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Pregões

 
Os portugueses receberam bem os pregões. 
Nos tempos da monarquia já circulavam vários negociantes tendo cada um o seu pregão.
 
As peixeiras  anunciavam:
 
" - olha sardinha boa bela e fresquinha";
 aos rapazes ou ardinas que vendiam jornais dos vendedores da lotaria:
 
"- olha a sorte grande segunda-feira anda à roda sai ao vigarista."
 
 Assim talvez mais em calão os farrapeiros negociantes de farrapos, cera, peles – lenticão que era o grão do centeio ou fungão assim lhe queiram chamar os vendedores de tripa, cravo, cominhos, colheres de pau etc.
 
 Os amoladores afiavam tesouras e facas.
 
Contrabandistas com produtos de Espanha.
 
 Latoeiros fazendo ferradas, caldeiros, pingos concertando malgas, bacias e pratos guarda-chuvas etc. «Guilreteiros», «sapateiros», «alfaiates». Desde os mais remotos tempos se distinguiram os ajuntadores de trapos do Barco, Peso, Coutada, Vales do Rio e Domingueiro, que no Estilo dos negócios o lindo pregão pelas ruas faziam:
 
 “Há por aí farrapos cera peles de coelho lenticão ou «tarro»(eram as borras das Pipas).
 

Agora com a desertificação muita falta se tem encontrado destes bons costumes dos nossos antepassados.

Para muitos, talvez julguem que eram mais atrasados. Mas não: No tempo o que não havia eram os meios de comunicação que há hoje.

 

Os pregões saloios que Lisboa foi ouvindo ao longo dos tempos, em especial nos últimos 110 anos que vão desde meados do século XIX até cerca de 1960. Contudo, não se deve esquecer, que os pregões de Lisboa são muito antigos e que já no século XVI eram apregoados os produtos vindos nas naus da Índia.

Em 1980 ainda se ouvia, por uma ou outra ruela dos bairros alfacinhas, a voz de uma ou outra velha varina, tentando perpetuar os seus encantadores mas já moribundos pregões… era o seu canto de cisne!

Mesmo hoje,  ainda se ouve muito raramente, os pregões de um amolador de facas e tesouras ou dum vendedor ambulante de mantilhas e capachos. São raridades etnográficas em rápida extinção…

Mas vamos aos pregões saloios:

Ora aqui estão algumas falas que apregoavam:

Água: Áá-Áá! – Áúúú! (1903); Á–ú! – Áááuga! (1903).

Alecrim: Mér-c´Àlecriim! (1903); Mérc-c´ò mólho d´alecriim! (1903).

Alhos: Mé-c´á réstia d´ààlhos nóóvos! (1903).

Amêijoas da Ribeira de Frielas: Quem quér a-mêêi-joas, pr´à àrrõz?! (1903); Amêêijôas p´r àrrôôz! (1940).

Amoras: Riic´àmóra da hóórta – Amóóra-friia! (1903).

Azeite, petróleo e vinagre: Azêêêti dôôci! (1903); Aa-zêite dôôce! (1903); Aazêite duuce! – Aazêêite dôôôce! Óh-pritróliine! – Azêite dôô-c´i bom vináágre! (1903); Óh petroliiii-ne… Azêite dôôce i vináágre! (1903).

Azeitonas: A trinta réis ô salamiin! Quem quer azêitõonas nóóóvas? (1903); Déz tostões – salamiim! Quem quer azêitõonas nóóóvas?! (1940).

Broas: Nem p´lô Natal… há brõa igual! Ó meniinas, vinde comprár as brõas do Manél, que curam a tosse – e sábem a mél! (1903).

Vassouras, abanos, chapéus de palha: O abano fáz ô bento – bis, Par´ácender ô fõgão…, Báárre, báárre, bassourinha – bis, Bassourinha bárr´ô chão…, Ólh´ò lindo cestiinho!!! (1940).

Favas: Fáva tôrradiinha! (1903); Fáva riiica! – Fááá-va rii-ca! (1903 e 1940).

Figos: Quem quér fiigos, quem quér álmôcáár? Quem quér fiigos de capa rôôta?! (1903); Óh figui-nhu de capa rôôta!… Quem quér fiigos –, quem quér álmôçáár…! (1940).

Galinhas: Éh! Galiiinhas! (1903); Mérca frâangos! (1903); Galiiiiiiiii-nhas! Quem nas quér i com ôvo?! (103).

Hortaliças: Ólh´à cou-ve lombar-da! (1903); Mérc´à mão de náá-bos! (1903); Méérc´ò mólho de náábos! (1903); Ólh´ò timááti, quem quér timááti? O móó-di cinou-las… (1940); Ólh´àbóbra, quem quér abóóbra? Côrteirão de pimentos… Ólh´àlfácia, quem quér àlfáácia…? (1940); Cá estão nábos, cenouras, tomátes ou pepinosi tud´ô mais que a hórta dá! (1940).

Laranjas: Mééc´à la-rããnja da Chii-na! (1864); Quem quér do rããmo?! Quem quér larããnjas nóóvas?! (1940); É do rããmo!… Quem quér laranja bõõa?! (1940).

Leite: Éééé, chêga lá vaquiii-nha, chêêga! – Anda lá, Rosita… Então estás a fazer-te esquerda?! (estas palavras, este pregão de 1903, eram dirigidas à vaca que o saloio trazia até à porta da freguesa. Leite mais fresco não havia… Este uso de vender leite levando as vacas ou as cabras às portas dos compradores, terminou em 1920, com proibição imposta por lei, apesar de não serem raras as transgressões à mesma).

Marmelos: Óólha ô marméé-lo – assadiinho nô fôrno! (1940); Quem quér – ôs ricos marmelos – assadiinhos no fôrno?!!! (1940).

Melancia e melão: Mérc-c´ ò par de melancii-as! (1903); Mérc-c´ ò par de melõões! (1903); É da Váárzia… Melanci´à – fááca! (1903).

Mexilhão da Ribeira de Frielas: I-érre, I-éérre, me-xi-lhão! Ih! Êrre-érre, mexilhão! P´r´à patroa i p´r´ò patrão!… (1903); Éérri éérre, mexilhão! Cá está ô mexilhãão, óh mexilhãão! (1940).

Morangos: Mérc-c´ò cabáz de môran-gos! (1903); Ólh´òs môrãangos! São de Siintra! (1940).

Ovos: Mérc´à dúzia de óóvos! (1903).

Pão: Pãizinhos quentiinhos – com linguiiça! (antes de 1903).

Pêras: A vintém o quarteirão! – Quem acáb´às pê-ras?! (1903).

Perús: Méér-c´ò casál de perús!… – Perú salôôiô! É sa-lôôiô!!! (1903).

Queijo saloio: Méérca ô quêi-jo sa-lôôio! (1864); Quem n´ô quér salôôio – ?! (1903); Queijô sa-lôô-io! – Ái! Ô quêi-jô salôôio…!!! (1903); Óh quêêijô salôôi-ô! Óh quêêijô frêês-co! (1940).

Rebuçados caseiros: A tôstãão, cada matacãão! (1940).

Tremoços: Óh tremôô-ço saalôôio! – Tremôôç´salôôi-ô! – Tremôô-çôs salôôi-ôs! (1940).

Uvas: A quin-ze réis – Quem acá-b´àzúú-vas?! (1903); Quem quér úvas de vi-nha! Quem quér bôô-as úúvas! (1903).

Os saloios, depois de venderem as hortaliças e terem almoçado, encetavam o regresso ao Termo percorrendo as ruas da cidade apregoando: Léév´às fôôlhas – Léév´às cááscas… E as donas de casas davam as sobras imprestáveis do que haviam comprado, pois “não ficavam com lixo em casa”, o qual se destinava aos animais da horta..[60]

 
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