São Frei Gil

Eça de Queirós


Página editada por Pastel de Vouzela

 Capela de São Frei Gil, em Vouzela

 

São Frei Gil, de seu nome Gil Rodrigues de Valadares, nasceu em Vouzela entre 1185 e 1190. Era filho de D. Rui Peres de Valadares, alcaide de Coimbra e mordomo de D. Sancho I. Estudou medicina em Paris, professou na Ordem de São Domingos e faleceu em Santarém, em 14 de Maio de 1265. Conhecido pelo "Fausto Português", foi canonizado em 1749.

 

O texto que se segue, da autoria de Eça de Queirós, faz parte de um conjunto de manuscritos que podem ser consultados aqui. Na página principal, permite-se o acesso a outras obras do escritor. Em 1891, em carta dirigida a Oliveira Martins, Eça dava conta do seu projecto de narrativas sobre a vida de santos. São Frei Gil terá sido o primeiro. No entanto, à data da sua morte (16 de Agosto de 1900) o texto estava inacabado, tal como se apresenta.

 

  

S. FREI GIL

 

Eça de Queirós 

PLANO DA OBRA 1

Nascimento de Gil, num solar ao pé de Vouzela. – O pai e a mãe de Gil. – Infância de Gil. – Sua beleza. – Sua curiosidade insaciável. – Amor dos manuscritos. – Um velho Físico dá-lhe a paixão dos simples, e das plantas que curam. –Cresce. – Toma gosto pelas armas, pelos cavalos. – Tem amores vagos pelas raparigas. – Mas não descura os livros. –Vem-lhe a paixão do desconhecido, das viagens. – Para tudo conhecer, quer ir estudar medicina a Paris.

Parte com grandes lágrimas da mãe, e de uma moça que seduzira. – Toma o caminho de Paris com o seu fiel Pêro, escudeiro. – Numa estalagem, no caminho, encontram um cavaleiro que trava conversa com ele, e sabendo que Gil vai a Paris estudar medicina, lhe diz que vá antes com ele a Toledo, aonde ele vai também para se formar nas Artes Negras. – Essas artes, que ele descreve, dão, a quem as possui, o ouro, o poder, a eterna mocidade e tudo o que dá a felicidade. – Gil cede.

Partem para Toledo, conversam pelo caminho.– São assaltados. – O cavaleiro desconhecido desbarata os salteadores. – Em Toledo, Gil é levado à Universidade das Artes Negras. – Aí encontra os professores, que lhe dão um festim e que lhe dizem que a arte melhor é assinar um pacto com o Demónio. – Gil assina. Desde esse dia, tornado omnipotente, abandona a ideia de Paris, e passa a ter todos os gozos. – Começa pela vida de moço, tendo palácios, mulheres, cavalos, ouro às pilhas. – Mas depressa se cansa disto. Ambiciona então o poder, e o Demónio fá-lo rei. – Mas depressa se cansa da realeza. Apetece então as grandes aventuras, e é pirata nos mares, viaja até aos últimos sertões, vê povos estranhos. – Mas depressa se cansa destas emoções.

Então apetece tudo saber, e vai estudar para Paris, como simples estudante. – Mas depressa se cansa desta ciência dos livros. Quer saber os mistérios. – O Diabo leva-o aos astros, penetram nas entranhas da Terra. – Quer ver o Inferno e o Céu. – Mas o Diabo não lhos pode mostrar. Então apetece uma afeição profunda, um amor profundo. – Vê uma mulher que adora de repente, sem lhe ver o rosto. – Segue-a até que um dia ela se lhe revela, e é o esqueleto da Morte. Renega a sua vida e volta para Portugal, para se meter num convento. – Desespero do Diabo, que de amigo se volve em inimigo, e o começa a tentar. – Tentações medonhas, que ele combate pela paciência e pela bondade.

Vai-se sentindo feliz, e o seu desejo é obter a quebra do pacto que fez com o Diabo. – Mas a penitência ainda não é bastante; é necessário que ele pratique um acto que o torne merecedor de que a Virgem quebre o pacto. – Esse acto fá-lo, dedicando-se por uma criancinha ou por um velho doente. Então a Virgem entrega-lhe o pacto. O Diabo ainda o tenta, mas ele agora sorri e despreza-o. – Entra na paz, na felicidade, e conhece enfim a vida perfeita, que é uma doce vida de convento, no sossego de um vale. Morre em santidade.

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1 Encontrado juntamente com o manuscrito incompleto.

 

S. FREI GIL

I

O solar de D. Rui de Valadares, Senhor de Mortágua e Gonfalim, era a duas léguas duras de Vouzela, numa colina, por onde descia, espalhada até ao rio, entre olivais e vinhedos, a aldeia de Gonfalim. Um fosso, uma muralha delgada e simples como um muro de herdade, uma torre construída em tempos da Senhora Rainha D. Tareja, defendiam a casa térrea, a capela, os celeiros, o forno, o pátio bem lajeado, onde dois chorões davam frescura e sombra a uma fonte de bronze. Para além um alto silvado, coberto de amoras pelo S. João, envolvia a abegoaria, a eira clara, o redil, um pomar bem regado, e o campo de tavolagem: – e depois, por todo o outro pendor do

outeiro, lento e suave, verdejavam os pastios de gado.

No fundo do vale, o ribeiro, frio e límpido, toldado de arvoredo, saltava e espumava entre grossas pedras claras: um mosteiro rico de Domínicos ocupava toda a colina fronteira a Gonfalim, com a sua vasta, frondosa cerca: – e as duas margens eram ligadas por uma velha ponte romana de um só arco, onde o bom Senhor, para purificar a obra e a pedra pagã, mandara erguer um cruzeiro.

Desde muito, naquelas terras, os anos tinham sido de paz; as correntes da ponte levadiça, que se não levantava, estavam perras e cobertas de ferrugem; as ervas bravas cresciam nos fossos secos; na velha torre de onde se retirara, até o besteiro, que lá costumava dormitar, havia agora um pombal: – e o bom Senhor D. Rui engordara tanto, que nem saía à serra com os seus falcões, nem mesmo cavalgava o seu bom ginete, por nome Almançor, muito gordo também, e para sempre ocioso diante da manjedoura cheia.

D. Rui desposara a neta de mestre Ariberto, cancelário do Senhor Rei D. Sancho; e não havia, em toda a Beira, dona de melhor diligência e ordem no governo de sua casa. Trigueira, de olhos pestanudos e meigos, com um buço, e um peito de rola farta,

D. Tareja, logo desde a alvorada, fazendo tilintar o seu grosso molho de chaves, distribuía a tarefa às aias, visitava a despensa e a capoeira, vigiava a fornada do pão, escolhia a fruta no pomar – e mesmo, arrastando o seu longo vestido sobre a terra ainda húmida, ia procurar as ervas salutares, para compor os unguentos domésticos. Todo o solar, por isso, resplandecia de gravidade e asseio. Nas lajes do pátio não crescia uma erva. No rebordo de cada janela havia um manjericão bem regado e fresco. Bem esfregados a carqueja, os soalhos pareciam sempre de madeira nova. Das arcas, cheias de roupa de linho, saía um bom cheiro de alfazema. Os pratos e os pichéis de estanho, sobre os bufetes, reflectiam, como espelhos, os lavores das altas cadeiras de espaldar, as listas vistosas das cortinas, ou os ramalhetes de açucenas e rosas, trasbordando dos vasos de barro vidrado.

Ocioso e risonho, com uma larga simarra de pano orlada de peles de raposa, que lhe descia até aos sapatos de couro vermelho, o bom Senhor D. Rui cofiava a sua barba, através do seu solar, gozando esta paz e esta ordem. Os seus dias corriam retirados e doces, como num mosteiro rico – e raramente tomava o seu bastão de cabo de prata, para transpor a velha ponte levadiça. Pelos tempos chuvosos, o bom Senhor, de janela em janela, contemplava o vale, o arvoredo molhado, as duas torres do mosteiro; ou aquecia pacientemente as mãos ao braseiro; ou abria o cofre de ferro, pregado no chão aos pés do seu leito, e contava o seu dinheiro; ou ia observar no bocal de vidro se as sanguessugas, subindo à flor da água, anunciavam o norte e o bom tempo. Nos dias de sol percorria devagar a sua horta, pelas ruas orladas de alfazema; visitava os seus galgos, que, ociosos e gordos também, dormitavam pesadamente; descia ao lagar, depois à eira, sorrindo paternalmente aos servos, que dobravam o joelho; e terminava por descansar, num caramanchão de rosas, escutando o murmúrio lento das águas de rega.

O toque de Trindades anunciava a ceia. Na sala, separada da cozinha por um arco de cantaria, as grossas malgas de caldo fumegavam sobre o carvalho nu da távola, entre pães de sêmea, e fortes pichéis de vinho. O bom Senhor, tendo lavado as mãos na água perfumada de vinagre, que o servo entornava de um grande jarro de cobre, ocupava a sua cadeira senhorial. O capelão defronte dizia o benedicite: – e D. Tareja tirava todos os seus anéis, para deitar dentro da sua malga a côdea escura do pão. O bom Senhor comia com lentidão e silêncio. O vinho do seu pichel era renovado pelo intendente que, a cada instante, se erguia com a boca cheia e ia encher o pichel senhorial ao pipo pousado a um canto, sobre barrotes de madeira. Depois do porco assado, vinha uma ave, galinha ou pato, que D. Rui partia com os dedos, limpando-os aos pêlos do lebréu, sentado a seu lado, à espera dos ossos. Nas tardes de Verão, o maioral dos gados vinha junto da janela da sala, tocar na flauta de barro. E quando o servo retirava as frutas, apinhadas em seiras de esparto, e outro punha sobre a mesa vazia dois candis, o capelão ia buscar um grosso in-fólio, que abria, e lentamente, emperrando nas letras, lia a vida de um santo, ou uma batalha do Tesouro das Batalhas, que conta todas as grandes guerras, desde a que os anjos maus travaram com os anjos bons. D. Tareja tomava a sua roca e fiava, ou dava alguns pontos no frontal, que havia dez anos andava bordando para a igreja do convento. O bom Senhor, com as mãos sobre o estômago, dormitava. E quando o capelão parava, a beber um golo de água, ouvia-se ranger o cata-vento de ferro – ou, nas noites de Verão, o canto triste dos sapos nas relvas.

Mas, com um gesto, D. Tareja detinha o santo homem, que fazia uma dobra na página do seu fólio. O intendente, à porta da cozinha, batia as palmas, todos os servos entravam, mesmo o pastor com o seu surrão. E era o bom Senhor que de pé, e ainda sonolento, rezava a primeira ave-maria do Terço. Depois D. Tareja fechava os bufetes, tomava um candil, um pichel de vinho preparado com mel e canela, e subia com o seu

Senhor para o quarto, a repousar no vasto leito de carvalho, que tinha três varas de largo.

Assim a existência corria, igual e serena, no solar de Gonfalim. Às vezes algum rico-homem dos arredores, parente de D. Rui, vinha, com os seus cães e escudeiros, desmontar no pátio tranquilo. D. Tareja corria ao portal, trazendo uma toalha bordada, um jarro de água, que derramava sobre as mãos do hóspede. Atirava-se à pressa lenha na lareira, para assar, nos espetos de azinheiro, um cabrito, ou um leitão: das arcas saía um tapete do Oriente, que se estendia sobre as lajes do quarto de honra, onde as maçãs, apilhadas sobre os armários, davam um cheiro doce e acre: as tochas de cera ardiam na sala até tarde – e os Senhores conversavam de parentes, de colheitas, de algum novo milagre, das honras devassadas pelos corregedores de el-rei, e dos maus tempos que corriam para os homens fidalgos. Outras vezes eram menestréis errantes que passavam, pediam agasalho – e depois da ceia, tangendo o violino ou a frauta, cantavam as cantigas novas, diziam histórias maravilhosas de paladinos de França – ou repetiam as histórias que tinham ouvido, nas estalagens, ou nas lareiras de outros solares, sobre as guerras que o Senhor Rei fazia aos mouros, para além do Tejo. Mas o que mais agradava a D. Tareja era a passagem dos monges mendicantes: esses sabiam os milagres novos, os casamentos fidalgos de Viseu e de Lamego, receitas de doces ou de unguentos, e histórias de peregrinos que tinham afrontado os mares, e visto o vero túmulo do Senhor Jesus Cristo, ainda tinto do seu sangue fresco.

Estas eram as distracções destes Senhores excelentes. Pelo Natal havia um presépio na capela, com missa cantada pelos frades do convento e uma ceia em que se comia o porco novo. Nos anos de D. Rui, arrombava-se uma pipa de vinho, no campo da tavolagem, e os moços de Gonfalim faziam grandes jogos de bola, e lutas. E não havia naqueles arredores mais alegre fogueira, do que a que se acendia, entre danças e cantos, no terreiro, em frente da ponte levadiça, por noite de S. João.

Assim os anos tinham corrido, no solar de Gonfalim, quietos e iguais, quando D. Tareja sentiu, alvoroçada, em si, um começo de maternidade.

Foi um pasmo, uma magnífica alegria. Longos anos eles tinham desejado, esperado com ardor, um filho; – e para o obter D. Tareja fizera promessas, invocara todos os padroeiros da fecundidade, acendera durante trinta dias trinta velas a Santa Margarida, bebera água de sagna-canina, trouxera muito tempo sobre a cinta uma pele de coelha. Mas a doce esperança não se encarnava; e o bom Senhor D. Rui, resignado, decidira deixar o seu senhorio, e o dinheiro das suas arcas, a um afilhado de sua mulher, moço lido em livros, e que era provedor de el-rei em Lamego. Muitas vezes, porém, suspirava, vendo, diante de um casebre, um vilão que, com o filho sobre os joelhos, construía uma armadilha para os pássaros – ou um velho que sorria, amparado nos seus passos trôpegos por um moço forte, e cheio de respeito. Agora, porém, chegava o bem de que desesperara. O bom Senhor, repentinamente remoçado, com a face toda risonha e dilatada no orgulho da sua paternidade, começou, por todos os arredores, a anunciar a nova esplêndida – até a um sórdido ermitão que vivia numa cova no fundo do vale, até ao tosquiador que viera à tosquia dos gados. Um recoveiro partiu logo para Lamego, a encomendar ao mestre entalhador um berço de grande riqueza. Todas as aias, tirando das arcas os linhos mais finos, trabalhavam no enxoval: – e D. Tareja, ao fim do primeiro mês, fora comungar ao mosteiro, para que a Hóstia divina fosse o primeiro ali-mento do menino bem-desejado.

De que cuidados cercava o bom Senhor aquela dona excelente, cujo ventre lhe parecia precioso como um sacrário!

Inquieto, constantemente lhe tirava das mãos com brandura as chaves da despensa, para que ela se não fatigasse nos governos do solar. Ele, só ele, preparava o vinho reconfortante, com canela, mel, ervas aromáticas, que lhe devia dar forças e valor:

– e sem cessar, quando ela caminhava, estendia os braços, receando todos os degraus, qualquer pedra, uma prega do vestido em que ela tropeçasse.

Era então Inverno, um Inverno muito duro, que todas as manhãs branqueava de neve os prados, e os tectos dos casebres: e D. Rui e D. Tareja, sentados ao braseiro, infindavelmente conversavam sobre o «seu menino». Ele tinha já o seu destino tão claro e marcado, como se um letrado o tivesse escrito num códice. O seu nome seria Gil

Mendo: os melhores ledores do mosteiro vizinho e amigo lhe ensinariam as letras, a escrita, e a arte de contar: escudeiros hábeis viriam adestrá-lo na arte de cavalgar, no manejo das armas, e tudo o que pertence à caça: depois ele, D. Rui, o levaria aos bispados de Lamego, do Porto, de Coimbra, para conhecer as cidades, e tratar com os ricos-homens. Depois casaria com uma dama virtuosa, de rica linhagem, e governaria, em tranquilidade, o seu senhorio – porque nenhum deles desejava que o seu filho afrontasse os perigos das guerras, ou se partisse para terras estranhas.

E quando assim conversavam, a ambos vinha uma inquietação que não diziam – porque certas palavras, quando soltas, são apanhadas pelos espíritos maus, que as condensam e delas fazem coisas reais e vivas. Se Gil nascesse torto ou mudo?... Então D. Tareja ia escondidamente à capela fazer promessas à Senhora da Boa Saúde – e D. Rui reclamava do capelão que mais uma vez percorresse o Tombo do seu solar, para ver se jamais, varão da sua raça, nascera com algum defeito. Mas a certeza que todos os seus avoengos, desde os godos, eram robustos, e de belo porte, não calmava a sua inquietação: – e tendo uma manhã avistado uma gralha que pousara no rebordo do seu aposento, o que poderia tornar o menino gago – de tanta angústia se tomou, que os maus humores se lhe extravasaram, e amarelo como uma cidra, jazeu uma semana no seu vasto leito, entregue às drogas do Mestre Álvaro Porcalho, ó bom físico que viera à pressa de Viseu, montado na sua mula. Por conselho dele, D. Tareja nunca mais tocou

água fria, e só bebeu caldos de cobra. Mas uma ansiedade maior entrou na alma do bom

Senhor – porque Mestre Porcalho, depois de bem examinar o interior das pálpebras de

D. Tareja, e certas sardas que tinha na testa, abanava a cabeça, gravemente, e não podia afirmar que a criança fosse um varão! Decerto o bom Senhor amaria uma menina que viesse, com as suas frágeis graças, e a sua doçura, alegrar a severidade fria da sua vivenda. Mas com quanto mais amor, e orgulho, e tranquilidade juntamente, ele receberia um varão, para continuar a sua casa, reger os seus bens! Mandou então chamar um astrólogo famoso, Mestre Leonardo, que vivia numa velha ruína do tempo do Conde

Ordonho, junto aos muros de Lamego.

Bem provido, com um cântaro de vinho e um empadão, o douto homem passou a noite, uma clara noite de Março, com astros bem claros e fáceis de ler, na torre de menagem, de onde espantara as pombas, a preparar o seu horóscopo: – e D. Rui teve a dita de ouvir que seu filho seria varão, venceria os infiéis, entraria nos conselhos de el-rei, e desposaria a filha de um rico-homem poderoso, que tinha três castelos, e vassalagem de três vilas. Senhorialmente pago, Mestre Leonardo recavalgou a sua mula, e deixava o solar, quando, junto da ponte levadiça, indo o Sol já alto, encontrou Mestre Porcalho que, com a sua caixa de simples a tiracolo, a seringa de estanho dentro de um saco, recolhia de visitar o armeiro de Gonfalim. Imediatamente os dois sábios, do alto das suas muares, trocaram duros sarcasmos, depois injúrias: – e ambos saltando abaixo das cavalgaduras, com as suas longas garnachas, se arremessaram corpo a corpo, tão ferinamente, que ambos rolaram no fundo dos fossos.

 

II

Mas Mestre Leonardo acertara – e foi um varão! E mesmo a comadre e as aias afirmavam que, pela força com que chorara, e sacudira os pezinhos roxos, ao penetrar na vida, o Senhor D. Gil seria homem de grande valentia e acção. O que a todos, porém, espantava, debruçados sobre o seu berço, era a sua perfeita beleza e inteligência. Gordo, todo redondo, branco como os linhos finos do seu lençol, com uma boquinha que parecia uma folhinha de rosa, e dois grandes olhos negros resplandecendo sob a testa muito clara – ele parecia ter já uma alma e compreender. Duas aias constantemente o velavam, sentadas em esteiras, baloiçando um leque de penas, para preservar das moscas a frescura do seu sono, ou cantando, para o embalar, Dormi, dormi, senhor meu:

– e um mês passara, já os arcos de buxo erguidos nas alegres festas do Nascimento estavam murchos, já D. Tareja, purificada e de novo corada e ágil, fazia tilintar as suas chaves pelo corredor do solar – e ainda Gil não chorara. Uma gota de leite do peito cheio da ama, bastava para o adormecer docemente: – e acordado, os seus olhos negros, largos, rutilantes, constantemente procuravam, seguiam, ou as réstias de sol, ou o brilho de um jarro de estanho, ou as cores mais vivas de um véu. Vindo a cada instante em pontas de pés entreabrir as cortinas do berço, o bom Senhor não esquecia nenhuma das práticas que concorrem a tornar a criança perfeita. Para que ele tivesse uma voz forte e bela, esfregava-lhe a boquinha com uma velha moeda de ouro. Ele mesmo desfizera sal virgem em água tirada da fonte ao nascer do Sol, que faz com que o cabelo das crianças nasça encaracolado e basto. Para que ele tivesse força, trouxe uma antiga espada do seu avô D. Fruias, e pousou-a entre as mãozinhas de Gil: – e para que, à força do corpo, se juntasse a força da alma, três domingos a seguir o capelão veio ler sobre o berço o

Evangelho dos três Reis.

Pelo baptizado foram celebradas grandes festas. O padrinho foi D. Mendo, um parente de Mortágua – a madrinha Nossa Senhora da Saúde: e no caminho para a igreja, juncado de rosas e erva-doce, ao lado de D. Mendo, magnífico, com as suas barbas de neve sobre o saio de escarlate, caminhava, no seu andor, aos ombros de quatro cavaleiros peões de Gonfalim, a Senhora Madrinha, coroada de ouro, com um manto novo, onde as estrelas de ouro, sobre o azul do veludo, faziam como um céu de Verão.

Para maior honra (e para que o menino não fosse surdo), foi D. Mendo, o padrinho, que puxou a corda do sino, deu os primeiros repiques festivos. Toda a pedra da igreja desaparecia sob as colgaduras de veludo branco. E quando a ponta de uma faixa de seda que se prendia, pela outra ponta, às mãos da Senhora, veio tocar a penugem fina e loura da cabeça de Gil, nuzinho e quieto, nos braços do padre, sobre a pia – todos observaram, com espanto, que o menino sorria às luzes das tochas, e as pontas dos palmitos se agitaram, e alguma coisa de branco, como o sulco de uma asa, passou na penumbra do

Baptistério.

Depois um enorme festim, tumultuoso e voraz, reuniu a rude aldeia. No terreiro três vitelas inteiras assavam, em fogueiras claras. O vinho, correndo sem cessar das pipas enfeitadas de louro, fazia poças roxas, onde as crianças se rolavam. A cada instante os alaúdes e violas dos menestréis chamavam os moços e as raparigas, afogueados, com a boca cheia, e toucados de rosas, a longas danças estonteadas sobre a relva pisada. Um empadão imenso trazido numa padiola, e precedido por dois anões que cabriolavam, apareceu ao fim da tarde, entre aclamações: tirando a espada, um cavaleiro-peão fendeu-lhe a tampa, maior que um tecto de cabana: – e de dentro fugiu um bando de pombas, que batiam no ar, com esforço, as asas pesadas de gordura, perseguidas pelos moços, que as apedrejavam com pedaços de terra, com grossos pães de sêmea e com os pratos de estanho.

Mas de repente, junto da ponte levadiça, surgiu uma bandeira: – e ao lado de D.

Mendo, e seguido do capelão, do intendente, e das aias, com altas toucas de renda, apareceu o bom Senhor D. Rui, pálido de alegria, de orgulho, que trazia nos braços, todo coberto de rendas, para o mostrar ao povo, o seu filho, o seu herdeiro. Raparigas correram com cestos cheios de folhas de rosa que lhe atiravam: – e, da mesa de honra onde estava o meirinho de el-rei, dois velhos vieram, um com um prato cheio de sal, que simboliza a Agudeza de Espírito, outro trazendo um ovo que significa a Duração da

Vida, para oferecerem ao menino, como votos tangíveis. E foi um espanto, um longo murmúrio maravilhado, quando Gil, debatendo-se entre as rendas, estendeu um bracinho para o sal, e outro para o ovo. Os velhos, muito graves, reconheceram que o menino era um eleito de Deus – e ninguém duvidou que ele chegaria à extrema velhice, através da extrema sapiência.

Ele, com efeito, cada hora crescia em força e beleza. A sua cabecinha redonda bem depressa se cobriu de anéis finos como seda, e cor de ouro: – e todos os dentes lhe vieram, sãos e fáceis, sem lhe custar uma lágrima. Quando não dormia, do seu dormir tão sereno que parecia uma rosa sobre uma almofada, passava horas nos braços das aias ou da mãe deslumbrada, quieto, imóvel, já direito, com os olhos resplandecendo, ,e parecendo pensar em coisas profundas. Um tão raro encanto se exalava daquele corpinho, todo em rugas gordas, brancas e duras como mármore, que as aias se não podiam apartar do seu berço, esquecendo as horas de comer: – e os que um dia passavam no solar, e o viam um momento, ainda depois nas suas moradas, e entre outros cuidados, ficavam pensando, com ternura, naqueles cabelos de ouro puro, e nas duas estrelas dos seus olhos.

No aposento, onde estava o seu berço, não era necessário no Inverno aquecer o braseiro, nem, nas canículas, entreabrir as janelas à aragem – porque havia ali sempre um ar igual, doce, tépido, fresco, e que cheirava bem: – mesmo este aroma ia crescendo, e tanto, sobretudo em volta do seu berço, que Mestre Porcalho, que reprovava as essências derramadas junto dos berços, batia o pé impaciente cada manhã que lá entrava, e dizia, franzindo a venta: <(Mas aqui cheira a jasmim! Mas aqui cheira a rosa!» Mais de uma vez também sucedera que, apagando-se a lâmpada, o quarto continuara alumiado, de uma luz translúcida, vaga, láctea, que era mais ténue junto dos altos muros, mais viva, e como irradiada, em torno do berço: a ama, sentada, erguia o cortinado e encontrava o menino a sorrir no seu sono: – e se então visitava os seus cueirozinhos, mais se assombrava não os reconhecendo como os do rico enxoval, mas diferentes, de um linho mais fino que todos os linhos, alvos como outra alvura não havia, e tão doces e macios à mão, que o seu contacto tinha a doçura de um beijo. O bom Senhor D. Rui ouvia estas maravilhas – e grossas lágrimas de gosto rolavam na sua barba ruiva.

As pombas, que tinham o seu pombal na velha torre de atalaia, começaram então a vir todas as manhãs, em bando, pousar sobre o rebordo da janela do menino: – e mesmo, se encontravam as portas abertas, algumas mais ousadas, por serem mais brancas, voavam em torno do seu berço, de um voo subtil e sem rumor. Gil seguia-as com os seus grandes olhos, ou atirava a mão para as apanhar: – e se tocava em alguma que pousasse nas grades do berço, essa tomava logo o voo, triunfantemente, mergulhava muito alto no azul, e não recolhia ao pombal.

Mas não eram só as pombas que amavam o menino. Borboletas raras, de cores radiantes, vinham bater contra os vidros, aos bandos, como folhas vivas e soltas de flores que não há na Terra. Uma amendoeira que havia em baixo, no pátio, rompeu a crescer, a subir, como se, com as pontas das suas ramagens, tentasse espreitar para dentro do aposento: – e depois cobriu-se de flores em Janeiro; e um rouxinol veio, durante todo o Inverno, cantar sobre ela maravilhosamente. Mas a surpresa maior foi que no canto do pátio lajeado, onde se despejara a água em que D. Gil tomara banho, começaram a crescer por entre as lajes umas florinhas azuis, brancas e cor de ouro, que nenhum jardineiro jamais vira, e que perfumavam todo o ar.

No dia em que o menino fez um ano, estando no colo da mãe, com o seu saiotezinho de brocado branco todo bordado de pérolas, escorregou-lhe subitamente dos braços para o soalho, e deu o seu primeiro passo na Vida. Todos os braços em redor se estenderam, ansiosos, para o amparar: – mas ele ia firmando os pezinhos, redondos e lentos, sem tropeçar, atento e direito a uma réstia de sol que entrava pela janela – com a mãozinha aberta e erguida, como amparada por outra mão que se não via, e que docemente o levava. E assim mergulhou na réstia de sol, onde ficou quieto, com um riso que resplandecia, todo aureolado de ouro. Frei Múnio murmurou: «Neste menino há maravilha!»

 

III

Já mais crescido, brincando pela quinta, mergulhava em todas as espessuras de folhagens, de rastos, como um bicho, emaranhando o cabelo nas silvas, para conhecer o que se ocultava nas sombras húmidas: escavava em torno das plantas para conhecer a forma das raízes: e espreitando o voar dos pássaros, trepava às árvores, para saber o

O seu crescer foi então igual e são, como o de uma flor, que, em terra bem regada e sob a fiel carícia do sol, desabrocha com esplendor. Nenhum dos males que Mestre

Porcalho receava, carregando o sobrolho agoirento, veio interromper a sua florescência

– e todos os dentes lhe nasceram, sem uma dor ou uma lágrima. A sua fala era tão doce, e graciosa, que a todos fazia sorrir de ternura, como o cantar de um pássaro, nas ramarias. A brancura ebúrnea da sua pele nem parecia pertencer a um corpo mortal: e, em todo ele, a inteligência resplandecia mais visivelmente do que uma luz por trás de um vidro. Uma curiosidade inquieta, insaciável, constantemente o levava, correndo, e espalhando o brilho dos seus olhos negros, através da velha morada senhorial. Não havia já na torre de Ermigues, nos pátios, nos escuros sótãos, recanto que ele não tivesse rebuscado, no impulso irresistível de tudo saber. As aias constantemente o encontravam, procurando, com os seus pequeninos braços, frágeis como hastes de flor, erguer as pesadas tampas das arcas: e se encontrava uma aberta, eram gritos impacientes até que lhe deixassem desdobrar as peças de linho, desenrolar os rolos de fitas, destapar os cofres, remexer as rendas, amontoar em torno de si, sobre o soalho, um vasto bragal devastado. segredo dos ninhos. Nada o assustava. Quando o pai, para o adestrar na grande arte de cavalgar, o montou uma manhã num potro, ele, empurrando o cavalariço que segurava o freio, largou a galopar, em torno do silvado da quinta, bem colado à sela, com os cabelos ao vento, gritando de pura glória. Se sentia ao fim da tarde os chocalhos, e a fila da boiada recolhendo, nada o detinha, e corria a bater as palmas, provocando os novilhos, ou os bois de mais largas pontas: – e constantemente o aio, aterrado, tinha de o agarrar, para que ele não descesse dentro do balde à cisterna, ou não percorresse o topo da velha muralha, saltando de ameia em ameia. Depois, à noite, à ceia, ouvindo, absorto, com a face entre os punhos, o olhar deslumbrado, as histórias de batalhas, que lia Frei Múnio no seu grande in-fólio – soltava brados de alegria, quando vinha um desses golpes de espada que partem o elmo, racham o cavaleiro e matam ainda o cavalo; ou quando, nos assaltos das vilas, a força de um só braço quebrava uma porta de bronze.

De noite, no seu catre, gritava, sonhando com recontros de lanças. E a mãe que corria, pondo a mão diante da lâmpada, quase se aterrava, vendo na linda testa do seu anjo adormecido uma ruga de cólera heróica.

Mas D. Rui sorria, deslumbrado, certo que seu filho seria um dia um grande conquistador. Era todavia admiravelmente sensível e bom: – e Frei Múnio antes via nele os prenúncios de uma caridade que ilustraria a Igreja. Amava todos os animais, sobretudo os pequeninos: e o seu cuidado era que as pombas não sofressem sede, e não faltasse a ração farta aos galgos, no seu canil. Protegia os sapos por os saber despre-zados; e se encontrava um, na erva húmida, rente da nora, com as suas mãos, e sem nojo, o levava para longe, para que a vaca atrelada à roda dos alcatruzes o não pisasse, no seu giro dormente. Aos domingos, descendo, com os pais, a avenida de castanheiros para a igreja, a cada passo se detinha, a procurar na escarcela uma moedinha para os pobres: – e na igreja, de joelhos sobre a almofada, no altar-mor, com as mãos postas, e o seu gorro de plumas pousado no chão, tanto se penetrava da pobreza e dor por que Jesus passara, vendo o seu corpo nu e pequenino nas palhas do curral, a sua túnica rasgada pelos açoites, as suas mãos, tão doces aos tristes, varadas pelos pregos, que os olhos se lhe enchiam de lágrimas. À porta da igreja todo o povo de Gonfalim se juntava para o ver passar, com os seus cabelos louros, em anéis sobre os ombros, coberto com os veludos de um príncipe, fino e direito como uma espada toledana – mas tão simples e familiar que reconhecia os criados, gritava rindo os seus nomes – ou atirava às crianças, no colo das mães, beijos que cantavam no ar.

Aos oito anos, tendo Frei Múnio preparado num quarto da torre de Ermigues, por ser mais silenciosa, livros, folhas de velino, e grossas penas, Gil começou a aprender as letras, a escrita, a História Santa, e os cálculos dos Árabes. Por mais lenta e longa que fosse a lição, ele permanecia atento e grave. A sua alegria foi ruidosa quando soube escrever o seu nome e os seus apelidos, com letras ornadas e floridas. Mas quanto mais viva e funda a dos pais, quando o ouviram ler, sem gaguejar, no grande livro de Frei

Múnio, as batalhas de Alexandre, e de Roldão, par de França!

Tão orgulhoso andava o bom Senhor do saber do seu filho, que o quis mostrar aos santos padres beneditinos, seus vizinhos e aliados. Montado na sua mula branca, com

Gil ao lado sobre o seu alazão, passaram a velha ponte romana, uma tarde, subiram a calçada nova, que por entre álamos levava à grossa porta chapeada de ferro, como a de uma cidadela. E logo no pátio, bem plantado de ciprestes, encontraram, entre dois fortes carros de bois, o D. Abade, dirigindo o carregamento de seis pipas de vinho branco, dos vinhedos do convento, que ia mandar de presente ao Papa.

Com grande contentamento, acariciando os lindos cabelos de D. Gil, o prelado muito sapiente conduziu os seus vizinhos para os lados do claustro, mandando a um leigo que trouxesse um açafate de fruta, e um pichel daquele vinho branco que era a glória da sua herdade. Mas, no claustro, como era sábado, toda a sábia comunidade, numa longa fila, só com a túnica, e sem capa, estava sendo barbeada: – e o D. Abade caminhou para a entrada da cerca, onde se sentou, entre os seus hóspedes, num banco de pedra, junto de uma fonte, que de entre rochas cantava num tanque de mármore.

Aí o bom Senhor contou ao prelado o grande amor do seu Gil aos estudos, e como já traçava a letra grande e miúda, e quanto lhe eram familiares todas as sagradas histórias: – e andava ele pensando se seu filho, bem ensinado por outro mais lido em livros que Frei Múnio, não se tornaria um bom escolar em leis, ou fino sabedor das

Artes de Curar. Então o bom prelado, tomando a mão de Gil, e indicando a pedra polida e branca que encimava a fonte, convidou risonhamente Gil a ler a inscrição que lá gravara, havia anos, um douto monge daquele mosteiro. Sem esforço, o moço gentil decifrou as rudes letras entalhadas, que diziam: – «Clara e perene, como sai esta água desta rocha, brota a bondade dos nossos corações...». E o bom abade admirou este precoce saber. Mas quanto mais o seu grande conhecimento das Histórias Sagradas!

Direito, com um brilho nos lindos olhos, e como se conversasse de coisas familiares e

íntimas, o moço gentil, interrogado pelo D. Abade, contava a grande cólera de Jeová,

Caim fugindo através dos montes, a chuva durante quarenta dias, José governando o

Egipto, o Povo errando no deserto, Jericó caindo ao estridor das trompas...

Todos os pássaros se tinham calado, em redor, na ramaria da cerca. A água caía da rocha, com um murmúrio abafado. Uma doçura maior amaciara o ar: – e os raios do Sol que descia ficaram parados, dourando com tons de ara o banco de pedra, onde Gil dizia as divinas histórias. Então o bom abade, pousando a sua gorda mão sobre a cabeça de

Gil, afirmou que havia ali um agudo entendimento, e que bem devia D. Rui, pois tinha cabedal, mandar aquele moço estudar a França, terra de grande sapiência... O pai murmurou: «Tão longe!

Não. Não havia longes terras para ir buscar o Saber. Mais longe se ia a Jerusalém, para alcançar a Graça! E a sapiência, tanto como a Graça, conservava a alma limpa do mal... – Desejou então que D. Rui provasse o seu vinho branco. E tendo dado a ambos a bênção de Deus, e ordenado a um hortelão, que ali regava as plantas, que metesse num açafate cerejas e rosas para a Senhora D. Tareja, tomou o braço do noviço, porque tocara a vésperas – e ele devia dispor uma remessa de relíquias destinadas a uma herdade do convento, visitada, recentemente pelos repetidos flagelos do fogo, lobos e sezões. Os dois senhores beijaram a sua mão reverenda – e recolheram contentes ao solar, pelo caminho da Ermida.

Gil começou então a estudar com tanto fervor – pensando sempre nos louvores do

D. Abade – que bem depressa soube tudo quanto sabia o doce Frei Múnio. Mesmo muitas vezes perturbava este discreto Mestre, com a sua curiosidade temerária, que tudo queria compreender, até a Ordem da Natureza. Era sobretudo à tarde, quando para repousar das práticas estudiosas, ambos subiam ao eirado da torre de Ermigues, e lentamente passeavam em volta das ameias todas verdes de hera. O céu arqueava por cima a sua abóbada de azul-claro, imutável e sempiterna. O Sol, como uma roda de metal candente, roçava a espinha dos montes, dardejando longos raios. E a terra, escura e maciça, estendia a sua ondulação de vales e serras, até onde o olhar se perdia.

Então D. Gil queria saber qual era, na verdade, a forma da Terra: para onde ia o

Sol, quando se sumia tão serenamente por trás dos montes: e quem sustentava assim, tão firme, a abóbada do céu. Para satisfazer o seu discípulo, Frei Múnio folheava os in-fólios, que pedia emprestados à livraria do convento, sobre os Ensinamentos da

Prudência, obra mirífica que, nas suas laudas fortes, encerrava a suma do saber beneditino. E pondo o dedo na lauda, explicava a Gil que a Terra é quadrada, tendo por centro, na face voltada para o Céu, a santa cidade de Jerusalém: que o Sol, de noite, vai alumiar o mar, e por vezes, em dias de festa, alumiar o Purgatório: e que, quem ampara esta abóbada, cheia de luz, de estrelas, de nuvens, de ventos, são os quatro evangelistas, aos quatro cantos do mundo, com as suas mãos que tudo podem, por terem tocado as mãos do Senhor.

Mas nem sempre D. Gil parecia persuadido. E puxando para si o in-fólio, relia a boa doutrina, mais detidamente, como quem, para um recanto mal alumiado, chega uma luz mais forte. Tanto amor ganhou então a estes livros, e ao saber que deles tirava, que não houve mais para ele outro interesse ou cuidado. Logo desde a alvorada se encerrava na torre de estudo, diante da vasta mesa que os fólios majestosos cobriam: – e muitas vezes às horas de comer, tendo já o varlete da mesa tocado três vezes a buzina, tinha D.

Rui de subir a escadaria da torre, e sacudir-lhe o braço, para o arrancar ao estudo, onde a alma se lhe afundava, como num mar de deleite. Passeando na quinta, a cada passo tirava da escarcela um pedaço de velino, e, encostado a um tronco de árvore, com o olhar ora esparso pelo chão, ora alçado lentamente ao céu, traçava linhas vagarosas. Tão alheado vivia no seu pensar, que D. Tareja tinha de lhe pentear os cabelos que ele deixava emaranhados, e de lhe laçar os atilhos dos seus borzeguins de couro mole. De noite, com o candil pendurado junto do leito, e um fólio no travesseiro, lia ainda, lia tanto, que já as andorinhas cantavam no beiral da sua janela quando ele, com um suspiro, e a custo, cerrava os fechos do fólio.

Começou a emagrecer, a sua pele tomou a palidez de uma cera de altar – e Mestre

Porcalho declarou, sinistramente, que já nos olhos do senhor D. Gil se sentiam os prenúncios do tresler.

Então, para o afastar dos livros, D. Rui organizou para ele uma matilha de caça. O canil foi alargado, coberto de colmo novo: e o latir dos mastins, dos perdigueiros, dos lebréus barbarescos, atroava o solar. Ao lado havia um alpendre para os falcões: – e um homem hábil, que viera de Viseu, estava instalado na abegoaria, fazendo redes, armadilhas laçarotes, e capuzes de couro para os açores.

D. Tareja, abraçada no filho, conseguiu dele a promessa que todas as manhãs sairia a montear, para que, nos fortes ares da serra, lhe voltassem as cores da saúde. Mas ele quis primeiro aprender a Arte de Caçar – e foi ainda um motivo de se enterrar entre velhos cadernos, de letra miúda, em que se ensina a adestrar os lebréus, a afoitar os falcões, a conhecer as pegadas do lobo, o cheiro dos veados, e ainda os ventos mais propícios à caça, as orações que se devem a Santo Huberto e o modo de impedir que os espíritos malignos transviem na serra a caçada. Depois desejou ainda aprender nos livros os hábitos dos animais – a que horas bebe o veado, onde faz ninho a perdiz, que manha tem o javardo, e o rumo do voar das águias.

Em tantas leituras, mais se definhou – e, perante as lágrimas da mãe, decidiu enfim começar as grandes manhãs de caça.

Com que alegria D. Rui e D. Tareja, do alto das escadas do solar, o viram, montado no seu alazão, airoso na sua cota de couro branco, com o falcão emplumado sobre o guante – e em volta os lebréus, puxando as trelas e latindo. O monteiro soou a trompa – e, bom caçador, voltando-se ainda na sela para atirar um beijo à mãe, passou a ponte levadiça, num grande brilho de sol, que então saía de entre as nuvens.

Voltou por noite cerrada, com uma cor forte nas faces, um cheiro de mato nas roupas, tendo morto um veado, lebres, todo um bando de codornizes – mas descontente das suas proezas. Não iam ao seu coração doce as violências da caça; e os lebréus partindo a espinha dos coelhos, entre as urzes; o falcão, despedaçando nos ares uma pobre ave, e voltando a pousar-se no guante, todo enrufado; as setas espetadas no pescoço dos veados, que ficavam bramando, com grandes olhos agoniados; todas estas ferocidades, findo o impulso que as inspirara, entre os gritos dos monteiros, e o ressoar das buzinas, lhe davam como a tristeza de um arrependimento. E, de noite, no seu catre, só, chorou pelos animais mortos.

Voltou ainda uma manhã à serra com falcões e lebréus. Mas nenhuma seta saiu da sua aljava de couro suspensa do arção da sela; todo o caminho os monteiros, retesando as trelas, contiveram os cães, que latiam desesperadamente: e debalde os falcões, retidos pelos laços de couro, batiam as asas impacientes sobre o braço dos falcoeiros. Nem animal nos cerrados, nem ave no ar foi molestada. Gil galopava contente, respirando os ares ásperos e fortes da serra. Pela tarde, cansado, dormiu à sombra de um roble. E quando recolheu, na doçura da tarde, de todos os lados do caminho, dos cerrados e das tocas saíam animais, que o espreitavam, e seguiam mesmo algum tempo, confiados e alegres: dois pavões, de repente, quando ele passava, desdobraram as suas caudas como para o festejar; uma cobra enorme, que atrancava o caminho, desenroscou-se para ele passar; muito tempo, um bando de rolas brancas, voou a seu lado serenamente. E, quando ele entrou no pátio do solar, todos os galos cantaram.

Desde esse dia não voltou a sair com falcões e lebréus. Mas ganhara o amor das longas galopadas nas serras – e, todas as manhãs, no seu ginete aragonês, levando apenas uma espada, transpunha a ponte levadiça, penetrava nas terras. Sob o sol, sob a chuva, todo o dia caminhava, ora galopando nas planícies, ora a passo, gozando a frescura das ramagens, bebendo no fio dos regatos, comendo amoras silvestres; ou por vezes, no alto de um cerro, desmontado, com o seu ginete à rédea, contemplava pensativamente os vales, os caminhos coleando nas encostas remotas, os horizontes remotos, pensando no mundo tão vário, que ficava para além. À noite recolhia, enlameado, com silvas no fato, um grande cheiro de mato e de serra, o olhar todo brilhante – e era ele quem entretinha o serão, conversando, e com tanta verdade e saber, e tão belas histórias, e uma tão perfeita graça no dizer, que o pai, a mãe, embevecidos, ora lhes parecia ouvir a sapiência de um missal, ora a doçura de um canto.

 

IV

Mas em pouco o Senhor D. Gil começou a andar pensativo. Já não gastava então o dia todo nos campos: – mas só a certa hora, a mais quente, quando todos repousam, ele mesmo arreava o seu ginete, e partia, sem ruído, como se receasse ser apercebido, mesmo dos cavalariços. Depois, quando voltava, um brilho de singular felicidade aureolava o seu rosto, tão lindo: – mas, todo o serão permanecia calado, como num doce e ditoso cansaço, que por vezes cerrava as suas longas pestanas negras, enquanto D.

Rui, grave na sua cadeira de espaldar, afagava a barba grisalha, e D. Tareja, já mais pesada, retardava os fios lentos da sua tapeçaria.

Às vezes mesmo, como se a sala, alumiada por duas tochas, o abafasse, abria as portadas da janela, e, sentado no peitoril de pedra, olhava as estrelas, pensativamente, ou a Lua.

Certas noites, mesmo, saía para o pátio, onde a lentidão pensativa dos seus passos traia algum cuidado muito fundo da sua alma: – e a mãe, que, deixando escorregar a tapeçaria, o ia espreitar, entre os vidros, sentia-o por vezes suspirar e com suspiros que não eram tristes. Os seus livros jaziam na torre fechados e cobertos de pó. E a sua ocupação, era antes percorrer o jardim, onde por vezes apanhava um botão de rosa que guardava no seio do gibão.

Quis então aprender a viola e o canto, como se as coisas vagas e sem nome, que lhe tumultuavam na alma, só pudessem ser traduzidas pela doçura do tanger, e do trovar. E agora, muitas noites, quando todo o solar dormia, e dormia o rio e o vale, e na terra se não via luz, além da lâmpada que ardia no cruzeiro da velha ponte romana, Gil,

à janela do seu quarto, soltava, no silêncio e na escuridão suave, uma doce vibração de cordas, e um murmúrio de endecha, em que vagamente cantava de uma selva, de uma fonte clara, e da alma que lá lhe ficara.

Era com eleito para uma selva frondosa, a uma nascente de água viva, que todos os dias, à hora da sesta, ele voltava o galope do seu alazão aragonês. Ficava esse doce sítio no fundo de um vale, de onde nada se via, de entre o arvoredo que o cercava, senão o grande azul do céu benéfico. Uma água fria saía de entre rochas, e, caindo de pedra em pedra, formava um riacho claro, que ia cantando e fugindo, sob a ramagem de grande arvoredo. Mas, num sítio onde as árvores clareavam, a água mais lisa e larga fazia um remanso, como um lago pequenino – e, daí, subia desde a margem húmida e florida de margaridas, até ao cimo de um doce outeiro, uma relva igual e tenra, onde os gados podiam pastar.

Ali desmontava D. Gil, prendia o seu cavalo a um tronco de árvore: – e se tudo estava deserto, tocava na sua buzina. Bem depressa um rafeiro ladrava: – e pelo alto do outeiro, redondo e verde, aparecia uma pastora, com a roca à cinta, e com ela, um rebanhozinho de ovelhas. Ambos sorriam, corando, a pastora, e o Senhor D. Gil. E enquanto o gado bebia na água clara, ambos se sentavam na relva, à sombra da mesma faia que os tinha abrigado, na tarde em que D. Gil, vindo ali descansar de uma longa correria nas serras, lá encontrara a pastora, no momento em que uma nuvem grossa passava, e dela caía um grosso chuveiro.

Desde então, todas as sestas ali se encontravam, na mesma relva se sentavam, e mesmo sem que falassem, só por se sentirem junto um do outro, naquela solidão, sob as sombras que na véspera os tinham coberto, os seus olhos, brilhando e rindo, se humedeciam de felicidade.

Um pobre surrão de estamenha, cingido à cinta por uma corda, era todo o vestuário da pastora: através dos rasgões que nele tinham feito os silvados, a pele do seu peito, do seu joelho, brilhava, como a brancura macia de um mármore fino: e sob os cabelos despenteados, na face linda que o sol e o ar da serra crestara, o largo azul dos seus olhos grandes, que pareciam sempre maravilhados, tinham o brilho divino do azul do céu, e a graça tímida do azul dos miosótis. Gil só sabia que ela se chamava Solena, e que servia de pastora, desde pequena, a um velho que tinha a sua granja para além das colinas. Sentados na relva fresca, tinham grandes silêncios: ele tomava a mão da sua amiga, e fazia girar, sorrindo, um pobre anel de chumbo, que lhe enfeitava o dedo: ela erguia da relva o gorro de Gil, e acariciava as plumas brancas que o ornavam.

Brincando, ela lavava, no riacho claro, os seus pobres pés que a serra endurecera: e ele apanhava flores silvestres, que lhe metia, rindo, no cabelo. O cuidado de ambos era saber se tinham pensado um no outro: e baixo, com os dedos enlaçados, contavam os sonhos que lhes tinham encantado a noite.

Nunca Gil falava do rico e nobre solar que habitava, mas ela decerto o considerava como filho de um rei, igual ao de uma história de fadas que sabia, porque às vezes lhe dizia: «Um dia vais, e não voltas mais». Ele jurava, muito grave, que passariam a vida juntos, sentados naquela relva, vendo correr a água clara.

As ovelhas brancas pastavam pela encosta. O rafeiro dormia ao lado de Solena, E ela então, prendendo um joelho entre as mãos, os seus claros olhos erguidos para as ramagens quietas, começava a cantar. E era tão doce o cantar, e tão linda a cantiga, que

Gil se punha a pensar em cantos que ouvira às aias, quando era pequeno, e em que fadas adoráveis tomam a forma de pastoras, e cantando como Solena cantava, atraem para o alto das serras os cavaleiros que passam. Como ele iria contente, mesmo para a morte, levado por ela! De tão perto, então, mergulhava os seus olhos nos dela, respirava o seu respirar, que o seio pequenino de Solena arfava, sob a dura estamenha. Um enleio, que era cheio de doçura e tristeza, invadia os seus dois corações. Ambos sentiam como vontade de chorar. E por vezes, ambos bruscamente se afastavam, como envergonhados

– ele indo bater no pescoço do seu ginete, que escarvava a relva impaciente, ela dando alguns passos, ao longo do riacho, com a sua roca, e fiando, com os dedos tão trémulos, que o fuso lhe caía na relva. Mas bem depressa ele gritava: «Solena!», corria atrás dela, passava o braço em torno da sua cinta, que ele sentia quente e como nua, através do surrão: e assim, iam calados, ao comprido da água murmurosa, para se sentarem mais longe, noutra relva, à sombra de outro arvoredo.

Mas pouco a pouco a tarde caía. Ela de novo apanhava a sua roca, chamava o rafeiro. Gil murmurava: «Ainda não!» E quando por fim, tendo infinitamente repetido

«Adeus, Deus te leve», Solena subia o outeiro, com as suas ovelhas atrás, ele ficava ainda revendo os lugares onde tinham pisado a relva, a água em que ela mergulhara os pés, todo aquele arvoredo, por onde se evolara o seu canto. Depois, montando com um grande suspiro, recolhia sob a doçura da tarde, sentindo também na sua alma a tristeza de um escurecer.

Um dia, chegando junto do ribeiro, e tendo tocado a sua buzina, não ouviu ladrar o rafeiro nem Solena apareceu, com as suas ovelhas atrás. Impaciente, correu ao cimo do outeiro – e, até onde os seus olhos inquietos podiam abranger, não avistou rebanho, nem pastora. Ainda esperou, errando, tristemente, junto à água, e sob as árvores. E só quando escureceu, tornou a cavalgar, recolhendo a passo, as rédeas caídas, tão triste, que um bando de ceifeiras, que passavam cantando, cessaram o seu canto, e o ficaram a olhar, compadecidas. À ceia, os seus lábios nada tocaram – e apenas Frei Múnio dera as graças, ele, beijando a mãe com uma ternura mais viva, correu para o seu aposento, caiu sobre um escabelo, diante de um retábulo da Virgem, e ali ficou toda a noite, perdido numa saudade, que não tinha nome nem fim.

Com que ansiedade, logo de madrugada, correu de novo à fresca fonte, onde «a alma lhe ficara!» Mas o Sol ia alto, três vezes ele tocara a sua buzina – e nem o rafeiro latiu, nem apareceu a pastora! Então, desesperado, largou a galopar por vales e outeiros, sondando todas as espessuras de bosques, parando a olhar o fundo dos barrancos, subindo aos cimos, gritando, pelas quebradas, o nome de Solena. Mas, em torno dele, só havia solidão e mudez.

Pela tarde, avistou uma velha, que subia uma encosta, apoiada ao seu bordão, carregando um molho de lenha.

Correu, interrogou a velha – mas ela, tonta e vaga, não compreendia, e Gil outra vez abalou, sem esperança, não vendo os caminhos por onde corria, com as lágrimas que lhe bailavam nos olhos. Já o Sol descia, quando junto de uma cruz que se erguia entre três carreiros, encontrou dois homens, que descansavam, um segurando pela mão um burro carregado de vasilhas, outro com duas lebres mortas às costas, penduradas numa lança: ao ver Gil que colhera as rédeas, o caçador tirou a gorra de pele de raposa e dobrou o joelho como um servo: – mas quando Gil lhe perguntou pela pastora e pelo rebanho, nem ele, nem o homem do burro, o souberam informar. Gil, com um grande suspiro, meteu pelo caminho de Gonfalim.

Toda a noite velou numa ansiedade mortal. Ora a supunha inconstante, esquecida dele, tendo levado para outro sítio, para a beira de algum pastor como ela, o seu rebanho, e o seu lindo cantar; ora a imaginava na granja do amo, doente, ou morta talvez, devorada pelos lobos, levada pelas águas de uma torrente.

E o seu desespero era não saber qual o amo, a granja, que ela servia, onde ele pudesse correr, e saber a verdade. A tocha de cera, que ardia a um canto, estava derretida. Já a manhã clareava. Abriu a porta, desceu ao pátio, à quinta, a espalhar a sua dor na frescura das ramagens. Um homem, que apagava uma lanterna no muro da cavalariça, correu para ele, tirando o seu gorro de pele de raposa. Gil reconheceu um

Pêro Malho, falcoeiro, que desde o Natal tomara serviço no solar.

– Meu senhor! – disse o homem – a pastora porque ontem perguntáveis, no

Cruzeiro, quando eu lá estava, com duas lebres às costas, guardava umas dez ovelhas e tinha um podengo amarelo?...

Gil agarrou o braço do homem:

– Diz!

Então Pêro contou que o podengo fora encontrado morto; um almocreve achara adiante as ovelhas perdidas; de madrugada passara nesse sítio um bando de homens de armas, que vinha das bandas de Aguiar. A pastora fora decerto roubada.

Gil ficou mais branco que a cal do muro que lhe ficava por trás. E com um tom de comando e de força, como se aquela dor por que vinha penando do Donzel houvesse feito surgir o Homem, ordenou a Pêro que desse o alarme aos moços de armas, se armasse ele de ascuma e loriga, e estivessem todos, com cavalos, ao pé do Portelo da

Faia. Depois, subiu as escadarias de pedra, e na velha sala de armas, onde há tanto tempo só entrava o serviçal para sacudir a poeira, vestiu a cota de malha, e o capelo, que seu pai lhe dera, escolheu uma lança de monte, e armado, tendo feito o sinal-da-cruz, desceu devagar para que nem as aias se apercebessem, e foi ter ao Portelo, onde, um a um, espantados, ainda com os olhos inchados do sono, vinham chegando os homens de armas.

Eram os sete que havia no solar – e já velhos, tendo perdido nas tarefas da lavoura os hábitos do capelo e da cota, que se tinham enferrujado, e com as lorigas de couro mal juntas, os coxotes mal afivelados, montando velhos ginetes, a que quietos anos de sono e ração farta tinham tirado a ligeireza e o garbo, formavam um troço de homens toscos e moles, de que se riria qualquer bom cavaleiro, voltando da Fronteira e dos Mouros.

Mas, quando o senhor D. Gil, no seu grande fouveiro, sacudiu a lança e partiu, lá galoparam, mal acostumados à sela, enrolando por vezes na cima as mãos calejadas do arado e do malho.

Bem depressa, porém, a carreira parou, no encontro de dois caminhos, porque D.

Gil mal sabia o que o levava, assim armado, com a sua ronceira mesnada de sete homens de lavoura, através dos campos quietos. E os seus belos olhos de novo se enevoaram de lágrimas de donzel, sentindo que a sua grande cólera era vã, e sem alvo, como uma lança arremessada contra o vento! Para onde ir? Contra quem correr? Se a pobre Solena fora roubada, para onde a tinham levado os seus roubadores? A que solar pertenciam? Como tomar a desforra com esses sete homens mal armados?

– Que fazer, Pêro?

Ao seu lado Pêro Malho, montando um ginete pequeno de longas clinas, com uma loriga de tiras de couro negro, tomara o lugar de escudeiro. E com a sua ascuma atravessada na sela, coçando o queixo rapado, pensativamente, terminou por aconselhar que se fossem pelos caminhos, e pelas herdades, indagando da passagem desses homens armados, que tinham vindo de Aguiar.

– Assim seja, Pêro.

E todo o dia, por vales e outeiros daquela terra pouco habitada, a cavalgada trotou, sob o sol de Agosto.

Mas nem um almocreve, que conduzia, cantando, os seus machos, nem um bando de jograis que iam para a feira de Vouzela, nem duas moças que cavavam à beira de uma herdade solitária, lhes souberam dizer dos homens que procuravam. Pela tarde, quando o Sol descia, indo por um carreiro entre cerros, avistaram no alto a torre negra, as ameias de um paço acastelado. A levadiça estava erguida, e tudo parecia deserto, na tristeza do poente. D. Gil fez soar a sua buzina: – nenhuma atalaia apareceu entre as ameias. Mas, tendo costeado o cerro, e entrado num campo, que um valado cercava, dois homens correram, com chuços, gritando:

– Cá por aqui é honra! A que vindes?

Pêro, alçado nos estribos, gritou:

– De quem a torre?

– De Lanhoso, e não há cá ninguém.

A cavalgada seguiu – enquanto outros homens, besteiros e moços do monte, se acercavam também do silvado, gritando também, com tom de ofensa e de briga:

– Cá por aqui é honra!

D. Gil, cujos olhos faiscavam, colhera as rédeas, apertava a lança – mas já Pêro

Malho o retinha, com bom conselho. De que servia brigar? Com sete homens não se assaltava um castelo.

Os beiços de D. Gil tremiam. Talvez, dentro daqueles muros, estivesse agora a pobre Solena, perdida sem remissão. De que servia andar na vã empresa? Os homens violentos que a tinham levado estavam decerto metidos com ela dentro de muralhas e torres. Só o poder de el-rei a poderia libertar. Não ele, com os seus sete criados... E mesmo que corresse sobre aqueles, ou homens de outro castelo, como saber se eram esses na verdade os culpados, e se não estaria inocente o sangue que então corresse? Só lhe restava chorar aquela flor, que ele descobrira, e que outros tinham colhido.

Nesses pensamentos o colheu a noite, e foram pernoitar a uma herdade, onde o pobre fazendeiro, um velho, ficou aterrado ao ver aquele Senhor, com os seus homens de armas, que decerto esvaziariam a sua capoeira, e levariam a palha do seu palheiro, sem lhe dar um maravedi. Mas quando Gil declarou que tudo pagaria pelo preço de

Vouzela, foi uma festa na herdade, ate desoras, em torno de uma grande fogueira, e os homens de armas esvaziavam os pichéis de vinho, rindo das histórias que contava o facundo Pêro Malho.

D. Gil, embrulhado no seu mantel, pensava em Solena, nas tardes junto à ribeira, e naquela fraqueza dos seus braços, que a não podiam salvar. Mas, mesmo que a arrancasse de entre os homens brutais que a tinham levado, seria ela a mesma Solena, que embalava nos braços o anho branco? Não, Virgem Santa! A lama sujara a água clara. A pata do boi pisara a flor silvestre. Ai dele! Da Solena, que conhecera, nada restava, e era como se ela morresse, e o seu lindo corpo, que alvejava entre os rasgões do surrão, estivesse apodrecendo na vala escura. As lágrimas, ao pensar assim, caíam nas suas faces: – mas a violenta angústia cessara, como um temporal, e agora uma saudade se estabelecia na sua alma, calma e doce como o luar triste que se espalha pelos campos, depois que passou a tormenta.

De manhã, tendo os seus homens já montado, não quis recolher ao solar. Era como uma esperança de poder ainda talvez socorrer a mísera pastora, e uma vergonha de voltar a depor na sala de armas, entre a poeira, a sua lança que não servira.

Todo o dia ao acaso trilhou os caminhos. Ao passar pelas granjas, fazia ressoar a sua buzina. Se avistava algum cavaleiro, montado na mula de jornada, estacava, com a lança a prumo sobre o coxote; o cavaleiro passava tirando o gorro; e D. Gil retomava a marcha. Por vezes, enervado, impaciente, despedia numa longa carreira – até que homens e cavalos estacavam arquejando.

E no despeito fundo que sentia, com aquelas correrias sem destino, e sem glória, desejava ao menos encontrar um lobo, um touro bravo a derrubar. Os homens, cobertos de poeira e suor, praguejavam já surdamente.

Ao descer do Sol, à vista de um pinheiral que cobria um outeiro, sentiram de repente um grito, depois outro. «Louvado seja S. Tiago!» exclamou logo Pêro. D. Gil, largando a rédea, correu para o bosque escuro – e num barranco, avistaram, entre fardos e caixas caídos da mula que os carregava, três homens de armas que amarravam a um tronco um velho, enquanto atavam com uma corda os pés de um rapazito, cheio de sangue na boca. Os três cavalos dos homens esperavam à orla do pinheiral: e antes que

D. Gil pudesse usar a lança, já os três homens, saltando sobre os ginetes, fugiam furiosamente.

O bom cavaleiro largou sobre eles com dois dos seus solarengos – mas, conhecendo decerto os caminhos que se cruzavam entre o arvoredo, os três homens tinham desaparecido na espessura. Então, voltou para o velho, que Pêro desamarrara, e que, tremendo todo, e gaguejando, contou que ia com o neto levar duas jardas de pano de almafega ao paço dos Senhores de Solores, quando fora assaltado e espancado. O rapazito tinha dois dentes partidos, um ombro com a carne rasgada de uma lasca de pedra, e D. Gil lamentou não saber, como todo o cavaleiro deve, a arte de curar as feridas. Fez montar a criança, que desmaiava, à garupa de Gundes, o seu homem de armas que trazia o cavalo mais forte; a carga foi arrumada sobre a mula; e três dos seus solarengos, com Gundes, acompanharam o recoveiro ao solar de Sobres. Depois, quando viu o velho partir, assim bem escoltado, largou a galope para Gonfalim, tão alegre agora, e satisfeito com a vida, que rompeu a cantar.

A noite cerrara, quando a cavalgada chegou à levadiça do solar.

Serviçais esperavam com tochas – e Gil, desmontado, caiu nos braços de D. Rui e de D. Tareja, que, sem saber para onde partira o filho do seu coração, com cavalos e armas, tinham passado dois dias no alto da torre de atalaia, olhando sofregamente os caminhos, tremendo a cada rolo de poeira que ao longe se enovelava, e fazendo ricas promessas a todos os santos do Céu. Mas, quando o viram tão airoso e forte, na sua armadura, nem o repreenderam do terror que lhes dera, embevecidos com o seu belo cavaleiro, que lhes parecia tão belo como S. Miguel armado. D. Tareia passava as mãos com amor na cota brunida. Foi D. Rui que o desembaraçou da rodela e da lança. E quando à ceia o bom Senhor soube de como ele libertara o recoveiro, e o neto, e os três bandidos tinham fugido – não se conteve, no seu entusiasmo, e gritou com uma punhada na mesa que fez tremer os pichéis de estanho:

– Vida de Cristo! Que nunca ouvi, nem sei que se conte nos livros, de mais justa façanha!

 

V

Depois, a torre e Solena tinham-se sumido –e ele vira Jesus Nosso Senhor, de repente, que, sorrindo, lhe oferecia uma grande espada, mais clara que um diamante.

Então, começou a pensar em correr mundo, como paladino errante, para socorrer todos os fracos: – e agora, que aprofundava aquela ideia, nenhuma existência lhe parecia mais nobre e mais bela.

O mundo vira já muitos desses cavaleiros famosos. Mudos, cobertos de ferro, seguidos de um só escudeiro com a Lança, eles percorriam os remos da Terra, protegendo os pobres e os mesteirais, libertando damas encerradas em torres, derrotando os gigantes daninhos, derrubando os príncipes dos tronos usurpados, remindo povos

Então começou este moço gentil a amar grandemente as armas. Mas, por elas, não esquecia a linda Solena roubada: – e até, se agora se empenhava em ser um forte e destro cavaleiro, é que, sonhando uma noite com ela, a vira, no fundo de uma torre, com os cabelos soltos e grilhões nas mãos, que lhe dizia através de lágrimas: «Se não pudeste socorrer-me, a mim, pobre pastora, que só te tinha a ti no mundo, dedica-te, por amor e lembrança de mim, a socorrer todas as fraquezas, amparar todos os desamparos». cativos, destruindo as feras que assolam as searas, e, a caminho de conquistar um reino, parando a consolar uma criança que chorava num horto. Um anjo voava por trás deles com as asas abertas: – e as suas façanhas não provinham da irresistibilidade da sua força, mas da evidência da sua justiça. Uma tal vida deslumbrava D. Gil – e a sua possibilidade era clara, pois que, sem procurar aventuras, só porque sete lanças o seguiam, ele, libertando O recoveiro no pinhal, fizera obra de paladino.

Então todos os seus pensamentos foram dados a esta empresa. Todos os dias se adestrava em jogar a espada com qualquer mão, em disparar bestas, em vibrar o montante – e o velho D. Rui, do balcão da sala de armas, aplaudia estes exercícios, que tanto convêm a um fidalgo que preza Deus, a honra e a linhagem. Por sua ordem, o intendente comprou o melhor alazão de guerra, que nesses tempos apareceu na grande feira de S. João, em Viseu: todos os homens de armas foram providos com lorigas novas, ascumas de largo cutelo, cascos que reluziam como espelhos: – e a armadura de

Gil, que a mãe com o dinheiro das suas arras lhe quis dar, era tão bela, que esteve, durante todo um domingo, exposta na capela do solar.

Pêro Malho constantemente acompanhava D. Gil nestas ocupações de cavaleiro.

Era ele quem polia as armas, dava a ração ao ginete, cuidava dos galgos favoritos de D.

Gil, tudo dispunha para os exercícios de armas: – e mesmo, como a idade e os achaques iam tornando mais trôpego o aio de D. Gil, era Pêro quem dormia, atravessado à porta do seu aposento, e lhe batia as roupas com um junco, e, à mesa, lhe enchia o pichel de vinho. D. Gil começava a ganhar grande afeição a este escudeiro.

Era Pêro um mocetão, mais moreno que um mouro, esperto, destro e destemido, de uma alegria que Lhe trazia sempre descobertos os dentes magníficos, grande sabedor de histórias e rifões, lindo bailador em festas de adro, e tão rijo, que podia passar dois dias de jornada, sem sono, sem ração, bebendo apenas nas fontes um golo de água, pela borda do sombreiro. Sabia tudo quanto compete à caça e à guerra – e D. Gil tanto se ia afeiçoando a este moço, que já decidira levá-lo por escudeiro, se jamais partisse a correr mundo, como cavaleiro andante.

O seu desejo, agora que era destro em todos os exercícios das armas, era ser armado cavaleiro. E como D. Rui lhe prometera essa honra para quando tivesse vinte anos, e apenas faltavam duas semanas de Agosto, logo se começou a preparar a grande festa – e se armaram arcos de buxo desde o solar até à igreja do mosteiro, onde D. Gil devia velar as armas. Nessa noite por toda a aldeia, junto do velho solar e no terreno do convento, se acenderam pipas de alcatrão e fogueiras, onde o povo dançou, em grande ruído, ao som de violas e doçainas.

Um velho parente, D. Soeiro, Senhor de Tondela, que comandava trinta lanças, e tinha voz em três castelos, veio, com linda comitiva, dar a pranchada em D. Gil.

No terreiro do solar, duas vacas inteiras assavam em espetos maiores que lanças.

Das pipas, juntas em cima dos carros e toldadas de louros, o vinho corria como de fontes públicas. O clangor das longas festivas misturava-se aos cantos dos jograis. E quando pela tarde se baixou a levadiça, e D. Gil, todo armado, seguido de homens de armas, de escudeiros, de moços de monte, saiu ao terreiro, e empinando o ginete, brandiu três vezes a lança – todos os sinos repicaram, bandos de pombas soltas branquearam o espaço, punhados de rosas voltearam no ar, e uma chuva de moedas de prata e de cobre caiu sobre o povo, como no advento de um rei.

Depois, de novo o solar caiu em quietação e em silêncio. E D. Gil, que abandonara os livros, e não tinha já quem encontrar na solidão do bosque, e se saciara do exercício das armas, começou a achar os dias pesados e longos. As correrias pelos campos, com os seus homens de armas, agora bem armados e bem montados, não tinham motivo, nem destino: – e depois de galoparem nalguma planície, atravessarem alguma herdade, fazendo latir os cães e fugir as galinhas, descansarem à sombra de um arvoredo, e atroarem os vales com toques de buzina à mourisca, nada mais lhes restava que recolherem, pelo fim da tarde, cobertos de poeira, cansados, e sem aventura para contar à ceia.

Para seguir então, mais fielmente, a vida dos paladinos, como a aprendera nos livros, saía só com o seu escudeiro Pêro, que vestia um saio azul e branco (que eram as cores dos Valadares), trazia duas longas plumas brancas e azuis no gorro, e levava o montante e o broquei do seu amo. Ia então, para esperar aventuras, postar-se, como

Roldão, no encontro de dois caminhos, ou, como D. Clarimundo, à entrada das pontes.

Mas só encontrava algum almocreve, que o saudava humildemente, ou um frade mendicante que lhe dava uma relíquia a beijar, algum pobre menestrel, que, a troco de um maravedi, lhe cantava um vilancete, ou a gente dos arredores, lavradores e mesteirais, que todos o conheciam e lhe diziam, com agrado: «Deus salve o Senhor D.

Gil». E bem depressa abandonou estas cavalgadas solitárias – passando os dias no solar, pela quinta, com um látego inútil na mão, a visitar as cavalariças, o telheiro, onde os falcões engordavam entorpecidos, o lagar ou a eira. Na grande sala, D. Rui, que ia embranquecendo, dormitava, já muito gordo e pesado, na sua alta cadeira de carvalho, com os pés numa grande almofada, as mãos cruzadas e escondidas, como as de um padre, nas mangas da sua simarra. D. Tareja, com o cabelo todo branco, sentada numa esteira rio chão, trabalhava entre as aias; – e todas as noites Frei Múnio recomeçava a batalha de Dano, ou os milagres de Santa Úrsula.

Às vezes, seguido só do seu alão, D. Gil descia através da aldeia a uma pequena casa, junto do rio, onde Mestre Porcalho, muito velho também, enriquecido pelos dons de D. Rui, se retirara a repousar, cultivando o seu horto.

Encontrava sempre o douto velho, com os seus longos cabelos brancos, muito compridos, soltos sobre a garnacha negra, cuidando do cebolinho, do feijoal – ou à mesa da cozinha, coberta de plantas secas, dispondo folhas entre as páginas de um in-fólio.

D. Gil amava este douto prático – e gostava de o interrogar sobre os segredos do corpo humano, a sua estrutura, os seus humores, e as influências que o regem. Mas agora, que já não exercia a sua ciência, o bom Porcalho, franzindo as grossas sobrancelhas brancas sobre os olhos cavos e muito luzidios, declarava nada saber, menos que um porco – porque só havia três ciências de curar. Uma, a dos monges, por meio de peregrinações, milagres, e contactos de relíquias, e era esta falsa, porque o ilustre físico árabe Rhazei provara que Deus não se intromete com a saúde das criaturas.

A outra, a do Povo, feita toda de feitiços, esconjuros e sortilégios, era ilusória porque vem do Diabo, e o Espírito do Mal não pode promover o bem humano. E a terceira, a verdadeira, a eficaz, essa ainda não chegara a estes remos de Portugal, e estava toda em

França, terra de grandes escolas.

No entanto ele, Porcalho, fizera importantes achados! Era incontestável que a pedra de ágata facilitava as dores da maternidade, como ele provara com a Senhora D.

Tareja; que a sangria de Março devia ser feita nas veias do peito; e que a hipocondria era produzida por um vento funesto, que vinha da Lua e que inchava o fígado! De resto, descobrira alguns simples maravilhosos –e a ele, não a outro, se devia que em toda a terra do Douro ou das Beiras se reconhecia hoje a excelência da mandrágora! Dizia estas coisas profundas com um grande ar inspirado e sinistro. Em redor, toda a cozinha estava cheia de almofarizes, grossas garrafas com líquidos de cores radiantes, aves empalhadas, molhos de ervas secas pendurados das traves defumadas do tecto: um cheiro doce e triste perturbava a alma: e nos vastos in-fólios, com fechos de metal, parecia dormir uma ciência imensa e profunda.

D. Gil voltava para o solar, devorado pela curiosidade daquele saber. Nenhum poder humano lhe parecia mais alto do que aquele que suprime as dores, luta com a influência do invisível, e vence a Morte. Quanto bem a derramar pelo mundo, quando se possua aquele divino saber! Se era já belo e grande tomar armas e ir pelo mundo livrar os homens dos males que os homens lhes fazem, quanto maior e mais belo libertar o pobre corpo dos males infinitos que lhe faz a Natureza! E bem compreendia agora aquela regra, tão fundamental, dos livros de boa cavalaria, que todo o bom cavaleiro devia saber a arte de curar as feridas que a lança faz. Não era pois indigno, antes nobremente próprio de um fidalgo, conhecer os simples, as influências, a arte do bem-sarar.

Por aquela ciência, como por uma escada sem fim que mergulha nos céus, o homem ascende aos altos segredos! Aquele a quem um mal aflige pode então recorrer a esse alto saber, tão eficazmente como a Deus por meio da prece: – e, na verdade, o bom sabedor da Grande Arte é como um Deus que percorre o mundo distribuindo a vida.

E destes pensamentos, que o conservavam de noite desperto, resultou que o gentil cavaleiro, deixando as armas cobrirem-se outra vez de poeira, se quis preparar, antes de novamente as tomar, com a grande ciência dos simples e das drogas. Começou então a estudar, assiduamente, com Mestre Porcalho, que se orgulhava deste discípulo, tão gentil e tão nobre. O seu dia todo se passava no horto, ao pé do rio. Sentados ambos sob a latada, D. Gil, com um pergaminho no joelho, escrevia todos os preceitos que lhe revelava o velho Mestre, para depois os decorar, passeando até desoras no seu quarto. Já sabia os princípios de Galiano e dos Gregos, as receitas de Rhazei e dos Árabes. E por um caderno mirífico, que Mestre Porcalho obtivera de um judeu, e que continha extractos do Cânon de Avicena, já conhecia vinte doenças, e as suas vinte causas, e os seus vinte remédios. Mas a experiência original e própria do Mestre não era menos valiosa; – e por ela aprendeu D. Gil todas as medicações que se devem aplicar segundo os meses – em Janeiro tomar poção de gengibre, em Fevereiro sangrar na veia do peito, em Março pôr ventosa no fígado...

Por meio de ossos humanos, que o Mestre outrora, com grande risco, roubara num cemitério, e que guardava numa arca sob o leito, conheceu os segredos da estrutura humana: e ao ver uma caveira que nunca vira, e que o fez persignar-se para afastar o mau olhado, pensou, sem saber porquê, em Solena, no brilho do seu olhar, na sua pele tão macia e doce. Depois, diante dele, Mestre Porcalho uma noite matou um bácoro, e

Gil conheceu as veias, os tendões, e o saco do estômago, onde «o ar penetrando decompõe os alimentos».

 

VI

Era no tempo dos figos – e tendo demasiadamente comido desta fruta, o bom abade fora atacado de um duro mal. Na sua cela, onde recebeu afavelmente o seu vizinho, as relíquias do convento estavam expostas, sobre um pequeno altar, para dar saúde ao bom abade.

Um frade rezava junto ao vasto leito de carvalho. Outro pisava uma massa dentro de um almofariz – e dois noviços, com ramos de louro, sacudiam as moscas da face venerável, que o mal empalidecera.

No solar o velho D. Rui estranhava a nova existência de Gil – que, agora, das suas caminhadas solitárias, sem galgo, sem escudeiro, voltava carregado de ervas, como um aprendiz de ervanário. Mas quando soube que ele andava aprendendo a arte de curar, a sua admiração por aquele filho excelente cresceu, e não duvidou que ele viesse um dia a ter fama, em todo o reino, pelo seu saber maravilhoso: – e uma tarde, montando com custo na sua mula, foi ao mosteiro levar ao D. Abade a notícia desta empresa nova, a que se lançara o grande espírito do seu doce Gil.

D. Rui lamentou o bom abade – e, sentado num escano aos pés do leito, contou logo como, justamente o seu Gil, começara agora com o grande desejo de saber a arte de curar aquele e outros males.

– Pois mandai-o estudar a França!... – acudiu logo o D. Abade, estendendo a mão fora da roupa, com um gemido. Não sei que haja mais útil saber. Mas nós, aqui neste reino, nem uma dor sabemos calmar... Não o digo pelos doutos padres desta casa!... Mas já desde domingo, que foi a merenda, estou aqui em trabalhos... Estamos em grande atraso. Mandai-o estudar a França.

E, pregando os olhos nas santas relíquias, ficou mudo.

Só quando D. Rui lhe beijou o anel da mão, caída sobre a colcha de seda, tomou a voltar o rosto, a murmurar:

– Mandai-o estudar a França.

D. Rui recolheu ao solar melancolicamente. Deus, decerto, pela voz do D. Abade, que sofria cercado de relíquias, lhe indicava aquele dever de mandar o seu filho a

França, para se ilustrar no saber. Mas a ideia de o ver partir e ele já tão velho, cortava o seu coração.

Quase desejava que seu filho fosse um moço de espírito simples, contente em caçar, e justar as armas no pátio do seu solar. E nem contou a D. Tareja esta visita ao mosteiro, o conselho penoso que lá fora escutar.

E era então com mágoa que via agora o seu filho cada dia mais devotado aos livros. Tendo começado por estudar a arte dos Simples e das Drogas, como complemento da sua educação de cavaleiro, ele começava agora a amar esse saber, como o fim supremo da vida.

Como um peregrino que percorre um templo, e a quem a beleza ou raridade de uma capela inspira o desejo devoto de percorrer as que além, na sombra, fazem cintilar os seus ouros, este gentil cavaleiro, de cada estreita região do saber em que penetrava, recebia a nobre tentação de invadir outras, que ao longe faziam cintilar a maravilha dos seus segredos.

As secas plantas, com que Mestre Porcalho lhe ensinara a fazer emplastros para curar humores, lhe tinham dado o desejo de conhecer toda a vasta natureza que cobre a terra, e a estrutura dessa terra, onde se escondem os metais e o fogo: a terra, ela mesma, lhe fizera sentir o desejo de conhecer tudo o que a cerca, os ventos que a sacodem, as nuvens que sobre ela formam um todo de multicor beleza, os astros pequem-nos e grandes que sobre ela derramam o seu brilho fulgurante ou meigo. Do Homem, de quem o velho físico lhe explicara os ossos, ele bem depressa quis conhecer a alma, e as leis múltiplas e maravilhosas que a regem... Por que aspirava ele ao bem? Por que sentia uma resistência ao mal? De onde nascia o amor? Por que pensava, e em que parte íntima do homem brotava a fonte imperecível do pensar? Depois era ainda a curiosidade de saber o que o Homem, desde tão longas idades criado, tinha feito na terra, e as cidades que fundara, e as grandes guerras que travara, e as Leis que criara para se conservar manso e sociável... E, do Homem, a sua curiosidade ascendia ao Deus que o criara. Qual era a sua essência, onde habitava, que cuidado tinha ele pela humanidade que criara? –

E assim, este moço gentil, a quem a barba mal nascera, aspirava a percorrer todas as ciências, a compreender todo o ser. Mas entre as velhas muralhas daquele solar, naquela quieta aldeia, adormecida sob o olivedo e a vinha, como poderia adquirir todo esse saber, que ocupa, para ser codificado e aclarado, monges de tantos mosteiros, escolares de tantas escolas! Todos os trinta e três livros, que formavam a rica livraria do convento

Beneditino, lhe tinham sido emprestados, por supremo favor, e em todos, confusamente e tumultuosamente, aprendera milagres de santos, leis visigóticas, batalhas da antiguidade, receitas de drogas e notícias dos países que estão para o Oriente: –mas eram como curtas fendas, num tecto de maciças traves, por onde entrevia pontos vivos de luz, aqui e além, e tudo o resto era escuro, e a luz completa estava por trás, sem a alcançar.

Mesmo por vezes lera um grande tomo, de Aristóteles ou de Séneca – mas sentia que o seu espírito solitário, sem um guia, ia através daquele saber, como um homem perdido de noite numa montanha desconhecida.

A sua alma então, nessa grande sede que não podia ser saciada, porque estava tão longe de toda a fonte, caiu numa melancolia. Abandonou os grossos in-fólios onde já nada novo podia aprender – e não o atraía a companhia de homens que nada lhe podiam ensinar. Só, com um galgo, partia de manhã, penetrava nos campos, procurava a solidão das quebradas e dos vales: e aí, caminhando devagar, ao comprido de um ribeiro, ou deitado à sombra de uma árvore, ele pensava na inutilidade da vida...

Aquilo, pois, era viver–esta monótona sequência dos actos instintivos: acordar, comer, caminhar entre as árvores, voltar à mesa onde as malgas fumegam, e, quando a luz finda, adormecer? Assim vivia qualquer bicho no mato! Mas de todas as ocupações humanas qual era verdadeiramente digna de que o homem nela pusesse a sua alma inteira, e a tomasse o fim do seu esforço na Terra? Não decerto vestir as armas, seguir um pendão, rasgar as carnes de outros homens, gritar no estridor das batalhas, para que o Senhor Rei possua mais um castelo, ou alargue, para além de um rio, as fronteiras do seu reino! Não decerto juntar maravedis, com eles comprar mais terras e mais servos, engrossar rendas, atulhar as arcas de sacos de ouro! Não decerto andar de solar em solar, com plumas no gorro, e um falcão em punho, galanteando as damas, conversando de Linhagens, justando nos pátios, e escutando os jograis que cantam ao serão!...

O quê então? E o seu espírito recaía naquela ambição vaga que o torturava, a ambição de tudo saber, de se elevar, pela posse dessa ciência, acima dos homens, e exercer essa supremacia toda em favor e bem dos homens. Quereria ter um saber que lhe permitisse fazer as leis mais justas, curar todos os males do corpo, enriquecer as multidões, estabelecer a paz entre os Estados, e guiar todos os seres vivos pela larga estrada do Céu. Para tal fim, só para ele valeria a pena viver. E, para o conseguir, não haveria trabalho a que se não sujeitasse, fadiga que não afrontasse. Veria, sem dor, o seu corpo penar, comeria as ervas dos campos, vestiria os trapos mais sujos, serviria nos misteres mais rudes – contanto que a alma se fosse enchendo desse grande saber, cada vez mais alto, mais belo, dominando todas as almas pela abundância de verdade que possuísse, e pela eficácia do bem que espalhasse. Mas esta ambição, como a realizar?

Onde, como, adquirir esse saber benéfico? E quando o tivesse adquirido, de que modo fazer que ele aproveitasse aos homens, para se tornarem melhores, e serem aliviados dos males da vida?

Seria um grande físico, que fosse pelo mundo curar os males da carne? Seria um grande Teólogo derramando a paz nas almas? E mesmo que melhorasse algumas almas, ou sarasse alguns corpos, quantos ainda por todo o vasto mundo ficariam sem remissão e bem-estar? Qual era o meio de fazer o bem, simultaneamente, a grandes multidões?

Assim pensava D. Gil na solidão dos vales. Este moço tão gentil tinha então vinte e dois anos – e era tão belo e airoso, que a gente se voltava nos caminhos, e o ficava a olhar, com doçura.

Os seus longos cabelos, de um louro escuro, caíam em anéis como os de um arcanjo. Nada havia mais doce e luminoso que o olhar dos seus olhos escuros. Um buço, apenas nascente, dava uma sombra de virilidade à sua pele ebúrnea, como a de uma virgem: – e no seu andar havia uma graça altiva, como a de um príncipe em plena felicidade. Os seus modos eram tão doces e corteses, que logo prendiam as almas.

Nenhuma pessoa, por mais humilde, o saudava, sem que ele gravemente erguesse o seu gorro de fidalgo: e nos caminhos estreitos encostava-se às sebes, para deixar passar os velhos, ainda que fossem mendigos. Ainda que naquela farta e quieta aldeia não havia pobreza, a sua escarcela saía cheia, e voltava sempre vazia. Amava todos os animais –e as crianças faziam-no parar, sorrindo, enternecido.

Com esta cordura de monge, tinha todas as prendas de um cavaleiro. Ninguém justava, jogava o tavolado, domava um potro bravo, erguia uma barra de ferro, com mais força e primor.

Nada temia – nem os homens, por mais fortes, nem as feras por mais bravias, nem os duendes por mais malignos. Mas na casa de seu pai era obediente como uma criança

– e era ele quem servia o velho, o ajudava a erguer da sua cadeira, e mesmo lhe penteava os seus cabelos brancos. Um olhar de sua mãe era para ele como um man-damento divino – e com tanta devoção lhe beijava a mão, que outra maior não tinha com a Mãe do Céu.

Nunca sua alma, branca como a água mais pura, fora toldada pela passagem de um pensamento injusto ou impuro. A Justiça era para ele tão necessária como a luz: – e se testemunhava uma injustiça, sofria, como se um guante alheio lhe tivesse batido a face, sentindo-se ofendido na ofensa que via fazer aos outros. Adorava a Verdade, logo abaixo da Virgem Maria: – e todo o olhar que não fosse franco, toda a palavra que não fosse livre, lhe davam o horror de uma coisa suja.

Queria que todos os solarengos lhe falassem sem submissão: – e, amando todos os homens como iguais, a servidão parecia-lhe uma ofensa ao seu amor.

Assim o Senhor D. Gil era, nesses anos ainda curtos, uma das almas melhores da cristandade.

Um dia, tendo despertado com o cantar das calhandras, e sentindo a alma mais triste, partiu só, com um grande lebréu, e levado pelos seus pensamentos, foi dar ao alto de uma colina, que era a mais alta naqueles sítios, e se chamava a serra do Bruxo. Dali via, mais baixas, a vasta colina onde negrejava o seu solar, a aldeia de Gonfalim, espalhada entre a verdura, o branco Convento dos Beneditinos, o rio, luzindo entre as margens altas, e a ondulação dos cabeços, até ao extremo azul: – e de pé, envolto no vento largo que soprava, Gil começou a considerar quanto era estreito aquele horizonte, e quanto seria impossível, na verdade, que dentro dele se realizassem sonhos que abrangiam o mundo todo. Que havia ali, naquele círculo de colinas? Os muros do seu solar, um convento de velhos frades, uma aldeia de pobres colonos, e para além, terras bravias, matos, colinas, que o tojo vestia! Como poderia jamais ser ali o homem que desejava, o homem de grande saber, de grande acção? E quando, por um dom divino, assim se tornasse, onde havia ali uma humanidade múltipla e larga, para ele exercer a acção da sua alma? Mas para além havia outras terras, grandes remos, cidades ricas, grandes escolas, mosteiros de alto saber, e multidões inumeráveis, sobre quem uma alma forte e bem provida podia exercer uma supremacia que valesse a pena conquistar.

Se ele deixasse o seu lar estreito! se ele partisse!

Um alvoroço encheu o seu coração – e quase imediatamente sentiu ao lado, entre umas fragas, uma voz moça e fresca que cantava:

Pelo mundo vou,

Onde chegarei?

E o que procuro

Onde encontrarei?

E um moço apareceu, ligeiro e magro, pobremente vestido, que trazia uma sacola de mendicante a tiracolo, um forte bordão ao ombro, e duas grandes penas de galo no seu gorro remendado.

Uma alegria, franca e livre, alumiava a sua face magra. Todo ele parecia respirar com delícia o ar áspero e livre da serra: – e os seus olhos refulgiam, com um grande fulgor risonho.

Diante de Gil, parou, batendo com o bastão na rocha.

– Como se chama esta serra e onde leva este caminho?

Gil tirou o seu gorro, com cortesia.

– Esta serra não tem nome, e este caminho só leva a outras serras... Para onde ides?

O moço limpou lentamente o suor, que lhe alagava a testa:

– Vou procurando terras de França...

– Assim, para tão longe, a pé!

O moço riu alegremente:

– É que o Senhor Rei, quando distribuiu as terras e os solares, esqueceu-se de me dar uma, e uma mula para jornadear custa bom ouro. Mas as pernas são rijas e mais rijo o coração. E ele que me Leva, neste desejo de ir a França, para entrar nas escolas, e saber o grande saber, e vir a ser Físico-mor no paço de um rei, ou ensinar decretais num conselho. Na herdade em que nasci só havia um livro, que era o missal da capela. E como em todo o mosteiro há uma côdea de pão para um mendigo, e nos ribeiros não falta água, aqui me vou, com o meu cajado, cantando por estes caminhos da terra.

Os seus olhos fulguravam como duas chamas – e do cajado que ele assentara, rindo, sobre uma pedra, chisparam longas faíscas. E continuou:

– Só me falta um companheiro. Moço sois, forte pareceis; em França as mulheres são lindas; nas grandes escolas aprende-se o segredo das coisas; e as guerras não faltam a quem apetece a glória. Vinde também comigo, e seremos dois a cantar.

Gil respondeu gravemente, mostrando Gonfalim e o paço acastelado:

– Acolá fica a casa de meu pai.

Então o moço tirou o seu gorro:

– Rico sois! Ajudai um pobre estudante.

Gil abriu a escarcela, e, corando, tirou uma moeda de prata que pôs na mão do estudante. E, sem saber porquê, sentia uma atracção para ele, como um desejo estranho de se juntar àquele destino errante. Mas o moço, atirando o cajado para as costas, dando um jeito à sacola, partiu. E de novo cantava:

Dia e noite caminho,

Para onde irei?

E o saber que procuro,

Onde encontrarei?

A meio da encosta ainda se voltou, acenou com a mão a Gil – e subitamente desapareceu. No chão, em que os seus pés se tinham pousado, a erva secara toda.

 

VII

Gil recolheu ao solar, pensativamente. Aquele moço pobre partia, sem temer as misérias do caminho, pronto a esmolar o seu pão pelos mosteiros – só para adquirir, longe, nas grandes escolas, o saber a que aspirava. E ele, rico, que poderia partir, com bolsa farta, escudeiros e bagagens, hesitava em partir, para satisfazer as justas e nobres ambições do seu espírito! Se Deus lhe pusera na alma aquele ideal elevado, era por acaso para que ele o deixasse morrer insatisfeito e inútil? Dava-lhe Deus uma luz clara, para ele alumiar os outros, e em vez de a tornar mais viva e clara, tão alto, quanto alta possa ser uma luz da Terra, ele deixaria, por timidez e enleio da vontade, que ela esmorecesse e perecesse entre as abóbadas de um velho solar? Não, decerto! E como, pensando assim, avistasse à beira do caminho um cruzeiro – tirou o seu barrete, e jurou pela cruz que nessa noite falaria a seu pai, e lhe pediria para ir estudar a França.

E foi num caramanchão, no pomar, que ele revelou a D. Rui e a D. Tareja este grande desejo do seu coração. A ambos pedira para o acompanharem ao pomar, que tinha grande nova a dar a quem tanto amava... E sentado num rude banco de pedra, sob um caramanchão, onde se entrelaçavam rosas e madressilvas, tendo numa das mãos presa a mão do seu pai, na outra a da boa dona, lhes disse quanto lhe penava o passar os anos naquele solar, sem proveito para si, e utilidade para os outros homens, seus irmãos:

– tinha a ambição da glória, de honrar o seu nome, e de espalhar o bem pelo mundo: mas o serviço das armas, se lhe poderia dar glória, não o atraía, porque na guerra não havia senão miséria e mal: – e depois de muito cogitar, decidira que o seu desejo se satisfaria indo estudar às escolas de França, para voltar ao reino, como um grande escolar em medicina, que era um saber próprio de nobres.

Apenas um ou dois anos por lá passaria. Daria de si novas constantes – e ainda eles não teriam começado a sentir a longura da separação, já ele estaria de volta, licenciado no grande saber, para espalhar o bem em todo o reino, e ser bendito dos homens.

– Isto vos peço, pelas chagas de Cristo, que me não negueis este desejo, que é para bem dos homens, e por Jesus inspirado.

As lágrimas caíam pelas faces dos dois velhos. E elas e o seu silêncio, bem mostravam quanto eles julgavam nobre o desejo do seu Gil, inspirado pelo Céu, e difícil de ser recusado.

Mas dois anos de separação – e eles já velhos, e a França tão longe!

Como se ele já partisse, e ela o quisesse reter, a mãe abraçava o filho e murmurava:

– Em tanto mimo criado... E partires só para essas terras! E tão grandes os perigos e as tentações! Nós, sós, sem ti, como viveremos!

Mas o velho, mais forte, recalcando a emoção, exclamou:

– Tão nobre desejo não pode ser negado. O nosso filho tem altos espíritos... Não é nesta aldeia, neste velho solar, que ele pode ganhar fama e servir o reino. Não seria o amor de pai que, para não sofrer um ano, deixasse aqui neste ermo apagar-se, sem serventia, luz de tamanha promessa. Não te pese que choremos... Cumpre tu o teu dever de homem bom. Deus te leva, Deus te trará.

Gil murmurou:

– Deus decerto me trará.

Ficaram um instante todos os três abraçados – depois, em silêncio, foram à igreja, onde muito tempo rezaram.

Sem outras lágrimas, ainda que com grave melancolia, foram feitos os aprestos da longa jornada. Duas possantes mulas de caminho, uma para Gil, outra para o seu escudeiro Pêro, vieram da Feira da Covilhã, com os seus arreios novos. Os alforges de couro foram atulhados de roupas novas: – e o ovençal de D. Rui reuniu quinhentos maravedis de ouro. O bom abade dos beneditinos deu cartas de boa acolhida para os conventos de Espanha e de Provença, e um monge, que fizera a jornada, marcou num grande pergaminho o roteiro que, através de Castela e de Leão, levava à cidade de Paris.

Na véspera da jornada, a capela do solar e a igreja de Gonfalim estiveram toda a noite alumiadas, com capelães e os solarengos rezando, para que o Senhor guardasse o fidalgo que partia. D. Tareja lançou ao pescoço do filho uma relíquia, um pedaço do manto da Virgem, dentro de um escapulário. Nessa madrugada Gil ouviu missa – e o velho Frei Múnio deu a bênção a tudo que ele levava, armas, alforges, o grande lebréu e a mula. Pelas horas de matinas, estando todas as aias e serviçais reunidos no pátio – D.

Gil apareceu, entre o pai e a mãe, pálido, com o seu grande feltro de jornada, um brial escuro, e grandes botas de couro cru, onde brilhavam acicates de ouro. De joelhos, recebeu a bênção do pai, longamente esteve fechado nos braços da mãe. Todos os sinos então repicaram. Os solarengos, erguendo os sombreiros, bradaram: «Boa ida, boa volta!»E, com os olhos vermelhos, mais pálido que uma cera, o Senhor D. Gil, a galope, transpôs a levadiça do solar.

Amparados um ao outro, os dois velhos subiram à torre de atalaia. E quando viram as duas mulas desaparecer, ao fundo da azinhaga, caíram de joelhos nas lajes duras, tremendo, chorando, murmurando o padre-nosso.

À entrada da ponte, um velho de cabelos brancos, sobre a sua garnacha negra, deteve D. Gil que trotava, soluçando. Era Mestre Porcalho, que lhe vinha dizer o adeus da partida. O fidalgo e o velho físico longamente se abraçaram.

– Lede Galeno – murmurava o prático entre lágrimas mal reprimidas.

E quando Gil de novo trotava sobre as lajes sonoras da velha ponte romana, ainda o físico lhe bradou, com a mão descarnada no ar:

– Lede-me sempre Aristóteles!

 

VIII

Sempre os mesmos rudes e estreitos caminhos, escavados pelo trilho das cavalgaduras, ou dos carros, se sucediam, através de terras pobres, sem verdura e sem homens, de uma cor seca de greda, com alguma árvore poeirenta, onde as cigarras cantavam. Por vezes avistava uma pequena aldeia de adobe e tectos de colmo, agachada em torno de uma velha igreja, meio arruinada, findando por uma taberna, que estendia por cima do caminho o seu ramo de louro, preso na ponta de um pau. Gil desmontava aí, fatigado; havia sempre algum frade mendicante, de aspecto torvo, bebendo o seu pichel de vinho, ou dois mesteirais errantes jogando os dados sobre um toro de carvalho: e a taberna, os homens, toda a aldeia em redor, eram tão tristes, tão rudes, que Gil tornava a partir, preferindo dormir à beira da estrada, sob a luz das grandes estrelas de Verão, junto de uma fogueira que acendiam, por causa dos lobos.

Outras vezes, caminhando na planície, avistavam num alto de colina, entre rochas, um negro, severo castelo: para lá trepavam; e depois de longas vezes tocarem a buzina, aparecia entre as ameias algum velho servo, que gritava para baixo, num tom rouco:

«Ninguém está, e ninguém entra». Nas ermidas que topavam, encravadas entre fragas, os ermitões pareciam entontecidos pela velhice ou pela penitência, recusavam abrigo aos cavaleiros, ou fugiam para o alto do monte: – e nunca nestas ermidas havia cruz ou imagem santa. Longos dias tinham passado sem que encontrassem uma capela, um cruzeiro, onde ajoelhassem, dissessem as suas rezas. O pão que por vezes compravam nalguma rara taberna, a água quente e turva de algum poço, fora todo o seu alimento: – e Gil pensava consigo que guerra assolara aquelas regiões, ou se seria assim, árida e triste; toda a terra de Portugal, para além do vale de Gonfalim.

Doze dias tinha D. Gil caminhado com o seu escudeiro Pêro Malho: – e tão fastidiosa e monótona se estendia a longa jornada, sob a ardência de Agosto, que por vezes o moço gentil dormitava como um frade, ao lento passo da sua mula, ou, acordando, suspirava com uma saudade do seu solar e dos frescos arvoredos de Gonfalim. Desde que tanto se alongara da sua aldeia, nas serras da Beira, nada encontrara que lhe fizesse sentir a beleza ou variedade do mundo.

– Meu bom Senhor – murmurava então Pêro Malho – nós vamos errando caminho.

E sucedia então que sempre algum pastor, ou frade mendicante, de barba revolta, ou caçador com a sua besta ao ombro, surgia de um valado, ou de entre rochas, e lhes afirmava ser aquela, bem direita, e bem certa, a estrada que os levaria a Zamora.

Pêro Malho, derreado, com os pés caídos fora das largas estribeiras, coçava a cabeça, pensativamente.

– Senhor meu amo, estes caminhos parecem arranjados para o Diabo andar de jornada... Já reparou Vossa Mercê que ainda não encontrámos nem capela, nem mosteiro, nem cruz a que se reze um padre-nosso? E o que mais me arrenega é que ainda não topámos com águas claras, com águas correntes... Onde não está água, não está Deus. Chão de greda é condado do Demónio.

E como D. Gil permanecia mudo, alongando os olhos para os secos descampados, onde só vivia a urze e a piteira, Malho recuava a mula para trás de seu amo, e suspirava baixinho:

– Ai Portugal, Portugal!

Uma manhã tinham penetrado entre grandes serranias de rocha, seguindo o leito seco de uma torrente. Tão grande era a solidão e o silêncio, que D. Gil sentia como o terror de uma treva, e como se estivesse para sempre separado do mundo e das coisas vivas. O Sol, no alto, faiscava furiosamente através de um ar tão espesso que se lhe via a vibração, o tremor luzidio, como de um pó de vidro suspenso. As patas das mulas estremeciam a cada passada, tocando a ardência das pedras e do chão: – e dos altos muros de rocha, aos dois lados, vinha um calor áspero, seco, como se fossem os muros de tijolo de umas termas acesas. D. Gil arquejava, procurando uma cova, uma fenda de rocha, onde achassem sombra e refúgio: mas as duas encostas só ofereciam, nos seus dorsos redondos, como de grandes fornos, estendais secos e lisos de pedregulho miúdo, que faiscava.

– E serem isto terras de el-rei de Leão! –murmurava Pêro Malho, com tédio.

Então D. Gil, para depressa fugir daquele vale ardente, de mortal secura, picou com furor os ilhais da mula.

Naquele sinistro silêncio da terra morta, sob o faiscar inclemente do Sol, muito tempo galoparam, saltando por duas vezes sobre grandes ossadas de cavalos, que, ainda inteiras, branquejavam entre as pedras. Quando estacaram, esbaforidos, com grandes flocos de espuma caindo dos freios das mulas, estavam em frente de uma vasta planície, deserta, nua, como varrida por um grande vento de assolação e de morte: – e, por cima, o Sol faiscava furiosamente. D. Gil murmurou: «Deus da Boa Viagem nos valha!»

Desde a véspera, em que numa choça deserta uma velha lhes dera, rosnando e praguejando, um pedaço de chouriço e uma malga de vinho, nada tinham comido: já a sede os atormentava e na infinita planície não havia caminho marcado... Que fazer?

– É andar, senhor meu amo – aconselhou Pêro Malho. – Devagar e a direito, e cantando, para espairecer.

E o alegre escudeiro tomou a sua viola de duas cordas, e começou um longo canto mourisco, dolente e dormente – enquanto, a passo, sacudindo a espuma dos freios, as duas mulas arremetiam através do descampado ardente. Nem um galho de tojo seco, nem uma lâmina de piteira, surgiam naquele vasto deserto, chato, onde a terra estalava toda em fendas, sob as patas das mulas. Longos sulcos tortuosos marcavam por vezes os riachos secos. E a única nota viva era o zumbir de grandes moscardos.

Com os pés caídos fora dos estribos, as abas dos sombreiros descaídas sobre a face, as rédeas abandonadas, D. Gil sentia amolecer, fundir-se, naquela grande tristeza da solidão e do calor, a vontade, o desejo de acção, que tão alegremente o fazia galopar nos primeiros dias de jornada, como para uma conquista: – e agora, o seu pensamento voltava-se para ideias de repouso, de indolência, entre mármores frescos, em jardins bem regados. Ao seu lado, com a perna encolhida sobre o arção da sela, Pêro Malho feria as cordas da viola num don-dlin-don seguido, cantando, para animar a marcha, as trovas de um cavaleiro que, atravessando um laranjal, encontrara uma infanta a pentear os cabelos de ouro. E a imaginação de Gil seguia aquela infanta, sentia a frescura do laranjal – dos cabelos da dama passava aos seus braços brancos, que se arqueavam, no mover do pente. Uma sonolência lânguida ia-o invadindo, naquela fraqueza crescente do jejum e da sede. A grande planície, lívida, flamejava em silêncio. Muito cansadas, as mulas mal sacudiam o pescoço baixo, que os moscardos mordiam. Grandes bafos de calor passavam por vezes tão espessos, que as faces dos dois viajantes lhes sentiam o embate mole e ardente. E, incansáveis, teimosos, para animar a marcha, os dedos de

Pêro feriam a viola com um dlin-dlon seguido. O cavaleiro, na sombra do laranjal, ajoelhado na relva aos pés da dama, beijava a franja do seu cinto branco. Gil mal seguia o canto, o suor pingava da sua face pálida, o pó branquejava ás pregas do seu brial, e com os olhos meio cerrados, do cinto da dama vinha a pensar no corpo airoso que ele cingia.

Por que não encontraria ele, na sua jornada, um fresco laranjal assim povoado? A viola fazia dlin-dlin-dlon. A terra seca esfarelava-se sob as patas das mulas. E assim seguiam, por aquele ermo do Reino de Leão, sob o grande sol de Agosto, o Senhor D.

Gil e o seu escudeiro, nas suas mulas cansadas, cobertos de pó, cheios de sede, ao som dormente e áspero da viola mourisca.

Um cismando, outro cantando, entre aquela radiação de luz que os ofuscava como uma névoa de ouro fosco, não tinham os dois cavaleiros reparado que a terra, por onde caminhavam, se ia elevando em colina, docemente. Mas, de repente, um ar mais fresco, onde errava um aroma de verdura, bateu na face do Senhor D. Gil. Despertando daquele tanger que o entorpecia, estacou a sua boa mula. Estavam no cimo de um outeiro: – e em baixo, num vale, cavado e fundo, verdejava um grande bosque, e tremia como um brilho de água.

Com que ansiedade tangeram as mulas! E com que consolo, com que largo suspirar, penetraram sob folhagens e sombras! Era um belo arvoredo, de troncos espaçados, já velhos, onde se prendia, tapando o sol, uma longa renda de folhagens de um verde claro e tenro, como não há em Agosto. Todo o chão era um musgo fresco. E no silêncio fino e alto, aqui e além, um melro cantava. Com os sombreiros na mão, a passo, respirando deliciosamente, eles penetraram naquela frescura bendita, por entre os altos troncos alinhados, como ruas de uma coutada real.

E o bosque parecia infindável, cada vez mais fresco, mais verde, mais silencioso.

Por fim, um espelho de água, que o sol batia, brilhou entre os últimos troncos: – e, espantados, os dois cavaleiros pararam à beira de um belo lago, todo cercado de arvoredo, cujas longas ramagens pendentes roçavam a água. Tão clara e pura era ela, que eles viam no fundo reluzir uma areia muito fina e como misturada de pó de ouro.

No meio surgia uma ilha com um arvoredo, que fazia um grande ramalhete verde. E, à beira da água, seguia um pequeno caminho, limpo e branco, orlado de flores silvestres.

Por esse caminho meteram lentamente, quase esquecendo a fadiga e a sede, no assombro daquele divino recanto de verdura e paz silvana: – e de repente, saindo do arvoredo, encontraram uma vasta e fresca relva, à beira da água, onde estava preguiçosamente estendido um cavaleiro, tendo ao lado um grande alforge aberto, e, espalhados na relva, garrafas, empadões, e fundas taças de prata. Ao tronco da árvore, que lhe dava sombra, estava encostada uma enorme lança branca; dos ramos estendidos como um toldo, pendia o seu escudo negro. Dois cavalos morzelos, com rédeas de couro escarlate e freios de ouro, pastavam junto da água: – e um escudeiro, que, debruçado, desarrolhava uma garrafa que entalara entre os joelhos, voltou para os cavaleiros uma face estranha e grotesca, rapada como a de um frade, com dois olhos negros que chame-javam.

Cortesmente, D. Gil tirara o sombreiro. Com grande cortesia também, o cavaleiro se ergueu da relva.

Era um formidável homem de armas, de barba ruiva, findando em bico, as cores vivas e quentes de um flamengo, e largo, robusto peito cingido numa sobreveste negra.

O cabelo, mais ruivo ainda que a barba, erguia sobre a testa uma poupa aguda e flamante, e recaía em grossos anéis sobre os ombros fortes, capazes do mais duro esforço, e cobertos por um brial escarlate. Dos olhos deste homem, pequenos e redondos, saía um brilho infinitamente esperto, decidido e risonho.

– Bem fatigado deveis vir, senhor cavaleiro, com tanta calma e pó – exclamou ele.

– Esta sombra chega para dois, a merenda está sobre a relva, e quem vos convida, que é o Senhor de Astorga, só quer alegria e paz... Harbrico!

A este grito, que um vivo olhar acentuara, o escudeiro de face de frade correu a segurar o estribo, para que o Senhor D. Gil desmontasse. Mas já Pêro Malho, mais pronto, agarrara o loro: Harbrico então, risonhamente, correu a tirar de dentro do alforge, de cores estridentes, um estofo de samite, rico e macio, que estendeu na relva, para o Senhor D. Gil se recostar.

O moço gentil corava de gosto a estas honras que lhe fazia o Senhor ilustre de

Astorga.

– Bendigo – murmurou ele com a mão sobre o peito – bendigo os duros caminhos que me trouxeram a tão doce acolhimento... O meu nome é D. Gil de Valadares, e o solar de meu pai é bem falado, e bem honrado na nossa terra da Beira.

Com os dedos gordos, que findavam em unhas muito agudas e curvas, o Senhor de Astorga aguçava a ponta da barba, pensando:

– Valadares, Valadares... Um D. Rui de Valadares, conheci eu em Coimbra, que tinha casa de boa pedra, no bairro cintado ao pé da Sé, e era vedor do Senhor D. Sancho II de Portugal...

– Meu avô.

O Senhor de Astorga atirou uma palmada à coxa:

– Pois soberbo avô tínheis, Senhor D. Gil, homem de boa alegria e façanha! Muito bem me lembro de uma tarde de Maio, em Lorvão... Mas melhor vão, à sesta, as histórias alegres! Agora todo esse suor e pó vos está pedindo água clara e lustral...

E, diante de D. Gil, o ondeante Harbrico sustentava numa das vastas mãos cabeludas uma bacia de prata, na outra uma fina toalha, que arrastava sobre a relva as rendas ricas da sua franja. Com que delícia banhou a face! Da água saía um aroma de benjoim. E uma frescura penetrante calmou de repente toda a sua fadiga dos ermos atravessados... Mas já o ágil Harbrico arrojara toalha e bacia, e voltava, todo ele ondulando, com um denso molho de penas rutilantes de galo: – e tão fina e destramente lhe sacudiu o espesso pó dos caminhos, que a sobreveste negra, os boteirões de couro escarlate, pareceram como novos, sem ter servido, e as esporas de ouro rebrilharam com um lampejo desusado!

D. Gil grandemente se maravilhava. E por trás dele, Pêro Malho, tendo limpo e pendurado as armas do amo, e lançado a pastar as suas mulas, junto aos dois corcéis negros, considerava o Senhor de Astorga com assombro e desconfiança. Era sobretudo aquele tufo de cabelo erguido na testa, como uma crista flamante, que o inquietava. E que alforge era aquele que continha, na sua estreita bolsa, bacias de prata, bragais de linho fino, toda a hucharia de uma mesa real, e tapizes de rico samite? E onde houvera mais coruscante olhar, negro como fendas do Inferno, do que aquele do estranho

Harbrico? O bom Pêro coçava o queixo, com um desejo, que o invadia, de gritar de repente, por sobre o fidalgo, o escudeiro, e os alforges, o nome afugentador de Jesus,

Maria, José.

Mas, justamente, Harbrico espalhava diante dos cavaleiros uma deliciosa e irresistível merenda! Eram gordas perdizes aloiradas, um vasto salmão frio e cor-de-rosa, com um molho de salsa e cravo que perfumava o ar, cestos de pêssegos e uvas, como só há nos pomares de el-rei... E às garrafas, cobertas de veneráveis crustas negras, deitadas com cuidado na relva, o destro Harbrico ajuntou pichéis de vinho espumante e branco, que ele trouxera de entre a espessura do bosque, e onde cintilavam pedras de gelo. Esfomeado, sedento, o bravo Pêro escancarava os lábios de onde escorria uma baba. E, com convicção, pensou: «Venham de Deus, venham do Demónio, quando há fome e sede, não se recusam vinho nem perdiz». E, servilmente, fraternalmente, sorriu a

Harbrico, que mostrou também a grande dentuça amarela e aguda, como a de um lobo.

Todos aqueles bons comeres, e frescura de vinhos, grandemente encantavam D. Gil! Ele, que, em Gonfalim, nas festas do solar, sempre fora indiferente aos mimos melhores da fornalha e da adega, agora, desde que naquele fresco prado se estendera ao lado do Senhor de Astorga, só pensava nos regalos da boa merenda! Ao enterrar a faca aguda no peito da perdiz, sorria, com os beiços lustrosos, como um frade guloso: – e quando Harbrico lhe deitou na vasta taça de prata um vinho gelado que espumava, a sua mão de cavaleiro tremia de gozo e gula. O Senhor de Astorga apenas colheu alguns bagos de uva. Mas que rijo beber! Rejeitando as taças, agarrava com a sua vasta mão cabeluda os garrafões, e, de um trago breve e ansioso, os despejava, sem que na sua barba ardente restasse um brilho de humidade. E, no entanto, cuidava da satisfação deGil.

– Provai daquele empadão de Alsácia... Aquela pimenta amarela vem das pimenteiras do Papa...

Depois, estendendo mais na relva as suas longas pernas, calçadas de botas negras:

– Há na verdade horas doces na vida! –observou. – Que melhor alegria que uma boa merenda, com esta frescura de vinhos, por uma sesta quente de Agosto, entre esta bela verdura!

– Grande razão tendes, Senhor de Astorga! – exclamou D. Gil, cujos olhos resplandeciam. E que esvaziara um copo de vinho de Chipre. – E depois de tão feia jornada, como venho passando, desde que entrei em terras de Leão, esta hora que vos devo é muito para ser lembrada.

O Senhor de Astorga pousou, sorrindo, os seus olhos redondos em D. Gil.

– Muito me recordais por vezes no jeito, no dizer, o vosso avô D. Rui!... E para onde vos ides assim, em tão longa jornada?

– A Paris, Senhor de Astorga.

O Senhor de Astorga moveu lentamente a cabeça:

– Grande cidade, fina cidade... Bons amigos lá tenho! Na Corte e nas Escolas.

Foi uma interessante surpresa para o Senhor D. Gil. Como! O Senhor de Astorga assim conhecia Paris, e as Escolas? Mais venturoso ainda fora, pois, aquele encontro, que dele podia tirar grandemente ensino e conselho. Que para as Escolas, em Paris, ia ele, por aquela jornada... Mas pouco sabia, na verdade, dos mestres que lá ensinavam, e dos usos dos escolares com quem ia acamaradar, e dos preceitos que se impunham a quem procurava o bom saber... Só estava certo, que assim era a fama em Portugal, que para quem desejava aprender, se devia ir às Escolas de Paris. Estava ali a Verdade.

O Senhor de Astorga alçou com solenidade as suas espessas sobrancelhas, alargou os olhos claros, e teve este ditame:

– Para o grande saber, só há na Terra uma escola, e essa em Toledo.

E como Gil o olhava perplexo:

– Que pretendeis vós aprender?

– As artes médicas.

O Senhor de Astorga encolheu os ombros, com largo e risonho desdém:

– Oh! para isso decerto tendes em Paris mestres que bastem. E mesmo em Zamora encontrareis o bom físico árabe Reimão Esterrávia! E até na vossa Coimbra tendes homem professo, que tudo vos podia ensinar, em Mestre Esteves Garracho!... Mas vós,

Senhor D. Gil, um moço de tão boa feição, de altos espíritos, que decerto amais a fama, como vos quereis amesquinhar em saber tão mesquinho?

D. Gil, que corara aos louvores, murmurou surpreendido:

– E que outro saber há mais?

Mas uma risada aguda, silvada, cascalhante, ressoou por trás, entre os troncos das

árvores. E os dois cavaleiros, voltando o rosto, viram Harbrico, sentado na relva, ao lado de Pêro, com vitualhas e garrafas espalhadas diante, que se torcia, com as mãos nas ilhargas magras, a boca fendida numa hilaridade disforme, gritando «que rebentava!» – enquanto ao lado, debruçado sobre ele, com o olho brilhante, o dedo espetado, Pêro lhe segredava uma história. Os dois molossos, sentados em frente, conservavam uma gravidade sombria.

– Divertido escudeiro tendes, Senhor D. Gil – murmurou, sorrindo, o Senhor de

Astorga. – E, pela viola que lhe vi ao ombro, penso que sabe trovar. Ocasião terei de o ouvir por essas estradas, agora que há Lua, porque, como ides a Segóvia, o nosso caminho é o mesmo até Zarro! E agora deveríamos descansar, e fazer a sesta à mourisca, para montar e partir pela frescura da tarde...

E imediatamente D. Gil sentiu que os olhos se lhe cerravam, e, reclinado no coxim de veludo, docemente adormeceu.

Mas, adormecido, percebia a frescura das grandes árvores, via o brilho do claro lago: – e, sem saber se era já a viola de Pêro que tocava, começou de ouvir uns sons muito lentos e doces, que tremiam como fugindo de cordas afinadas. Depois uma fina flauta suspirou, depois um lento gemido de harpa passou. E bem depressa uma doce, grave melodia encheu tão completamente o bosque, como se fossem os ramos que cantassem. E era um canto todo de adoração, mas contido, apenas murmurado, como de uma multidão invisível que, estaticamente, esperasse uma aparição maravilhosa. Uma imensa languidez passou no ar. Todo o sol que caía na água, nas folhas, rebrilhou com uma cintilação mais intensa.

Mas o canto subia, mais ardente, quando por detrás da ponte da ilha, que verdejava no meio do lago, surgiu a proa de uma barca que tinha a forma de um cisne, todo enrufado e nadando. E foi então apenas um murmúrio infinitamente doce, errando na umbrosa espessura do arvoredo. Lentamente a barca avançava: – e nela, de pé, vinha uma mulher de beleza maravilhosa. Entre o vestido negro que a cobria, o seu colo e os ombros nus lançavam uma claridade, como a da neve sob o Sol. Por sobre o manto negro, cujas pregas desciam, pesadas e hirtas, enchendo o barco, os seus imensos cabelos caíam em outro manto de ouro fulvo. Nenhuma jóia a enfeitava, uma languidez negra e profunda cerrava quase os seus olhos, nos seus lábios vermelhos errava a tristeza de um sorriso. Lenta e serena, a barca fendia a água sem deixar sulco; e pouco a pouco o canto em redor, no fresco arvoredo, era mais sumido e vago.

Quando a barca tocou a margem de relva verde, o cântico findou, e houve só em redor um êxtase mudo, da verdura, das águas, da luz. D. Gil esperava, sem se mover, deslumbrado. Então a mulher maravilhosa deu um passo lento na relva, depois outro: o seu grande manto arrastava pesadamente: – e, sob a orla do seu vestido, brilhava a brancura dos seus pés nus. Assim, docemente, se acercou de D. Gil, cujo coração batia ansiosamente: – e à medida que ela assim se avizinhava dele, o casto moço percebia que o pesado vestido negro, o pesado manto negro, se adelgaçavam, se tornavam transparen-tes.

Já deixavam distinguir, sob as suas pregas, as brancuras vagas de um corpo divino.

O longo manto não era mais que um véu tão leve, que nem vergava as pontas finas das relvas. O vestido era tão fino, que se colava aos selos, se enrolava nos joelhos. E, quando a mulher maravilhosa chegou junto do seu rosto, toda a sua nudez, mais bela que a de Helena, de Vénus, resplandecia, mais branca, sob a ténue névoa de uma gaze negra.

Então aquele corpo maravilhoso se debruçou sobre ele, que lhe sentia o calor, o perfume. E os Lábios vermelhos e fortes deram nos seus, que tremiam, um beijo tão profundo, que um grande grito de gosto doloroso fugiu do seu peito. Acordou: – e ao lado, de pé, já com o seu largo sombreiro posto, o Senhor de Astorga afivelava o cinturão da espada.

– Boa sesta fizemos, Senhor D. Gil! A tarde está fresca e é tempo de cavalgar, se queremos ainda hoje chegar a Alba de Tormes.

D. Gil ainda tremia. E os seus olhos inquietos procuravam em redor, numa saudade daquele sonho divino que findara.

Montou em silêncio na sua mula, que Pêro Malho já tinha à rédea. E quando saiu daquele doce prado, ainda se voltou na sela, olhou a relva, a água serena do lago, a ilha, o arvoredo todo – e um suspiro fugiu-lhe dos lábios.

Muito tempo cavalgaram calados. A estrada agora era entre grandes arvoredos, fresca e risonha. 2

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2- Termina aqui o manuscrito.