas”: “Grécia, Roma, Cristandade, / Europa – os quatro se vão / Para onde vae toda edade.” Explicite qual é essa imagem e em que Canto e Estância do poema camoniano ela está expressa. Qual a diferença entre as imagens?

 

 

N O T A: Itens sublinhados e grifados no texto das respostas têm relação mais específica com as questões propostas.

 

 

Q u e s t ã o   “ 1 ”:

 

Os Lusíadas sintetizam o que foi a Renascença e os seus ideais. Portugal, até então um pobre e pequeno país no extremo da península mais afastada do centro do continente europeu, acaba se tornando o protagonista dos acontecimentos que estavam por vir – e que levaram o homem renascentista a se orgulhar deles –, ressaltando a idéia da missão divina confiada aos lusitanos, o que daria uma razão de ser a Portugal, sempre em nome do “destino”, “fado”, “ventura” ou “fortuna” do povo português:

 

[...] é dos Fados grandes certo intento

Que por ela [a forte gente] se esqueçam os Humanos

De Assírios, Persas, Gregos e Romanos (I, 24)

 

Prometido lhe está do Fado eterno,

Cuja alta lei não pode ser quebrada,

Que tenham longos tempos o governo

Do mar que vê do Sol a roxa entrada. (I, 28)

 

A conquistar as terras Asianas

Vieram e, por ordem do Destino,

O Império tomaram a Constantino (I, 60)

 

Está do Fado já determinado

Que tamanhas vitórias, tão famosas,

Hajam os Portugueses alcançado

Das Indianas gentes belicosas. (I, 74)

 

Dando-lhe a entender que ali viera

Por alta influição do imóbil Fado (X, 146)

 

Que Emperador, que exército, se atreve

A quebrantar a fúria da Ventura

Que, em quanto desejei, me vai seguindo,

O que tu só farás não me fugindo? (IX, 79)

 

Força capaz de tudo fazer para tornar real o que já estava previsto:

Minha ventura é tal que, inda que esperes,

Ela fará que não possa alcançar-te.

Espera; quero ver, se tu quiseres,

Que sutil modo busca de escapar-te;

E notarás, no fim deste sucesso,

“Tra la spica e la man qual muro he messo” (IX, 78)

 

 

Outras menções similares são feitas nos seguintes Cantos e Estâncias: II: 98; VI: 15: X: 74; e IV: 51. Na mesma medida em que pretendem avançar na conquista política e econômica do espaço, dão prosseguimento à cristianização da humanidade, tornam-se um “povo escolhido”, conforme os versos a seguir:

 

Inspirado de Angélica influência,

Quer no livro de Cristo que se escreva. (IX, 15)

 

As gentes vãs, que não nos entenderam,

Chamaram-lhe fado mau, fortuna escura,

Sendo só providência de Deus pura. (X, 30)

 

 

Como Camões não teve fatos da proto-história portuguesa que pudessem servir para enaltecer o passado e atribuir uma origem semidivina aos lusitanos, serviu-se dos mitos da epopéia clássica greco-latina para tal fim, conforme evidenciado logo no início do poema, através do Concílio dos Deuses (I:20-33), quando Júpiter decide que os portugueses devem cumprir seu intento e incumbe Vênus e Marte de protegê-los, apesar da resistência de Baco e de Netuno.

 

Outro ponto importante que, somado à mitologia da epopéia clássica, faz com que haja uma idéia de passado glorioso, está presente no final do Canto II, quando Vasco da Gama chega a Melinde e a narração da viagem é interrompida: a partir daí, toda a história de Portugal é contada, desde as origens até o reinado de D.Manuel I. A longa narrativa, na voz de Gama, segue pelos Cantos III, IV e V.

 

Contudo, o poema não se limita a enaltecer Portugal, denunciando, de forma crítica, a crise moral da época, especialmente no Epílogo, que diz:

 

"Destemperada e a voz enrouquecida,

E não do canto, mas de ver que venho

Cantar a gente surda e endurecida.

O favor com que mais se acende o engenho

Não no dá a pátria, não, que está metida

No gosto da cobiça e da rudeza

Dua austera, apagada e vil tristeza".

 

 

Mas a História se encarregou de dar um tom irônico e surpreendente ao desfecho da vida do grande poeta: morreu em 1580, vítima da peste que arrasara Lisboa um ano antes, e logo após o desaparecimento de D.Sebastião, na batalha de Alcácer-Quibir, em 1578. Portugal é ocupado por Filipe II, da Espanha, marcando o fim do grande Império Português e dando início à Unificação Ibérica (1580-1640).

 

Inicia-se, então, um forte questionamento quanto à razão de ser do país e Portugal passa a viver e expectativa de um futuro promissor, com a volta idealizada de D.Sebastião. O mito sebástico, aliás, de tão impregnado da psicologia portuguesa, chega ao Brasil e torna-se, surpreendentemente, um componente fundamental dos movimentos messiânicos de Canudos (BA) e do Contestado (SC).

 

Séculos depois, Fernando Pessoa volta a analisar a existência de Portugal como nação e constata que o país encontra-se estagnado e, daí, propõe-se a engrandecê-lo, seguindo a tradição poética iniciada por Camões. Assim, a poesia épico-lírica de Mensagem assemelha-se ao conto épico dos versos camonianos, dando, ao mesmo tempo, continuidade à História do Futuro, do Padre António Vieira.

 

O Livro Mensagem se divide em três partes, numa organização que traz, em si, a idéia do movimento pendular: a) o “Brasão, remete ao Passado, através da Heráldica; b) Mar Português remete ao Passado e ao Presente, através das Descobertas; e c) O Encoberto remete ao Futuro, através da Profecia.

 

Desta forma, busca-se, na organização de Mensagem, uma sucessão temporal (“Os Tempos”), da forma que se segue: “Noite”, “Tormenta”, “Calma”, “Antemanhã” e “Nevoeiro”. Este último, escrito em 1928, revela o desencanto com Portugal de então, mergulhado no nevoeiro que, segundo as profecias, marcará o regresso do rei salvador, D.Sebastião, que voltará a transformará o passado glorioso em futuro também glorioso dando a Portugal, finalmente, o Quinto Império espiritual:

 

“Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...
 
É a Hora!”

 

 

Mensagem é, portanto, construído a partir de valores simbólicos e míticos que mesclam o passado histórico com a invenção de um futuro, buscando, ao mesmo tempo, a razão de ser de um país que vive o “futuro do passado” e onde passado e futuro são igualmente míticos (mas é a invenção do segundo que dá sentido ao primeiro). António Nobre também revela o desencanto do presente, seja através de seu poema “Oceano Atlântico”, de 1890, seja através de seus versos escritos em Coimbra, logo após o “Ultimatum” Inglês, de janeiro de 1890 (“Em certo Reino, à esquina do Planeta” (...) “que desgraça nascer em Portugal!”). Mas, mesmo assim, o português nutre esperanças quanto a seu futuro, conforme evidenciado no poema-epitáfio “Inscrição”, de Camilo Pessanha (“Eu vi a luz em um país perdido”), ou, ainda, conforme os versos de Pessoa que se seguem, onde se revive o mito sebástico:

 

“Esperae, esperae, ó Portuguezes!

Que elle há-de vir, um dia! Esperae.

Para os mortos os seculos são mezes,

Ou menos que isso, nem um dia, um ai.

Tende paciência! Finarão revezes;

E até lá, Portuguezes! Trabalhae.

Que El-Rey-Menino não tarda a surgir,

Que elle há-de vir, há-de vir!”.

 

“Despedidas” (1895-1899)

 

 

Contudo, a melhor síntese do tema proposto é do próprio Fernando Pessoa, através dos seguintes versos de sua “Elegia na Sombra”, de 2/6/1935:

 

“Pesa em nós o passado e o futuro.

Dorme em nós o presente. E a sonhar

A alma encontra sempre o mesmo muro,

E encontra o mesmo muro ao dispertar”.

 

(...)

 

“Povo sem nexo, raça sem suporte,

Que, agitada, indecisa, nem repare

Em que é raça e que aguarda a própria morte

Como a um comboio expresso que aqui pare”.

 

(...)

 

Oh, que há-de ser de nós? Raça que foi

Como que um novo sol ocidental

Que houve por tipo o aventureiro e o herói

E outrora teve nome Portugal”.

 

 

(...)

 

Dorme, mãe Pátria, nula e postergada,

E, se um sonho de esperança te surgir,

Não creias nele, porque tudo é nada,

E nunca vem aquilo que h-a-de vir”.

 

 

 

Q u e s t ã o   “ 2.a ”:

 

 

O poema “O das Quinas” contém a lógica Cristã da salvação pelo sofrimento. Desta forma, Deus concebeu Cristo para ser desgraçado mas, ao final, sagrou-o como sendo o seu próprio Filho, portador da Graça, conforme os versos finais:

 

“Foi com desgraça e com vileza

Que Deus ao Cristo definiu:

Assim, o opôs à Natureza

E Filho o ungiu”.

 

 

Já o poema “O Quinto Império”, por sua vez, traz a idéia central da “morte em vida”, a partir do mito surgido com a morte de D.Sebastião, conforme abaixo descrito:

 

“Grécia, Roma, Cristandade,

Europa – os quatro se vão

Para onde vai toda edade.

Quem viver a verdade

Que morreu D.Sebastião?”

 

 

Assim sendo, há uma imagem comum que explicita que tanto Cristo (menino-rei) quanto D.Sebastião (rei-menino) foram homens com uma missão divina e que morreram em sacrifício de suas causas, tornando-se símbolos nacionais ou religiosos. Quanto ao mito sebástico, espera-se que a verdade pela qual o jovem regente morreu em combate seja recompensada, no futuro, através da conquista do Quinto Império Espiritual, por parte dos portugueses.

 

Em ambos os poemas, nota-se a presença sistemática do número cinco: O cinco está ligado às chagas de Cristo e tem, como origem, os cinco impérios sonhados por Nabucodonossor, conforme o episódio em que o profeta Daniel interpreta o sonho que tivera o rei da Babilônia. No verso camoniano, as quinas (também presentes na bandeira portuguesa) representam, ainda, os cinco reis vencidos por D. Afonso Henriques na Batalha de Ourique e D. Sebastião aparece, explicitamente, cinco vezes no livro Mensagem.

 

O Número cinco aparece, ainda, implícito no título de ambos os poemas e cinco são, também, os mártires da nação, segundo Pessoa: D.Duarte, D.Pedro, D.Fernando, D.João e D.Sebastião. Assim como o símbolo heráldico português, a parte referente ao “Brasão”, no livro Mensagem, também se subdivide em cinco outras partes: Campos, Castelos, Quinas, Coroa e Grifo.

 

Por fim, o número cinco representa, segundo o esoterismo, a evolução espiritual e o pentagrama é um dos símbolos maçons: há uma corrente que, ainda hoje, especula quanto ao posicionamento filosófico, político e esotérico de Fernando Pessoa.

 

 

Q u e s t ã o   “ 2.b ”:

 

 

Voltamos à idéia de um novo Império, que seria alcançado com a volta do rei-menino, desaparecido em Alcacér-Quibir, e que sucederia aos quatro impérios que, para Pessoa, já existiram anteriormente: Grécia, Roma, a Cristandade e a própria Europa pós-Renascentista. Se fosse material, não teríamos dúvidas em apontar a Inglaterra como sendo a sede deste Quinto Império; mas como este é um império imaterial – e que está mais na esfera da tradição poética lusitana –, este papel caberia a Portugal.

 

Há de se ressaltar que a mitologia greco-latina está presente em Os Lusíadas, sendo utilizada a pretexto de cantar a fé cristã, com total adesão do censor do Tribunal do Santo Ofício. Através da Épica Clássica que, na época de Camões, gozava de enorme prestígio, o poeta obtém o efeito de tornar sublime e profética a empreitada marítima portuguesa, sendo que cuidou de acentuar, nas primeiras estrofes, a diferença crucial entre Mito e História.

 

Numa introdução da edição portuguesa de História do Futuro, do Padre António Vieira (Imprensa Nacional, Lisboa, Junho de 1981), Maria Leonor Carvalhão Buescu ressalta (pp. 21-22), a propósito da idéia histórica de um Quinto Império (em oposição a quatro outros “imperfeitos e caducos”, nas palavras de Vieira), a aclimatação deste conceito no imaginário português que, em Camões, reflete-se nos versos a seguir:

 

 

“Eternos moradores do luzente,

Estelífero Pólo e claro Assento:

Se do grande valor da forte gente

De Luso não perdeis o pensamento,

Deveis de ter sabido claramente

Como é dos Fados grande certo intento

Que por ela se esqueçam os humanos

De assírios, persas, gregos e romanos.”

 

(Canto I: 24)

 

 

Portanto, a imagem comum em ambos os poemas refere-se aos impérios anteriormente arruinados: assim como Camões, que já havia feito menção a quatro deles (Assírios, Persas, Gregos e Romanos), Pessoa também cita, em seu poema, aqueles que teriam antecedido ao Quinto Império (Grécia, Roma, Cristandade e Europa).

 

Se a antiguidade clássica de Grécia e Roma – além de Assírios, Persas e da Cristandade – representa, juntamente com a Europa “que jaz”, um passado (conforme descrito no poema “O dos Castelos”, anterior a “O das Quinas”), as glórias modernas da Europa consolidar-se-iam, através de Portugal, para “além-oceano”  (exterior), em contraste com este mundo antigo “mediterrâneo”  (interior).

  

Apesar de séculos de distância, é possível uma comparação entre "Os Lusíadas" e a "Mensagem", já que ambos tratam da razão de ser da pátria mergulhada em tempos de decadência. Talvez, Pessoa buscasse, com seu livro, não só uma retomada mas, também, uma atualização do ideário nacional português.

  

Ainda que tanto Camões (no Epílogo de “Os Lusíadas”) quanto Pessoa (em “Nevoeiro”, último poema do livro “Mensagem”) retratem uma desesperança quanto ao momento em que viveram, há uma diferença entre os futuros projetados por ambos. Em Camões, este futuro parece mais verossímil, uma vez que são mais recentes as glórias passadas. Contudo, em Pessoa, há um tom de utopia, de ideais e valores de um país que vive o “futuro do passado” e que repudia a miséria do tempo de presente. Neste sentido, escreve Jacinto Prado Coelho. "Em Camões, põe-se no mesmo plano a memória e a esperança. Em Pessoa, não, porque o objecto da esperança se transferiu para o sonho, a utopia e daí uma concepção diferente do heroísmo" (D'Os Lusíadas à Mensagem, p. 106). Mensagem tem, portanto, uma característica mais abstrata do que os Lusíadas, estando mais na esfera do Lírico, do que unicamente ligado ao Épico.

 

Para finalizar, há de se ressaltar, ainda, que o país visto por Camões como sendo a cabeça da Europa passa a ser, na concepção de Pessoa, o rosto contemplativo de uma Europa jacente:

 

 

“A Europa jaz, posta nos cotovelos:

De Oriente a Ocidente jaz, fitando,

E toldam-lhe românticos cabelos

Olhos gregos, lembrando.

 

(...)

 

A mão sustenta, em que se apoia o rosto.

Fita, com olhar sphyngico e fatal,

O Ocidente, futuro do passado.

 

O rosto com que fita é Portugal”.

 

(“O dos Castelos”)