As Pessoas em Pessoa


Resenha Crítica do texto de Octávio Paz

“O Desconhecido em Si Mesmo”

(in “Signos em Rotação”)

 

 

 

O poeta é um fingidor.

Finge tão completamente

Que chega fingir que é dor

A dor que deveras sente.

 

         Sob o título duvidoso de “O Desconhecido de Si Mesmo” (in Signos de Rotação – Ed.Perspectiva), Otávio Paz mescla obviedades biográficas, considerações formais recorrentes, certa dose de preconceito e alguma informação relevante acerca de Pessoa e seus heterônimos. Um exemplo do mais puro lugar-comum é a constatação (apenas seis páginas após o início) de que “o que Fernando Pessoa escreve pertence a duas categorias de obras, que poderíamos chamar de ortônimas e heterônimas” (p.208). Mas sempre sobra algo a ser aproveitado: a ressalva, logo em seguida, de que não estamos falando do que é anônimo ou pseudônimo. Menos mal.

 

         Em seguida, após discorrer sobre algo que também parece recorrente nas mais básicas cartilhas dos cursos secundários (as características de Pessoa, Caeiro, Campos e Reis), sentencia: “a afirmativa de Caeiro (‘sim, morrerei e morrerá o mundo’)                                     anula a morte; ao suprimir a consciência, suprime o nada (sic). Não afirma que tudo é, pois isso seria afirmar uma idéia” (p.209). Confesso que até agora tento entender esta passagem. E a maneira pomposa como está escrito, soa inibidora para o mais curioso leitor que se atreva a dedicar-se a um entendimento, através de uma conclusão própria (ou que busque um texto esclarecedor de alguma autoridade que o ajude nesta difícil empreitada).

 

         Após passagens como “o que não tem limites não existe”, “Caeiro não é um filósofo: é um sábio” (p.210), chegamos a uma passagem que até tem um sentido: “Pessoa, poeta real e homem cético, precisava inventar um poeta inocente para justificar a sua própria poesia” (p.211). Isto tão somente porque existe, obviamente, um “diálogo” entre os heterônimos; mas tal “sentença” cristalizada parece limitadora do entendimento mais amplo sobre o tema da heteronímia, senão simplista.

 

         Mas não paramos aí: entre obviedades e “súmulas” de afirmações duvidosas seguem passagens como:

 

l     “Caeiro vive no presente intemporal das crianças e dos animais; o futurista Campos, no instante” (p.212);

 

l     “Ao abolir a consciência de si, Caeiro suprime a história; agora é a história que suprime Campos” (p.213);

 

l     “A consciência do desterro é uma nota constante da poesia moderna” (p.214);

 

l     “O estoicismo de Reis é uma forma de não estar no mundo – sem deixar de estar nele” (p.215);

 

l     “A forma de Reis é admirável e monótona, como tudo que é perfeição artificiosa” (p.215);

 

l     “Embora ambos (Pessoa e Reis) usem metros e formas fixas, não os une o tradicionalismo, porque pertencem a tradições diferentes” (p.216);

 

l     “Pessoa concebeu Mensagem como um ritual; ou seja, como um livro esotérico” (p.217);

 

l     “O caráter esotérico de Mensagem nos proíbe lê-lo como um simples poema patriótico” (p.218);

 

l     “O poeta já sabe que não tem identidade” (p. 220).

 

 

         Encerrando as citações, consideremos a que segue: “(...) Apenas dessa perspectiva (a 'busca do eu', conforme citado no parágrafo anterior) pode-se perceber a significação cabal dos heterônimos. São uma invenção literária e uma necessidade psicológica, mas são algo mais. De certo modo são o que Pessoa teria podido ou desejado ser; de outro, mais profundo, o que não quis ser: uma personalidade” (p.219).

  

Como forma de desqualificar as abordagens mais simplistas a cerca dos psicologismos, misticismos ou ocultismos em torno da heteronímia pessoana, passemos a enfocar a figura de Caeiro, comparando-a ao próprio Pessoa. O Mestre de todos os heterônimos acreditava que os seres simplesmente são, e nada mais: irritava-se com a metafísica e qualquer tipo de simbologia para a vida. Caeiro e Pessoa têm óticas opostas, pois, enquanto o primeiro declara-se ligado exclusivamente à realidade sensorial (“quando vejo o que não existe, eu sou doente dos olhos”), o segundo busca um significado nas coisas (“tudo que eu vejo tem um segundo significado a decifrar”).

 

         Se o homem dito civilizado, criação da cultura, constitui o seu mundo pela soma de experiências cognitivas, sentimentos e desejos, o homem-animal, criatura da natureza, recebe um mundo já construído, através dos sentidos. Distanciado da apreensão direta das coisas, o prisioneiro da cultura submeteria seus sentidos e sua experiência ao pensamento simbólico. Assim, entre o indivíduo e o mundo que a natureza criou, entrepõe-se o mundo social, síntese das experiências coletivas e individuais anteriores, moldando a percepção individual em nome de uma pretensa coerência da realidade.

 

         O projeto de Caeiro é, portanto, o retorno à natureza, com o intuito de se recuperar o olhar perdido pelo cultura, num aprendizado dos sentidos além do histórico e da síntese da experiência das gerações anteriores, em nome de uma metafísica que considera a existência das coisas em si, conforme verificamos no poema O Guardador de Rebanhos (Anexo 1).

  

         Consideremos, agora, as palavras de Caeiro no poema “O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia” (Anexo 2):

 

l     Os três primeiros versos funcionam como uma espécie de “chave” que abre o poema e que têm a capacidade de nos transportar para uma outra dimensão imaginada por Caeiro, valendo-se de um processo de matrizes hegelianas, através de um movimento completo reflexionante (o “Aufhebung” do sujeito individual), da maneira que se segue: o primeiro verso afirma (tese), o segundo verso nega (antítese) e o terceiro verso forma um novo conceito (síntese), tudo isso em oposição ao sujeito melancólico que nunca se forma, uma vez que está condenado a um “movimento pendular” eterno entre tese e antítese, nunca alcançando uma síntese, tal qual a já mencionada tradição poética portuguesa de idealização do “futuro do passado”, com reflexos inclusive na prosa lusitana.

 

l     Em contrapartida, os dois últimos versos funcionam como uma “chave de ouro” sem rima, seca e desconcertante, anunciando que não cabe idealizar o passado para se construir o futuro, uma vez que se vive no presente. Mas se a abertura é hegeliana, o encerramento tem raízes kantianas, uma vez que traz implícitas as considerações metafísicas da essência “do que é”, ao invés de enfatizar aquilo o “que deveria ser”, numa opção por um processo de recuo da razão. Desta forma, Caeiro estaria postulando um questionamento crítico dos interesses especulativos da razão, submetendo-a, diretamente, à competência cognitiva. E, apesar da crítica kantiana ser proveniente do despertar do “sono dogmático” do filósofo, há uma clara opção do poeta pelo Metafísico a priori, ao contrário do misticismo (portanto, a posteriori) de Mensagem.

 

 

l     Quanto aos demais versos, há uma explícita negação do historicismo coletivo (vv.8 a 10 e 16 a 18) em prol de impressões mais individualizadas (vv.11 a 15 e 19 a 20), numa recorrência de versos que afirmam a tese do país-Tejo (“dos grandes navios”), nas aberturas das estrofes, seguidos de outros versos de encerramento (dentro das mesmas estrofes) que negam tal tese, ao afirmar o sujeito-rio (“que corre pela minha aldeia”). Os versos de 4 a 7 trazem, implicitamente, a idéia da desvinculação histórica através dos valores metafóricos de “Tejo” e “Naus” (aqueles que vêem no Tejo as naus que lá [já] não estão, não estariam vendo o verdadeiro Tejo), propondo-se, daí, um distanciamento entre o Tejo das Naus (da nação constituída) e o Rio da Aldeia (referente ao novo indivíduo, que deveria desvincular-se do passado para se formar), devendo-se, ainda, observar um jogo existente, ao longo do poema, entre passado/antigo (Espanha/Portugal) e futuro/novo (Mundo/América).

 

         Em "Crítica da Razão Pura", Kant disse ser possível fazer juízos sintéticos a priori, devendo ser esta a primeira tarefa da Metafísica e, para tal, introduz um conceito novo: o de “intuição sensível”, que produziria verdades sintéticas (juízos), dentro da Lógica Transcendental (o fenômeno “Erscheinung”, de ordenamento cognitivo). Ao mesmo tempo, sustentava que os grandes metafísicos do passado falharam, pois a idéia de uma “intuição intelectual” é pura ficção, uma vez que nenhuma inferência além da experiência se justificaria neste segundo conceito, pois produziria inverdades.

 

         O Pessoa de Mensagem é dogmático (enquanto místico) e pendular (passado versus futuro). Caeiro, por sua vez, busca romper o pêndulo e formar um novo sujeito, desconstruindo o sujeito nacional de até então, potencializando-lhe a real capacidade metafísica, a priori. E, comparando-se a obra de Pessoa com a de Caeiro, notamos um movimento reflexionante maior: Mensagem idealiza um passado (tese), enquanto que Caeiro nega os vínculos com o passado (antítese), sendo que a conseqüente síntese ocorreria dentro da cabeça do próprio leitor: a modernidade (dos tempos de Pessoa/Caeiro e de nossos dias atuais) é lógica e fundamentada nas aparências, mas, ao mesmo tempo, anti-moderna (e anti-lógica), pois o que consolidaria a razão moderna é, paradoxalmente, a sua separação da metafísica pré-racional.

 

 

         Portanto, a partir da leitura atenta dos poemas anexos e da análise proposta, temos a nítida impressão de que a heteronímia pessoana não se trata de “questão psicológica, patológica neurótica ou histero-neurastênica de um enfermo possuído” (p.207), ou de uma “questão mística ou ocultista de alguém demasiadamente analítico que evoca espíritos mediúnicos” (p.208), conforme nos apresenta Otávio Paz, ao enumerar as hipóteses menos prováveis (ou mais desbaratadas) para a heteronímia. Parece trata-se, sim, de algo lúcido e intelectualmente planejado, com claros propósitos de proporcionar diálogos de cunho filosófico com vistas à formação do leitor.

 

         Por fim, Otávio Paz refere-se a uma das facetas de Pessoa como sendo um “anglômano, míope, fugidio, vestido de escuro, reticente e familiar” (sic), além de “cosmopolita que prega o nacionalismo, investigador solene de coisas fúteis” ou, ainda de um “inventor de outros poetas e destruidor de si mesmo” (p.203). Pessoa (o ortônimo) deu, na verdade, a sua contribuição para a análise de Portugal como Nação, no que diz respeito ao questionamento da razão de ser do País pois, ao constatá-lo estagnado, propôs-se a engrandecê-lo através do livro Mensagem, dando continuidade à idéia do “movimento pendular” envolvendo passado e futuro, (recorrente na poesia e na prosa portuguesas desde Camões e Padre Antônio Vieira), conforme descrito pelo crítico Álvaro Manuel Machado (Anexo 3), uma vez que a contemporaneidade caracteriza-se por esse comprometimento com a história. Mensagem foi construído a partir de valores simbólicos e míticos (o “Quinto Império” e o “Mito Sebástico”), que mesclam o passado histórico com a invenção do futuro, buscando uma lógica para o País que vivia o “futuro do passado”, sendo a invenção do segundo o que daria sentido ao primeiro.

 

 

 

 

 

A n e x o   1:

 

 

1.     O mistério das cousas, onde está ele?

2.     Onde está ele que não aparece

3.     Pelo menos a mostrar-nos que é mistério?

4.     Que sabe o rio disso e que sabe a árvore?

5.     E eu, que não sou mais do que eles, que sei disso?

6.     Sempre que olho para as cousas e penso no que os homens pensam delas,

7.     Rio como um regato que soa fresco numa pedra.

 

8.     Porque o único sentido oculto das cousas

9.     É elas não terem sentido oculto nenhum,

10.   É mais estranho do que todas as estranhezas

11.   E do que os sonhos de todos os poetas

12.   E os pensamentos de todos os filósofos,

13.   Que as cousas sejam realmente o que parecem ser

14.   E não haja nada que compreender.

 

15.   Sim, eis o que os meus sentidos aprenderam sozinhos:

16.   As cousas não têm significação: têm existência.

17.   As cousas são o único sentido oculto das cousas.

 

 

Alberto Caeiro

 

 

A n e x o   2:

 

 

1.     O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,

2.     Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia

3.     Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.

 

4.     O Tejo tem grandes navios

5.     E navega nele ainda,

6.     Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,

7.     A memória das naus.

 

8.     O Tejo desce de Espanha

9.     E o Tejo entra no mar em Portugal.

10.   Toda a gente sabe isso.

11.   Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia

 

12.   E para onde ele vai

13.   E donde ele vem.

14.   E por isso porque pertence a menos gente,

15.   É mais livre e maior o rio da minha aldeia.

 

16.   Pelo Tejo vai-se para o Mundo.

17.   Para além do Tejo há a América

18.   E a fortuna daqueles que a encontram.

19.   Ninguém nunca pensou no que há para além

20.   Do rio da minha aldeia.

 

21.   O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.

22.   Quem está ao pé dele está só ao pé dele.

 

 

Alberto Caeiro

 

 

A n e x o   3:

 

 

 

 

“(...) ser contemporâneo em literatura não significa nem ‘ser do mesmo tempo’ nem ‘ser do nosso tempo’. Antes implica uma oscilação entre estes dois extremos, movimento pendular duma escrita que secretamente se interroga sobre o passado para analisar o presente e visionar o futuro. Movimento de absorção momentânea de muitos elementos dispersos de toda a cultura dum país na sua relação com culturas estrangeiras, passadas ou presentes”

 

 

“(...) particularmente no que diz respeito à novelística portuguesa, e isto desde um Alexandre Herculano, que tende a centrar-se numa interrogação sobre a razão de ser de Portugal no mundo, um Portugal sucessivamente decadente e regenerado, ciclicamente”.

 

 

 

 

MACHADO, Álvaro Manuel.

A Novelística Portuguesa Contemporânea (p.12).

 

 

 

 

 

B i b l i o g r a f i a:

 

 

 

 

  • PAZ, Octavio. O Desconhecido em Si Mesmo. in Signos em Rotação. 3ª Edição. São Paulo: Editora Perspectiva, 2003.

 

 

  • PESSOA, Fernando. Mensagem. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

 

 

  • MACHADO, Álvaro Manuel. A Novelística Portuguesa Contemporânea. 2ª.Edição. Editora Lisboa: Biblioteca Breve – Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, 1984.

 

 

  • HEGEL. Os Pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 1999b.

 

 

  • KANT, I. Crítica da Razão Pura. 4ª edição. Prefácio à tradução portuguesa, introdução e notas: Alexandre Fradique MOURUJÃO. Tradução: Manuela Pinto dos SANTOS e Alexandre Fradique MOURUJÃO. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1997, p. 30 .