A Letra Escarlata e o Puritanismo


in “A Sereia e o Desconfiado”

 

Análise Crítica do Ensaio de Roberto Schwarz

Acerca da Novela de Nathaniel Hawthorne

 

U S A   C a n o n   R e a d i n g s   3   -   M i d - P a p e r

F F L C H  /   U S P  

 

 

Síntese do livro “A Letra Escarlata”

novela norte-americana de Nathaniel Hawthorne

 

 

O romance começa na Boston do século XVII, um então mero assentamento puritano. Uma jovem mulher, Hester Prynne, é aprisionada levando nos braços o seu bebê, a menina Pearl, fruto de seu “pecado”. Leva, ainda, a letra “A” (de adultério) de cor escarlate bordada em suas vestes, na altura do peito, funcionando como uma espécie de crachá vergonhoso, bem à vista de todos.

 

Durante o julgamento, uma mulher, no meio da multidão, narra a um idoso que Hester está sendo punida por adultério. O marido de Hester, que é muito mais velho do que ela, enviou-a para a América muito antes dele mesmo embarcar, mas ele nunca chegou a Boston. O consenso é de que ele perdeu-se no mar. Enquanto esperava por seu marido, Hester teve um envolvimento amoroso e deu à luz uma filha. Ela não irá revelar a identidade do seu amado e, portanto, a letra escarlate passa a ser o castigo pelo seu pecado e seu sigilo.

 

O idoso é, na verdade, o marido desaparecido de Hester, que retorna de um longo período em meio aos nativos da América do Norte. Ele agora pratica medicina e se apresenta como Roger Chillingworth. Ele revela a sua identidade a Hester e a ninguém mais, mediante juramento de sigilo. Vários anos se passam. Hester se sustenta trabalhando por conta própria e Pearl torna-se uma criança determinada, sendo mais um símbolo do que uma personagem propriamente dita, como se a letra escarlate ganhasse vida própria.

 

Temidas pela comunidade, vivem em uma pequena casa, nos arredores de Boston. Os dirigentes da comunidade tentam levar Pearl para longe de Hester mas, com a ajuda do eloqüente ministro Arthur Dimmesdale, mãe a filha acabam permanecendo juntas. Dimmesdale, no entanto, parece estar definhando e sofre de misteriosos problemas cardíacos, aparentemente causados por um forte conflito psicológico.

 

Chillingworth suspeita que possa haver uma ligação entre os tormentos do ministro e o segredo de Hester e, com a desculpa de cuidar da saúde do ministro, muda-se a casa de Dimmesdale, com o intuito real de tentar descobrir algo, já que é o único conhecedor da medicina natural, que usava ervas e raízes. Uma tarde, enquanto o ministro dorme, Chillingworth descobre uma cicatriz em forma de "A" também marcado no peito do homem, convencendo-o de que as suas suspeitas estão corretas.

 

As angústias de Dimmesdale aprofundam-se, pois Chillingworth o tortura psicologicamente. Enquanto isso, a conduta humilde e caridosa de Hester leva a comunidade a arrefecer o seu desdém por ela. Uma noite, quando Pearl já tem cerca de sete anos, mãe e filha retornam da visita a um moribundo e se deparam com Dimmesdale sobre o cadafalso da vila, na tentativa de punir-se por seus pecados. Elas intervêm e, após salvarem o ministro, Dimmesdale recusar o pedido de Pearl para que ele a reconheça publicamente, no dia seguinte.

 

Um meteoro marca, então um “A” vermelho no céu, que é interpretado pelos habitantes da vila como significando “Anjo”, já que uma figura proeminente da comunidade havia morrido naquela noite. Mas Dimmesdale entende que o significado correto seria “Adultério”. Hester se dá conta de que as condições do ministro estão piorando e resolve intervir. Ela procura o marido e pede para que ele pare de infligir auto-tormento a Dimmesdale, mas Chillingworth recusa o pedido.

  

Hester arranja um encontro com Dimmesdale longe de Chillingworth, na floresta, pois está convicta de que o seu marido desconfia que ela pretenda revelar a sua verdadeira identidade ao ministro. Os ex-amantes decidem fugir para a Europa, onde possam viver como uma família, juntamente com Pearl.

 

Pretendem embarcar num navio que parte de Boston em quatro dias. Ambos sentem um sentimento de libertação e Hester remove sua letra escarlate e solta os seus cabelos. Pearl, que brinca perto deles, não reconhece a mãe sem a letra e, nervosa, solta um grito agudo, o que faz Hester apontar para a letra “A”, no chão. A mãe gesticula para a filha pedindo para ela ir ao seu encontro, mas Pearl não vai até que Hester coloque a letra de volta a seu vestido. Dimmesdale, então, dá um beijo na testa da filha, e Pearl vai imediatamente lavar-se no riacho.

 

Na véspera da partida do navio, os habitantes do povoado reúnem-se para celebrar um feriado e Dimmesdale prega o seu mais eloqüente sermão. Entretanto, Hester descobre que Chillingworth sabe do seu plano e já reservou passagem no mesmo navio. Ao sair da igreja depois do seu sermão, Dimmesdale vê Hester e Pearl em frente ao cadafalso da cidade. Impulsivamente, ele sobe no cadafalso, juntamente com a sua amante e sua filha, e confessa o segredo publicamente, expondo a sua marca “A”, cicatrizada em seu peito. Mas o ministro cai morto, logo após Pearl beijá-lo.

 

Frustrados na sua vingança, Chillingworth morre um ano depois. Hester e Pearl deixam Boston, e ninguém mais sabe o que aconteceu a elas. Muitos anos depois, Hester volta sozinha, ainda vestindo a letra escarlate, para viver em sua antiga casa e retomar o seu trabalho de caridade. Ela recebe algumas cartas de Pearl, que dizem ter casado com um aristocrata europeu, estabelecendo uma família própria.

  

Pearl também herda todo o dinheiro de Chillingworth, embora ele saiba que ela não é sua filha. Há, em Hester, um sentimento de libertação e os habitantes da vila recusam-se a olhar para ela.

 

Quando Hester morre, ela é enterrada em “um novo túmulo, perto de um outro túmulo velho e profundo, no cemitério ao lado do terreno onde a King's Chapel fora construída. E, entre a sua tumba e aquela outra profunda e antiga, havia um espaço, como forma de se assegurar que o pó dos dois que ali jaziam não tivesse direito a se misturarem”.

 

A lápide foi decorada com uma letra "A", e um dos túmulos era utilizado por Hester, enquanto Dimmesdale repousava no outro.

 

 

Síntese do Ensaio de Roberto Schwarz

A Letra Escarlata e o Puritanismo

 

 

As Questões Mais Gerais:

 

 

Iniciando o texto de seu ensaio, Schwarz lembra as palavras de William Bradford (ver nota final), a respeito da emigração dos puritanos ingleses, da Holanda para a América: “Na agitação de seu pensamento e após muito discutir as coisas que ouviam dizer, acabaram por inclinar-se pela mudança para outro lugar. Não por serem novidadeiros, ou por outro humor vertiginoso dessa espécie, mas por variadas, robustas e sólidas razões”.

 

O grupo original estabelece regras de comportamento e organização que provam essenciais a sua conservação. “Como outros grupos utopistas e religiosos, os puritanos reconheciam no egoísmo o correlato subjetivo da propriedade privada. Em conseqüência, aproveitaram o começo da vida nova, na América, para experimentar o comunismo platônico”. (...) “A dificuldade sobreveio quando não se dispuseram a dividir também a escassez em partes iguais. A repartição desigual da escassez é o correlato negativo da propriedade privada” (...) e “superá-la não exigia apenas a partição do que já existia (...) como também a partição de todos os esforços individuais futuros, que deveriam buscar a superação comunitária”.

 

Schwarz prossegue lembrando que o Governador (...) ordenara que cada qual plantasse trigo em seu próprio benefício, e dependesse, neste aspecto, de si mesmo: “isto teve muito bom sucesso, pois fez muito industriosas todas as mãos (...). As mulheres, agora, iam voluntariamente ao campo, levando os pequenos para ajudar na semeadura, quando antes teriam alegado fraqueza e incapacidade”. Daí, a relação entre egoísmo e propriedade privada torna-se, então, evidente.

 

Narra a conclusão de Bradford, que põe em dúvida a afirmativa de um dos pilares da sabedoria clássica: “A experiência tida nesse curso e nessa condição comunitária, tentada por vários anos, e isto entre homens sóbrios e tementes a Deus, pode bem derrotar a fatuidade daquele conceito de Platão e de outros antigos, aplaudido por alguns em tempos mais recentes, segundo o qual eliminar a propriedade e trazê-la para a comunidade, para o bem comum, iria faze-los [os homens] florescentes e felizes”. Note-se, como bem salienta Schwarz, que o apelo de Deus é “a muleta do passo falso”.

 

Curioso é que, antes, Bradford exaltara as virtudes daqueles que, por desprendimento e risco, cuidavam dos enfermos para, em seguida, louvar o efeito estimulador que o egoísmo tem quando associado à propriedade privada. “Os termos ‘necessidade’ e ‘natureza’ cobrem, portanto, dois significados, contraditórios: apresentam como divina, racional e boa a solução precária através da qual o povoado prosperou” enquanto que “as premonições todas de sua natureza faltosa aparecerão como opostas a Deus, irracionais e demoníacas”.

 

Interessante é notar o primeiro capítulo da Letra Escarlata, especialmente no que se refere à alusão feita as ‘primeiras necessidades’: “um solo virgem para cemitério, e outra para sítio de uma prisão”. Abstrai daí, Schwarz: “Cemitério e prisão, morte e crime, decomposição natural e social, estes seriam os limites de todas as utopias”. E, exatamente deste ponto, chega-se às três categorias em torno das quais o livro gira: necessidade física (morte e vida natural), necessidade social (a comunidade repressiva, correspondente à certeza do pecado), e a busca da integridade humana (a comunidade ideal).

 

Lembra, mais adiante, que “embora muito se fale de utopia e felicidade, a esfera da vida social é descrita, no primeiro capítulo, por um agrupamento de palavras lúgubres e pesadas, que por sua conotação afastam a experiência da vida livre e espontânea” (...) São palavras “através das quais vemos a vida dos puritanos” e que “encarnam a ordem social estabelecida”. O seu sentido repressivo aparece quando postas em face da natureza: ‘à porta da prisão, está uma ‘roseira selvagem coberta neste mês de Junho por delicadas gemas’ (...)”. Em suma: “A utopia aparece como imagem negativa da organização social hostil, enquanto que os processos naturais adquirem significado”. Portanto, há a contradição: “do narrador ouvimos que a utopia não é factível, pois morre o que é vivo e deteriora-se o que é humano” enquanto que, ao longo do romance, “a noção de utopia (...) aparece como negativo de cada limitação particular”.

 

Conclui que “o procedimento metafórico parece indicar, à primeira vista, a reciprocidade perfeita do laço”. Assim, “a natureza encarna idéias morais, e o homem aparece explicado por metáforas naturais”. Mas, à segunda vista, “a simetria prova falsa” uma vez que “o procedimento não é, como parece, o inverso do anterior”, sendo, sim, a sua duplicação. E é a partir deste jogo de significações que se compõe Pearl, uma “criatura espontânea, livre e irresponsável”(...) “assemelhada ao ribeirão, às manchas de sol na mata, à brisa”, em oposição à “severidade lúgubre dos puritanos”, sugerindo uma desordem fantasiosa e desagregadora do poder social, despertando temor e fascínio no povoado.

 

No segundo capítulo do livro, A Praça do Mercado, temos um grupo de mulheres “que pareciam tomadas de um interesse peculiar pelo castigo penal que seria infligido a seguir”: a passagem toda transpira ressentimento contra Hester, a mãe solteira e, “desnaturadas, essas damas puritanas voltam a sua energia isabelina contra a natureza, transformando em ódio o seu vigor”. Abstrai-se, então, o seguinte padrão: “a natureza (carne) é culpada; é culposo, portanto, quem a busca. A virtude é a recusa do natural; sua naturalidade , pois, é mentirosa. A verdade associa-se à culpa; daí a fascinação pelo pecado como forma plana de vida”. Portanto, “satisfação pessoal e liberdade estão ligados à ruptura do sistema”.

 

 

Acerca do “Defeito” da Novela:

 

 

Para Schwarz, “a vastidão geográfica à volta do vilarejo encarna a possibilidade prática de escapar à repressão, ao terror estabelecido”. Referindo-se à ‘dialética de culpa e verdade’, teoriza que “a liberdade interior, a liberdade social, e a relação feliz com a natureza externa, são mo mesmo problema”.

 

A verdade literária da novela seria, portanto, a possibilidade de julgamento dos próprios puritanos, que vieram para julgar Hester: “propunham, de início, a imagem de uma compostura estrita mas justificada” e, “agora roídos por dentro, degradaram-se em aparência falsa”. Mas ressalta que, “na medida em que seu uso denotar, ainda, respeito, como se nada houvesse acontecido, encontramos a falha central de A Letra Escarlata: não absorver os significados que criou”.

 

Lembra, mais adiante, que as imagens gloriosas da exposição pública de Hester Prynne prosseguem, “e culminam quando é descrito o luxo com que está bordado o seu estigma, a letra A, de adúltera”. E, “agora que incorporou o pecado à sua figura pública, Hester é a primeira pessoa veraz no povoado, espécie de afronta viva para os demais pecadores, secretos, cuja mentirada se torna manifesta quando a encontram”.

 

O “defeito” da novela de Nathaniel Hawthorne estaria, segundo Schwarz, na própria desobediência às regras do que escreveu: “Persistirá em chamar Hester de pecadora, em dizer ‘desmedidas’ as suas razões libertárias. Como Bradford, Hawthorne tomará o razoável por racional, e não saberá desdobrar ou ver o que Hester anuncia”.

 

 

E continua, a propósito da insuficiência narrativa na descrição da condenada no pelourinho: “o narrador não percebe a integridade da concepção puritana, como não percebe as implicações radicais no orgulho de Hester”. E, ainda, sentencia: “em literatura, quando a tarefa é desvendar o alcance maior de uma situação, a perspectiva de Hester é melhor. Não percebê-lo, como Hawthorne não percebe, é ficar aquém do alento possível ao romance”.

 

Segundo Schwarz, “o exemplo mais forte desta falta de vigor dialético encontra-se nos atos finais de Dimmesdale. Primeiro passo, a bela cena em que encontra Hester na mata. Assistimos ao renascimento da feminilidade dela, da coragem dele, e mais genericamente da vida”. E, por fim, avalia que “esvaziada por seu fecho tímido, A Letra Escarlata permite duas leituras, ambas insatisfatórias em face dos conflitos que o romance propusera. Uma, próxima do tom final do livro, restaura a objetividade do pecado, e acreditaria que Dimmesdale ‘havia feito a barganha ruim’ pois ‘tentado por um sonho de felicidade, ele cedera por escolha deliberada, como nunca o fizera antes, ao que sabia ser uma culpa mortal’”.

 

Ao interpretar que “as noções de pecado, natureza e sociedade não se transformaram na medida proposta e solicitada pelo próprio livro”, Schwarz sentencia que “se não leva a cabo o seu curso lógico, o romance vira tautologia”, pois “um pecado é um pecado” e “o romance elaboradíssimo acaba sem alcançar a grandeza que estava à porta”.

 

 

Conclusão:

 

 

Canônico, A Letra Escarlata traz em si a visão histórico-filosófica da formação da nação norte-americana: em novembro de 1620, desembarcaram dos navios Mayflower e Speedwell 122 homens, mulheres e crianças religiosos puritanos, vestindo preto e ávidos para fundar a segunda colônia do país, a Nova Inglaterra.

 

A forma de trabalho relatada pelo Governador William Bradford (ver nota final) diz muito da atual mentalidade do país e acaba por associar o egoísmo à propriedade privada, conforme nos descreve Roberto Schwarz.

 

Mas é só em 1850 que Nathaniel Hawthorne publica, pela primeira vez, a sua novela. E, apesar deste hiato de tempo de 230 anos, ainda estamos falando de uma cultura com fortíssimos traços puritanos e rígida moralidade. Vale lembrar que enquanto o livro era lançado nos EUA, por aqui era, ainda, o último ano do tráfico negreiro.

 

Esta é uma ressalva inicial que se faz necessária, antes de avançarmos sobre a análise que Roberto Schwarz faz desta memorável novela de Nathaniel Hawthorne.

 

Destaquemos, a priori, a afirmação que Schwarz faz sobre o desfecho da Novela: “Se Hawthorne apresentasse a gênese dos pensamentos libertários de Hester – alimentada na reflexão sobre a sua marginalidade presente e sobre a sociedade que a expulsara – não tombaria, ou seria mais difícil que tombasse nas pífias afirmações finais sobre a permanência do pecado”.

 

Apesar do vigoroso ensaio, Schwarz  não leva em conta as limitações que Hawthorne certamente deve enfrentado por conta do conservadorismo ainda presente no tempo de escrita do livro. Parece ter faltado a Schwarz a percepção de que, talvez, Hawthorne escrevera o que era possível escrever, em tempos de formação do público leitor nos EUA.

 

Schwarz acusa Hawthorne de não perceber a dimensão de Hester. Mas Schwarz, ao não contextualizar a obra no ano de seu primeiro lançamento, parece tampouco perceber que o tema em si já era por demais polêmico e que, a despeito do seu final, A Letra Escarlata é, sim, uma obra progressista e que já prenuncia algum feminismo pois, mal ou bem, estamos falando de uma mulher que passa a especular sobre a sociedade em que vive.

 

É fácil, dentro do espírito libertário dos anos 60 do século XX (data da publicação do ensaio de Schwarz), cobrar posturas mais coerentes de Hawthorne, nos moldes de então. Mas convém lembrar que as mulheres somente começaram a ser notadas como iguais aos homens, em intelecto e paixão, a partir de “Vindication of the Rights of Women”, escrito em 1790 por Mary Wollstonecraf e lançado na Europa em meio a controvérsias. Ou seja, na Europa e bem distante do periférico EUA da época, o que justifica que apenas 60 anos depois livros como A Letra Escarlate pudessem ser publicados.

 

Vale, por fim, lembrar que Friedrich Engels diria, apenas em 1884, que, sob o capitalismo, o casamento por amor (no caso, em contrapartida aos casamentos por conveniência) deveria passar a ser proclamado como um direito humano: não somente um ‘droit de l' homme’ mas, também, um ‘droit de la femme’.

  

Portanto, o rigor dialético de Schwarz não pode abarcar idéias como as que evidenciam que, mesmo em estado “totalmente pecaminoso”, a experiência de Hester e Dimmesdale pode, sim, levar a um estado de crescimento pessoal e de entendimento dos outros.

 

A narrativa é, portanto, feliz ao demonstrar que o ministro Arthur Dimmesdale, que representa a “pureza”, sofre uma queda gradativa e sofrida, da plena graça até a sua total danação e corrupção, especificamente por ter insistido em carregar as suas chagas escondidas dentro das suas vestes enquanto que, hipocritamente, seguia fazendo seus primorosos sermões. Em contrapartida, Hester Prynne, que começa em total desgraça, tem uma trajetória oposta, chegando mesmo a ter um final razoavelmente feliz, apesar de qualquer julgamento moral que possa ter sido feito por Hawthorne, ao final do livro.

 

Um fato, ainda, chama a atenção: enquanto que, a propósito de se formar um País, José de Alencar procura dar “cores locais” engrandecendo a natureza brasileira, a relação com a natureza em Hawthorne é muito peculiar. Como diz Schwarz, a cerca de A Letra Escarlata, “em tempo precário, a vegetação silvestre pode encarnar o que a vida em sociedade nega ao homem”, fazendo nexo entre homem e mundo externo, “mais concretamente, entre repressão social e imagem da natureza”. Esta diferença diz muito acerca dos dois países.

 

Devemos considerar o papel de Nathaniel Hawthorne como um divisor de águas na literatura dos EUA, não só por ser o primeiro a adotar uma prosa mais distinta da dos ingleses, mas, principalmente, por haver concebido Hester Prynne que, por mera justificativa moral ou recurso de verossimilhança, insistiu ser oriunda dos autos históricos do Custom House de Salem.

 

O fato de Hester decidir por ficar na Nova Inglaterra para viver sua sentença acaba transformando a sociedade que a puniu: passa a cuidar dos cidadãos em épocas de surtos de doenças, o que faz com que muitos passem a ver em seu “A” não como a inicial de “adúltera”, mas, sim, de “able” (capaz).

 

A Letra Escarlate é, por fim, progressista dentro de seus limites e mostra a coragem daquela que alguns vêem como uma figura uma precursora das lutas feministas nos EUA.

 

 

 

 

William Bradford (19 de março de 1590 - 9 de maio de 1657) foi um líder dos separatistas colonos da Colônia de Plymouth, em Massachusetts. Foi eleito trinta vezes para ser o governador, após a morte de John Carver. Ele foi o segundo principal arquiteto e signatário do Mayflower Compact de 1620, em Provincetown Harbor. Seu jornal (1620-47) era publicado com o título de Plymouth Plantation. Bradford é creditado como sendo o primeiro a proclamar o Dia de Ação de Graças.

 

Fac-símile do “Mayflower Compact”, de 1620.

 

 

 

Bibliografia:

 

·     Hawthorne, Nathaniel. The Scarlet Letter, 3rd Edit. New York, NY: Riverhead Books, 1989.

 

·     Schwarz, Roberto. A Letra Escarlata e o Puritanismo. in A Sereia e o Desconfiado. 2ª. ed., Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981.

 

·     Amico, Eleanor B. Reader's Guide to Women's Studies. Chicago: Fitzroy Dearborn, 1998.

 

 ·     Barbuto, Domenico. The American Settlement Movement: A Bibliography. Westport, CT: Greenwood Press, 1999