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Novo texto disponível na secção de Anexos"Acerca do progresso humano"


A Evolução Culminou no Homem? – Progresso, Contingências, Catástrofes e Extraterrestres – Teresa Avelar
«Teresa Avelar, uma das autoras de A Evolução a Duas Vozes – Darwin e a Evolução, regressa ao tema do evolucionismo e do darwinismo, pondo em questão muitos dos preconceitos criados nesta área.
De facto, continuamos a acreditar num progresso linear da história evolutiva pelo facto de sermos um dos seus resultados. Contudo, é possível ter uma atitude diferente e tentar compreender as verdadeiras implicações da evolução darwiniana. Se o fizermos talvez adquiram uma outra importância a protecção e a coexistência das outras formas de vida que connosco evoluíram e partilham o planeta. Um texto claro acerca de um tema sempre rodeado de interrogações.»



  
No âmbito da Palestra intitulada "A Querela Criacionismo vs. Evolucionismo", proferida na Escola Secundária Leal da Câmara 
no dia 25/01/2011, foi produzida uma apresentação - a qual consta em baixo na secção de "ANEXOS".

1. A Querela entre o Criacionismo e o Evolucionismo

   

     Na querela entre o Criacionismo e o Evolucionismo ecoa a disputa medieval entre a Razão e a Fé, questão posteriormente recorrente na história da humanidade. Neste artigo, limitarei a análise aos aspectos actuais da disputa, começando com a delimitação dos termos em questão e das suas variantes, de modo a procurar apurar a compatibilidade entre ambos os domínios. Sublinhe-se desde já que qualquer “ismo” é já uma forma cristalizada e aglutinadora de uma determinada perspectiva sobre a realidade, que tende a ignorar as matizes dos pensadores que se considera caberem “no mesmo saco” ideológico. Consequentemente, quer o Evolucionismo, quer o Criacionismo, sofrem desta dificuldade conceptual que procurarei esclarecer.

 

    O Criacionismo: delimitação do conceito.

    Em sentido lato, o Criacionismo é uma doutrina que afirma a intervenção de uma entidade divina no mundo e na vida, na qualidade de Criador. Deus, num acto de bondade e livre-arbítrio, deu origem a tudo o que existe e o universo é o fruto da Sua obra, na sua complexidade e perfeição. Considera geralmente que Deus está num estado de permanente envolvência com a sua criação, podendo intervir quando Lhe aprouver. Os seus adeptos – os criacionistas – divergem, contudo, quanto à natureza e ao âmbito dessa intervenção sobrenatural. De um lado, encontram-se fundamentalistas religiosos de diversos credos (historicamente, sobretudo cristãos radicais) que fazem uma interpretação literal dos textos sagrados (por exemplo, da Bíblia e sobretudo dos primeiros capítulos do Génesis) como guias inquestionáveis no que respeita à história do universo e da vida, incluindo a dos seres humanos; do outro lado, estão criacionistas moderados que aceitam que a Terra e a diversidade da vida se têm transformado e seguem o seu rumo segundo as leis naturais, apesar de Deus estar na origem da vida (e, presumivelmente dessas leis). Assim, poderemos encontrar ideias divergentes no seio do Criacionismo em relação a diferentes aspectos. Quanto à idade do planeta, alguns criacionistas sustentam que a Terra é jovem (c. 6.000 anos de idade), enquanto outros admitem que é muito antiga (4,5 mil milhões de anos). Quanto à origem das espécies, alguns crêem que cada espécie foi criada separadamente por um artífice inteligente e permaneceu imutável desde então (contra o Darwinismo), enquanto outros admitem que toda a vida na Terra descende de um antepassado comum e é aparentada (Darwin estava certo quanto à “árvore da vida”). Quanto às características mais complexas dos organismos e à sua aparente perfeição, alguns sustentam que toda a adaptação complexa exige a intervenção periódica do Criador, enquanto outros crêem que só determinadas características extremamente complexas e perfeitas (por ex., o olho humano) exigem a intervenção divina e que Deus está sobretudo na origem da vida e da consciência humana.

 

      O Criacionismo: centralidade do Argumento do Desígnio.

     Contudo, apesar destes desacordos, os criacionistas concordam entre si que é necessário um “desígnio inteligente” para explicar pelo menos algumas características da vida, pelo que aceitam o argumento do desígnio ou teleológico (do termo grego telos, que significa finalidade ou objectivo). De acordo com este argumento, o modo regular, ordenado e complexo como o universo está organizado revela o desígnio (finalidade ou objectivo) traçado por um ser divino, Criador do universo. A formulação clássica deste argumento é a analogia do relojoeiro, de William Paley. Este realiza a seguinte reflexão na obra Natural Theology (1802): «Ao atravessar um caminho, suponha que bato com o pé numa pedra, e perguntam-me como a pedra apareceu neste sítio; possivelmente responderia que, até prova em contrário, ela sempre esteve ali (…). Mas suponha que encontrei um relógio no chão e que seria questionado sobre como é que o relógio apareceu naquele lugar; eu dificilmente pensaria na resposta que dei anteriormente (...). Deverá ter existido, em determinado período e num lugar ou noutro, um artífice ou artífices que construíram o relógio com um objectivo que conhecemos; houve quem o soubesse construir e desenhá-lo com vista ao seu uso. (...) Cada sinal do mecanismo, cada manifestação de design, que existe no relógio, existe nas obras da natureza; com a diferença de que, na vertente da natureza, esta é mais vasta e num grau que excede todo o cálculo». Paley convida-nos a examinar um relógio, a reparar na complexidade do mecanismo e na perícia do relojoeiro que o construiu, colocando as suas partes numa disposição exacta de modo a contribuírem para um mesmo objectivo: indicar as horas. Ora, «não pode haver desígnio sem criador (…); organização sem algo capaz de organizar; subserviência e relação para um propósito, sem aquilo que poderia projectar um propósito». A sua conclusão é a de que temos de atribuir a existência do relógio à intenção de um criador, pois a complexidade do artefacto e a sua construção visando determinada finalidade pressupõem uma mente inteligente. E afirma que cremos que o relógio tem um construtor, mesmo que nunca tenhamos conhecido um relojoeiro, nunca tenhamos visto a sua construção ou nem saibamos como funciona. Seguidamente, Paley convida-nos a observar a natureza e a comprovar a complexidade dos organismos que nela habitam, após o que argumenta que tal complexidade requer uma explicação. A analogia surge então: tal como os artefactos humanos foram produto do desígnio humano, a complexidade orgânica existente na Natureza tem de ser resultado do desígnio de um criador; mas, devido ao grande engenho e complexidade encontrados nos organismos, este criador só poderá ser Deus. Obtemos assim o tradicional argumento do desígnio, que pode ser resumido da seguinte forma: 1) o relógio, pela sua complexidade e pelo modo como está ordenado, é uma máquina que tem que ter um autor e construtor inteligente, com capacidades proporcionais à sua obra — o relojoeiro humano; 2) O mundo, pela sua complexidade e pelo modo como está ordenado, é como um relógio; 3) Logo, o mundo também tem que ter um construtor inteligente, com capacidades proporcionais à sua obra — o relojoeiro divino (Deus). É certo que o argumento apresenta diversas fragilidades e incorrecções, nomeadamente no domínio do raciocínio segundo as leis da Lógica. Contudo, o seu apelo como prova da existência de Deus permanece um marco para os crentes.

 

      O Evolucionismo: delimitação do conceito.

     Em sentido lato, o Evolucionismo é uma perspectiva centrada na mudança e transformação contínua do mundo e da vida, segundo processos naturais que originaram a diversidade dos organismos. A teoria da evolução por selecção natural, da autoria de Charles Darwin, é a principal representante desta concepção, lançando a sua base científica. Numa primeira análise, o evolucionismo opõe-se ao fixismo, uma teoria que crê que a Terra e as espécies são imutáveis. Mas será que o Evolucionismo é incompatível com o Criacionismo? Os seus adeptos discordam entre si: de um lado, temos evolucionistas ateus (como Richard Dawkins e Daniel Dennett) que encaram a religião como sendo incompatível com a ciência, negando a intervenção divina e a própria existência de Deus; do outro lado, existem evolucionistas teístas (como Francis Collins ou Theodosius Dobzansky) que crêem que Deus está na origem da vida mas se limitou a “dar o pontapé de saída”, não intervindo mais e deixando-a seguir o seu rumo de acordo com as leis naturais. O próprio Darwin considerava não haver incompatibilidade entre a origem da diversidade das espécies segundo o mecanismo natural e aleatório da selecção natural e a visão teológica da origem do cosmos. Já Stephen Jay Gould considerou que a ciência e a fé pertencem a domínios diferentes e respondem a necessidades humanas distintas, pelo que deveriam não interferir nas respectivas esferas de competências e tolerar-se mutuamente, segundo o princípio NOMA (“Não sobreposição de Magistérios”). Assim, do ponto de vista teórico, não haveria necessariamente incompatibilidade entre o Evolucionismo e o Criacionismo.

 

     O Evolucionismo: contra o Argumento do Desígnio.

     Contudo, os evolucionistas concordam entre si que é desnecessário haver um “desígnio inteligente” para explicar a diversidade das formas de vida e as características dos organismos, pelo que não aceitam o argumento de Paley. E apontam diversas críticas: a diversidade de formas de vida na Terra não é perfeita; não é necessário um artífice divino para haver mudança; o rumo da própria evolução não apresenta qualquer sinal de desígnio - além de que existe sofrimento, crueldade, doença e morte, incompatíveis com um Deus bondoso. Richard Dawkins explica-o na sua obra O Relojoeiro Cego (1986): «O argumento de Paley foi elaborado com apaixonada sinceridade e está imbuído da melhor informação biológica do seu tempo, mas está errado, gloriosa e redondamente enganado. A analogia entre o telescópio e o olho, entre os organismos vivos, é falsa. Tudo aponta para o seu contrário: o único relojoeiro na natureza é a força cega da física, apesar de isso ser lamentado de um modo especial. Um verdadeiro relojoeiro é capaz de prever: ele desenha as molas e engrenagens, e planeia as ligações entre as partes, com um objectivo futuro em mente. A selecção natural, o cego processo inconsciente e automático que Darwin descobriu, e o qual sabemos agora ser a explicação para a existência e aparente propósito das formas vivas, não tinha nenhum objectivo em mente. Não possui mente, nem olhos da mente. Não faz planos para o futuro. Não tem visão, nem previsão, nem sequer uma mira. Se pudesse ser determinado o papel do relojoeiro na natureza, seria o de um relojoeiro cego.» O cerne do próprio Criacionismo parece ter sido derrubado… será? Na verdade, a questão sobre a origem das espécies, isto é, os mecanismos que subjazem à diversidade das formas de vida responde a um problema diferente daquele sobre a origem primeira da vida. Uma solução seria a de que o Criador poderia ter “insuflado vida” a uma ou poucas formas ancestrais, mas não intervir nos pormenores do desenvolvimento da Sua criação - esta foi a solução adoptada por Darwin no último parágrafo da Origem das Espécies, a partir da 2ª edição da obra. Criacionismo e Evolucionismo continuariam a ser compatíveis: a teoria da evolução permaneceria no domínio científico e deixaria em aberto a questão religiosa/metafísica da existência e papel do Criador.

 

      O Evolucionismo: uma teoria científica.

     Os evolucionistas aceitam igualmente a evolução como um facto (comprovado por inúmeras evidências objectivas empiricamente testáveis), bem como a ancestralidade comum de todas as formas de vida na Terra. Mas discordam quanto ao mecanismo da evolução tal como formulado por Darwin, quer pela centralidade conferida à selecção natural, quer pelo gradualismo (“a natureza não dá saltos”, afirmou). Quererá isto significar que não estamos perante uma teoria científica? Uma teoria é uma perspectiva sobre determinadas coisas sustentada por uma estrutura de ideias que interpreta, explica e prevê factos. Uma teoria é científica quando é alcançada segundo o método científico (i.e., um conjunto específico de procedimentos e técnicas) que garante um conhecimento objectivo e rigoroso da realidade. A revisibilidade é uma das suas características, dado que os cientistas deverão estar sempre prontos para reconhecerem e corrigirem os erros, reformulando ou mesmo negando as teorias. Foi o que aconteceu ao Evolucionismo: nos anos de 1930/40, tornou-se clara a necessidade de integrar o Darwinismo original com a nova ciência da Genética, de que resultou uma estrutura teórica actualizada, conhecida como a Síntese Evolutiva Moderna, a qual constitui a base do actual paradigma da teoria da Evolução. Novas descobertas e conceitos foram introduzidos, os quais contribuíram para fortalecer a estrutura básica da teoria da evolução de Darwin. Lembremos que outra característica da ciência é a falsificabilidade: segundo Karl Popper, os esforços dos cientistas deverão ir sobretudo no sentido de refutar as teorias, evidenciando que são falsas. Assim, uma teoria científica é válida enquanto for resistindo às tentativas para a derrubar e é tanto mais forte quanto mais tempo resistir. A teoria da Evolução tem-se mostrado a melhor até à data na área da Biologia - a ponto de Dobzhansky afirmar que «Nada faz sentido em biologia sem ser à luz da evolução». O que é espantoso é como após 150 anos da publicação da Origem das Espécies, a teoria da Evolução aí esboçada se mantém como paradigma e se estendeu a outros campos como a Genética, a Psicologia, a Filosofia e as Biotecnologias, produzindo um enorme avanço no campo do conhecimento e uma melhoria nas condições de vida da humanidade.

 

      A querela entre o Criacionismo e o Evolucionismo: breve perspectiva histórica.

     Note-se no entanto que a querela entre o Criacionismo e o Evolucionismo constitui um dos raros casos históricos de conflito aberto, radical e duradoiro entre a Ciência e a Fé. A teoria evolucionista sustenta que os processos evolucionistas, naturais e cegos, são suficientes para explicar as características dos organismos vivos. Na sua versão mais radical, os criacionistas opõem-se à ideia de que as espécies evoluem e, portanto, não aceitam os fósseis, a anatomia comparada, os testes de ADN ou outras provas científicas que sustentam a teoria da evolução. Mas esta oposição face à evolução é ainda mais feroz quando se trata dos seres humanos, pois consideram inaceitável que o Homem descenda dos símios e de outras formas inferiores e que todas as formas de vida na Terra sejam aparentadas. Alegam que, assim sendo, os humanos seriam apenas mais um animal e não a criação suprema de Deus, feita à “Sua imagem e semelhança”. São afinal as consequências do Evolucionismo que os assustam: o “desencantamento do mundo” operado por uma teoria que retira a centralidade e o estatuto especial ao Humano, deixando-o sem “Pai”, sem um Deus que lhe atribua um propósito, um sentido para a sua existência e o ampare nas suas vicissitudes. Mas, precisamente por esta razão, durante algum tempo, a distinção entre os domínios da Ciência e da Fé estiveram claramente demarcados.

     Contudo, houve desenvolvimentos históricos importantes, sobretudo nos E.U.A., que esbateram tal separação. O primeiro e mais famoso caso que chegou à barra dos tribunais foi o ‘Scopes monkey trial’ de 1925, que se realizou em Dayton, Tennessee, enquanto o mais recente foi o ‘Dover School Board’, ocorrido em 2004, em Dover, no estado da Pensilvânia. Entre estes casos, o criacionismo simples da época de Scope e o ‘criacionismo científico’ da segunda metade do século XX foram substituídos pelo “Intelligent Design”, uma nova estratégia encabeçada pelo US Discovery Institute, que pretende «Ensinar a controvérsia» – que se tornou o novo slogan dos anti-evolucionistas. O movimento do “Intelligent Design” (Desígnio Inteligente) surgiu nos anos 90, proclamando-se como uma alternativa à teoria da evolução vigente nos meios científicos. Os seus adeptos não negam frontalmente a evolução das espécies, nem recusam em bloco os esquemas explicativos para as modificações nas espécies ocorridas ao longo de vastos períodos de tempo. Na verdade, centram-se em aspectos específicos da teoria da evolução, que denunciam, sustentando que a linha evolutiva apresenta uma “complexidade irredutível” (termo introduzido por Michael Behe, em 1990, aplicável a todos os sistemas incapazes de funcionar se lhes fosse retirada uma parte) ou uma “complexidade especificada” (termo criado por William Dembski, em 1996, para indicar estruturas em que a probabilidade de aparecimento espontâneo seriam extremamente remotas). Estas ideias, aplicadas à Biologia, implicavam a pesquisa de estruturas biológicas só compreensíveis pela acção de uma entidade organizadora dotada de inteligência (e propósito).

     Os seus críticos reconheceram de imediato o ressurgimento do velho argumento do desígnio e apontaram a sua relação com o Criacionismo. Já os adeptos do “Intelligent Design” proclamam-na como uma teoria científica, concorrente do Darwinismo, pelo que reclamam o seu lugar nas escolas (e o seu ensino nas aulas de Ciências). Tem-se verificado que os meios económicos e financeiros de que dispõem, aliado aos cientistas que trouxeram para a sua causa, têm permitido a este movimento uma rápida disseminação, sobretudo através da internet – a título de exemplo, note-se que a maioria dos sites e de vídeos no Youtube disponíveis em português é de brasileiros criacionistas. O Evolucionismo continua a ser atacado em diversas frentes: um conhecido exemplo é a rápida disseminação do Atlas da Criação (2007) do principal representante do Criacionismo na Turquia, o escritor Harun Yahya. O livro evita questões como o dilúvio e as interpretações sobre a idade da Terra, sustentando que a criação das espécies é um acontecimento ocorrido no princípio dos tempos e que não houve nenhuma modificação ou evolução posterior nas mesmas. Além disso, lê-se: «[queremos] denunciar as relações ocultas entre o darwinismo e ideologias sangrentas como o fascismo e o comunismo» e, a certa altura, legendando uma foto dos atentados de 11 de Setembro, afirma: «aqueles que perpetuam o terror no mundo são na realidade darwinistas». Esta obra de quase 800 páginas, luxuosa e cheia de ilustrações, tem circulado em profusão entre o público e inúmeros exemplares têm sido oferecidos às universidades, ajudando à sua infiltração na Europa. Alguns evolucionistas contra-atacaram, encarando esta ofensiva como um entrave ao progresso científico e civilizacional: foi o caso da publicidade nos autocarros ingleses afirmando «Provavelmente Deus não existe. Pare de se preocupar e goze a vida!» ou os livros A Desilusão de Deus, do zoólogo Richard Dawkins, e Quebrar o Feitiço, do filósofo Daniel Dennett (ambos publicados em 2006). Em 2009, ano em que se comemoraram o bicentenário do nascimento de Darwin e os 150 anos da publicação da sua obra-prima Origem das Espécies, multiplicaram-se as iniciativas de divulgação do Evolucionismo, através de exposições, palestras e lançamento de livros. Neste âmbito, foi simbólico o lançamento da obra Evolução a Duas Vozes, contendo duas leituras da Evolução – por uma bióloga e por um padre católico – num clima de “Não Sobreposição de Magistérios”. Mas a controvérsia está instalada em vários pontos do mundo, incluindo a Europa – e parece ter vindo para ficar… Até ver!

     Texto de Marina Santos    (em anexo: pdf)



2. Acerca dos primeiros 3 capítulos do Génesis

      No mundo ocidental, a Sagrada Escritura constituiu historicamente uma das fontes privilegiadas para dar resposta às grandes questões da humanidade acerca de si própria e do mundo. Considerada como a Palavra de Deus revelada à humanidade, a sua formação foi obra de muitas mãos e a composição de alguns livros durou séculos (por exemplo, o Pentateuco só conheceu a sua forma definitiva no séc. V a.C. e remonta a uma longa tradição oral). Além disso, se Deus se revelou aos seres humanos, fê-lo através dos homens e à maneira humana, com os condicionalismos histórico-culturais e as limitações inerentes ao conhecimento humano. Como poderia ser de outro modo? Negar o hiato entre Deus - eterno, omnipotente e omnisciente - e as criaturas que criou - pobres mortais que almejam conhecê-Lo – é negar o estatuto da própria divindade.

    Ao primeiro livro da Bíblia foi atribuída a denominação de Génesis, termo grego que significa “origem” ou “nascimento”, sendo portanto o Livro das Origens. Contém material recolhido entre os séc. XIII-V a.C. e procura dar resposta às grandes questões da humanidade: Donde viemos? Qual foi a origem do cosmos? Há um sentido para a existência humana? Existe Alguém que vele por nós? Começa com a História Primitiva ou das Origens (Gn 1-11) e é essencialmente teológica, pois visa transmitir que Deus domina a História. O problema que desde logo se coloca é o problema da interpretação: para que algo adquira significado, tem de ser mediado pela linguagem e processado pelas estruturas cognitivas do sujeito. Assim, o conhecimento humano é sempre limitado e sujeito ao erro, tanto mais em questões que envolvem um ser transcendente, pelo que a fé deve ser complementada com o uso da razão para que seja esclarecida.

   A História das Origens começa com a Criação do universo e dos seus habitantes, segundo a tradição Sacerdotal, no tempo do exílio na Babilónia e representa a sensibilidade religiosa ligada ao Santuário (Gn 1, 1-2, 4a). Afirma-se Deus como único, Criador e Senhor de todas as coisas, condensando o acto criador numa semana para realçar o culto sabático. Assim, Deus criou em seis dias: primeiro, a luz (símbolo do resplendor do próprio Deus); a luz para o dia e para noite (1º e 4º dia); a água (2º dia) e os peixes (5º dia); a terra com plantas e verdura (3º dia); as aves do céu (5º dia); os animais domésticos e o ser humano - homem e mulher (6º dia). Afirma-se que «Deus criou o ser humano à sua semelhança, criou-o à imagem de Deus; Ele os criou homem e mulher» (Gn 1, 26-28) pelo que o ser humano é o último a ser criado e o vértice da criação, aquele que tem capacidades mais desenvolvidas para «dominar a terra» e apreciar a obra divina. Note-se que tomando o termo «dias» e a própria narração como um esquema mais poético do que histórico (na verdade, o termo original pode ser traduzido como uma medida de tempo - que poderá representar milhões de anos), esta narrativa não se opõe à ideia de evolução e às teorias científicas correlativas, mas tão só indica que somos “criaturas de Deus” e que há uma certa ordem pela qual o mundo e a vida surgiram.

    Inicia-se de seguida um novo relato da criação (Gn 2, 4b-3, 24), que inclui a Formação do homem e da mulher, bem como a Origem do pecado, segundo a tradição Javista – originária de Jerusalém, séc. X-IX a.C., que designa Deus por Javé. De sentido mais psicológico e teológico, com uma linguagem mais popular, a sua interpretação histórica e literal tem sido fonte de acesos debates, interpretações díspares e nefastos preconceitos. Aqui, a preocupação centra-se no próprio homem e as metáforas estão ligadas ao campo. Primeiro, Deus é o Grande Oleiro, a modelar a humanidade a partir da terra (pois Adão – adam - significa Humanidade e tem como raiz adamah, barro): «o Senhor Deus formou o homem do pó da terra e insuflou-lhe pelo nariz o pó da vida, e o homem transformou-se num ser vivo» (Gn 2, 7).  Deus torna-se então o grande Jardineiro, plantando o jardim do Éden, que servirá de sustento à humanidade. A preocupação passa depois a incidir sobre a mulher, concedendo-lhe um lugar especial ao lado do sexo masculino, mas que tem dado azo às mais díspares interpretações. Afirma-se que «O Senhor Deus disse: «Não é conveniente que o homem esteja só, vou dar-lhe uma auxiliar semelhante a ele» (Gn 2, 18) e «Da costela que retirara ao homem, o Senhor Deus fez a mulher» (Gn 2,22). Assim, a mulher surge como o ponto alto no plano divino da Criação e, se a mulher sai do homem, a sua natureza e dignidade são idênticas. Na verdade, é na passagem seguinte, em que a origem do mal é atribuível à transgressão humana, que a imagem da mulher parece fragilizar-se. É ela que come, e dá a comer ao seu marido, o fruto da árvore proibida, permitindo-lhes adquirir conhecimento e valores morais, mas fazendo com que fossem castigados e expulsos do jardim do Éden. Eva, mãe de todos os viventes, afasta para sempre o homem da árvore da vida.

    Mas, uma vez mais, esta história não é mais do que uma metáfora do Homem como “um ser para a morte”: aquela que nos traz à vida condena-nos igualmente, pela nossa própria condição, à morte – o destino, afinal, de todos os seres vivos. A vida é um “milagre”, mas breve e frágil. O ser humano almeja ter poderes divinos, para alcançar a imortalidade e (re)fazer o papel de Deus na criação. A procura de superação dos limites, assim como o fenómeno religioso, são inerentes à condição humana.

 

 Texto de Marina Santos   (em anexo: pdf)                                      
Para saber mais sobre a disputa entre Criacionismo e Evolucionismo, consulte os documentos assinalados em baixo:

- "Interacademy Panel Statment on the teaching of evolution"- declaração a favor do ensino da evolução nas escolas;
- "Ten Court Decision regarding Evolution/Creationism" - 10 decisões dos tribunais dos E.U.A. sobre a problemática;

- "Kitzmiller vs. Dover Area School District" - Memorandum do juiz sobre o caso de Dover.

      Compêndio da "Science and Creationism: A A View from the National Academy of Sciences" (2ª edição)



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Marina Santos,
09/03/2011, 16:26
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Marina Santos,
25/01/2011, 11:06
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Marina Santos,
02/06/2010, 10:32
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Marina Santos,
01/07/2010, 10:07
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Marina Santos,
23/01/2011, 13:16
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Marina Santos,
01/07/2010, 10:05
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Marina Santos,
02/06/2010, 10:31