O Pré-Romantismo no Brasil


Trabalho Final de Literatura Brasileira III - FFLCH/USP

  

 

 

 

Questão 1: Compare, sucintamente, as bases sociais do Romantismo na Europa e no Brasil.

 

 

Na Europa, o século XIX assistiu a modificações radicais, como conseqüência da Revolução Industrial, provocando o aparecimento do proletariado concentrado nas grandes cidades. Além disto, a Revolução Francesa, com seus ideais de Liberdade, Igualdade e Fraternidade, subverteu as relações sociais.

 

O absolutismo deu lugar ao liberalismo e, como conseqüência, instalou-se a livre concorrência no âmbito econômico enquanto que, na esfera política, reforçou-se a liberdade individual. A burguesia capitalista e liberal triunfava, suscitando a civilização materialista do capitalismo comercial, que passava a dominar a política. Como reação ao domínio do dinheiro nas relações sociais, as novas gerações se rebelaram, desenvolvendo um desejo de evasão contra este materialismo dominante.

 

As origens do Romantismo remontam à Alemanha – de Sturm und Drag e do sentimentalismo do Jovem Werther, de Goethe. – e à Inglaterra de Sir Walter Scott, autor de Ivanhoe. Coube, ainda, à França, o papel de centro difusor dessas novas idéias.

 

O surgimento de um novo público consumidor – sem educação literária e que ignorava os padrões clássicos ou as referências mitológicas, preferindo o sentimentalismo e a linguagem mais simples e direta dos enredos romanescos – fez com que o escritor se profissionalizasse, ganhando uma consciência do seu papel junto às massas.

 

O Romantismo, iniciado por Gonçalves de Magalhães em 1836 – ainda uma tentativa de transposição para os trópicos da nova estética por orientação do novo Estado Imperial –, foi o primeiro movimento literário do Brasil independente, numa época em que se reivindicava uma literatura autônoma e que refletisse a identidade nacional.

 

O Brasil, politicamente separado de Portugal desde 1822, conservou a mesma estrutura da sociedade colonial, num patriarcalismo assentado na mão-de-obra escrava e nos latifúndios. Até a abdicação de Pedro I, em 1831, o País viveu um período difícil, marcado pelo autoritarismo do imperador, que dissolveu a primeira Assembléia Constituinte e outorgou a Constituição de 1824. Seguiram-se os episódios da Confederação do Equador e à separação da Banda Oriental e seus desdobramentos, além do pagamento da “indenização” a Portugal no valor de dois milhões de libras esterlinas, obtidas por intermédio de um empréstimo junto à Inglaterra.

 

Tal quadro leva a sua abdicação, em 1831, em favor de um menino de apenas cinco anos, tutelado durante o período Regencial, quando o Brasil foi tomado por fortes episódios revoltosos (Cabanagem, em 1834; Guerra dos Farrapos, em 1835; Sabinada, em 1837; e Balaiada, em 1838). Curiosamente, é em meio a tamanha turbulência que se decide transpor a Estética Romântica para o Brasil.

 

O Segundo Reinado começou com o Golpe da Maioridade, em 1840, quando Pedro II foi declarado maior aos 14 anos. Durante o longo período em que esteve no poder, a Literatura Nacional acaba por servir como uma espécie de pano de fundo que legitimaria a existência do Estado Escravista e da Corte Imperial. Mas, ao longo dos anos, a versão nacional da Estética Romântica não ficou limitada apenas a nacionalismos exacerbados ou arroubos ultra-românticos, havendo episódios que foram da inovadora simplificação dos versos de Gonçalves Dias – que, em sua Canção do Exílio, aproximava a palavra escrita da fala das ruas – até a poesia social antiescravista de Castro Alves, com o seu Navio Negreiro.

 

A Literatura Romântica brasileira culminou, ainda, com a surpreendente e inovadora produção literária de Manuel Antônio de Macedo, que, em seu único livro, Memórias de um Sargento de Milícias (originalmente publicado em folhetins, no jornal Correio Mercantil), retratava o cotidiano do povo-livre, num estilo jornalístico e direto, incorporando a linguagem das ruas, típica das clases médias e baixa da cidade do Rio de Janeiro, sendo um precursor do Realismo no Brasil.

 

O Segundo Reinado assistiu, ainda, às guerras com o Uruguai e a Argentina e com o Paraguai (esta em 1865) e a várias revoltas como a Revolução Liberal em São Paulo (1842) e a Revolução Praieira em Pernambuco (1848), além de inúmeros levantes populares, resistindo à Campanha Abolicionista e à “Libertação” dos Escravos.

 

 

 José de Alencar - Escritor

 

Questão 2: Aponte dois aspectos da Formação do Brasil apontada por Alencar em “O Guarani”, explicando-os sucintamente.

 

O Guarani foi escrito, de certo modo, nas mesmas bases da intenção original de se transpor, para o Brasil, a nova Estética Romântica, contemporânea da Independência: o intuito nacionalista, uma literatura autônoma da européia, além da “fixação” da cor local do novo País, através de longas descrições da natureza e de sua flora e fauna locais.

 

É o próprio Alencar, em Como e Porque sou Romancista, quem nos revela o primeiro segredo de O Guarani: seu herói, Peri (palavra guarani que significa “junco silvestre”, uma espécie de “bom selvagem”, segundo Rousseau), símbolo do nacionalismo romântico brasileiro, pretendia ser convertido em herói nacional, um ser idealizado e perfeito, “despindo-o da crosta grosseira de que o envolvem os cronistas”. Caiu logo no gosto dos leitores, que acompanhavam a saga publicada, inicialmente, durante três meses do ano de 1857, na forma de folhetins.

 

Contudo, apesar de ser o continuador do Romantismo Brasileiro, Alencar é o primeiro a atacar, diretamente, os poemas de Gonçalves de Magalhães, através das cartas publicadas com o cognome de “Ig”, a propósito de aspectos estéticos da Confederação dos Tamoios (ponderava, dentre outras coisas, que a presença do “elemento maravilhoso” – cena da magia – impedia que a obra fosse considerada como histórica).

 

Para Alencar, a descrição da natureza era fraca e o episódio que desencadearia a ação guerreira seria um momento menor, quando um índio fora morto acidentalmente (o curioso é que o próprio Alencar repete tal episódio de forma bem semelhante, n’O Guarani). Dizia, ainda, que o nível das personagens era “menor”, de Crônica, e não “grandioso”, algo mais próprio da Épica que, na sua visão, exigiria o estilo alto e sublime, enquanto que o estilo de Magalhães seria “descuidado e cheio de erros”.

 

Tais críticas acabam por projetar Alencar que, mais tarde, ocuparia o lugar de destaque da Literatura nacional, não conseguindo, contudo, o almejado cargo de Senador vitalício, por desaprovação direta do próprio Imperador. Voltado ao cargo de deputado, coloca-se contra a Lei do Ventre Livre e envolve-se numa polêmica com Franklin Távora, entre 1871 e 1872, quanto à discussão sobre o “elemento servil”, embora fosse ele, Alencar, justo o primeiro a escrever a primeira peça de teatro sobre os negros do Brasil. Tantas foram as polêmicas, que acabou se auto-intitulando de “Sênio” (de “senil”), em O Gaúcho, de 1870 (“Há duas velhices: a do corpo que trazem os anos, e a da alma que deixam as desilusões”).

 

Apesar de (oportunamente) excluir o elemento negro da composição nacional, Alencar busca colocar o índio Peri (o ‘filho da floresta’, a partir da descrição de sua cabana) em pé de igualdade com o ‘branco europeu civilizador’ (conforme evidenciado, também, através da engenhosidade da construção de sua casa), na figura de Antonio de Mariz (guerreiro da vida real, mencionado nos anais da Cidade do Rio de Janeiro). Peri seria ainda, para Dona Laureana, um “selvagem”, enquanto que, para Aires Gomes, um “perro do cacique” ou um “bugre endemoniado”. D.Antonio, contudo, considera-o, sim, um selvagem, mas com uma “alma grande”, um verdadeiro “cavalheiro português no corpo de um selvagem”!

 

E segue, por aí, a “confusão” sociológica: após tentar catequizar Peri – que recusa a conversão – Ceci retira-se para seus aposentos e canta uma “xácara” sobre os amores de uma cristã por um mouro. Mas é D.Antonio quem, mais adiante, percebe que só salvaria Ceci se a entregasse a Peri, para que ele a levasse até o Rio de Janeiro, apesar de não ser “apropriado” entregar uma filha a um não-cristão... A “nobreza” de D.Antonio é ressaltada até mesmo por sua morte, pois opta por lutar e não fugir, salvando a vida de sua filha. Mas Ceci, antes de se render ao amor, refere-se a ele como um “irmão”, encontrando-se, aí, uma possibilidade de melhor “fechamento” moral da trama (de início, a virginal Cecília tinha repulsa e evita Peri, influenciada por sua mãe, Da.Laureana. Peri, então, ficara magoado e passara a chamá-la de Ceci que, em tupi, significaria “doer”, “magoar”).

 

Assim, nosso herói sobrevive a venenos e flechadas, enfrenta sozinho os Aimorés (que têm, além de inteligência, “unhas que são garras” e “dentes que são mandíbulas”) e, ainda, salva Ceci sozinho, segurando uma rocha. Tais exageros receberam críticas de Joaquim Nabuco quanto à verossimilhança (?) da obra, com quem se envolveu numa nova polêmica, em 1875. Mas faltava, ainda, um evento grandioso maior, como desfecho: há a enchente do rio e Ceci, como uma boa cristã, se prepara para morrer. Mas Peri se vale do Mito de Tamandaré, o “Noé” indígena, levando-a para um lugar seguro (no caso, “o olho” de uma palmeira que “dava frutos, que os alimentavam”): o Guarani acaba antes das águas baixarem, mas subentende-se que, logo após isto – e tal qual o mito bíblico –, o casal desceria e povoaria a nova terra...

 

Talvez, quem melhor parece ter entendido O Guarani – não como “tratado de sociologia”, mas, sim, como obra literária –, foi Cruz e Souza, ao escrever:

 

 

O FINAL DO GUARANI

(Santos, 15 jul. 1883)

 

 Ceci -- é a virgem loira das brancas harmonias,

A doce-flor-azul dos sonhos cor de rosa,

Peri -- o índio ousado das bruscas fantasias,

O tigre dos sertões -- de alma luminosa.

 

Amam-se com o amor indômito e latente

Que nunca foi traçado nem pode ser descrito.

Com esse amor selvagem que anda no infinito.

E brinca nos juncais, -- ao lado da serpente.

  

Porém... no lance extremo, o lance pavoroso,

Assim por entre a morte e os tons de um puro gozo,

Dos leques da palmeira a note musical...

  

Vão ambos a sorrir, às águas arrojados,

Mansos como a luz, tranqüilos, enlaçados

E perdem-se na noite serena do ideal!...

  

Cruz e Souza