Os Gêneros do Discurso


in “Estética da Criação Verbal”

de Mikhail Mikhailovich Bakhtin (1895-1975)

(Resumo de Texto)

 

 

Disciplina:  FLC0285 - Teorias do Texto Escrito I

Docente:     Profa. Dra. Marli Quadros Leite

  

O Problema e sua Definição

 

         O emprego da língua efetua-se em forma de enunciados orais e escritos, que refletem as condições específicas e as finalidades de cada campo da atividade humana, através de:

 

1)   Conteúdo temático; e

2)   Estilo da linguagem:

 

2.1)   seleção de recursos lexicais, fraseológicos e gramaticais, e

2.2)   construção composicional.

 

         Cada enunciado é individual, mas cada campo de utilização da língua elabora seus tipos relativamente estáveis de enunciado, os quais denominamos gêneros do discurso.

 

         O repertório de gêneros de discurso cresce e se diferencia à medida que desenvolve e torna complexo um determinado campo. Cabe salientar, contudo, a extrema heterogeneidade dos gêneros do discurso (orais e escritos), onde ocorrem as réplicas do diálogo cotidiano:

 

 

ü     O relato do dia-a-dia;

ü     As diversas formas de carta;

ü     O comando militar lacônico padronizado;

ü     A ordem desdobrada e detalhada;

ü     O repertório bastante variado dos documentos oficiais;

ü     O diversificado universo das manifestações publicísticas;

ü     As variadas formas de manifestações científicas;

ü     Os gêneros literários; etc.

  

         Da Antigüidade aos nosso dias, o estudo dos gêneros literários foi realizado através de um corte nas especificidades artístico-literárias e nas respectivas distinções diferenciais entre eles. Bakhtin sente a falta de um estudo analítico, a partir dos tipos específicos de enunciados literários, que são diferentes de outros tipos mas têm uma natureza verbal lingüística comum. Portanto, se a Antigüidade se ocupava dos gêneros retóricos e da natureza verbal destes gêneros, os gêneros discursivos do cotidiano foram objeto da lingüística geral, notadamente:

 

ü     A escola de Saussure;

ü     As correntes estruturalistas;

ü     Os behavioristas americanos; e

ü     Os seguidores de Vossler.

 

         Contudo, tais estudos não poderiam redundar numa correta definição universal e lingüística do enunciado. Além disto, não se deve minimizar a extrema heterogeneidade dos gêneros discursivos e a dificuldade de definir a natureza do enunciado, considerando-lhes a diferença essencial:

 

 

ü    Gênero discursivo secundário (complexos): romances, dramas, pesquisas científicas, gêneros publicísticos etc.;

 

ü    Gênero discursivo primário (simples) – integram os complexos, transformando-se e adquirindo um caráter especial próprio: a réplica do diálogo cotidiano ou da carta no romance;

 

ü     O b s e r v a ç ã o: no seu conjunto, o romance é um enunciado, como a réplica do diálogo cotidiano ou uma carta privada.

 

         A diferença entre os gêneros primário e secundário (ideológicos) é extremamente grande e essencial, e é por isso mesmo que a natureza do enunciado deve ser descoberta e definida por meio da análise de ambas as modalidades.

 

         Bakhtin acha que, em qualquer corrente especial de estudo, faz-se necessária uma noção precisa da natureza do enunciado em geral, e das peculiaridades dos diversos tipos de enunciados (primários e secundários), ou seja: os diversos gêneros do discurso. O desconhecimento da natureza do enunciado e das suas relações redundam em formalismo e em abstração exagerada, deformando a historicidade da investigação e debilitando as relações da língua com a vida.

 

         O enunciado é um núcleo complexo de importância excepcional e merece análise detalhada quanto aos seus problemas, especialmente no que se refere à estilística: todo enunciado é individual e, por isso, pode refletir a individualidade do falante. Na literatura de ficção, o estilo individual marca positivamente o enunciado, enquanto que as condições menos propícias para o reflexo da individualidade na linguagem estão presentes nos gêneros discursivos que requerem forma padronizada, como os documentos oficiais e as ordens militares;

 

         Na imensa maioria dos gêneros discursivos, o estilo individual não faz parte do plano do enunciado sendo, contudo, seu produto complementar. Em diferentes gêneros, podem revelar-se diferentes camadas e aspectos de uma personalidade individual ou de um estilo individual.

  

         Os estilos de linguagem ou funcionais não são outra coisa senão estilos de gênero de determinadas esferas da atividade humana e da comunicação. Uma determinada função (científica, técnica etc.) - e determinadas condições de comunicação discursiva – geram determinados gêneros (ou tipos de enunciados estilísticos, temáticos e composicionais relativamente estáveis).

 

         O estilo integra a unidade de gênero do enunciado como seu elemento, não existindo uma classificação dos estilos de linguagem que tenha reconhecimento geral: os autores freqüentemente deturpam a principal exigência lógica da classificação, que é a unidade do fundamento. Assim, as classificações são essencialmente pobres e não diferenciadas, conforme o exemplo mencionado de uma gramática acadêmica da língua russa (p. 267).

 

         Classificações semelhantes de estilos são absolutamente casuais, baseando-se em diferentes princípios fundamentais de divisão em estilos, sendo tudo isto resultado direto da incompreensão da natureza de gênero dos estilos de linguagem, assim como da ausência de uma classificação bem pensada por campos de atividade.

 

         A separação dos estilos em relação aos gêneros manifesta-se de forma particularmente nociva na elaboração de uma série de questões históricas. O peso específico dos estilos de linguagem e a sua inter-relação no sistema literário estão em mudança permanente.

 

         Para entender a complexa dinâmica histórica desses sistemas, faz-se necessária uma elaboração especial da história dos gêneros discursivos, refletindo, de modo mais imediato, preciso e flexível, todas as mudanças que transcorrem na vida social.

 

         Toda ampliação da linguagem literária à custa das diversas camadas extra-literárias da língua nacional está intimamente ligada à penetração desta linguagem literária em todos os gêneros, em maior ou menor grau, e também dos novos procedimentos de gênero de construção do todo discursivo, do seu acabamento, da inclusão do ouvinte parceiro etc.

 

         Onde há estilo há gênero, pois tanto os estilos individuais quanto os da língua satisfazem aos gêneros do discurso. A gramática e o léxico se distinguem substancialmente da estilística mas, ao mesmo tempo, nenhum estudo de gramática pode dispensar observações e incursões estilísticas, havendo fenômenos relacionados tanto com o campo da gramática quanto com o campo da estilística, como os sintagmas. A própria escolha de uma determinada forma gramatical pelo falante é um ato estilístico.

 

         Por fim, Bakhtin ressalta, uma vez mais, que só uma concepção profunda da natureza do enunciado – e das peculiaridades dos gêneros discursivos – pode assegurar a solução correta dessa complexa questão metodológica, sendo o estudo apropriado dos enunciados de importância fundamental para superar as concepções simplificadas do fluxo discursivo. Portanto, o estudo do enunciado como unidade real da comunicação discursiva permitirá compreender, de modo mais correto, também a natureza das unidades do sistema da língua: as palavras e as orações.

 

 

O Enunciado como Unidade da Comunicação Discursiva

 

 

Diferença Entre Essa Unidade e as

 

Unidades da Língua (Palavras e Orações)

 

 

         A lingüística do Século XIX, desde Wilhem Humboldt, procurou colocar a função comunicativa da linguagem em segundo plano, promovendo, em primeiro lugar, a função da formação do pensamento, desvinculada do ato da comunicação. Os partidário de Vossler, por outro lado, colocavam, em primeiro plano, a chamada função expressiva, que se resumia à consideração do mundo individual do falante.

 

         Havia, portanto, um pleno desconhecimento e subestimação da função comunicativa da linguagem, que sempre considerava um falante isolado – e sem a sua necessária relação com os outros, que se limitariam ao papel de ouvinte passivo do falante.

 

         Em essência, a língua necessita apenas do falante e do objeto de sua fala, cabendo à função secundária da língua tão somente o seu papel como meio de comunicação, sendo o grupo lingüístico visto, por vezes, como uma personalidade coletiva.

 

         Bakhtin considera, ainda, existirem na lingüística “ficções” terminológicas como “ouvinte” e “entendedor”, dando uma noção absolutamente deturpada do processo complexo e ativo que constitui a comunicação discursiva.

 

         Mesmo em cursos de lingüística geral sérios como o de Saussure, persiste a representação esquemática de “falante” e “ouvinte”, com respectivos processos passivos de recepção deste, compreendendo os processos ativos de emissão daquele. Por mais que tais esquemas não sejam totalmente falsos, deve-se considerar que o ouvinte, ao perceber e compreender o significado lingüístico do discurso, ocupa, simultaneamente em relação a ele, uma ativa posição responsiva, sempre concordando ou discordando.

 

         Portanto, toda compreensão da fala e do enunciado vivos é de natureza ativamente responsiva, uma vez que toda compreensão é passível de resposta, convertendo-se o ouvinte obrigatoriamente em falante, sendo a compreensão passiva do significado do discurso ouvido apenas num momento abstrato da compreensão ativamente responsiva, real e plena.

 

         Contudo, por vezes, não há a resposta em voz alta imediatamente posterior à pronunciação do enunciado, como no caso das ordens militares, podendo realizar-se a posteriori e em silêncio, convertendo-se numa compreensão ativamente responsiva de efeito retardado, exatamente como o são os gêneros da comunicação cultural.

 

         O próprio falante está determinado a essa compreensão ativamente responsiva: ele não espera uma compreensão passiva que apenas duble o seu pensamento em voz alheia. Ao contrário, espera uma resposta, concordância, participação, objeção, execução etc.

  

         O ouvinte com participação passiva, representado como parceiro do falante nos esquemas das lingüísticas gerais, não corresponde ao participante real da comunicação discursiva. Em verdade, tais esquemas acabam por representar, tão somente, o momento abstrato que antecede ao ato responsivo, não devendo ser entendidos como um fenômeno pleno concreto e real, uma vez que o papel do outro no processo de comunicação discursiva é totalmente ativo.

 

         O desconhecimento deste papel ativo manifesta-se, ainda, no uso impreciso e ambíguo de termos como “fala” e “fluxo de fala”, utilizado como corte para uma análise tradicional, através de considerações formais das suas unidades fônicas (fonema, sílaba etc), estruturais (palavra, oração etc) e outras.

 

         Bakhtin exemplifica com o trecho de uma gramática acadêmica, que diz: “a 'nossa fala' se divide, antes de tudo, em orações que, por sua vez, podem decompor-se em combinações de palavras. E as palavras se dividem, nitidamente, em unidades fônicas mínimas – as sílabas. As sílabas se dividem, ainda, em sons particulares da fala ou fonemas...” (p. 273). Daí, questiona: “o que vem a ser 'fluxo de fala'?.Tais fluxos teriam extensão, com um princípio e um fim?”

 

         Ao referir-se ao termo “rietch” (fala), o autor se dá conta de que os lingüistas ainda não puderam convertê-lo em algo rigorosamente definido e limitado pela significação. Aliás, a menção feita a “nossa fala” poderia englobar qualquer enunciado de qualquer pessoa. E a confusão se estende, ao se tentar dividir e decompor tais enunciados em unidades mínimas de língua.

 

         A indefinição terminológica e a confusão decorrente desta reflete, para Bakhtin, o desconhecimento da real unidade da comunicação discursiva, o enunciado, pois o discurso só pode existir de fato na forma de enunciações concretas de determinados falantes, sujeitos do discurso.

 

         Por mais diferentes que sejam as enunciações pelo seu volume, pelo conteúdo, pela construção composicional, elas possuem, como unidades da comunicação discursiva, peculiaridades estruturais comuns absolutamente precisas e, acima de tudo, limitantes.

 

         Os limites de cada enunciado concreto são definidos pela própria alternância dos sujeitos no discurso: todo fluxo discursivo tem um princípio absoluto (o enunciado dos outros) e um fim absoluto (os respectivos enunciados responsivos). O enunciado não é, portanto, uma unidade convencional, mas uma unidade real.

 

         A alternância dos sujeitos do discurso é de natureza diferente e assume formas variadas, podendo tais composições ser observadas na forma mais clássica de comunicação discursiva, o diálogo, com suas réplicas interligadas, cujas relações inexistem nas unidades formais da língua (palavras e orações), a saber:

 

ü     Uma pergunta-resposta;

ü     Uma afirmação-objeção;

ü     Uma afirmação-concordância;

ü     Uma proposta-aceitação;

ü     Uma ordem-execução etc.

 

 

         Bakhtin observa que, nos gêneros secundários do discurso, particularmente nos retóricos (além dos gêneros artísticos e científicos), encontramos fenômenos que parecem contrariar a sua tese. Mas convém ter em mente que tais fenômenos não passariam, na verdade, de representação convencional da comunicação discursiva dos gêneros primários do discurso.

 

         Estabelece, então, um paralelo entre a questão da oração enquanto unidade da língua e a abordagem do enunciado enquanto unidade de comunicação discursiva, como forma de melhor definir a relação da oração com o enunciado ressaltando que os limites da oração nunca são determinados, a priori, pela alternância dos sujeitos no discurso, dada a sua característica representativa de um pensamento relativamente acabado.

 

         A passagem de uma oração para outra acarreta em pausa e, portanto, não se correlaciona com o contexto extra-verbal da realidade. As pausas da enunciação, em contrapartida, não são de natureza gramatical e, sim, real, geralmente psicológicas e suscitadas pelas circunstâncias externas, com poder de até mesmo destruir um enunciado. Nos gêneros artísticos secundários, a pausa chega a funcionar como recurso estilístico, como no caso do ator que silencia propositadamente em cena, visando um efeito interpretativo.

 

         A partir do enunciado, espera-se, portanto, uma resposta ou uma compreensão responsiva de outro falante, podendo-se concordar ou discordar com ela, enquanto que o contexto da oração carece de capacidade de se determinar uma resposta não tendo, portanto, contato imediato com a realidade, uma vez que está sujeita aos limites estabelecidos pelas fronteiras gramaticais.

 

         Em verdade, muitos lingüistas são reféns dessa confusão, e o que estudam como “oração” é, no fundo, algum híbrido de oração e de enunciado. Não se intercambiam orações como se intercambiam palavras ou grupos de palavras: o que se intercambia são enunciados construídos com o auxílio das unidades formais da língua (orações, palavras ou unidades discursivas). E é justamente a ausência de uma teoria elaborada do enunciado que redunda numa distinção imprecisa de oração e enunciado, freqüentemente causando uma total confusão ente os dois conceitos.

 

         Assim como no diálogo real, a natureza dos limites do enunciado também está presente em outros campos. As obras especializadas dos diferentes gêneros científicos e artísticos são, igualmente, unidades de comunicação discursiva, delimitadas pela alternância dos sujeitos no discurso, pois o autor, revelando a sua individualidade estilística, também sofre influências das obras de seus predecessores, assim como de outras obras da mesma corrente, hostis ou não. Da mesma forma, a obra, como réplica do diálogo, está disposta para a resposta do outro e, inclusive, para a sua ativa compreensão responsiva, assumindo diferentes formas de influência.

 

         Se a alternância dos sujeitos é a primeira peculiaridade constitutiva do enunciado como unidade da comunicação discursiva, a sua conclusividade específica deverá ser a segunda peculiaridade a ser analisada. Trata-se de uma espécie de aspecto interno da alternância dos sujeitos, e que ocorre porque o falante diz (ou escreve) tudo o que quis, em dado momento ou sob certas condições.

  

 

         O primeiro e mais importante critério de conclusibilidade é a possibilidade de uma resposta, até mesmo aquelas decorrentes das perguntas mais sucintas do cotidiano (ex.: “que horas são?”). Uma vez mais, uma oração absolutamente compreensível e acabada não pode suscitar atitude responsiva. O enunciado, ao contrário, assegura uma compreensão responsiva, determinada por três elementos:

 

1)   A exauribilidade do objeto e do sentido: o objeto inexaurível, ao se tornar tema do enunciado (ex.: um trabalho científico), ganha uma relativa conclusibilidade em determinadas condições e no âmbito de uma idéia definida pelo autor;

 

 

2)   O projeto de discurso (ou vontade de discurso do falante): em cada enunciado, percebemos a intenção discursiva do falante, que determina o todo do enunciado, o seu volume e as suas fronteiras, a partir tanto da escolha do objeto os seus limites e exauribilidade semântico-objetal;

 

 

3)   As formas típicas composicionais de gênero do acabamento: A vontade discursiva do falante se realiza na escolha de um certo gênero discursivo, determinado:

 

ü      pela especificidade de um dado campo de comunicação discursiva;

ü     por considerações semântico-objetais (temáticas);

ü     pela situação concreta da comunicação discursiva;

ü     pela composição pessoal de seus participantes; etc.

 

         Todos os nossos enunciados possuem formas relativamente estáveis e típicas da construção do todo. Em termos práticos, nós empregamos o repertório de gêneros discursivos de forma segura e habilidosa mas, em termos teóricos, desconhecemos inteiramente a sua existência, pois falamos por tais gêneros sem suspeitar da sua existência. Esses gêneros nos são dados quase da mesma forma que nos é dada a língua materna, a qual dominamos livremente até começarmos o estudo teórico da gramática: a língua materna não chega a nós a partir de dicionários, mas através de enunciações concretas.

 

         As formas da língua e as formas típicas dos enunciados chegam a nossa consciência em conjunto e de forma estreitamente vinculadas. Aprender a falar significa, portanto, aprender a construir enunciados. Os gêneros organizam o discurso próprio quase da mesma forma que o organizam as formas gramaticais sintáticas e, quando ouvimos um discurso alheio, adivinhamos o seu tipo já por suas primeiras palavras.

 

         Temos a sensação do conjunto do discurso e, se os diversos gêneros não existissem – e nós não os dominássemos –, a comunicação discursiva seria quase impossível. As formas de gêneros diferem das formas da língua, sendo bem mais flexíveis, plásticas e livres, possuindo grande diversidade.

 

         Toda uma série de gêneros difundidos no cotidiano são tão padronizados que a vontade discursiva individual do falante só se manifesta na escolha de uma determinada modalidade – e na sua respectiva entonação expressiva – como, por exemplo, os diversos gêneros cotidianos de saudações breves, que variam de acordo com a situação, posição social ou relações pessoais.

  

         Há, portanto, formas distintas de gêneros discursivos, como:

 

ü     As formas elevadas: oficiais e respeitosas;

 

ü     As formas familiares: de uso cotidiano e informal; e

 

ü     As formas íntimas: que diferem das formas familiares.

 

         Estes gêneros – especialmente os mais formais – possuem um alto grau de estabilidade, cabendo à vontade discursiva individual apenas a inclusão de leves matizes de entonação expressiva, além da escolha do gênero em si, refletindo a individualidade do falante. Pode-se, ainda, misturar os gêneros das diferentes esferas, utilizando gêneros mais livres e criativos de comunicação oral, como as conversas de salão sobre os temas cotidianos.

 

         Muitas pessoas proficientes numa língua sentem total impotência em alguns campos da comunicação, pois não dominam, na prática, as formas de gênero das esferas mais informais. Assim, aqueles que dominam as instâncias da comunicação cultural podem, perfeitamente, ler um relatório científico, mas serão desajeitados numa conversa mundana, por falta de acervo suficiente e inabilidade para dominar um repertório específico. Portanto, quanto melhor dominamos os gêneros, mais aptos estaremos para realizar, de modo mais elaborado, o nosso projeto livre de discurso.

 

         Um enunciado não pode ser considerado uma combinação absolutamente livre de formas de língua (lexicais e gramaticais), como sugere Saussure, dentre outros. Muito mais do que uma escolha aleatória ou capricho de um mítico “fluxo de fala”, a escolha por um determinado tipo de oração passa pelo ponto de vista do enunciado que se forma em nossa imaginação discursiva, adequando-se o gênero a ser utilizado.

 

         Bakhtin associa, então, o desconhecimento lingüístico das formas de enunciado à extrema heterogeneidade da construção composicional, além da vasta dimensão que engloba da réplica mono-vocal ao grande romance escrito. Contudo, muitos lingüistas tentam encontrar formas teóricas intermediárias entre a oração e o enunciado, como as definições de “frase” de Kartzevski e de “comunicação”, de Chákhmatov. Mas todas essas unidades artificiais e convencionais são indiferentes à alternância dos sujeitos no discurso.

 

         Como já visto anteriormente, a oração é desprovida da capacidade de determinar a posição responsiva do falante, adquirindo-a somente após tornar-se um enunciado pleno. Surge, daí, uma aberração: ao se analisar uma oração isolada e fora de contexto, costumamos promovê-la a um enunciado pleno, atingindo um grau de conclusividade que permite suscitar-lhe uma resposta.

 

         Ainda que cada oração isolada seja absolutamente compreensível, não é possível formular uma resposta para uma posição isolada, se não sabemos o que o falante realmente quis dizer. Assim, conclui-se que a oração deva estar, necessariamente, envolvida pelo contexto, uma vez que este é um elemento significativo do conjunto de um enunciado, ao invés do sentido acabado inerente às orações não antecedidas ou sucedidas por outras orações oriundas do mesmo falante.

  

         Todo enunciado é um elo na cadeia da comunicação discursiva e, por isso, cada enunciado se caracteriza por um determinado conteúdo semântico-objetal, determinando-se, a priori, as suas peculiaridades estilístico-composicionais. O item determinante do enunciado, a posteriori, é o seu próprio elemento expressivo, que reflete a relação subjetiva emocionalmente valorativa do falante com o conteúdo do objeto e o sentido do enunciado, não sendo possível um enunciado absolutamente neutro.

 

         O autor, então, questiona: “pode-se considerar o elemento expressivo do discurso um fenômeno da línguas como sistema? Pode-se falar de aspecto expressivo das unidades da língua (palavras e orações)?”. A resposta categórica para ambas as questões é negativa pois a língua, como sistema, possui um rico arsenal de recursos lingüísticos, sendo todos eles neutros em relação a qualquer avaliação real determinada.

 

         Da mesma forma, a oração, enquanto unidade da língua, também é neutra em si, não tendo aspecto expressivo próprio: ela o adquire unicamente em meio a um enunciado concreto, sendo a entonação uma das formas de expressão da relação emocionalmente valorativa do falante com o objeto da sua fala, convertendo-se num traço constitutivo do enunciado. Existem, portanto, na comunicação discursiva, tipos padronizados e difundidos de enunciações valorativas, que traduzem diferentes reações (como elogio, aprovação, êxtase, estímulo, insulto, dentre outros), conforme as mais diversas situações responsivas (como simpatia, acordo, desacordo etc).

 

         Ainda assim, é muito difícil abrir mão da convicção de que cada palavra da língua tenha um tom emocional específico, sendo o real valor contextualizado da palavra um recurso valioso nas mãos de poetas e de outros estilistas das palavras. Portanto, escolhemos as palavras não pelo seu significado expressivo, mas conforme a correspondência com nossos objetos expressivos e em face de outras palavras.

 

         A emoção, o juízo de valor e a expressão são estranhos à palavra. Tais conceitos surgem unicamente durante o processo do seu emprego vivo num dado enunciado concreto, uma vez que o significado das palavras é extra-emocional, podendo-se obter um colorido expressivo unicamente através de um enunciado. Assim, nunca escolhemos as palavras na sua forma lexicográfica neutra, mas, sim, retirando-as de outros enunciados e segundo as suas especificações de gênero.

 

         A expressividade típica do gênero não se estende à palavra, não fazendo parte de seu significado: o que é refletido aqui é apenas a relação da palavra – e do seu significado – com um dado gênero específico, que funciona como uma “auréola estilística”. A expressão “gênero da palavra” é, portanto, impessoal, como impessoal são os próprios gêneros do discurso.

 

         Os significados lexicográficos neutros das palavras da língua asseguram, para elas, a identidade e a compreensão mútua de todos os seus falantes, como segue:

 

ü     Como palavra neutra da língua e não pertencente a ninguém;

ü     Como palavra alheia dos outros, cheia de ecos de outros enunciados; e

ü     Como a minha palavra, compenetrada de minha expressão.

  

         Nos dois aspectos finais anteriormente descritos, a palavra é expressiva, não sendo tal expressão pertencente à palavra mas, sim, decorrente do seu contato com a realidade. Existem determinadas tradições expressas que são apresentadas em formato verbalizado nas obras, nos enunciados e nas sentenças, mas o fato é que a experiência discursiva individual se forma semente através de uma interação constante e contínua com os enunciados individuais dos outros. Portanto, a expressividade de determinadas palavras não é uma propriedade sua, e tampouco decorre do seu significado: trata-se, na verdade, do eco de uma expressão individual alheia.

 

         Os tipos existentes de orações costumam funcionar como enunciados plenos de determinados tipos de gênero, existindo um grande número destes que são centrados no cotidiano. Outros são de categorias especiais, e se manifestam através de orações que se fundem com a sua expressão de gênero, absorvendo com facilidade a sua expressão individual.

 

         Como vimos, a oração – enquanto unidade da língua – possui uma entonação gramatical específica, e não uma entonação expressiva. As entonações gramaticais podem ser:

 

ü     De Acabamento;

 

ü     Explicativa;

 

ü     Disjuntiva;

 

ü     Enumerativa;

 

ü     Narrativa;

 

ü      Interrogativa;

 

ü      Exclamativa; e

 

ü      Exortativa.

 

         O sistema da língua é dotado das formas necessárias para emitir uma determinada expressão, mas, paradoxalmente, a língua em si carece de força expressiva, dada a sua natureza neutra. Por isso, as palavras e as orações servem a qualquer juízo de valor através do seu enunciado, do seu estilo e da sua composição. A estilística, especificamente, reconhece os seguintes valores:

 

ü      Próprio sistema da língua;

 

ü      Objeto do discurso do falante; e

 

ü      A relação valorativa do falante com esse objeto.

 

         Assim, o falante, por um lado, e o objeto, por outro, determinam o enunciado, que é, na verdade, um elo na cadeia da comunicação discursiva de um determinado campo. Os enunciados não são indiferentes entre si, refletindo-se mutuamente uns nos outros, sendo, portanto, plenos de ecos e ressonâncias de outros enunciados, com os quais estão ligado pela identidade da esfera de comunicação discursiva.

  

         Cada enunciado específico é rico de variadas atitudes responsivas em dada esfera da comunicação, como segue:

 

ü     Podem ser introduzidas diretamente no contexto do enunciado;

 

ü     Podem ser introduzidas somente de palavras isoladas ou orações;

 

ü     Podem conservar a sua expressão alheia sem reacentuá-las;

 

ü     Podem ser recontadas com um variado grau de reassimilação;

 

ü     Podem servir de base para a interação com um interlocutor conhecido;

 

ü     Podem ser presumidas em silêncio; e

 

ü     Podem refletir-se somente na expressão do próprio discurso.

 

         Desta forma, a expressão do nosso enunciado é determinada não só pelo conteúdo semântico-objetal desse enunciado mas, também, pelos enunciados do outro sobre o mesmo tema, sendo que as diversas formas das atitudes responsivas não foram, até hoje, objeto de nenhum estudo especial.

 

         O enunciado é pleno de tonalidades dialógicas, pois as nossas próprias idéias (filosófica, científica ou artística) nascem e se formam no processo de interação e luta com os pensamentos dos outros. Assim, os enunciados dos outros inserem, em nosso enunciado, algo irracional do ponto de vista da língua como sistema, especialmente no que se refere à sintaxe. Os limites criados pela alternância dos sujeitos são, aí, enfraquecidos, justamente quando a expressão do falante penetra e se dissemina no discurso do outro, que tem, portanto, uma dupla expressão: a sua (ou alheia) e a do enunciado que o acolheu.

 

         Trata-se de um fenômeno muito complexo se não for examinado isoladamente e como uma elo na cadeia de comunicação discursiva. O objeto do discurso do falante não se torna objeto do discurso num dado enunciado, pois o falante não é o primeiro a falar dele, estando já ressalvado, contestado, elucidado e avaliado pois, em realidade, repetimos todos os enunciados já proferidos anteriormente, através de formulações que refletem:

 

ü      Uma visão de mundo;

 

ü      Uma corrente;

 

ü      Um ponto de vista; e

 

ü      Uma opinião.

 

         A relação com a palavra do outro difere, essencialmente, da relação com o objeto, apesar de acompanhá-lo. Uma vez que se trata de um elo na cadeia da comunicação discursiva, o enunciado não pode ser separado dos elos precedentes nem dos subseqüentes. Os novos enunciados se reformulam conforme as respectivas atitudes responsivas, pois o outro não é um ouvinte passivo, conforme já dito anteriormente. Desde o início, o falante aguarda uma resposta, como se todo os enunciados fossem construídos com vistas a uma resposta.

  

         Um traço constitutivo essencial do enunciado é, portanto, o seu direcionamento a alguém, podendo este destinatário ser:

 

ü      Um participante interlocutor direto do diálogo cotidiano;

 

ü      Uma coletividade diferenciada de especialistas de algum campo especial;

 

ü      Um público mais ou menos diferenciado;

 

ü      Um povo e seus contemporâneos;

 

ü      Os correligionários, adversários e inimigos;

 

ü      subordinado ou o chefe;

 

ü      Um inferior ou um superior;

 

ü      Um estranho ou um conhecido;

 

ü      Outro totalmente indefinido e não concretizado.

 

         Os envolvidos na comunicação discursiva percebem e representam para si os seus destinatários, podendo mesmo coincidir, pessoalmente, com aqueles que respondem ao próprio enunciado. Em outras palavras: aquele a quem eu respondo é o meu destinatário, de quem, por sua vez, aguardo resposta.

 

         E, ao construir o enunciado, procuramos defini-lo de maneira ativa, antecipando a resposta e exercendo uma influência ativa sobre o interlocutor pois, ao falarmos, sempre levamos em conta a percepção que o destinatário tem do nosso discurso, através de:

 

ü    Suas concepções e convicções;

ü    Seus preconceitos; e

ü    Suas simpatias e antipatias.

 

         Essas considerações irão determinar também:

 

ü    A escolha do gênero do enunciado;

ü    A escolha dos procedimentos composicionais; e

ü    A adequação dos meios lingüísticos ou o estilo.

 

         São exemplos da escolha de gênero:

 

ü    A literatura popular científica;

ü    A literatura didática especial; e

ü    Os trabalhos especiais de pesquisa.

 

         A consideração do destinatário e a antecipação da sua atitude responsiva inserem dramaticidade no enunciado, num fenômeno exterior denominado de índole aguda. Outros fenômenos também envolvendo o destinatário – porém mais diretamente ligados ao ato discursivo – e são denominados de índole especial, que leva em conta a posição social do interlocutor, o seu título e a sua importância numa dada circunstância.

  

         Daí, o gênero discursivo passa a variar em diferentes nuanças, mas considerando sempre:

 

ü      O título, a categoria, a patente;

ü      O peso da fortuna e o peso social;

ü      A idade; etc.

 

         Matizes mais sutis do estilo são determinados pela índole e pelo grau de proximidade pessoal do destinatário em relação ao falante, nos diversos gêneros discursivos familiares e íntimos e, fora do âmbito da hierarquia, gera-se uma franqueza extrema que chega próxima ao cinismo. Os gêneros familiares e íntimos revelam dependência do estilo, muito além da definição que considera apenas o conteúdo do objeto, desconsiderando a relação do falante com o outro – e seus respectivos enunciados. Os estilos neutro-objetivos pressupõem, por sua vez, uma espécie de triunfo do destinatário sobre o falante.

 

         O problema da concepção do destinatário no discurso é de enorme importância na história da literatura, que ainda considera formas convencionais de apelo aos leitores. Bakhtin ressalta que, paralelamente ao autor real, existem imagens convencionais e semi-convencionais (p.305) de:

 

ü     Autores testas-de-ferro;

ü     Editores; e

ü     Narradores de toda espécie;

 

         O autor retoma, então, a idéia de que os gêneros literários são constituídos de gêneros secundários que são, por sua vez, formados a partir de outros gêneros primários, para lembrar que é justamente a partir da confluência destes conceitos que nascem os autores, os narradores e os seus destinatários.

 

         Além disto, relembra, uma vez mais, que a oração isolada só pode se incorporar através de um enunciado pleno, envolvido por um contexto. Reitera, por fim, a estreiteza da análise estilística, que ainda não considera a cadeia de comunicação discursiva, da qual o enunciado é um elo inseparável.