Alberto Caeiro & António Nobre


Construção e Desconstrução do Sujeito Moderno Português

 

De 'Aufhebungs' & 'Erscheinungs'...

 

  1.  Em certo Reino, à esquina do Planeta,

  2.  Onde nasceram meus Avós, meus Pais,

  3.  Há quatro lustros, viu a luz um poeta

  4.  Que melhor fora não a ver jamais.


  1.  Mal despontava para a vida inquieta

  2.  Logo ao nascer, mataram-lhe os ideais,

  3.  À falsa fé, numa traição abjecta,

  4.  Como os bandidos nas estradas reais!

  5.  E, embora eu seja descendente, um ramo

  6.  Dessa árvore de Heróis que, entre perigos

  7.  E guerras, se esforçaram pelo Ideal:


  1.  Nada me importas, País! Seja meu Amo

  2.  O Carlos ou o Zé da T’resa… Amigos,

  3.  Que desgraça nascer em Portugal!”

       António Nobre

 

 

1.     “ Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,

2.     Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia

3.     Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.


4.     O Tejo tem grandes navios
5.     E navega nele ainda,
6.     Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
7.     A memória das naus.

8.     O Tejo desce de Espanha
9.     E o Tejo entra no mar em Portugal.
10.   Toda a gente sabe isso.
11.   Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia

12.   E para onde ele vai
13.   E donde ele vem.
14.   E por isso porque pertence a menos gente,
15.   É mais livre e maior o rio da minha aldeia.

16.   Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
17.   Para além do Tejo há a América
18.   E a fortuna daqueles que a encontram.
19.   Ninguém nunca pensou no que há para além
20.   Do rio da minha aldeia.

21.   O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
22.   Quem está ao pé dele está só ao pé dele.”

       Alberto Caeiro

 

 

1 ) António Nobre:


A obra de António Nobre se insere nas correntes ultra-romântica, simbolista, decadentista e saudosista, sempre interessada na ressurgência dos valores pátrios, além de ser marcada pela lamentação e nostalgia, suavizada pela presença de um fio de auto-ironia, além da característica de marcar uma ruptura com a estrutura formal do gênero poético, através da utilização do discurso coloquial e da diversificação estrófica e rítmica.



2 ) Fernando Pessoa:


É a figura mais importante do Modernismo, em cuja peculiaríssima obra desdobram-se três heterônimos, sendo Alberto Caeiro o mestre de todos os outros. Caeiro busca o campo e a vida ingênua e simples e, para ele, o mundo é só o real-sensível e o que dele percebemos, pelos sentidos.


Caeiro e Pessoa têm óticas opostas, pois, enquanto o primeiro declara-se ligado exclusivamente à realidade sensorial (“quando vejo o que não existe, eu sou doente dos olhos”), o segundo busca um significado nas coisas (“tudo que eu vejo tem um segundo significado a decifrar”).


 

2.A) O “Ortônimo” e Portugal-Nação:


Pessoa (o ortônimo) deu a sua contribuição para a análise de Portugal como Nação, no que diz respeito ao questionamento da razão de ser do País. Ao constatá-lo estagnado, propôs-se a engrandecê-lo através do livro Mensagem, dando continuidade à idéia do “movimento pendular” envolvendo passado e futuro, conforme descrito pelo crítico Álvaro Manuel Machado. Mensagem foi construído a partir de valores simbólicos e míticos (o “Quinto Império” e o “Mito Sebástico”), que mesclam o passado histórico com a invenção do futuro, buscando uma lógica para o País que vivia o “futuro do passado”, sendo a invenção do segundo o que daria sentido ao primeiro.


Ao pessimismo de António Nobre, contrapõem-se os versos de Fernando Pessoa, especialmente os transcritos a seguir, publicados em sua “Elegia na Sombra” (2/6/1935), que refletem a lógica pendular:


Pesa em nos o passado e o futuro.

Dorme em nos o presente. E a sonhar

A alma encontra sempre o mesmo muro,

E encontra o mesmo muro ao dispertar”

(...)

Dorme, mãe Pátria, nula e postergada,

E, se um sonho de esperança te surgir,

Não creias nele, porque tudo é nada,

E nunca vem aquilo que h-á de vir”.

 

2.B) O “Heterônimo” e Portugal-Indivíduo:


Se o homem dito civilizado, criação da cultura, constitui o seu mundo pela soma de experiências cognitivas, sentimentos e desejos, o homem-animal, criatura da natureza, recebe um mundo já construído, através dos sentidos. Distanciado da apreensão direta das coisas, o prisioneiro da cultura submeteria seus sentidos e sua experiência ao pensamento simbólico. Assim, entre o indivíduo e o mundo que a natureza criou, entrepõe-se o mundo social, síntese das experiências coletivas e individuais anteriores, moldando a percepção individual em nome de uma pretensa coerência da realidade.


O projeto de Caeiro é, portanto, o retorno à natureza, com o intuito de se recuperar o olhar perdido pelo cultura, num aprendizado dos sentidos além do histórico e da síntese da experiência das gerações anteriores, em nome de uma metafísica que considera a existência das coisas em si, conforme verificamos no poema O Guardador de Rebanhos:


O mistério das cousas, onde está ele?

Onde está ele que não aparece

Pelo menos a mostrar-nos que é mistério?

Que sabe o rio disso e que sabe a árvore?

E eu, que não sou mais do que eles, que sei disso?

Sempre que olho para as cousas e penso no que os homens pensam delas,

Rio como um regato que soa fresco numa pedra.


Porque o único sentido oculto das cousas

É elas não terem sentido oculto nenhum,

É mais estranho do que todas as estranhezas

E do que os sonhos de todos os poetas

E os pensamentos de todos os filósofos,

Que as cousas sejam realmente o que parecem ser

E não haja nada que compreender.


Sim, eis o que os meus sentidos aprenderam sozinhos:

As cousas não têm significação: têm existência.

As cousas são o único sentido oculto das cousas.

 

3 ) A Análise dos Poemas:


Considerando que o Rio Tejo tem uma função metonímica como símbolo do País, chegamos a um ponto em comum entre os dois poemas: ambos tratam, a seu modo, da questão envolvendo a nacionalidade portuguesa. A abordagem, contudo, é diferenciada, uma vez que Nobre (assim como Pessoa) tem um ponto de vista mais afinado com a Intuição Intelectual a cerca do coletivo, enquanto que Caeiro navega no universo individualizado da Intuição Sensível.

 

3.A) O Poema de Alberto Caeiro:


3.A.1) A Abertura:


Os três primeiros versos funcionam como uma espécie de “chave” que abre o poema e que têm a capacidade de nos transportar para uma outra dimensão imaginada por Caeiro, valendo-se de um processo de matrizes hegelianas, através de um movimento completo reflexionante (o “Aufhebung” do sujeito individual), da maneira que se segue: o primeiro verso afirma (tese), o segundo verso nega (antítese) e o terceiro verso forma um novo conceito (síntese), tudo isso em oposição ao sujeito melancólico que nunca se forma, uma vez que está condenado a um “movimento pendular” eterno entre tese e antítese, nunca alcançando uma síntese, tal qual a já mencionada tradição poética portuguesa de idealização do “futuro do passado”, com reflexos inclusive na prosa lusitana.


3.A.2) O Encerramento:


Em contrapartida, os dois últimos versos funcionam como uma “chave de ouro” sem rima, seca e desconcertante, anunciando que não cabe idealizar o passado para se construir o futuro, uma vez que se vive no presente. Mas se a abertura é hegeliana, o encerramento tem raízes kantianas, uma vez que traz implícitas as considerações metafísicas da essência “do que é”, ao invés de enfatizar aquilo o “que deveria ser”, numa opção por um processo de recuo da razão. Desta forma, Caeiro estaria postulando um questionamento crítico dos interesses especulativos da razão, submetendo-a, diretamente, à competência cognitiva. E, apesar da crítica kantiana ser proveniente do despertar do “sono dogmático” do filósofo, há uma clara opção do poeta pelo Metafísico a priori, ao contrário do misticismo (portanto, a posteriori) de Mensagem.


Em "Crítica da Razão Pura", Kant disse ser possível fazer juízos sintéticos a priori, devendo ser esta a primeira tarefa da Metafísica e, para tal, introduz um conceito novo: o de “intuição sensível”, que produziria verdades sintéticas (juízos), dentro da Lógica Transcendental (o fenômeno “Erscheinung”, de ordenamento cognitivo). Ao mesmo tempo, sustentava que os grandes metafísicos do passado falharam, pois a idéia de uma “intuição intelectual” é pura ficção, uma vez que nenhuma inferência além da experiência se justificaria neste segundo conceito, pois produziria inverdades.


3.A.3) As Demais Estrofes:


Há uma explícita negação do historicismo coletivo (vv.8 a 10 e 16 a 18) em prol de impressões mais individualizadas (vv.11 a 15 e 19 a 20), numa recorrência de versos que afirmam a tese do país-Tejo (“dos grandes navios”), nas aberturas das estrofes, seguidos de outros versos de encerramento (dentro das mesmas estrofes) que negam tal tese, ao afirmar o sujeito-rio (“que corre pela minha aldeia”). Os versos de 4 a 7 trazem, implicitamente, a idéia da desvinculação histórica através dos valores metafóricos de “Tejo” e “Naus” (aqueles que vêem no Tejo as naus que lá [já] não estão, não estariam vendo o verdadeiro Tejo), propondo-se, daí, um distanciamento entre o Tejo das Naus (da nação constituída) e o Rio da Aldeia (referente ao novo indivíduo, que deveria desvincular-se do passado para se formar), devendo-se, ainda, observar um jogo existente, ao longo do poema, entre passado/antigo (Espanha/Portugal) e futuro/novo (Mundo/América).

 

3.B) O Poema de António Nobre:


3.B.1) O Primeiro e o Último Versos:


O primeiro verso (“Em certo Reino, à esquina do Planeta”) remete à magia das histórias infantis, enquanto que o último (“Que desgraça nascer em Portugal!”) funciona como uma constatação da dura realidade do país estagnado. Observando-se os termos “Reino” e “Portugal”, notamos que o primeiro localiza-se no início do primeiro verso, enquanto que o segundo termo está posto no final do segundo verso, exatamente no mesmo local correspondente à “esquina do Planeta”, conforme mencionado no verso de abertura, ressaltando-se a idéia de um país que estaria “fora do lugar”.



3.B.2) Os Demais Versos:

Nobre rompe com a dicotomia passado/futuro, mas está aprisionado pela estagnação política de seu presente, frustrando-se ao não conseguir transcendê-la. É o ponto de vista do indivíduo (vv. 5 e 6), sufocado pela realidade histórica (vv. 9 e 10), totalmente impossibilitado de idealizá-la (v.11) e projetá-la rumo a um futuro promissor (v.14).


Antevê a queda da monarquia (v.13), numa referência explícita a Dom Carlos I, que subira ao trono em 1889 e protagonizara o vexatório episódio do Ultimatum de 1890 (quando a Inglaterra exigia que o governo português retirasse os exércitos que se encontravam entre as colônias de Angola e Moçambique – caso contrário, declararia guerra a Portugal). Tal episódio culminou com o duplo regicídio, de 01/02/1908, quando o monarca tomba assassinado, juntamente com o seu sucessor, o infante Dom Luís, restando como descendente seu segundo filho, que viria a ser o último rei de Portugal: Dom Manuel II.


Ainda no verso 13, Dom Carlos é comparado a mais comum das pessoas, um “Zé da Teresa” qualquer, cidadão tão comum como viria a ser Alberto Caeiro, que “nascera” em Lisboa a 16 de Abril de 1889 – mas logo se mudaria para o campo, onde viveu até ao fim da sua vida, numa espécie de busca pela essência do indivíduo camponês, em oposição ao português da cidade moderna de então.

 

4 ) Conclusão:


Em António Nobre, o “eu” lírico se questiona, objetivamente, como se indivíduo e país se mesclassem, ambos envoltos num compasso pendular entre passado e presente (observar termos sublinhados no primeiro poema). E já que um é o outro, não há síntese possível, pois os dois navegam entre a tese do passado e a antítese do presente, só cabendo a melancolia e o desapontamento, típicos da não-formação.

 

Em contrapartida, para Alberto Caeiro, indivíduo e país não se mesclam: um é um e o outro é o outro, distanciando-se do racionalismo cultural (e, portanto, da “nação-país” formada histórica e geograficamente, conforme os termos sublinhados no segundo poema), enquanto joga o leitor-indivíduo num vazio, com o intuito de lhe dar uma chance de formação (ou de se reconstruir), sem dúvidas metódicas e de modo a propiciar-lhe a liberdade de ter uma verdadeira síntese mental através do estímulo de seu juízo sintético, uma vez que a noção do predicado (fil.) não mais estaria encerrada na compreensão do sujeito, livrando-o do juízo analítico, puramente cultural.


O Pessoa de Mensagem é dogmático (enquanto místico) e pendular (passado versus futuro). Mas Nobre, ainda que inconscientemente, também apresentou uma característica pendular (e melancólica), ao contrastar passado e presente. E embora o pêndulo (tese versus síntese) não seja capaz de formar o sujeito, o poema de Nobre abre uma janela para uma síntese possível, de ruptura com a monarquia (vv.12 a 13). Contudo, a república que estava por vir acabaria por ser tão somente mais um desdobramento histórico do país do que, necessariamente, uma evolução contra a estagnação.


Caeiro, por sua vez, busca romper o pêndulo e formar um novo sujeito, desconstruindo o sujeito nacional de até então, potencializando-lhe a real capacidade metafísica, a priori. E, comparando-se a obra de Pessoa com a de Caeiro, notamos um movimento reflexionante maior: Mensagem idealiza um passado (tese), enquanto que Caeiro nega os vínculos com o passado (antítese), sendo que a conseqüente síntese ocorreria dentro da cabeça do próprio leitor: a modernidade (dos tempos de Pessoa/Caeiro e de nossos dias atuais) é lógica e fundamentada nas aparências, mas, ao mesmo tempo, anti-moderna (e anti-lógica), pois o que consolidaria a razão moderna é, paradoxalmente, a sua separação da metafísica pré-racional.


Curiosamente, a proposta de Caeiro encontra eco nos mais modernos conceitos de Semântica Cognitiva, como a “Embodied Cognitive Thesis” e os seus postulados sobre os esquemas imagéticos: “image schemas are relatively abstract conceptual representations that arise directly from our everyday interaction with and observation of the world around us” (...) “[They] derive from sensory and perceptual experience as we interact with and move about in the world” (EVANS, V. & GREEN, M. Cognitive Linguistics: An Introduction. London: LEA Assossiates Publishers, 2006. pp 176-178).