Leilão Leiria & Nascimento

 
 

Realiza-se no próximo dia 7 de Janeiro, pelas 21h30, o próximo leilão desta centenária firma. Trata-se de um conjunto de 190 lotes repartidos entre jóias e relógios. Se das primeiras nada há a dizer, quanto aos relógios sem dúvida que é a melhor colecção que apareceu até hoje no mercado nacional.

 

Sendo Portugal um dos países onde existem mais aficionados por estes mecanismos do tempo, e dos mais exigentes, tem sido estranho que nos leilões seja raríssimo aparecer uma peça digna de nota. Estranhamente (ou não...?!) em Dezembro foi a leiloeira Oportunity a apresentar um bom núcleo de relógios, numa à porta fechada, só para convidados...!

 

Leiloar relógios não é, definitivamente, o mesmo que leiloar outro tipo de objectos. Começa logo pela necessidade de serem peritados por um relojoeiro independente, que ateste o seu estado de conservação;

- Que todos os componentes são genuínos ou quais os que foram substituídos;

- Que os estojos e papeis de origem são requisitos fundamentais para quem procura e coleciona este tipo de peças;

- Que a descrição dos mesmos seja a mais profissional possível.

 

O que se tem passado é rigorosamente o oposto, por nítida falta de investimento e sensibilidade por parte dos proprietários das várias casas de leilões, sem excepção...! E atenção às taxas cobradas a vendedores e compradores... Os custos de processamento de objectos pequenos mas de grande valor são muito menores do que leiloar móveis ou candeeiros de lustre, mas as taxas são iguais para quem coloca em leilão um piano que ninguém quer e para aquele que quer vender um Patek de pulso ou um anel com um precioso diamante... que todos cobiçam!!!

 

Veja-se o caso do ex-líder da Antiquorum, Osvaldo Patrizzi, que fundou a sua nova leiloeira na base de comissão zero (0) para quem vende (e a Antiquorum vendia mais relógios que a Sotheby's e Christie's juntas). É o que sucede em mercados adultos e altamente competitivos e com gente à altura...

 

O que este leilão da Leiria & Nascimento aporta de novidade é um conjunto de relógios de altíssima qualidade, como o Chronoswiss, "Tourbillon", o Martin Braun equação do tempo; um Ulysse Nardin Sonata inspirado pelo Dr. Ludwig Oechslin, construido por Pierre Gygax e Lucas Humair e executado pela UN Dream Team conduzida por Rolf Schnyder; Franck Muller Cintree Curvex Master Calendar Magnum (erradamente descrito como Master of Complication); Audemars Piguet Millenary cronógrafo automático ou o Jaeger-Le Coultre Master compressor geographic.

  
Mas a surpresa da noite será o lote 111... 
 

RELÓGIO DE PULSO, de homem, marca F. P. Journe, em platina, modelo "Chronometre Resonance". Os dois quadrantes (horas, minutos e segundos), são em prata maciça "guilhoché" e são seguros por rodas em aço polido, preso num quadrante em ouro de 18kt. 

3.000.00 / €4.000.00

 

 

 Surpresa para quem não saiba o que é o cronómetro de ressonância de François-Paul Journe. E quanto custa uma maravilha destas. Mesmo no mercado dos usados custam sempre para cima de €20.000, por €3.000 nem roubado e com a polícia atrás...!

Mas pelo menos esta gaffe sempre serve para vos falar sobre quem é este artesão relojoeiro, génio matemático e homem de rara visão. Façam o favor de ir para a coluna ao lado e deleitem-se com a(s) história(s) de Paul Journe, um dos maiores génios da relojoaria em toda a História! 

 

Para início escolhemos uma entrevista por ele dada à revista Espiral do Tempo.

 

Depois têm vídeos, catálogo e... esperança para o dia 7 à noite! 
 
RESULTADOS:
 
Lt 26- Rolex Daytona €4.800 ; Lt 78- Cartier Tank €7.000 ; Lt 102- Ulysse Nardin €26.000 ; Lt 103- Franck Muller €17.000 ; Lt 104- Audemars Piguet €9.500 ; Lt 111- F-P Journe €22.000 ; Lt 113- Jaeger Le Coultre €10.000 e Lt 145- Glashutte €9.000

 

Visita ao Interior do Cronómetro de Ressonância

 
 
Download do Catálo da Leiria & Nascimento:

Visita à Sede da F P Journe

 
 
François-Paul Journe

 

A força tranquila

Espiral do Tempo, 2008-01-07

 

A franqueza com que fala teria sido suficiente para atrair os raios e coriscos dos bem-pensantes da relojoaria helvética. Mas ele é também um dos mais talentosos jovens criadores de uma geração já de si extraordinária. Retrospectiva sobre a personalidade de François-Paul Journe, para quem a relojoaria, a independência e a provocação são notas dominantes numa carreira já marcada pelos maiores prémios internacionais

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Espiral do Tempo: O François é conhecido como um provocador, porque fala com toda a franqueza. Há muito tempo, durante a adolescência, a franqueza valeu-lhe a expulsão da escola de relojoaria de Marselha, cidade onde nasceu, em 1957. Acha que todas as verdades são para dizer?

François-Paul Journe: Quando eu era pequeno, fui sobretudo posto de parte. Quanto à verdade, Montherlant dizia que aquele que diz a verdade é como uma criança que faz xixi na cama!


ET: O director da escola de relojoaria de Marselha disse-lhe, quando o expulsou, que nunca haveria de ser um bom relojoeiro.

FPJ: Não exactamente. Quando, na altura, o director da escola de relojoaria de Marselha chamou a minha mãe, pediu-lhe que me orientasse noutra direcção.


ET: Mas insistiu e entrou na escola de relojoaria de Paris, em 1975. Porquê?
FPJ: Eu na verdade não tinha escolha. Não podia se não ir para Paris, depois da minha expulsão de Marselha. Acabei por não conseguir que me expulsassem também de Paris. Felizmente, o director, de origem corsa, era um amigo da família e adorava ser presenteado com garrafas de vinho! Senti-me demasiado longe de casa. Mas como todos me tomavam por um inútil, resolvi provar que se enganavam. Tive portanto a melhor nota da turma, no último ano do curso.


ET: Foi talvez a vontade de se vingar daqueles que nunca acreditaram em si?

FPJ: Foi um pouco por orgulho: se posso, quero e se quero, posso.


ET: Seguem-se oito anos de aparente tranquilidade, em Paris, onde aprende, como outros grandes relojoeiros da sua geração, a reparar peças antigas no ateliê do seu tio Michel. Considera esta passagem um momento de formação obrigatório para um relojoeiro?

FPJ: O restauro ou o conhecimento. Ninguém imagina um músico, que pretenda criar música, a não querer ouvir Mozart ou Beethoven. Se alguém se interessa por um determinado assunto, põe-se à procura das origens, das fontes. É verdade que, actualmente, na Suíça, já não se ensina a história relojoeira, mas a indústria ou a cultura empresarial.


ET: Por história, entende....

FPJ: Se me mostrar um relógio do século XVII, posso dizer-lhe se é alemão, francês, posso falar-lhe da tecnologia que tem... Se lhe faltar uma peça, posso fazer uma igual, porque lhe conheço a forma, bem como a posição que ocupa. No restauro, é também interessante compreender as sínteses que alguns relojoeiros conseguiram fazer. Quando decido produzir um novo calibre, a verdadeira complicação é inventar uma peça que possa substituir três.

 

ET: Um dos seus amigos sugeriu-lhe, em 1982, que criasse o seu próprio turbilhão, uma complicação relojoeira que mais tarde se viria a tornar no seu primeiro cartão de visita. Admitiu, na altura, que não dominava esta peça, mas lançou-se à aventura. Foi assim que apareceu o seu primeiro relógio, cinco anos mais tarde. Tinha vontade de se vingar de todos os que duvidavam das suas capacidades?

FPJ: Não exactamente. Quando já estava a trabalhar com o meu tio, em 1978, tínhamos um cliente – Cecil Clutton – que aparecia frequentemente com relógios incríveis. Era um verdadeiro intelectual, coleccionava relógios e Bugatti, e ainda ia tocar órgão a Notre Dame. Além disto, eu vivia num mundo de antiquário onde os relógios de bolso turbilhão eram raros. Como estes relógios eram muito caros e eu sabia que não os podia comprar, decidi pôr-me a fazer um. Mas é verdade que eu não fazia a mínima ideia de como funcionava um turbilhão. Pus-me portanto a estudar, a deduzir desenhos... Levei cinco anos a fazer o meu turbilhão num relógio de bolso.

Entretanto, alguns coleccionadores começaram a pedir-me um relógio. Terminei em 1982 o turbilhão que ainda hoje conservo. Trabalhava no ateliê do meu tio de segunda a quarta-feira e, de quinta a sábado, trabalhava para mim.

 

ET: De onde vem a ideia da corda de igualdade?

FPJ: O primeiro a utilizar este princípio foi Jopst Burgi, no século XVI. Ele criou um relógio de sala de corda, com três meses de reserva de marcha. Com as molas, não chegava a ter uma força constante durante três meses, daí o princípio da corda de igualdade, que permite regular esta força. Depois, no século XVIII, outros relojoeiros, como Robin, aplicaram este princípio em pequenos relógios de molas, em formato de mesa. Finalmente, este recurso foi utilizado no século XIX pelos relojoeiros de torre. No caso, não havia o problema da precisão, já que se tratava de pesos e não de molas. Tratava-se, naquela época, de isolar os ponteiros do mostrador que apanhavam o ar do sistema regulador do movimento. O princípio do meu turbilhão é, portanto, o usado do século XVIII, ou seja, o de nivelar a força da mola para que o escape receba a mesma energia.


ET: A apresentação do seu turbilhão, em 1991, na sala dos relojoeiros independentes em Bâle, não interessou muita gente.

FPJ: Gunter Blumlein chegou a interessar-se, pensando nos 125 anos da IWC. Mas acabámos por não chegar a acordo porque eu não conseguiria produzir uma tal quantidade. Mas bem se inspirou ali para a marca Lange & Söhne.


ET: Foi co-fundador, em 1989, da sociedade Techniques Horlogères Appliquées em St. Croix. A lista de encomendas de peças especiais faz referência a prestigiados clientes: Chronographe Monopulsant pela GP, Pendules Sympathiques pela Breguet, Pendules Mystérieuses pela Cartier, Sonnerie pela Piaget. E, no entanto, sai da sociedade em 1994.

FPJ: Surpreendi um associado em práticas que, para a minha ética de trabalho e de vida, são inaceitáveis. Saí e mantive a minha quota na sociedade até hoje. Mas decidi sair para recriar uma estrutura pela qual me pudesse responsabilizar inteiramente e a qual pudesse controlar.

 
ET:
Admite que “depois de abandonar a THA, não sabia o que fazer”. É então que recebe o prémio Gaia do Museu do Homem e do Tempo. Que influência teve este prémio em si?

FPJ: Naquela altura, estava eu em Paris a fazer umas peças únicas para a Piaget,  quando um amigo me informa de que há um ateliê relojoeiro já equipado à venda em Genebra. A oportunidade interessou-me tanto mais quanto me apercebi de que as alfândegas não facilitavam o trabalho entre Paris e as empresas suíças. E depois o TGV passou a ligar Paris e Genebra. Na mesma altura, o turbilhão, que não agradou em 1991, começa a interessar os coleccionadores. Decidi então fazer 20 peças em Genebra, que vendi por encomenda aos meus amigos e a coleccionadores. Ao mesmo tempo, volto a trabalhar no protótipo da ressonância.


ET: Vinte e três anos depois da saída da escola de relojoaria de Paris, a sua carreira vê-se relançada, em 1999, pela apresentação em Bâle do seu turbilhão com corda de igualdade e com o rótulo FP Journe ‘Invenit et Fecit’. O reconhecimento do público é imediato. O que sentiu naquela época? Todos os esforços tinham mesmo valido a pena...

FPJ: Foi um ano depois do crash asiático. Os comerciantes andavam à procura de novidades. Naquela época em que ainda não tinha autonomizado tanto a minha produção, não tive dificuldades em encontrar fornecedores. Nos dias que correm, ser-me-ia impossível ter uma peça de um fornecedor.


A colecção

ET: Qual é a patente de que se orgulha mais?

FPJ: O princípio da corda de igualdade e o cronómetro de ressonância para um relógio de pulso continuam a ser exclusivos mundiais.


ET: Em 2005, decidiu utilizar o ouro para o conjunto dos seus movimentos. Porquê?

FPJ: Sempre me pareceu bastante lógico para a alta-relojoaria, mesmo sendo o ouro mais difícil de trabalhar industrialmente do que o latão. Os utensílios partem-se mais facilmente, o que torna exorbitante o custo industrial. Escolhemos, no entanto, passar à frente sem aumentar de forma imprudente o preço dos relógios. Era pena termos mecanismos exclusivos em latão enquanto nós só utilizamos metais preciosos nos nossos relógios (platina ou ouro) – à excepção do Sonnerie Souveraine.


ET: Apresentou um novo calibre, o OCTA 1300-3, que possui um novo rotor que se monta numa só direcção. Quais são as vantagens?

FPJ: Quis responder aos coleccionadores que têm actividades mais estáticas e que, portanto, não conseguem carregar suficiente aos seus relógios automáticos. O princípio é o da sobreposição de dois rolamentos de esferas. O primeiro é independente do segundo e não engrena com o barrilete. Consegue-se assim também que a massa oscilante tenha mais amplitude que num relógio normal. Quando a massa volta a baixar, ela engrena, através do segundo rolamento de esferas, directamente sobre o barrilete e carrega ao relógio.


ET: Voltemos ao Grande et Petite Sonnerie, apresentado em 2006, um relógio com dez patentes. Qual é a patente mais marcante? Estes princípios podem aplicar-se ao resto da colecção? São todos importantes, pois todos foram criados para que o relógio fosse fiável e usável!
FPJ: Foi apresentado em Abril de 2006, mas o primeiro relógio foi lançado em Portugal, em Março do mesmo ano! Não creio que muitas marcas estejam em condições de lançar tão depressa as suas novidades!

 
A empresa

ET: Tem uma empresa financeiramente independente de um grupo. Nunca teve a tentação de se integrar num grupo relojoeiro?

FPJ: Nunca.


ET: Fale-nos sobre os seus ateliês actuais em Genebra e sobre os seus projectos.

FPJ: Ambicionamos a autonomia da nossa produção, mas queremos manter limitado o número da produção total. Além disto, já devíamos ter aumentado a nossa secção de décolletage (produção de parafuso), para podermos libertar-nos dos nossos fornecedores ainda mais depressa do que o previsto. Temos actualmente de esperar entre três e nove meses para receber parafusos! Pelo menos, acabámos de adquirir 50% do nosso fornecedor de caixas, depois de termos criado, em 2004, em parceria com uma outra marca de relógios, a nossa própria sociedade de produção de mostradores.


ET: Como avalia a formação actual dos relojoeiros e o que faz, no dia-a-dia, para formar os seus próprios empregados.

FPJ: Vamos instalar no nosso espaço próprio uma escola para aprendizes e para uma formação especializada no serviço de pós-venda dos nossos relógios.


ET: Quantos relojoeiros trabalham hoje para os relógios Journe? Acha que existe uma quantidade crítica que não se deve ultrapassar?

FPJ: A sociedade conta actualmente com umas cinquenta pessoas. Gostava de poder continuar a autonomizar a produção, para me tornar completamente independente.


ET: Apresenta o seu trabalho como o de um explorador e o de um construtor de protótipos. Como se desenrola o trabalho de equipa depois com os construtores e os relojoeiros?

FPJ: Quando me envolvo numa nova exploração, divido os problemas em várias pequenas dificuldades. Trato-as separadamente, umas atrás das outras. Neste processo, consulto por vezes os meus relojoeiros. Quando chego à fase do protótipo, transmito o trabalho aos construtores.


ET: Acha possível vir a fazer um dia, em parceria com outras empresas, uma nova espiral e tornar-se assim completamente independente do NIVAROX e do grupo Swatch?

FPJ: Não estou empenhado em livrar-me da Nivarox.


ET: Quais serão os impactes das novas normas do ‘Swiss Made’, caso sejam aprovadas pela comissão europeia?

FPJ: Nenhum dos meus relógios tem o rótulo «Swiss Made». Nunca senti necessidade de o usar. A minha assinatura acompanhada do meu próprio rótulo «invenit et fecit» – (inventar e fazer) garante a minha ética e o meu respeito pelo meu trabalho e pelos meus clientes.


ET: Depois de Tóquio, em 2003, HK em 2006, HEN e a Florida em 2007, considera que o futuro da marca passa pelas lojas?

FPJ: A nossa produção mantém-se limitada, mas, como os nossos produtos são muito especiais, é indispensável controlar o mais possível o serviço ao cliente no seu conjunto. Pensamos em abrir, no entanto, um máximo de três lojas na Europa e nos Estados Unidos.


ET: Quais são os seus objectivos, no que respeita a quantidades de relógios para 2010?

FPJ: Produzimos, actualmente, 800 relógios. O aumento dos nossos ateliês e a nossa autonomização progressiva deverão permitir-nos alcançar os 1200 relógios. Não gostaria de ultrapassar este número. Considero que as nossas lojas deveriam representar cerca de 800 relógios e que o resto deveria ser representado por uma rede limitada a 30 POS independentes. Vou, por isso, pôr fim aos contratos que tenho actualmente com cerca de 20 POS.

 


ET: Uma última pergunta: – Como define a alta-relojoaria?

FPJ: Não creio que existam marcas de alta-relojoaria, mas modelos de alta-relojoaria. Estes modelos têm de ter um excelente acabamento e um mecanismo original, cuja patente seja propriedade da marca. Os calibres também devem ser desprovidos de módulo, quer se trate de um relógio com três ponteiros quer se trate de uma grande complicação.
 
 
Catálogo e História de François-Paul Journe, em português:
 
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