Os Dias de Saturno  


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Os Dias de Saturno

Paulo Moreiras

QuidNovi

 

Capítulo I

 

O negro assinala o princípio da Obra e, neste labirinto do entendimento, Deus acaba sempre por escrever de forma correcta apesar das linhas tortas e ínvias que a vida tece. Durante o reinado d’el-rei Dom Pedro II e o reinado de seu filho, o magnânimo Dom João V, o do misterioso e real número quinário, assistimos a faustosos, notáveis e prodigiosos acontecimentos que, de muitas e diversas maneiras, foram dados a conhecer ao comum dos mortais. Acontecimentos obrados tanto pela natureza dos orbes celestes como pela natureza dos homens, graças ao seu espírito e engenho, e que para a posteridade ficaram como honrados e assinalados testemunhos. Mas outros, bem mais escusos e perdidos no ocaso dos tempos e dos homens, se perderam para todo o sempre, como pó, sem memória, sem dor e sem alegria. Esta é mais uma dessas histórias, esquecida num acaso de negregadas coincidências e que começa justamente num aziago dia: 7 de Novembro de 1699.

A meio daquela manhã, um corvo saltitava sobre as telhas cobertas de musgo de um velho casebre abandonado na floresta, grasnando à procura de pequenos ratos ou sardaniscas. No interior, uma jovem quedava-se nervosa e impaciente, perturbada pelos seus pensamentos e pelo crocitar daquele bicho malvado.

Um ruído seco de gravetos a quebrarem-se despertou Leonor do seu tormento e o corvo levantou voo, assustado. Um cavaleiro aproximou-se com mil cautelas, agasalhado sob um pesado e escuro albornoz que não permitia divisar-lhe o rosto. Achegou-se ao casebre e desmontou, mirando em todas as direcções. A porta abriu-se de repente e Leonor surgiu com os olhos vermelhos de quem havia chorado todas as mágoas do mundo. A sua proeminente barriga indiciava que estava prenhe e o parto para breve.

– Enfim, chegaste! – exclamou com voz sumida.

– Para dentro. Não quero que nos vejam. – Agarrando Leonor pelo braço, o cavaleiro empurrou-a com alguma crispação nas palavras. Antes de fechar a porta, ainda deu uma vasta mirada por aquelas brenhas, não fossem elas esconder alguma inusitada testemunha. – Que te deu para aprazar assim tão infeliz encontro? Sabes os riscos que corri para aqui chegar? As mentiras que inventei? – desmandava o cavaleiro enquanto baixava o capuz e, enfim, revelava o rosto e algumas das vestes. Era um noviço da Ordem de Cristo.

Leonor levou as mãos às rubras faces, trémula, e chorou com mansidão, numa ladainha entrecortada por pequenos soluços. Depois principiou a falar:

– Sinto que chegou a hora e queria que estivesses comigo…

O noviço mantinha uma distância cautelosa, de forma altiva, circulando de um para o outro lado, também ele nervoso e agastado. A pouca luz que os madeiros do casebre permitiam entrar provocava-lhe um ar soturno e melancólico.

– Nunca quis que nada disto acontecesse, mas tu, insana, quiseste levar a gravidação até ao fim.

– Agora a culpa é minha?

Aquele velho e amolambado casebre, perdido entre moitas e matagais nos arredores de Tomar, era a única testemunha da culpa daqueles dois amantes desavindos. Fora ali que todos os congressos amorosos se haviam consumado, que todas as promessas haviam sido feitas e que todos os enganos haviam começado. A carne, a paixão dos sentidos, tudo muda e transforma. O desejo é uma força bruta que nos tolhe o espírito e a razão e nos leva a dizer pela boca aquilo que o coração esconde ou não sente. Em tempos apaixonaram-se num catrapiscar de olhos pelas ruas da vila. A ânsia e o acaso trataram de acalentar aqueles dois com um fogo baixinho e lento, a aboborar, propiciado pelas frequentes visitas que Leonor fazia ao Convento de Cristo a levar algumas hortaliças que daí demandavam. Certo dia, em que o noviço estava sozinho de serviço à ucharia, o diabo espaventou-se por entre couves de nabo e braçadas de tronchudas e deu largas à sua pantominice, cerzindo o destino de ambos. A partir dali os encontros começaram a ser mais regulares até que o noviço adregou tomar Leonor nos seus finos e alvos braços. Agora estava o caldo esturricado.

– Tentei de tudo para impedir que isto acontecesse – lamuriava-se Leonor, enquanto amparava com as duas mãos o pesado fardo da barriga. – Bebi chá da erva-das-sete-sangrias, esfreguei-me com pós de beladona e arruda, tal como tu tinhas dito, mas nada fez efeito. Não me sinto bem. – Cambaleante, dirigiu-se para o monge e agarrou-lhe as vestes junto ao coração. – Deus não nos perdoará, irá castigar-nos por esta ousadia, não tenho dúvidas.

O monge, latagão novo e taludo de porte, deitou-lhe as mãos e afastou-a com rudeza:

– Que sabes tu de Deus? – O noviço persignou-se e depois de algum silêncio voltou à carga. – E quem me garante que esse filho é meu? Tanto te deitaste comigo como te podes ter deitado com outros antes de mim, eu bem sei aquilo que queres, mas não estou para aturar mais essas patranhas. – Leonor não conseguiu retorquir. O coração não lhe permitia nenhum som, tão proceloso e cheio de dolos ficara ao ouvir aquelas palavras feitas punhais que a dilaceraram num repente. – Já consegui muito dentro do convento para agora deitar tudo a perder por causa de uma rameira com manhas de raposa. Vai-te com o diabo...

E, como cão por vinha vindimada, o monge deu às de vila-diogo sem olhar para trás. Lá dentro, o casebre enegrecia-se com uma tristeza mais cerrada do que a noite mais escura do ano. Leonor caiu de joelhos com as mãos tapando o rosto inundado de lágrimas. Como era possível aquilo estar a acontecer? Como era possível tanto desprezo num homem intitulado de Deus?

Tantas eram as questões que Leonor nem deu pela partida apressada do monge a galope, como o demónio fugindo da cruz. Tal como a escuridão que a rodeava, também o silêncio se tornou cada vez mais denso. Naquele instante percebeu com que linhas se havia de coser, que a rota dos fados é sempre a mesma para os pouco afortunados e para todos aqueles que nascem nas ervas.

O crocitar do corvo e uma dor aguda no baixo-ventre despertaram-na daquele torpor. A criança que Leonor carregava dentro de si buliu e deu sinais de inquietação. Leonor sentiu que a hora do parto estava prestes e levantou-se esforçada. O regresso até casa ainda seria demorado e, com o coração naquele estado, as cangostas duplicavam-se em lonjuras.

Foi com muita dificuldade que Leonor se fez ao caminho, mas a dor e o sofrimento deram-lhe forças que ela desconhecia e os matos foram ficando para trás. Quando as vistas alcançaram as pedras da Vila de Tomar, estranhou que a claridade do dia se tivesse começado a esvair lentamente. Tão absorta nas suas ganas e no seu destino, nem reparou no sepulcral silêncio que tudo rodeava, na ausência dos acostumados sons, próprios das matas e das brenhas. Nem um só animal se ouvia ou vislumbrava; nem uma rola, um corvo, uma pega-rabuda, nem um melro, um pica-pau, um gaio ou um pardal, nada, absolutamente nada. Se tomasse atenção, conseguiria apenas ouvir o rufar do seu coração.

Aos poucos, um manto de negrume acercou-se de todas as coisas, descendo com lobreguidão, como se tudo morresse olvidado nas trevas que vinham de assalto. Leonor estacou, aturdida, e os seus olhos procuraram uma explicação nas altas esferas da abóbada celeste. Não quis acreditar no que viu. Um disco escuro, perfeito, que só podia ser a Lua, colocado ante o Sol, cobrindo-o com rigor exacto, roubando-lhe a luz dos dias. Uma brisa fria e ligeira levantou-se e de sorte correu por entre as árvores, lambendo-lhe o rosto cheio de medo. Nunca havia vislumbrado nada assim em vida e já contava vinte e quatro primaveras. Sentiu-se perdida e desprotegida naquele vazio de escuridão, sem ninguém que a pudesse amparar. Nem os mais velhos seguramente se alembrariam de semelhante fenómeno. Aquilo só podia ser um sinal de Deus que se manifestava. Estava irado com a postura das almas danadas.

– Santa Mãe de Cristo, ajudai-me!

Apesar de Leonor se persignar com fervor, a noite crescia sem compaixão pelos vivos ou por aqueles que estavam prestes a nascer. E foram estes últimos que uma vez mais deram aviso.

Assustada, Leonor continuou a olhar o Sol a desaparecer por detrás da Lua. Assustada, sentiu um mau presságio a escorrer-lhe pelas pernas.

 

 

Os Dias de Saturno, de Paulo Moreiras

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