“Uma Análise de Grande Sertão: Veredas”


(trabalho final do Curso de Literatura Brasileira da USP)

 

Desde o início do curso, a minha principal motivação era a de entender qual seria o “assunto principal” do livro, dado o grande imbroglio provocado por aqueles que tentaram decifrar este clássico. A minha curiosidade devia-se ao fato de eu ter sido um leitor precoce de “Grande Sertão” e, confesso, não ter entendido a obra na sua plenitude, quando me foi “imposta” a sua leitura, ainda no final do curso secundário. Paciência: esta é uma obra para iniciados e não para principiantes...

  

Percebi que o ponto de partida para desvendar a obra seria buscar a definição sobre quais seriam, para o autor, os pontos principais do enredo, conforme discutido em classe: a figura da donzela corajosa e a do jagunço literato, além do mito religioso e sua alegoria do bem e do mal.

  

Há, ainda, a questão da forma, apresentada numa exuberância lingüística que revolucionou, na época, a arte de se contar “estória”. Sem querer simplificar, estamos falando da “moldura” da obra, e, portanto, não vou me ater à mesma, pois este não é o objetivo deste trabalho.

  

A priori, uma das coisas que me causou estranheza durante as discussões que realizamos em classe foi o enfoque dado ao ethos das personagens, principalmente Riobaldo. Na ocasião, fiquei mesmo muito surpreso de saber que houve quem até dedicasse uma vida inteira a tal estudo, chegando a conclusões sobre o seu mau-caratismo!

 

A certa hora, senti a necessidade de lembrar que, por mais que o narrador estivesse numa situação de quase entrevista, onde conta a sua “estória” para um determinado “senhor” da cidade (seria o autor?) e que, ainda, Guimarães Rosa efetivamente viajou a cavalo pelo sertão de Minas junto com o capataz Manuelzão; e que percorreram, juntos, diversas localidades próximas a sua Cordisburgo natal por dez dias; e que anexou um mapa ao livro mostrando o roteiro percorrido; e que andava com um lápis pendurado no pescoço, consumindo mais de cinqüenta cadernos espirais; e que... Bem, enfim: apesar de tantas evidências, estamos tratando de uma estória inventada!

 

         No intuito de retornar à realidade dos fatos – e não me deixar também seduzir pelos efeitos dissimulantes do pacto de verossimilhança, proposto mediante tantas e tão convincentes “provas” da veracidade do “causo” –, pensei no papel do crítico e nas técnicas de que dispõe, recorrendo tanto às definições de Friedman para o narrador quanto aos preceitos de Cândido e Rosenfeld para as personagens, até mesmo como forma de não ser, eu mesmo, mais um a embarcar no imbroglio a que me referi no início do texto.

 

Muito bem: feitas as ressalvas iniciais, vamos a outras considerações. Sim, Riobaldo pode ser o alterego de Rosa, é plausível. Sim, o autor pode ser o senhor oculto a quem o narrador se dirige. Sim, Riobaldo anseia por negar a existência do Demônio, com quem disse ter feito um pacto para derrotar o jagunço do bando rival, modernizando o sertão... Dadas as afirmativas, vamos, agora, às negativas: não, não se trata de obra exótica ou esotérica. Pelo menos não na sua totalidade, mas, sim, em (muito poucas) partes.

  

Das abordagens discutidas, duas me pareceram bem pertinentes: uma psicológica, mais ligada à composição das duas personagens principais, e outra sociológica, relatando a sociedade rural primitiva, tão violenta em função do meio árido em que vive. Estabelece-se, desta forma, uma relação meio>homem>mito muito similar àquela feita por um outro homem que, antes, tentou decifrar o Sertão: Euclides da Cunha.

 

No que se refere aos “desvios” de Riobaldo e Diadorim, um freudiano certamente encontraria centenas de evidências dando conta de uma homossexualidade latente do jagunço, enquanto que a donzela parece refletir o complexo de castração. Isto é real e faz parte do livro? Sim, faz. Contudo, vale uma ressalva: este não é o seu assunto principal. Mais importante do que impulsos homossexuais ou travestivismo é o fato de tratarmos de dois “desviantes” num meio hostil e violento: afinal, dadas as circunstâncias, quem é mais “estranho” nesta estória: as duas personagens ou o meio primitivo em que vivem?

 

Daí, teríamos, aparentemente, dois caminhos para uma análise: a individualidade das personagens ou o todo do grupo, moldado pelo meio. Entretanto, Foucault e Deleuze diziam que nem Marx nem Freud seriam capazes de explicar essa “coisa invisível mas presente em toda parte” e que se chama poder.

 

Aliás, Deleuze, em seu “Anti-Édipo”, recomenda: “aproveitem-se de Édipo e da Castração, porque não durarão muito tempo!”. E conclui: “(...) o desejo é revolucionário e a psicanálise tradicional, ao contrário, transforma o desejo em teatro”. Portanto, melhor mesmo é ficarmos com a “Teodicéia” de Leibniz, que afirma ser o “mundo um conjunto total das coisas contingentes” (T.I§ 3). Aí, sim, encontraremos um elo entre Riobaldo, Diadorim e o mito religioso da sociedade arcaica sertaneja.

 

Feita mais esta ressalva, voltemos a um ponto polêmico: o teor homossexual da conduta de Riobaldo. Afinal, é ele próprio quem repete, insistentemente, nas seiscentas páginas da longa narrativa, que se apaixonou por um rapazola chamado Reinaldo! Esta menção é recorrente e podemos levantar, pelo menos, uma centena de passagens a respeito.

  

É óbvio que se trata de uma provocação de Rosa, que só é “atenuada” no final do livro, com a revelação do verdadeiro gênero de Diadorim. Mas, sinceramente, penso que ignorar tal fato leva a uma análise míope e, até mesmo, a uma infidelidade interpretativa. Contudo, ressalto, uma vez mais, que este não é o assunto principal da obra, apesar de interpretações que alegam o contrário.

  

Mas a ambigüidade sexual é um dos elementos que revela a técnica utilizada por Rosa para tornar complexa a narrativa, desviando os seus intérpretes mais apressados. Explicita, também, uma forma recorrente na obra, evidenciando a existência de “uma coisa dentro da outra”, além de misturar dois princípios antagônicos do mito cristão e universal: o bem e o mal. Assim, o “masculino” que é “feminino” apaixona-se pelo “feminino” que é “masculino” e, para vingá-la (o), decide fazer o “bem” através do “mal”, num intuito maior de “modernizar” o sertão “arcaico”.

  

Desta forma, caminhamos para uma complexidade de entendimento que parece anunciar que estamos próximos ao “assunto principal” de “Grande Sertão”: Veredas. Vou, portanto, deixar de lado, a partir de agora, as questões relativas à composição das personagens, passando a enfocar aquelas inerentes ao narrador e ao mito religioso.

 

Recordo de uma abordagem que dava conta de que todo o livro, apresentado num só bloco narrativo, seria como se estivéssemos numa sessão de psicanálise: afinal, um conta o causo enquanto o outro ouve e anota. Num paralelo com Mircea Eliade (“Mito e Realidade”) que, ao tratar da desmistificação, constata que o discurso esclarece o mito, temos o método freudiano, através do qual o essencial seria atingido por meio de um prodigioso voltar atrás, efetuado por um esforço do pensamento.

 

A narrativa de Riobaldo reflete uma dicotomia temporal, numa alusão à já tratada forma recorrente (uma coisa dentro da outra), mas com ingredientes extras que a torna ainda mais complexa: fala-se não só do passado no presente, mas do passado primitivo num presente em vias de se civilizar. E mais: no passado (ou no tempo da narrativa), o meio primitivo fortaleceu o mito enquanto que, no presente civilizador (ou no tempo do narrador), o mito aparentemente se enfraquece, dado o questionamento do jagunço.

 

Segundo registros, Guimarães Rosa chegou a revelar que a página 475 de determinada versão seria, para ele, a mais importante do livro. Nesta página, eu destacaria as seguintes frases:

 

“(...) eu pelejei para achar”;

 

“(...) existe uma receita, a norma dum caminho certo, estreito” (...);

 

 “Se não a vida de todos ficava sendo sempre o confuso dessa doidera que é”;

 

 “(...) só uma ação possível da gente é que consegue ser a certa” (...);

 

 “(...) aquilo está no encoberto (...)”;

 

 “(...) fora dessa conseqüência, tudo o que eu fizer (...) o que todo mundo fizer (...) é o errado”;

 

 “Sua parte que antes já foi inventada, num papel...”;

 

 “(...) minha alma tem de ser de Deus (...)”;

 

 “(...) o Diabo não existe, não há e a ele eu vendi a alma...”;

 

Partindo-se da premissa de que o regressus proposto pelo método freudiano propicia uma reflexão sincera do passado, podemos também constatar, a partir destas frases, que, para o jagunço, o mundo está, aparentemente, na iminência de se desconsertar e, contra tal “perigo”, urge que ele estabeleça parâmetros de forma a alcançar, para si, um ordenamento das coisas ou uma justificativa para seus atos.

 

Desta forma, para Riobaldo, Deus não é (e nunca fora) uma necessidade religiosa ou teológica, mas, sim, existencial, enquanto que, em contrapartida, o Diabo traduziria uma situação de vulnerabilidade psicológica e precariedade social extremas, conforme definido por Faustino Teixeira em “O Sagrado no Grande Sertão”.

 

Coincidentemente (ou não) há, implícito nestas definições, um esquema (‘Deus’=‘Ordem’ versus ‘Diabo’=’Caos’) que encontra paralelo na Teologia Natural de Leibniz, em oposição à tradição cristã da Teologia Dogmática, de matriz agostiniana.

  

Mas vale lembrar que a “Teodicéia” busca demonstrar, racionalmente, a existência e os atributos de Deus e, para isso, usa apenas a razão humana, sem se valer de nenhum registro sagrado, prevendo que existe um Deus que nos dá livre-arbítrio. Ou seja: há sempre uma opção de escolha que, se não for feita com responsabilidade, conduz o homem ao mal natural ou o mal moral.

  

Nesta linha de raciocínio, voltamos, necessariamente, à discussão sobre o ethos de Riobaldo, uma vez que a engenhosidade da construção narrativa faz a conduta do jagunço confundir-se com a questão mítica do bem contra o mal.

  

Gostaria de abrir um parêntese e desenvolver, paralelamente, um outro conceito: seria “Grande Sertão: Veredas” uma alegoria do Brasil? Sim, mas cabe uma ressalva, especialmente para os intérpretes estrangeiros da obra de Guimarães Rosa. Darcy Ribeiro nos apresenta, em “O Povo Brasileiro”, cinco brasis:

 

1)  O da cultura sertaneja do nordeste e do centro, baseada na produção do couro e do gado;

 

2)  O da cultura crioula do litoral, baseada nos engenhos em que se produzia o açúcar;

 

3)  O da cultura cabocla da Amazônia, baseada nos seringais e na pesca dos rios da bacia;

 

4)  O caipira do sudeste e centro, baseado na economia do café e da subsistência e nascida dos bandeirantes;

 

5)  O da cultura gaúcha das estâncias de gado e da cultura agrícola dos imigrantes no sul do País.

 

    Assim, o Sertão está associado à idéia de apenas um dos brasis. Com a modernização, a industrialização e a urbanização, os cinco brasis mantiveram diferenças que estão nos seus valores e costumes, sendo o dilema nacional, ainda hoje, a contradição entre integração e desigualdade.

 

Mas, com relação especificamente ao Sertão, há, na cultura nacional (de Euclides a Glauber, passando por Rosa), uma alusão constante à região, normalmente vinculada ao fenômeno do coronelismo e ao tema mítico do bem contra o mal.

  

     Com a total consciência de que qualquer fechamento de questão quanto a “Grande Sertão: Veredas” pode nos conduz a uma interpretação incompleta da obra, creio que o tema em maior destaque no livro é o processo civilizatório, já que o tempo da narração é apresentado em primeiro plano. Além disto, Riobaldo e seu interlocutor anônimo representam países antagônicos: o rural arcaico que, por sua vez, está dentro de um país urbano, dito moderno (ou, novamente, uma coisa dentro da outra).

 

Dos primórdios do Brasil até o final da República Velha em 1930, o coronelismo se manteve em relativo equilíbrio. O aumento da riqueza agrícola propiciou a chegada à esfera do poder central dos grandes latifundiários e oligarcas e, conseqüentemente, os chefes dos estados passaram a ser os “coronéis dos coronéis” enquanto que, nos municípios, surgiram os “coronéis de situação” e os “coronéis de oposição”.

 

Esta digressão tem o intuito de evidenciar o contexto no qual Riobaldo se insere, durante os fatos narrados. Apesar de letrado, o jagunço não está exclusivamente motivado por um idealismo social em sua luta, e o que se passa, a rigor, é uma disputa pelo poder local, não necessariamente com o intuito de “modernizar” o Sertão.

 

Assim sendo, Riobaldo, na sua trajetória, torna-se o chefe local e faz os outros lutarem e morrerem por ele, enquanto a tudo assiste, de longe, seguro e a salvo. Herda, então, terras e aumenta ainda mais as suas posses através do casamento e, hoje, rico, conta os seus causos, sempre a partir do seu próprio ponto de vista, nos fazendo crer que todo o ocorrido fora obra do acaso, numa conspiração de Deus e do Diabo – ou numa conjunção de princípios antagônicos como o bem e o mal: pode ser que Riobaldo minta para si mesmo, numa busca inconsciente de justificativas, ou que, ao contrário, dissimula deliberadamente, para enganar seu interlocutor.

 

Este trabalho não tem a pretensão de desvendar, através de uma lógica racionalizante, todos os elementos contidos no livro, de modo a não deixar coisa alguma de fora.

 

Trata-se de uma busca pelo entendimento das motivações que levaram o autor à sua jornada pelo Sertão Mineiro e, ao mesmo tempo, pretende ressaltar algumas das estratégias utilizadas na criação da obra, muito provavelmente uma releitura de “Os Sertões”, de Euclides da Cunha.

 

O resultado obtido por Guimarães Rosa é um texto moderno na sua forma e que não é somente regional mas, sim, regional e universal, ao mesmo tempo.

 

A universalidade de “Grande Sertão: Veredas” distorce, portanto, a idéia original do homem que se torna virtuoso devido ao meio hostil (conforme a abordagem euclidiana), valendo-se, para tal, de dois personagens “desviantes” inseridos num meio caótico e violento, onde o que era virtude cabocla torna-se uma mistura (provavelmente) oportunista do que é o bem e o mal.

 

Esta análise procurou discutir o que não é “Grandes Sertões: Veredas”, uma vez que já existem diversas interpretações que buscam entender este texto clássico do nosso Cânone, infelizmente muitas delas equivocadas. Assim, detalhes da obra como a discussão dos ritos de passagem pelo aprendizado de Riobaldo, os diálogos com a tragédia clássica, a estética, o vocabulário, as construções e interpretações mais pontuais como a Canção de Siruiz ficaram, propositalmente, de fora do presente texto.

 

Em tempo: conforme anteriormente mencionado, parecem perfeitamente plausíveis as teses que consideram Riobaldo um tipo de alterego de Guimarães Rosa mas, como diz Antônio Cândido, a boa análise deve se ater ao que efetivamente está escrito no texto. Portanto, esta discussão específica também ficou de fora desta análise uma vez que tais teses estão mais no campo da especulação.