Campenato Mineiro de 1948


América 3 x Atlético 1

O time do Atlético era melhor. O tri era dado como certo. Mas o América uniu todas as torcidas contra o Galo, mudou o campo e o juiz. E ficou com o titulo de 1948.

Para o Atlético aquela decisão valeria a concretização de um sonho: o tri campeonato perseguido desde de 1915, quando foi disputado o primeiro titulo oficial em Minas. Para o América, a quebra de um jejum de 23 anos, longa e sofrida espera de uma festa inédita á que tivera em 1925 diante do mesmo adversário e que lhe valeu o inédito decacampeonato.

E porque esta decisão de 1948 é guardada com insuspeita nitidez em muitas memórias, relatada nos mínimos detalhes em histórias de pais para filho, volta e meia comentada nas rodinhas de torcedores ?

Para cronistas da época, muito da mística que envolveu esta partida se deve ao fato de que exatamente em 1948 começava a nascer o verdadeiro profissionalismo em Minas. O Atlético armou uma equipe poderosa, hoje somente comparada ao Cruzeiro de Tostão e Dirceu Lopes. O América não ficou atrás: mandou buscar jogadores no Rio, juntando-os aos bons valores que já possuía.

A mocidade do presidente americano Alair Couto, levou-o a empreendimentos arrojados. Do acanhado estadinho Otacilio Negrão de Lima, construiu um palco para 15 mil torcedores. Para motivar ainda mais a disputa do titulo, havia a presença do Cruzeiro, que só abandonou o páreo uma semana antes da grande decisão, afastado pelo Atlético num 2x2 em que o gol do galo só foi obtido aos 43 minutos do segundo tempo. O resultado além de tirar as chances do Cruzeiro, elevava o América a vice-liderança, um ponto atrás do Atlético, isolado e cantando o tri campeonato.

Na semana da decisão, o presidente do América, Alair Couto, resolveu convocar a torcida mineira com palavras candentes, elevadas às manchetes em jornais como Diário da Tarde, Estado de Minas e Folha de Minas: “Torcidas do Cruzeiro, Vila Nova, Sete de Setembro, Metalusina e Siderúrgica, unam-se em torno do América. Não podemos permitir a festa do tricampeonato em nossas barbas”. Uma declaração de guerra.

No dia 22 de novembro de 1948, o presidente do Atlético, Gregoriano Canedo, rompeu com o Departamento de Árbitros. Só aceitaria um juiz: Alcebíades de Magalhães Dias, o Cidinho. Acontece que Cidinho tinha a fama de atleticano. O América reclamou: “Mas logo o Cidinho, a bola é nossa!”. No mesmo dia, enquanto se preocupava em vetar o juiz indicado pelo Atlético, o América vivia uma grave crise interna. O técnico Iustrich por pouco não atira o titulo pela janela e exatamente no ano em que estreava como técnico. Brigou com o jogador argentino Valsechi, um dos ídolos da equipe, acusando-o de chegar á concentração depois da hora. A crise foi contornada pelo Conselho Deliberativo do clube. E a guerra continua. O presidente do América garantia que daria o total da renda aos jogadores. A resposta do presidente do Atlético foi imediata: “Daremos o dobro!”.

No dia 26, a pedido do América, a Federação Carioca de Futebol liberou o juiz inglês, Mr. Barrick para apitar o clássico mineiro. No mesmo dia, o Atlético enviou um oficio a Federação Mineira, solicitando que um dos bandeirinhas fosse o Cidinho. O América entra na jogada e diz que só aceita se o outro auxiliar fosse Willer Costa.

No dia do jogo, 28 de novembro, o tempo amanheceu chuvoso e clima tenso. Ás 13 horas o campo já estava completamente lotado. Policia e Corpo de Bombeiros chegaram juntos para evitar que a torcida, que ficou de fora, forçasse os portões. O América entra em campo primeiro com seus jogadores confiantes: Tonho. Didi e Lusitano. Jorge. Lazarotti e Negrinhão. Helio. Elgem. Petrônio. Valsechi e Murilinho. A fumaça dos fogos era sufocante quando Atlético entrou em campo: Kafunga. Murilo e Ramos. Mexicano. Zé do Monte e Afonso. Lucas. Lauro. Carlayle. Alvim e Nivio. Foi um dos espetáculos mais emocionantes já vividos pela torcida mineira e os atletas que participaram daquela decisão.

No primeiro tempo, logo aos 3 minutos, Lusitano desarma Carlayle, leva a bola até o meio campo e entrega para Elgem, que aproveita uma falha de Ramos e enfia para Murilinho: América 1x0. Carlayle vai buscar a bola. Fala com Zé do Monte e se sente que os atleticanos não se abateram com o gol. Afinal, possuíam um time superior tecnicamente. A reação era questão de tempo e tempo era o que não faltava. Mas os minutos começavam a passar e nada do empate. O América se superava com incrível espírito de luta, acabando por se premiar, aos 42 minutos com o segundo gol. Lazarotti passa a bola para Helio que chuta e vence o goleiro Kafunga: América 2x0. Enfim, a resposta do Atlético. O América ainda comemorava o seu gol quando Lucas chutou forte, Tonho não conseguiu segurar a bola que sobrou para Nivio marcar o primeiro gol atleticano. Primeiro tempo: América 2x1.

Vem o segundo tempo. Petrônio, artilheiro comprado ao Vila Nova, passa pelo zagueiro Murilo e chuta rasteiro para marcar mais um gol americano. Os jogadores do Atlético partiram para cima do Mr. Barrick. O primeiro foi Zé do Monte que tenta explicar que a bola não entrou. Batera nos pés de um policial que estava junto á trave e saíra. Mas como fazer o juiz entender ? Aos 22 minutos, nova confusão. Nívio passa por Jorge e bate forte. Era o segundo gol atleticano. A torcida festeja, antevendo a reação e o empate. Mas Mr. Barrick anula o gol, dando impedimento de Nívio. Carlayle, desta vez, chega primeiro e seu inglês não é suficiente para fazer o juiz mudar de opinião. Então, resolve se reunir com o resto do time. Não dentro do campo, mas nos vestiários. O galo não voltou e Mr. Barrick apenas fez cumprir o regulamento. A paralisação aconteceu aos 23 minutos do segundo tempo. O juiz esperou mais 15 minutos pelo retorno do Atlético, resolvendo dar a partida por encerrada, enquanto a policia tratava de impedir que torcedores alvi-negro invadissem o campo. Mesmo assim, o juiz levou alguns sopapos.

O enterro do Galo foi até o Parque Municipal, no centro de Belo Horizonte. Um enterro que acabou em pancadaria. O caso foi para o Tribunal. O Atlético queria disputar o restante do jogo. O América, muito justamente, exigia que o considerasse o campeão. Os americanos somente puderam comemorar o titulo de verdade, seis meses depois.


(Fonte: http://www.museudosesportes.com.br)
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