L´Arlecchino


Um Espetáculo Teatral de Dario Fo

 

Teatro Commune, São Paulo

Outubro de 2008 

 

         O espetáculo resgata a forma ágil, cômica e alegórica das fábulas medievais, e dos roteiros dos primórdios da commedia dell'arte. Apresenta as aventuras do personagem Arlecchino de maneira irreverente, patética, escatológica e auto-irônica em situações cotidianas. (Comédia)

 

         Esta peça faz parte do Projeto Arlecchino, patrocinado pela Petrobrás por meio da Lei Rouanet, que envolve atores profissionais e atores aprendizes selecionados durante o ano de 2007. O Projeto Arlecchino consiste na montagem da comédia O Arlecchino de Dario Fo e na formação de jovens de diversas comunidades da periferia de São Paulo, usando-se o teatro e a cultura digital como ferramentas para ampliação da comunicação, expressividade, trabalho em equipe e inserção no mercado de trabalho.

 

 

FONTES CONSULTADAS:

 

http://guia1.folha.com.br/busca/teatro/?q=

http://agendacult.wordpress.com/2008/04/01/arlecchino/

 

 

Mais Comédia, Menos Prozac!

 

 

         Os motivos que me levaram a assistir este espetáculo foram, primeiramente, a oportunidade rara de ver encenada, em pleno século XXI, uma peça dentro da tradicional estética da Commedia dell'Arte. E, também, por já conhecer a obra de Dario Fo, com a qual tive contato durante o curso de língua e cultura italianas do Istituto Italiano de Cultura, através do livro Aria d'Italia, que reunia textos de grandes escritores, dramaturgos e cineastas peninsulares.

 

         O prédio do Teatro Commune está muito bem localizado e o espaço interno é muitíssimo bem aproveitado. Um exemplo disto é o longo corredor, que foi transformado em exposição sobre a indumentária típica do gênero, além de exibir fotos e informações de interesse cultural sobre a montagem do espetáculo. A exposição denominava-se “Máscaras, Figurinos e Imagens” e enfatizava as figuras que, desde o Século XVII, povoam a Commedia dell’Arte.

 

         Andando até o fundo, chega-se à sala de espetáculos, com o seu palco italiano baixo, que possibilita aos atores descerem até a platéia, com bastante facilidade. O público ficava alocado em cadeiras individuais, dispostas em forma semicircular, havendo um aclive que oferecia perfeita visibilidade. E, por estar localizada nos fundos do terreno e longe da via pública, a sala era bastante silenciosa, mas, mesmo assim, dispunha de um eficiente tratamento acústico.

 

         A faixa etária do público era diversa, e a platéia parecia mais motivada pelo baixo preço do ingresso (R$ 10,00) do que, propriamente, pelo espetáculo em si. Imagino que o patrocínio de empresas de grande porte como a Petrobrás viabilizou a manutenção do baixo custo do espetáculo para o público. A platéia era muito incentivada a participar, seja através de piadas jocosas ou de situações totalmente escatológicas, o que deixou o público perplexo e embaraçado, mantendo uma atitude defensiva, apesar da animação da pequena orquestra, localizada à direita do palco.

 

Dentre os assuntos perguntados “descaradamente” ao público, estavam indagações quanto à potência sexual de alguns espectadores, e a relação que eles imaginavam existir entre “buracos” e “fechaduras”, além de perguntas diretas sobre o quanto determinada pessoa da platéia era ou não liberal, e de caçoadas cruéis e desconcertantes em cima das risadas mais nervosas. E não adiantava sentar na última fileira, pois eles iam até lá tomar satisfações!

 

 

         Foram muitas as “diabruras”, mas a situação mais embaraçosa foi quando um asno, formado por dois atores, “defecou” no palco. Arlecchino, então, recolheu as fezes com a mão (na verdade, um bolo de chocolate em formato fecal), comeu um pedaço do excremento com alguma curiosidade e, logo em seguida, confirmou, categoricamente, que era “cocô” mesmo, mas disse que estava muito gostoso! Em seguida, ofereceu o restante para platéia e eu acabei sendo o escolhido! Apesar desta cena específica ter sido extremamente divertida, penso que, em termos gerais, as brincadeiras poderiam ser um pouco mais comedidas, pois a platéia ficou mesmo assustada, numa certa altura do espetáculo...

 

         Na primeira parte do espetáculo (Prólogo), o cenário era composto apenas por biombos brancos que, sob o efeito das luzes, ganham cores e formas. Mas, contrastando com a brancura de fundo, os atores estavam muitíssimo bem vestidos, com figurinos coloridos que se tornavam ainda mais belos com as diversas piruetas e acrobacias que faziam. Neste sentido, o jogo cênico era muito ágil e marcado, quase uma ginástica de atores, ao estilo de Meyerhold.

 

         Já no segundo quadro, o domínio era dos adereços, especialmente uma chave e uma fechadura gigantes, que ajudam os atores num divertido jogo erótico de palavras. O ritmo, contudo, diminuiu, dando-se mais ênfase aos diálogos do que, propriamente, às performances físicas dos atores. Nos demais quadros, tem-se um maior equilíbrio entre diálogos e ações, com a presença em cena de um cenário mínimo mas eficiente, que se transformava facilmente, conforme a necessidade. Mas, em linhas gerais o efeito era plasticamente belíssimo, durante todo o tempo do espetáculo.

 

         Iluminação, figurino, cenário e efeitos sonoros fazem, portanto, um conjunto de rara beleza, que nos remete à nostalgia típica dos filmes de Fellini, particularmente o famoso “I Clowns”. Portanto, se os atores em cena nos fazem rir no presente, temos, ao mesmo tempo, uma sensação mista de nostalgia (de uma tradição cômica longínqua) e de encantamento (com a “Arte da Comédia”, já perdida no tempo). Essa sensação é intensificada, particularmente, pelo fato de estarem no palco os mitos cômicos de Arlequim, Colombina (no caso, Franceschina), Pantalone e sua trupe de comediantes errantes, simpáticos e emblemáticos. Eles são, portanto, muito mais do que meras personagens: os atores encarnam, em cena, uma importante tradição cômica, dando vida à cultura inerente a estas memoráveis figuras.

 

 

            O grupo optou por uma direção obviamente circense e, à exceção das piruetas muito marcadas, fica evidente certa liberdade concedida aos atores, algo, talvez, que contribuiu para a redução do brilho final do espetáculo, já que estamos falando de jovens atores que, no afã de atuar, por vezes divagam e deixam escapar o “momentum” perfeito do jogo cênico, insistindo em piadas e brincadeiras junto ao público e, portanto, não reconhecendo certo limite, fazendo com que se diminua a sinergia necessária ao pleno “feedback” com a platéia.

 

Além disto, é facilmente percebido o desnível entre os atores principais, mais “tarimbados”, e os secundários, com pouco domínio de palco, reduzidos a meros coadjuvantes. Contudo, o ponto alto do elenco é o ator Augusto Marin, exibindo uma atuação à altura da tradição cômica da Commedia dell’Arte, esbanjando grande vibração e criatividade que leva a platéia a um quase delírio amoral, através de um humor inteligentemente obsceno.

 

            A direção e produção pertencem ao grupo teatral Commune, que desenvolve, ao longo do ano, diversos projetos sociais e culturais – maiores detalhes estão disponíveis em seu sítio ( http://www.commune.com.br/ ). Esta farsa foi escrita em 1985 para o XXIII Festival de Teatro da Bienal de Veneza, estando dividida em quadros: “O Prólogo”, “A Fechadura”, “O Asno”, “Os Coveiros” e “Gatus Mutantis”, intercalados por “gags” cômicas e música ao vivo, sempre numa linha temporal única, sem psicologismos, sem antagonismos ou tensões rumo a um clímax.

 

            Por fim, ainda que os quadros sejam independentes, percebe-se o espetáculo como um todo, quase um desfile saudosista e alegórico de uma tradição, onde a pantomima, o ridículo e a vulgaridade nos remetem não somente ao teatro popular da Renascença, mas, também, às prováveis representações dos ‘imitatio’ (ou ‘contaminatio’?) inspiradas nas antigas comédias gregas, encenadas ainda nos tempos do Império Romano, revelando a forma teatral única que viria a contribuir, decisivamente, para a construção do teatro moderno.

 

E a prova desta influência seria justamente evidenciada, mais tarde, através daquele que foi, talvez, o maior dramaturgo de todos os tempos: William Shakespeare, cuja obra, povoada por suas comadres de Windsor, também nos traria os amantes eternos Romeo e Julieta que, tal qual Arlequins e Colombinas, há séculos habitam nossos corações e mentes!

 

 

 

O Prólogo

 

O Prólogo tem em cena uma faxineira responsável pela limpeza do teatro que precisa entreter a platéia e para isso vai contando parte da história do espetáculo.

 

 

 

 

 

A Fechadura

 

Revela um jogo sexual alegórico de um Arlecchino que quer enfiar a sua

“chave abençoada pelo Papa” na fechadura santa de Franceschina.

 

 

 

Arlecchino

 

O ator Michelle Gabriel no papel principal da peça de Dario Fo, além de coordenador do Coletivo Teatral Commune, juntamente com Augusto Marin.

 

 

 

Os Coveiros

 

 

Uma divertida paródia do enterro de Ofélia, em Hamlet, com humor e escatologia: um enterro típico italiano, com viúva desconsolada, padre sem-vergonha, irmão moralista, amante canalha e caveiras de mortos que saltam da tumba para reclamar e trair os vivos.

 

 

 


www.theonion.com

 

 

 

 

            “Por Commedia dell’Arte entende-se a comédia italiana de improviso, que surge na Itália em meados do século XII e se prolonga até ao século XVII. O termo dell’arte traduz bem uma das suas principais características. Trata-se de uma comédia representada, não por atores amadores, mas sim por profissionais, dotados de um talento particular. Porém seus diálogos tinham larga medida de improviso, pelo que este tipo de arte também é conhecido por Commedia all’improviso (comédia de improviso) ou Commedia a soggeto (comédia de tema). É também denominada Commedia delle maschere (comédia das máscaras), uma vez que este elemento de vestuário era extremamente relevante na composição das personagens, servindo para melhor os ridicularizar e caracterizar. Por fim, uma outra denominação é Commedia dei zanni, de zanni (empregados, servos), caracteres importantes em toda trama deste gênero”.

 

 

 

FONTE CONSULTADA:

 

http://pt.wikipedia.org/wiki/Com%C3%A9dia_Dell%E2%80%99arte

 

 

 

 

F i c h a   T é c n i c a

 

         Autor: Dario Fo

 

         Tradução: Neyde Veneziano e Augusto Marin

 

         Direção: Augusto Marin

 

         Elenco: Michelle Gabriel, Salete Fracarolli, Letícia Olivares, Augusto Marin, Paulo Dantas e jovens do Projeto Arlecchino (Deco Moraes, Dede Ferreira, Dhario Souza, Diego Ramos, Fernanda Maia, Guilherme Leal, Julia Pires, Karen Rego, Marcela Puppio, Mizael Alves, Paula Campos, Shirlei Vanessa, Suellen Ribeiro, Tamis Lima, Will Saint'Clair).

 

         Cenografia e Figurinos: Cyro Del Nero

 

         Máscaras e Exposição: Heloisa Cardoso

 

         Direção Musical: Wanderley Martins

 

         Produção: Mathias de Oliveira e Rodrigo Oliveira

 

         Som e Luz: André Leme

 

  

            AUGUSTO MARIN é ator e diretor teatral formado pela UNICAMP e mestre em Artes Cênicas pela ECA-USP com a dissertação Arlecchino na Dramaturgia Performativa de Dario Fo. Coordenou o Festival Internacional de Teatro de Campinas e o 1º Encontro Nacional de Teatro de Rua. Participou das atividades da Companhia de Teatro Fo e Rame e da montagem da Exposição Bonecos com Raiva e Sentimento, na Universidade La Sapieza de Roma. Atuou nas peças Os Lusíadas e A Bilha Quebrada sob direção de Marcio Aurélio. Dirigiu as peças Deus de Woody Allen, Se essa rua fosse nossa, com texto criado pelos alunos da Oficina do Sesc Pompéia e O Inspetor Geral, de Nicolai Gogol, como professor da Faculdade Paulista de Artes. Coordena a OSCIP Commune, que desenvolve projetos de formação com atores profissionais e jovens com o patrocínio da PETROBRAS e parceria com o MinC, a UNESCO e a Prefeitura de São Paulo e o Projeto Geografia da Palavra do CAT em parceria com a FUNARTE. Dirige e atua no espetáculo O Arlecchino de Dario em cartaz no Teatro Commune.

 

 

FONTE CONSULTADA:

 

http://www.overmundo.com.br/agenda/palestra-sobre-dario-fo

 

 

 

 

 


www.excellence.fju.edu.tw

 

 

         Dario Fo (Sangiano, 24 de Março de 1926) é um escritor, dramaturgo e comediante italiano; ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 1997. Nasceu numa pequena localidade às margens do Lago Maggiore na província de Varese, norte da Itália. Sua família era composta por seu pai Felice, socialista, mestre da estação e actor em uma companhia amadora do teatro; sua mãe Pina Rota, uma mulher da imaginação e talento (nos anos 1970, teve um livro autobiográfico publicado por Einaudi, contando a história de sua cidade natal); seu irmão Fúlvio; sua irmã Bianca e seu avô materno, que teve uma fazenda em Lomellina, onde Dario passou suas férias da infância.

 

         É autor, diretor e protagonista em mais de cem farsas e comédias apresentadas em todo o mundo, criador de inúmeros textos publicitários, músicas e monólogos, além, é claro, de ser pintor, cenógrafo, figurinista, encenador, militante político e vencedor do Premio Nobel de Literatura de 1997. No Brasil, Fo passou a ser conhecido através da montagem de Morte Acidental de um Anarquista, dirigida por Antônio Abujamra com Antônio Fagundes, de Brincando em cima Daquilo, que valeu o Prêmio Molière à Marília Pêra e de Um Orgasmo Adulto escapa do Zoológico, dirigida por Antonio Abujamra com Denise Stocklos. Em 1989, Dario Fo e Franca Rame, sua companheira de vida e cena, apresentaram no Teatro Municipal de São Paulo a ópera O Barbeiro de Sevilha, de Rossini, e no Teatro Mars, Mistério Bufo e Partes Femininas.

 

 

FONTES CONSULTADAS:

 

http://pt.wikipedia.org/wiki/Dario_Fo

 

http://agendacult.wordpress.com/2008/04/01/arlecchino/

 

 

O   E s p a ç o   C ê n i c o

 

teatro commune

www.commune.com.br

 

 T e a t r o   C o m m u n e

 

Rua da Consolação, 1.218

 

Telefone: (011) 3476-0792

 

  

 

         O Teatro Commune é um espaço multifuncional e conta com café bar, galeria de exposições e sala de espetáculos com capacidade para 110 pessoas. Conta com palco e arquibancadas articuláveis, cadeiras empilháveis, equipamento profissional de som e iluminação, ar-condicionado, tratamento acústico, camarins, toaletes, sistema de segurança com saída de emergência, estacionamento ao lado.

 

         O Coletivo Teatral Commune é um grupo teatral e uma OSCIP (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público), que desenvolve projetos sociais e culturais em parceria com grupos, comunidades, empresas e o poder público, sob a coordenação de Augusto Marin e Michelle Gabriel.

 

 

FONTE CONSULTADA:

 

http://www.vitruvius.com.br/noticia/noticia_detalhe.asp?ID=1739