Revista Contemporânea, Novembro 2016
Considerando como ponto de partida o trabalho de atelier do artista Pedro Gomes tentar-se-á estabelecer a relação do seu processo de trabalho com a apresentação pública do mesmo, nomeadamente: na exposição “Inscape” na Galeria Presença no Porto, entre Janeiro e Fevereiro de 2016, e a na exposição “A Torre” na Galeria Miguel Nabinho, entre Setembro e Novembro de 2016. Tomando como ponto de chegada, retomar-se-á ao atelier e ao posicionamento do artista perante as suas obras no exterior e no confronto com o seu público.
O meticuloso processo de trabalho do artista passa, em grande medida, por uma persistência no desenvolvimento técnico em que as metodologias laboratoriais e científicas vão aparecendo consoante as necessidades que o próprio desenho exige. A utilização de utensílios de medicina ou de química permite um tempo de experimentação que se torna muito profícuo na possibilidade do acontecimento conceptual. Não significa isto que o processo se encontre desfasado do conceito. Antes pelo contrário, nesta relação ambos se contaminam e se impulsionam, como forma de se transcenderem e de se revelarem. O saber-fazer só se vislumbra no seu desconhecimento, ou seja, quando o erro aparece como algo novo e original, que não se repete a si próprio e não se perpetua como técnica, mas como outro erro. Neste sentido, não se trata nem de uma linguagem, nem de um código, mas sim da negação de ambos. O erro por vezes aparece como forma de desestabilizar a imagem escolhida, como forma de criar uma nova imagem. De facto, o artista, apesar de recolher muitas imagens da internet ou de outros meios de comunicação, na maior parte das vezes a fotografia aparece como um processo precedente ao desenho, em que o artista sabe exactamente que imagem mais se proporciona às suas premissas e, nesse sentido, ele próprio fotografa a imagem que irá produzir. A passagem desta imagem real para o desenho não está isenta de decisões, pois o artista escolhe que partes da imagem quer revelar e que outras partes quer omitir. Este jogo, que esconde e revela em simultâneo, traz consigo a promessa de uma imagem comprometida e de linhagem duvidosa, pois as escolhas realizadas assim o determinam.
A exposição “Inscape” era composta exclusivamente por plantas - cactos, palmeiras e pequenos ramos de árvores - que oscilavam entre superfícies tácteis e abstractas e, por outro lado, imagens muito vistosas (à falta de melhor palavra). Em ambos os casos a questão sensorial era notória, fazendo com que a construção racional do desenho desaparecesse. Estas inebriantes imagens revelam um olhar atento e preciso em algo constantemente mutável e instável. Contudo, duas referências primordiais contradizem-se: a forma geométrica da estrutura do desenho dos cactos remete-nos para uma consciência formal e cerebral, enquanto a cor amarela que vai aparecendo no traço do desenho leva-nos para uma inconsciência da loucura, facilmente entendida como emocional. Nesta contradição encontramos, por trás da superfície negra do papel, as diversas tonalidades entre o racional e o emocional, e o modo como nos posicionamos, enquanto espectadores, entre estes dois estados: ou nos socorremos do rigor do desenho que nos estrutura; ou nos perdemos na cor que sobressai e submerge na superfície bidimensional da folha de papel. Existe, porém, uma fronteira ténue entre esta linha colorida que faz o desenho e a pintura como disciplina artística. O artista não ultrapassa esta fronteira: por um lado, não parece ser na superfície pictórica que ele encontra o espaço desta bidimensionalidade duvidosa; e, por outro lado, é na instabilidade de uma linha formadora de imagens que ele investiga a permeabilidade dos objetos e das pessoas que os rodeiam.
Atendendo a que existe uma continuidade no trabalho de atelier e que o artista Pedro Gomes não trabalha com séries fechadas, mas que os trabalhos se vão contaminando e compreendendo uns aos outros e uns nos outros, a exposição “A Torre” continua nesta linha muito frágil, porém ainda mais refinada, entre o desenho e a pintura. A cor preta do papel pintado é substituída, em alguns casos, por uma cor amarela ácida e sólida que preenche a totalidade da folha de papel. Sendo o amarelo a cor associada à loucura e à instabilidade dos corpos, ao mesmo tempo que é a cor do sol e da vida, as estruturas arquitectónicas desenhadas parecem estranhamente solidificadas no solo, quase em desequilíbrio, como que se lhe faltassem pequenos pontos que mantenham a estrutura intacta. De facto, o artista escolhe muito pertinentemente omitir partes muito subtis da imagem original que permitem criar esta visibilidade em suspensão. As inquietantes paisagens urbanas tornam-se intermitentemente instáveis e desestabilizam o olhar mais atento. Os edifícios que deveriam presentear o espectador com a edificação de valores singulares e inequívocos aparecem como estruturas em desmoronamento, como se estivessem à beira do colapso. Contudo, a exposição é pontuada por três desenhos de cor preta, de troncos de árvore, que estabelecem uma relação estável mas conflituosa com os demais desenhos. Os troncos das árvores vão oscilando entre uma sedutora superfície texturada e a linha ligeiramente amarelada promovendo o prometido equilíbrio entre a realidade e o desenho. Mas o desfasamento torna-se perceptível e questiona directamente o espectador e fere as suas prováveis ansiedades e inseguranças. Já não estamos perante um possível dogma verdadeiro, mas sim uma acção aparentemente verosímil e deslumbrante.
Considerando como ponto de chegada que existem imagens selecionadas e enquadradas da realidade que são desenhadas por um processo minucioso e demorado de atelier, que a escolha tanto da imagem como da técnica utilizada não é inocente, e que os desenhos dos cactos, palmeiras, edifícios e troncos são apresentados como instáveis e duvidosos, é possível induzir que existe uma preocupação na relação com o espectador que vê estas imagens. Ao tentarmos compreender a natureza única dos objectos - “Inscape” - edificamos um único ponto de vista ou um símbolo de perseverança - “A Torre” -, mas podemo-nos perder num espaço dúbio, incerto, mas promissor e desafiante. Talvez como projecção de nós mesmos ou, pelo menos, talvez a projecção do mundo que nos rodeia.
Hugo Dinis
Outubro 2016