Ramhana, os loendros abriram
Texto de Fernão de Magalhães Gonçalves

 Capa de Georgete Horta 

 

“Os que vão vaguear para a montanha, para a montanha!”

ARISTÓFANES

Dois montes com duas mãos alçadas. E uma fraga em cada uma. Entra.

Entra e nunca te esqueças desta mediterrânica promessa de equilíbrio e constância.

 

Segue-me e enche os olhos do verde das cerejeiras atiradas contra o céu absolutamente claro, e de pontuação levantina dos laranjais destacados dos pomares roxos e dos ramos das figueiras enrolados nos ângulos dos muros.

E agora ouve o ruído da água e uma mulher cantando quase dentro do ruído da água, aspira o cheiro salino da terra. Sente como, na verdade, uma cumplicidade de fecundação enérgica ordena tudo o que te rodeia.

 

                                                        “Fui lavar ao rio Zela

                                                        E esqueci-me do sabão;

                                                        Lavei roupa com rosas,

                                                        Ficou-me o cheiro na mão.”

 

Sê, portanto, benvindo!

Não te prometo muito. Mas Vouzela, apesar de si mesma, merece-te. Terás flores e pedras. E a memória das pedras nas pessoas amáveis que te hão-de falar das flores. Que te hão-de convidar para que voltes no fim de Maio a ver os loendros que são flores selvagens roxas, muito grandes e venenosas (não o esqueças. São indígenas, dir-te-ão, e no mundo são de Vouzela os loendros.

 

Falo-te no reverso de um programa de festas. Dizem-me que gostas de bandas, ranchos e foguetes. Paciência!

 

Eu penso que a votividade de uma festa é, acima de tudo, uma espécie de reconversão das coisas no tempo da sua origem que fica, como sabes, antes do tempo. Ou talvez não. De qualquer maneira, há dentro do  esquecimento um espaço claro onde o rigor dos olhos se reencontra com tudo o que as figurações tapavam.

 

Brasões, pórticos, rosáceas, pelourinhos, cúpulas góticas e forais manuelinos, tímpanos românticos e fachadas de barroco filipino- hão-de conduzir-te aqui a um tempo igual a um tom de luar entre o secreto tropismo das sombras coladas aos azulejos e às pedras. Hás-de ver passar, no anfiteatro das rampas cobertas de vinhas, pomares, tojos e urzes, o pequenino comboio vitoriano, danado de asma e de pressa, espantando as rolas com o seu fanhoso assobio e pendurando o fumo nos pinheiros mais altos.

 

Então, aprenderás a amar a distância e a calma natural da memória e da seiva- meu companheiro de exílio e de aventura.

 

Depois, vão indicar-te o traçado da estrada romana e, como D. Jacinto Galião (vê lá tu...), louvarás a Deus pela avançada engenharia da longínqua “Roma Quadrata”. Ouve com atenção a localização táctica dos velhos castelos em ruínas. Sim, é verdade que foi o Cancioneiro quem trouxe até aos nossos dias a lenda de Ramhana, princesa moira encantada que aparecia aos pastores com bandejas de milho e de figos- à roda do Castelo de Figueiredo das Donas. E as flutuações do irreal hão-de tomar a urgência do real e até os santos pactuarão com demónios e truques mágicos a sua infalibilidade taumaturga. Nos modilhões da Igreja Matriz (séc. XIII), talvez o autêntico indicativo da origem de Vouzela- rostos de evangelistas ladeiam os arremedos dos monstros bifaces e falar-te-ão de um tempo menos distante de ti na História que na perra lógica dos três buracos que anda por aí a trunfar aviadores e apóstolos.

 

Mas a tua reconstrução do tempo há-de sobretudo ocupar-se da displicência dos brasonados senhoriais dos séculos XVII e XVIII. Ligado em todos os lugares à obsessiva e bizarra mística do absolutismo político, o expressivismo barroco, aqui em Vouzela muito especificamente, fala-nos a linguagem dramática do decadentismo das classes dominantes no tempo do governo filipino. Sobretudo de uma nobreza monetariamente desfalcada e desacreditada nas grandes bolsas bancárias da Europa (Antuérpia, 1531; Amesterdão, 1611). E que, encabeçada pelo cardeal D. Henrique, aceitou a integração espanhola (1580) como única saída para a sua auto-defesa económica em face do crescente mercantilismo burguês. Mas não houve a esperada “integração”. Da parte daqueles três “reis católicos”, houve, sobretudo, absorção e desgaste a todos os níveis. Muitos, e alguns dos mais belos edifícios de Vouzela (Paços Municipais, 1639), foram mandados construir por essa nobreza desiludida e frustrada que, entretanto, se ia descentralizando de Lisboa para os recantos provincianos mais convidativos. Estavam, de resto, em moda as casas de campo.

 

Ao fundo do Bairro da Ponte, há uma fonte mandada construir (dizem) pelo irmão do Mestre de Avis. Chama-se Fonte da Nogueira e tu deves beber da sua água: a moira Ramhana promete-te um amor de lei.

 

Sobe a rua. À tua esquerda, a (talvez) antiga residência dos Távoras encimada por um brasão picado.

 

E depois sentirás um perfume espesso de mel e de mosto que desce com o vento pelas ruas desde a alameda das tílias. Enche o peito dessa redolência forte e, então, escuta o rio e imagina o tamanho do silêncio que te rodeia..

 

A tua memória irá vazia e densa. O cheiro do granito húmido conduzir-te-á os olhos através da imprecisão dos tectos imersos em meia claridade. Porque a noite cai...

 

E agora pensa na lenta corrupção de todas as necessidades. É que todos os aglomerados se formam em função de necessidades económicas concretas.

 

E, quinhentos, quatrocentos anos depois,- adaptam-se chaminés de bom tijolo aos telhados derreados sob a sumptuosidade dos pórticos tufados de malvas e ortigas. Vouzela incarna o Tribunal da História e assim exerce a acção correctiva sobre o seu passado senhorial.

 

As flores e as pedras e, portanto, os homens! Hás-de aprender a amá-los na rija e sólida frigidez que identifica as pedras com a sensação de um corpo que desperta de um longo desmaio.

 

Vouzela, Julho de 1972

Fernão de Magalhães Gonçalves