O Computador no Jardim de Infância 


"Se tivesse que dar um único presente ao meu  filho,daria um livro. 

(...)É bom ter em mente que os cálculos para 

a produção dos computadores 

que tanto nos fascinam hoje 

foram feitos apenas com 

lápis e papel" 

(Bill Gates) 

Os textos que se seguem são parte integrante do trabalho de Seminário / Projecto Final, realizado no âmbito do Curso de Formação Científica e Pedagógica para Educadores de Infância, realizado por Paula Cerveira e orientado  pelo Professor Doutor Belmiro Rego, em Dezembro de 2002.


 

  1. A utilização do computador no Jardim de infância

            Como noutros graus de ensino, o computador pode ser introduzido na Educação Pré-Escolar, como meio auxiliar do processo de ensino e de aprendizagem, sendo mais uma ferramenta, entre tantas outras, ao dispor da criança e do educador.

 

            As “Orientações Curriculares para a Educação Pré-Escolar”, dão-nos algum incentivo quanto à introdução e utilização das TIC, no Jardim de Infância, ao referirem que “(...) as novas tecnologias da informação e comunicação são formas de linguagem com que muitas crianças contactam diariamente” e que “a utilização de meios informáticos a partir da educação pré-escolar, pode ser desencadeadora de várias situações de aprendizagem, permitindo a sensibilização a um outro código, o código informático, cada vez mais necessário” e o qual “(...) pode ser utilizado em expressão plástica e expressão musical, na abordagem ao código escrito e na matemática” (1997:72).

 

            Hoje, muitas crianças têm acesso e estão familiarizadas com os computadores em casa. No entanto, muitas outras, principalmente as provenientes de ambientes familiares desfavorecidos, não têm esse acesso, estando assim em desvantagem.

            Nesse sentido, a introdução e utilização do computador, no ensino Pré-Escolar, será um meio promotor de igualdade de oportunidades para todas as crianças no contacto com as novas tecnologias, as quais mais tarde farão parte do seu meio natural. Consequentemente, será também uma forma de contribuir para a diminuição do “(...) número de cidadãos excluídos desta sociedade baseada na produção e circulação da informação” (Miranda, 2002:33).

 

            O “Livro Verde para a Sociedade de Informação em Portugal” refere que o potencial das tecnologias de informação deve ser explorado em contexto educativo, na medida em que as mesmas podem contribuir para melhorar a qualidade do ensino e preparar para a vida activa. Assim, “uma das prioridades a assumir consiste, por isso, na generalização da utilização dos computadores e no acesso às redes electrónicas de informação pelos alunos de todos os graus de ensino” (1997:44).

 

            O que se tem verificado, é que apenas os graus de ensino mais avançados têm sido contemplados com medidas deste género.

            Apenas alguns Jardins de Infância poderão ter acesso a estes equipamentos, mediante a apresentação de projectos curriculares que integrem as novas tecnologias. É o caso, por exemplo, de projectos apresentados ao Instituto de Inovação Educacional, especificamente ao projecto “Inovar Educando / Educar Inovando”, por alguns Jardins de Infância como o de Póvoa de Santarém, e os quais tendo sido aceites, permitiram obter financiamento para a aquisição de novas tecnologias de informação, nomeadamente computadores e software educativo (cf. Rodrigues, 2000:49).

 

            Esperamos que esta situação se modifique, e que as acções governamentais comecem, desde já, a contemplar a Educação Pré-Escolar, nos seus projectos de introdução das novas tecnologias nos diferentes graus de ensino, uma vez que “a educação pré-escolar é a primeira etapa da educação básica no processo de educação ao longo da vida (...)” (in Orientações Curriculares para a Educação Pré-Escolar, 1997:15).

 

            Não basta, no entanto, equipar os Jardins de Infância com computadores. A formação específica (inicial e contínua) dos educadores de infância reveste-se, aqui, de uma importância primordial. É necessário que tenham formação informática e pedagógica, de modo a que saibam adequar os meios aos objectivos e competências que pretendem desenvolver junto das suas crianças. É necessário que tomem consciência de que o uso dos meios informáticos é mais um recurso didáctico complementar, o qual deve ser usado adequadamente, no momento apropriado e integrado no projecto e actividades curriculares, respeitando, acima de tudo, as características, ritmos e diferenças de cada criança.

            A utilização do computador no Jardim de Infância vai, deste modo, trazer um novo dinamismo às práticas pedagógicas, levando o educador a reflectir e a repensar as suas opções e práticas educativas, seleccionando as que mais se adequem ao contexto e ao grupo de crianças, tendo sempre em conta os objectivos gerais da Educação Pré-Escolar, como intenções que devem orientar a prática profissional dos educadores de infância.

            Em suma, “aprender a utilizar ferramentas tecnológicas e tomar decisões no sentido de se mudarem as práticas da sala de aula é um desafio a abraçar pela maioria dos professores”, esperando que estes “(...) desenvolvam capacidades para iniciar e dar continuidade a práticas efectivas e eficientes de integração das tecnologias na actividade docente” (Moreira, 2002:7).

 

            A introdução das TIC em idade Pré-Escolar, tem suscitado algumas controvérsias. “(...) Uns defendem a integração precoce das tecnologias no currículo; outros advogam o seu deferimento para níveis etários mais avançados” (Moreira, 2002:2).

 

            Os que se opõem à utilização das tecnologias com crianças, baseiam-se nos seguintes pressupostos:

-         as tecnologias são desadequadas em termos de desenvolvimento;

-         os benefícios educativos ainda não foram cientificamente provados;

-         erradamente, valoriza-se o edutainment (educação e divertimento);

-         a tecnologia tem vindo a ser integrada em detrimento de outras áreas como a da música, a da arte, a do desporto, etc. (cf. Moreira, 2002:3).

            Armstrong e Casement, Jane Healy e a organização Alliance For Childhood, são alguns dos que se opõem, de um modo veemente, à utilização dos computadores pelas crianças (idem, ibidem).

 

            A Pedagogia Waldorf e o Professor Valdemar Setzer, fazem também críticas ao uso da tecnologia na Educação Pré-Escolar, condenando, inclusive, a utilização do computador até à idade dos 14 anos.

 

          “Não estamos de acordo com nenhum dos argumentos em favor do uso de computadores na educação elementar ou no lar com crianças antes da puberdade. Pelo contrário, cremos que essas máquinas são extremamente nefastas para o desenvolvimento sadio e gradual de crianças e jovens, pois forçam atitudes adultas. Não há a mínima necessidade de se aprender a usar um computador muito cedo – afinal, todas as pessoas que estão propondo hoje o seu uso precoce não o tiveram em sua infância ou juventude!” (Setzer, 2002:8).

 

            Apresentamos assim algumas dessas críticas, relativas ao uso de computadores por crianças:

-         forçam um raciocínio matemático, o qual vai inibir a liberdade da criança levando-a a comportar-se como um adulto;

-         estimulam um raciocínio matemático formal e reduzido;

-         o desenvolvimento de um raciocínio matemático antecipado, priva a criança de um desenvolvimento mais global;

-         inibem a criatividade, a imaginação e a liberdade de experimentar;

-         estimulam uma “rigidez mental”;

-         levam a criança a tornar-se crítica e a ter uma visão negativa do mundo;

-         implicam sérios riscos à saúde mental e física;

-         induzem à indisciplina

(cf. Setzer, 2002:4/6).

 

            Por outro lado temos os optimistas em relação à introdução das tecnologias com crianças. Entre outros, Moreira faz referência a Haugland, Shute e Miksad, os quais nos indicam alguns dos benefícios da utilização do computador por crianças do Pré-Escolar:

-    contribui para o desenvolvimento global;

-    ajuda a desenvolver a motricidade fina;

-    estimula o raciocínio matemático;

-    aumenta a criatividade;

-    induz à construção de um pensamento crítico;

-    ajuda na resolução de problemas;

-    promove o desenvolvimento da linguagem;

-    desenvolve capacidades cognitivas e sociais;

-    promove ambientes colaborativos

(cf. Moreira, 2002:4).

 

            Os computadores, tal como outros meios e em qualquer idade, têm as suas vantagens e desvantagens, podem ser bem ou mal utilizados, tudo dependo do uso que fazemos deles.

 

            No Jardim de Infância, a área do computador deverá ser considerada como uma das várias áreas de desenvolvimento existentes na sala de actividades, a qual a criança poderá explorar de várias formas, segundo as suas necessidades e interesses. Nesse sentido, deverão ser estabelecidas, juntamente com as crianças, regras de acesso ao computador, “(...) para que elas possam reflectir e discutir não só acerca das condições de igualdade de oportunidades de acesso como também acerca da relevância para o utilizar em determinados momentos como apoio ao seu processo de aprendizagem” (Ramos et al, 2001:37).

 

            Durante a utilização do computador, o educador deverá ter atenção a alguns aspectos importantes que preservem a saúde das crianças:

-         o tempo médio de utilização não deverá ultrapassar 10 – 20 min.;

-         a postura das crianças deverá ser o mais correcta possível: deve estar confortável, com os pés no chão, os braços apoiados e o monitor à altura dos olhos.

            Deste modo poderão prevenir-se problemas de visão, de obesidade, posturas incorrectas, etc. (cf. Ramos et al, 2001:39).

 

            O educador deverá ainda ter em conte alguns princípios didácticos básicos, para a utilização do computador no Jardim de Infância:

-         não ter como objectivo o ensino da informática;

-         fazer uma planificação de actividades diversificadas e de curta duração, de modo a manter a atenção e motivação da criança;

-         o computador deve ser integrado com naturalidade na dinâmica de trabalho;

-         diversificar as formas de actividade: em grupo, sob a orientação do educador, com a utilização de programas específicos e utilização livre de jogos ou programas criativos

(cf. Meirinhos, 2001:4/5).

 

            Uma das estratégias que se tem revelado eficaz, é a utilização do computador em pequenos grupos. Além de facilitar a organização e dinamização do grupo, promove a socialização das crianças. Incluir, nesses pequenos grupos, crianças com alguma literacia em informática, vai também promover o espírito de entre – ajuda em relação às outras crianças.

            A “(...) utilização do computador em pequenos grupos tem permitido verificar que as crianças interagem entre si, não só ajudando-se mas comemorando os êxitos em conjunto, ou inventando novas brincadeiras, conversas ou histórias” (Rodrigues, 2000:50).

 

            De extrema importância e à qual se deve dar especial atenção, é ao facto de toda a interactividade entre criança / computador, dever ser sempre realizada com o acompanhamento do educador. A presença deste será sempre necessária e fundamental no processo de aprendizagem. Orientando, encurtando caminhos ou incentivando brincadeiras, o educador nunca deverá estar ausente. A sua tarefa deverá ser a de guia, por este imenso “mar comunicativo” onde a acumulação de informação já deixou de ser um procedimento válido de aprendizagem, onde o texto escrito adquire o seu valor com o reforço da imagem e do som, onde a interactividade, a participação, o trabalho de equipa, a colaboração, troca de ideias e desenvolvimento de projectos, são verdadeiras fontes de aprendizagem.

            Assim, a presença humana é insubstituível e a mesma, entre outros, deve contribuir para o desenvolvimento do processo de auto – aprendizagem sempre numa perspectiva lúdica: “aprende-se a brincar – brinca-se aprendendo”.

  1. A utilização do computador no Jardim de infância 
  2. Terceirização
  3. Software educativo       

 

Links para crianças

www.junior.te.

         www.duende.com.br