Sobre o romance   


Algumas opiniões e críticas sobre Os Dias de Saturno

Os Dias de Saturno

QuidNovi

2009

 
 

Os Dias de Saturno

Paulo Moreiras

QuidNovi, 2009, 208 págs., €14,95

Romance

Uma narrativa histórica que tem como pano de fundo o Portugal setecentista.

 

LONGE vão os anos de D. Fuas Bragatela, herói do anterior romance de Paulo Moreiras ("A Demanda de D. Fuas Bragatela", Temas & Debates, 2002). Mais de três séculos. Saturnino, o protagonista (na capa perscrutando, desafiador, quem se atrever a pegar no livro...), nada tem a ver com o anti-herói a que associávamos o autor, voluntarioso em tempos onde a morte violenta ou por epidemias e doenças várias deixa pouco espaço ao valor da vida. É precisamente a força de viver, apesar dos desígnios de força contrária, que marca o incipit, o impulso primordial do livro, que se abre em Tomar em finais de 1699 — com o encontro de dois alquimistas, por coincidência (ou não) um médico e outro cozinheiro do mesmo Rei D. Pedro II. Juntos assistem a um eclipse estranho e inquietante que — com a diferença de menos de um mês — coincide com a passagem de um século para o seguinte. Mas é também a força do destino que determina que o fim do romance coincida com a maldição de Saturno, Cronos para os gregos, filho de Urano e Gaia. Em Roma, não se prescindia das festividades em sua honra, as saturnais ou saturnálias, que coincidiam, também elas, com o solstício de Inverno. Eis uma linha de sentido anunciada e provavelmente seguida, mas da qual pouco ou nada restou na tonalidade global do romance, tristonho e lúgubre, pelo que o adjectivo 'soturno' me parece mais adequado que qualquer outro. Também as quatro partes em que o livro está dividido e cujos títulos remetem para a alquimia — respectivamente, Nigredo (negritude, putrefacção, caos), Albedo (brancura, depuração, alma), Citredo (dourado, transmutação em ouro, arquétipo) e Rubedo (vermelhidão, fogo, fusão do espírito e da matéria), os quatro passos no caminho da pedra filosofal — auguravam muito mais do que conseguiram nestas páginas. Estes quatro livros dentro do livro, porém, merecem uma reflexão, dado terem uma respiração própria numa sucessão espácio-temporal curiosa. Ao primeiro, a que já me referi como passado em Tomar no limiar de Setecentos, o autor dedica 33 páginas em cinco capítulos. Todos os outros se passam em Lisboa, e num ápice: exactamente 20 anos mais tarde, em Novembro de 1719, ocupando o núcleo do romance (2ª e 3ª partes). E o último constitui uma espécie de registo de desgraças que parecem latentes desde sempre mas que agora se desatam, rematando com o peso assinalado do seu nome. Para além de que entre Albedo e Citredo acontecem aventuras fascinantes, como a transmutação de ferro em ouro falso, que trará algum humor e desopressão ao dramatismo, mas também trágicas, como a experiência assumida ao beber o destilado de ouro em pó, azougue, enxofre e antimónio, acreditando ser o elixir da vida eterna. Em suma, trata-se de uma ficção com todos os ingredientes para se tornar arrebatadora, mas que fica francamente aquém do que decerto Paulo Moreiras pensou fazer com ela. Uma pena, já que o livro guarda uma legibilidade que o resgata ao esforço de o ler. Mas fica-se com vontade de que o autor segure com força as linhas de sentido deste livro e nos delicie no próximo, como fez no primeiro.

Luísa Mellid-Franco, in Expresso, Actual, 14 de Novembro de 2009

 
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Os Dias de Saturno, Paulo Moreiras

"Num romance histórico cuja acção tenha lugar há alguns séculos, o autor corre sempre o risco da tentação - por pretensas e justas razões de verosimilhança - de adoptar uma linguagem demasiado «barroca» (para os falantes de hoje), podendo tornar desse modo a leitura menos fluente. Mas Paulo Moreiras (n. 1969), que assumiu correr esse risco em Os Dias de Saturno, conseguiu encontrar um registo estilístico escorreito que em nada entorpece a leitura; a existir dificuldade, deve-se à riqueza vocabular do texto, o que, obviamente, é uma virtude numa época em que muitos dos «romances» se cingem, miseravelmente, a um vocabulário de telenovela.

Moreiras leva-nos ao último ano do século XVII, ao Convento de Cristo, e pelos olhos coevos de dois personagens que tiveram existência real - o médico da Casa Real, Curvo Semedo, e Domingos Rodrigues, cozinheiro de D. Pedro II, ambos com interesses alquímicos - mostra-nos um eclipse solar. Ao mesmo tempo, num casebre nos arredores de Tomar, uma mulher dava à luz uma criança que vinha ao mundo com um estranho sinal no peito: para uns, vinha marcado pela «ira de Deus», para outros, aquele era o «símbolo do chumbo e de Saturno». A mãe tenta afogá-lo mais tarde num rio, mas Rodrigues resgata das águas aquele embrulho de trapos. O cozinheiro decide adoptar a criança e chamar-lhe Saturnino. A acção (que vai incluir uma intriga amorosa) continua 20 anos depois, no Bairro Alto e noutras zonas da Lisboa anterior ao terramoto. Moreiras trabalha bem os ambientes, as tensões entre os personagens, a arquitectura da narrativa; este é um romance que vale a pena ler.” [QuidNovi, 206 págs.]

José Riço Direitinho, in Revista LER, Novembro 2009

 

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Os dias de Saturno

"Assustada, sentiu um mau presságio a escorrer-lhe pelas pernas" (p. 15).

É com esta frase que Paulo Moreiras termina o primeiro capítulo do seu mais recente romance, Os Dias de Saturno, editado por Maria do Rosário Pedreira na Quidnovi.

Depois de "A demanda de D. Fuas Bragatela", Paulo Moreiras consegue, mais uma vez, encantar-nos com um romance picaresco, cuidadosamente escrito numa linguagem onde abundam termos de antanho mas perfeitamente legível na actualidade.

Fruto, certamente, de muito esforço, estudo, investigação mas, julgo, acima de tudo, olhos e ouvidos atentos ás histórias que pululam tantas vezes nas conversas com quem nos cruzamos, à volta de uma ginjinha ou, quiçá, de uma perdiz estufada.

São poucas as duzentas páginas para o prazer que desfrutamos numa leitura que parte logo do trote para o galope.

Não é, em absoluto, um livro esotérico, apesar das bastas referências ao assunto, aliás, um segundo tema principal já que o primeiro é mesmo o amor. E a vida!

Com Paulo Moreiras visitamos as quitandas do Rossio do século XVIII, cheiramos a putrefacção nocturna das ruas lisboetas, entramos nas tabernas e embebedamo-nos até ao duelo.

Na badana da capa surge-nos a foto do autor com um sorriso aberto. Os Dias de Saturno, apesar do sério de que trata, é um livro assim.

Saturnino, do romance, nasceu com uma marca no peito. Paulo Moreiras, com este segundo romance, confirmou uma marca de qualidade literária.

Venham mais! Se possível, com uma ginjinha!

30 de Outubro de 2009, in http://adasartesleituras.blogspot.com

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Os Dias de Saturno

Neste segundo romance Paulo Moreiras transporta-nos para finais do século XVII e inícios do século XVIII, época muito bem ilustrada pela sua narrativa fluída, o seu acutilante sentido de humor e a linguagem da época, que, como é habitual neste autor, está povoada de termos e expressões típicas, muitas das quais já caídas em desuso.

Não se julgue porém que a linguagem empregue ou os temas focados (alquimia e gastronomia) tornam este romance hermético ou maçador, pelo contrário, todo o livro é repleto de acção e a história desencadeia-se a um bom ritmo, sem descrições excessivamente longas que poderiam tornar a leitura monótona.

É um belo romance, de leitura muito agradável, um retrato de época preciso e que nos deixa na ânsia de um próximo romance deste autor.

Regina

10 de Outubro de 2009, in http://kdelivro.blogspot.com

 

 

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