Nova Consciência com Ciência

postado em 5 de jan de 2014 14:34 por ONG Nova Consciência   [ atualizado em 22 de fev de 2017 16:10 por Encontro da Nova Consciência ]

artigos científicos, livros, resumos, resenhas, publicação impressa, online

Veja uma lista de publicações científicas de
universidades brasileiras sobre o Encontro da Nova Consciência

https://drive.google.com/file/d/0B_6AeiLQgxodOC1ZTm1YbllkcEk/view?usp=sharing


30/12/16 = Acaba de sair o novo número da Rever- PUC-SP com um artigo de Dilaine Sampaio e 
Genaro Camboim Lula sobre os Encontros da Nova Consciência em Campina Grande. 

“É fácil ser plural”? >> CLIQUE PARA LER
Uma análise dos últimos encontros da Nova Consciência de Campina Grande-PB

Is it Easy Being Plural"? An Analysis of the Last Meetings of New Consciousness in Campina Grande-PB 


Resumo: O Encontro da Nova Consciência (ENC) ocorre há 25 anos em Campina Grande, a segunda maior cidade do Estado da Paraíba, e já foi objeto de alguns trabalhos acadêmicos. Desde 2004, passou a ser abrigado pela Organização Nova Consciência, uma instituição sem fins lucrativos. Atualmente, enfrenta dificuldades em virtude das disputas religiosas em sua cidade sede que podem ser notadas, de modo privilegiado, no período do carnaval. Diante do exposto, tomamos como ponto de partida a questão presente no título: É fácil ser plural? Ou melhor, é fácil ser plural mesmo na (pós) modernidade? De que maneira os novos modos de lidar com a espiritualidade afetam as tradições religiosas hegemônicas? Será que os movimentos e iniciativas que dialogam com o universo Nova Era têm o mesmo espaço do mesmo modo que tiveram nos anos 80, 90? Partindo de uma perspectiva antropológica, no âmbito das Ciências das Religiões, buscaremos discutir essas questões, a partir de nossa etnografia nos Encontros da Nova Consciência.








IDENTIDADES DISCURSIVAS DOS
ENCONTROS RELIGIOSOS EM CAMPINA GRANDE- PB

Leia o artigo completo AQUI <<

 Ana Carla Oliveira Nascimento[1];Genaro Camboim Lopes de Andrade Lula[2]; Irene de Araújo van den Berg[3]

RESUMO:Este artigo analisa os discursos dos sujeitos participantes que frequentam no período do carnaval os eventos religiosos que acontecem em Campina Grande- PB, o MIEPE-espírita, o ECC- Encontro para Consciência Cristã, o Crescer- Católico e o ENC- Encontro da Nova Consciência. Sobre este último o trabalho dedica especial ênfase analítica. Na pesquisa buscou-se compreender a pluralidade das identidades em jogo no transcorrer dos eventos e para isso dedicou-se a analisar as práticas discursivas dos participantes presentes nesses encontros religiosos. A pesquisa tem caráter qualitativo interpretativista, mas também quantitativo, pois parte de um mapeamento sócio-econômico e de entrevistas semi- estruturadas. Como resultado foi possível notar que a cidade de Campina Grande- PB exprime de forma local, durante o carnaval, o campo religioso brasileiro e revela como são produzidos os discursos de identidade entre os sujeitos participantes dos encontros religiosos.

Palavras- chave: Eventos religiosos, Encontro da Nova Consciência, Pluralidade religiosa.

[1] Discente do curso de Graduação em Ciências da Religião, Campus de Natal - UERN. E-mail: carla.uern@gmail.com

[2] Docente do Curso de Graduação em Ciências da Religião-Campus de Natal, UERN. E- mail: camboimlula@yahoo.com.br

[3] Docente do Curso de Graduação em Ciências da Religião-Campus de Natal, UERN. E- mail: iavberg@yahoo.com


Nova Consciência
– A autonomia religiosa pós-moderna
(clique aqui para abrir o pdf)


LAIN,Vanderlei. Nova Consciência – A autonomia religiosa pós-moderna. Recife: Ed. Libertas, 2008. 128 p. ISBN 978-85-98263-11-3. CIÊNCIAS DA RELIGIÃO - Mestrado da UNICAP - Universidade Católica de Pernambuco

Resumo:
Se a secularização e o pluralismo caracterizam o comportamento religioso na Modernidade, os Encontros da Nova Consciência que ocorrem em Campina Grande - PB, desde 1992, durante o período do carnaval, no exercício de um diálogo multicultural e transdisciplinar, nos permitem apreciar um fenômeno religioso com características da Pós-modernidade, marcados pela autonomia religiosa, por identidades fragmentadas e identidades flutuantes.

Palavras-chave:
Nova Consciência – Secularização – Pluralismo Religioso – Diálogo Multicultural e Transdisciplinar - Pós-modernidade – Autonomia Religiosa - Identidades Fragmentadas e Flutuantes.

E-MAIL DO AUTOR: vtlain@bol.com.br



O Conflito da Paz: A disputa de Saberes e Poderes no Encontro da Nova Consciência
Autores
Martinho Tota Filho Rocha de Araújo
Silvana Sobreira de Matos

1. Campina Grande: Capital do Mundo Alternativo

Sexta-Feira, 8 de fevereiro de 2002. São 20:00h e o teatro municipal de Campina Grande está apinhado de gente. Não há espaço para mais acomodações em seu interior, de modo que muitos, terão de contentar-se com um lugar lá fora, onde está montado um enorme telão para transmitir as apresentações do palco do teatro. É, portanto, através desta tela que assistimos aos pronunciamentos do Pastor Presbiteriano Nehemias Marien, do Bispo Jubilar de Campina Grande, Dom Luiz Gonzaga Fernandes, e do Prefeito da cidade, Cássio Rodrigues da Cunha Lima. Passados pouco mais de trinta minutos será dado como aberto o 11º Encontro da Nova Consciência de Campina Grande, sob o slogan “Tolerância e Paz”. A “Grande Celebração da Diversidade” dura quatro dias – os dias de carnaval –, durante os quais uma miscelânea de temas abordando questões religiosas, espirituais, bioéticas, sociopolíticas, ecológicas, astrais, etc estão na (des)ordem do(s) discurso(s).

Por meio do que chamamos de conexão do desconexo, assistimos de tudo: de uma sala para outra escapamos de uma discussão acerca de alimentos transgênicos intergaláticos e nos deparamos com um caloroso debate sobre o materialismo histórico; fugimos de uma mesa redonda em que se discutia o Xamanismo e Encontramos Rose Marie Muraro falando de feminismo, prostituição e AIDS. No entanto, a cena mais recorrente é a de transeuntes buscando a serenidade de um mantra e da meditação. A energia que emana de tanta placidez começa a contagiar a cidade antes mesmo que o evento aconteça.

Outros artigos de Silvana Matos em experiências no evento:
MATOS, S. S. Representações acerca das práticas da Nova Era pelos evangélicos de Campina Grande - PB. In: 5º Encontro de História Oral do Nordeste, 2005, São Luís.

MATOS, S.S. Carnaval da Alma: Um Caminhar para a Nova Consciência. In: Associação Brasileira de Antropologia, 2003, Maranhão.

MATOS, S.S. Oralidade e Conflito no Encontro para a Nova Consciência. In: IV Encontro de História Oral do Nordeste, 2003, Campina Grande.

MATOS, S.S. O Conflito da Paz: A disputa de saberes e poderes no Encontro para a Nova Consciência. In: Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, 2003, 55º Reunião Anual da SBPC, 2003. Recife.

MATOS, S.S. Razão e Intuição no Encontro para a Nova Consciência: O homem em busca do equilíbrio. In: Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, 2003, 55º Reunião Anual da SBPC, 2003. Recife.

MATOS, S.S. O Conflito da Paz: A disputa de saberes e poderes no Encontro para a Nova Consciência. In: Sociedade Brasileira de Sociologia, 2003, Campinas.

MATOS, S.S. A Nova era no "Encontro para a Nova Consciência" ou o retorno ao tribalismo?. In: VI Semana de Ensino Pesquisa e Extensão, 2002, Campina Grande. Semana de Ensino Pesquisa e Extensão:- Espaço Público apropriação privada: As Ciências Humanas e o Mercado. João Pessoa: Idéia, 2002. p. 5-286.

MATOS, S.S. As imagens da Nova Consciência. In: VII Encontro de Iniciação à Docência, 2002, João Pessoa.

MATOS, S.S. O Jogo de imagens na cura do corpo e da alma no Encontro para a Nova Consciência. In: VI Semana de Ensino Pesquisa e Extensão, 2002, Campina Grande.


Feminino e Masculino - Uma Nova Consciência para o Encontro das Diferenças

Neste livro, Leonardo Boff e Rose Marie Muraro fazem uma análise profunda da sexualidade e mostram como os conflitos entre os gêneros podem levar à destruição da humanidade. é preciso estabelecer um convívio pessoal mais harmônico entre homens e mulheres, sem competição nem violência, e criar uma nova consciência, mais solidária.

Leonardo e Rose chegam às mesmas conclusões por caminhos totalmente diferentes. Leonardo faz um apanhado da sexualidade desde os primeiros seres vivos até hoje, analisa a evolução do homem e aborda os aspectos biológicos, históricos, sociais e teológicos da construção do feminino e do masculino.

Rose se detém sobre os processos simbólicos e faz articulações entre a sexualidade, a família e o sistema econômico. Seu trabalho é complementado por uma pesquisa com 1.259 brasileiros e brasileiras de diversas classes sociais.

Feminino e Masculino é uma obra provocadora, que questiona as grandes teorias patriarcais, a psicanálise freudiana e até a teologia produzida a partir do ponto de vista masculino. Como dizia Rainer Maria Rilke, só quando o homem e a mulher se integrarem novamente é que a humanidade poderá reviver.

****

Foi em 1970 que me encontrei com Leonardo Boff pela primeira vez. Ele era um jovem frei teólogo recém-chegado da Alemanha, querendo traduzir para o português autores estrangeiros, e eu era a editora-chefe da Vozes. Antes de publicar os livros que ele sugeria, eu o convenci a passar uns seis meses nas favelas do Rio de Janeiro para conhecer a realidade brasileira.

Quando ele voltou, trazia um livrinho debaixo do braço chamado Jesus Cristo libertador, um dos textos fundadores da Teologia da Libertação. Naquele momento, percebi que íamos ser amigos para sempre. E de fato foram mais de trinta anos de encontros e desencontros os mais emocionantes ou os mais engraçados possíveis, mas sempre procurando convergências nas nossas diversidades.

Nessa mesma década, nas nossas mãos, nasceram no Brasil os dois movimentos sociais mais importantes do século XX: o movimento feminista e a Teologia da Libertação. Vivemos momentos de grande tensão com o regime militar e, principalmente, com o Vaticano, que acabou proibindo nosso trabalho. Mas nunca desistimos.

Nós nos entendíamos muito bem sobre os novos sistemas políticos e econômicos que deviam substituir o sistema capitalista um dia, mas que tinham que ser pensados com muita antecedência. Às vezes, discordávamos – e como! – sobre a sexualidade e a política do corpo. Também pudera, somos um homem e uma mulher pensantes. Não poderia ser de outra maneira, já que sobre nós pesam séculos de conflitos de gênero.

Este livro é um acerto de contas que devíamos um ao outro. Agora, mais amadurecidos, achamos que tínhamos que abrir o jogo. Cada um fez o seu texto sem o outro saber. E, quando lemos, foi aquele susto. Eles são tão opostos que se complementam e se encaixam perfeitamente, como sempre.

Este susto você, leitor (a), vai ter também. Mas é exatamente dessa diversidade que se alimenta uma bem-sucedida relação entre homens e mulheres. Só assim inauguramos uma nova etapa na história dos gêneros.


Carnaval da Nova Consciência

(clique aqui para abrir o pdf)

Elisete Schwade

RESUMO

Neste artigo faço uma descrição etnográfica do "Encontro Para a Nova Consciência" – ENC, que acontece anualmente em Campina Grande-PB, no período do carnaval, desde 1992. Um evento que promove o contato inter-religioso, ao mesmo tempo em que divulga uma "leitura" de realidades com conotação terapêutica. Propõe o diálogo de práticas religiosas com temas de amplo interesse na atualidade, tais como tolerância, paz, diversidade, questões ambientais, entre outros. Um espaço aberto que incorpora a cada edição novos diálogos, o que contribui para sua permanência. O texto sublinha interações e diálogos entre atores no ENC, por meio de referências associadas à religiosidade, enquanto vivência e partilha, num horizonte de produção e difusão de práticas e conteúdos que ganham expressividade pelo reconhecimento coletivo.

Palavras-chave: etnografia, neo-esotérico, nova consciência, religiosidade. 



Carnaval da alma: comunidade, essência e sincretismo
na nova era

RESENHA de Léa Freitas Perez

Universidade Federal de Minas Gerais - Brasil

Amaral, Leila. Carnaval da alma: comunidade, essência e sincretismo na nova era. Petrópolis: Vozes, 2000. 230 p. ISBN 5832623689 *

Horizontes Antropológicos

Print version ISSN 0104-7183

Horiz. antropol. vol.7 no.15 Porto Alegre July 2001

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-71832001000100011 

Fazer uma resenha do belissímo Carnaval da Alma, de Leila Amaral, é uma tarefa enganadoramente fácil. Fácil pelo tanto que pode ser dito de um trabalho de grande envergadura intelectual, pleno de relevantes contribuições para a compreensão de nosso tempo, de suas questões organizantes. Como argutamente diz Otávio Velho, em sua apresentação do livro, "no que diz respeito às grandes questões de nossa época, agarra o touro pelos chifres". A antropologia de Leila nos mostra, através do caso Nova Era, a emergência, na contemporaneidade, de uma "cultura religiosa errante" - porosa, perfomática, festiva, efêmera, sem rígidos marcos doutrinários, carente de idioma teológico, que dessubstancializa e desterritorializa o sagrado. Composta por um universo de práticas de "dinâmica combinatória ad infinitum", preconiza uma "ontologia da relação" que é também et pour cause uma "ontologia da comunicação". Tal cultura é atravessada em sua constituição mesma por um "sincretismo em movimento", feito de "cruzamento heterodoxo" compondo, na feliz expressão de Marcus empregada pela autora, um "espírito sem lar".

Carnaval da Alma nos faz viajar por esse fantástico "espírito sem lar" que se encarna nessa "religiosidade caleidoscópica", que combina, sem contudo fundir, lazer, cultura, crença e mercado na composição de um multiverso de relações que apontam para a possibilidade de gestação de "novos padrões de relacionamento", como muito bem observa Otávio Velho. O estilo Nova Era de sincretizar parece estar em perfeita sintonia com o seu tempo uma vez que, sendo caracterizado por uma "diversidade interna", "multimensional", mostra-se capaz "de entreter e responder à pluralidade", por isso é o carnaval da alma. Leila abre um vasto leque de questões e de direções de reflexão, o que dificulta o exercício de síntese - em perfeita sintonia, ela também com seu objeto, que é avesso às sínteses e aos dualismos - tal como usualmente se requer de uma resenha. Como selecionar entre tantas e variadas questões suscitadas e sugeridas sem, necessariamente, deixar outras de lado? Como bem diz Otávio Velho, Carnaval da Alma "presta-se a muitas leituras". Dessas muitas leituras, e tentando, modestamente, ser fiel ao espírito de Leila e de seu objeto mesmo, ouso não seguir a linha tradicionalmente estabelecida para uma resenha, limitando-me a enfatizar o que considero o mais relevante nesse empreedimento: sua fértil imaginação antropológica. Carnaval da Alma faz jus às observações de Paul Veyne, para quem "é mais importante ter idéias do que conhecer verdades", pois "ter idéias significa também dispor de uma tópica, tomar consciência do que existe, explicitá-lo, conceituá-lo, arrancá-lo à mesmice", mais ainda "é deixar de ser inocente, e perceber que o que é poderia não ser", uma vez que "o real está envolto numa zona indefinida de compossíveis não-realizados"1. De saída, já inova e mostra sua audácia ao subverter o tradicional e cansado método comparativo, colocando em diálogo, e não em simples contraste, eventos e encontros da Nova Era, que a autora acompanhou no Brasil e na Inglaterra, no período de junho de 1993 a fevereiro de 1997. Como ela mesma diz na introdução, a opção foi "acompanhar o trânsito, a circulação e o fluxo", em dois contextos culturais distintos, não para desvendar "as particularidades culturais e locais de sua atualização, mas para sensibilizar-se com "a dimensão transnacional e transcultural" das questões formativas da Nova Era.

A fertilidade da perspectiva fica igualmente evidenciada na definição mesma do que seja ou venha ser Nova Era. Tal definição, enunciada no final do capítulo I, A Nova Era em perspectiva histórica, e depois retomada na conclusão, é mais sugerida do que efetivamente formalizada, dado que "não existe nada que seja em si mesmo absolutamente Nova Era". Nova Era seria, assim, "mais do que um substantivo que possa definir identidades religiosas bem demarcadas", um "adjetivo para práticas espirituais e religiosas diferenciadas e em combinações variadas, independente das definições ou inserções religiosas de seus participantes", portanto, não é "uma língua franca capaz de unir diferentes tendências contemporâneas". Por isso, Leila diz, com toda razão, ficar "inclinada a enxergar 'o que é Nova Era' mais no domínio do parcial, do ambíguo, do provisório e da indefinição, portanto, mais no domínio da adjetivação parcial do que no da substantivação determinante". Mas, sobretudo, seu vigor é testado e comprovado pelo modo como é tecido o argumento central do livro e cuja magnífica condensação já aparece no próprio título. Leila nos aponta para novas matrizes de formação do vínculo social. Nesta "espiritualidade desencarnada" que é a da Nova Era, o acento forte é dado pela experiência, por um estilo próprio de "lidar com o sagrado". Uma experiência de natureza singular: a da errância, marcada pelo provisório e pela transitividade. Numa feliz expressão, a autora caracteriza os encontros e eventos da Nova Era como "arquitetura da errância". Na experiência errante, o cruzamento heterodoxo - "entre as diferentes tradições religiosas e não-religiosas" - importa "mais do que os conteúdos substantivos das crenças e postulados em trânsito", o que aponta para a possibilidade de falar-se "de novas condições de 'espiritualidade', no mundo contemporâneo", todavia, sem a presença de um fundamento. Por isso apresenta-se como uma espiritualidade desencarnada, dessubstancializadora do sagrado, relativizadora, que descanoniza a relação entre lugar e essência, apesar de acentuar uma nova modalidade de se estar junto.

Em suma: trata-se de uma experiência religiosa que com seu "esforço para cruzar e juntar domínios inusitados e, assim, suspender dualidades, traz à tona e coloca em debate um sincretismo de novo tipo", que não é mais "necessária ou exclusivamente um lugar fixo de hibridação", mas passa "a se constituir, também, no deslocamento na circulação e no fluxo de identidades", pois que se faz na movimentação, na errância. Vale dizer que o caso da Nova Era aponta para "o deslocamento de diferenças híbridas" como "uma das novas condições da experiência espiritual" na contemporaneidade. Experiência religiosa que busca a transformação individual pela via do encontro, da vivência, em uma palavra, pela experimentação. Não é à toa, portanto, que os participantes sejam chamados de buscadores e que as atividades de busca se realizem em encontros, festivais e congressos holísticos, que são analisados ao longo, e em diferentes dimensões, dos capítulos II a VII. Carnaval da Alma enfatiza a experiência mesma do encontro como constitutiva da Nova Era: a experimentação é "a idéia-matriz da cultura Nova Era face aos modelos morais e religiosos contemporâneos". A experiência errante do encontro é experimentada (leia-se vivenciada) "na sua efemeridade, temporalidade e transmigração", mas ao mesmo tempo, e talvez por isso mesmo, produtora de uma "topografia própria do mundo: um mundo constituído de realidades múltiplas e transformáveis umas nas outras".

Vale dizer que a cultura da experimentação sugere "a existência de uma espécie de 'porosidade do mundo'", que traz em seu bojo uma "absolutização da 'passagem' - através da vivência da realidade como um mundo de ordens múltiplas e intercambiáveis - concebida como a verdadeira realidade, experimentada e celebrada ritualmente, mas jamais totalmente realizada ou transposta". Eis novamente a encarnação do pluralismo à la Nova Era. Mais uma vez fica evidenciada a fertilidade da imaginação de Leila. Muitos insistem em ver nessa forma de experimentar o mundo uma das expressões mais acabadas do individualismo. Leila desmonta essa argumentação, diga-se de passagem corrente tanto em uma certa doxa comum quanto em uma certa doxa acadêmica, mostrando como esse "crescente voluntarismo" tem um "sentido positivo", pois se de um lado enfraquece os "laços daí decorrentes", de outro, e talvez por isso mesmo, "leva à libertação de laços e lealdades compulsórias" e se encaminha na direção da constituição de um "ideal de comunidade" não essencialista, "em que o 'estar junto' não implica necessariamente, em 'estar com', porque o 'estar junto' o precederia, inclusive, como a sua condição". A experimentação à la Nova Era evidencia um "desejo de exceder os limites de significação" para além tanto do paradigma moderno quanto das tradições das quais lança mão.

Por isso, a ênfase, tal como é mostrado no capítulo II, Ocultismo para não-iniciados, é colocada na "liberdade da diferença", que tanto pode ter uma "versão hard magia-poder", aquela que tende a recriar "o mito do indivíduo todo-poderoso", quanto uma "versão soft espiritualidade-harmonia", aquela que "performaticamente" focaliza a possibilidade de "entrar em sintonia com a essência de todas as coisas e de todos os seres". O ponto é que ambas as versões cruzam-se heterodoxamente de modo que, se a versão hard enfatiza "uma tendência em direção ao fortalecimento das identidades pessoais e exclusivas", sua articulação com a versão soft "permite algumas interrupções na atualização de uma idéia de 'indivíduo' como totalidade consistente e auto-suficiente". O resultado? É para os buscadores a possibilidade de experimentar, através das vivências, a consciência do movimento do espírito, de modo que o "sujeito afirma-se como espírito em movimento, alcançando uma realidade para além dos limites da civilização, do âmbito social e dos sistemas culturais e religiosos, mas com a certeza e com a segurança de se estar em comunicação com o espírito do mundo". Essa "ontologia da relação", traz implícita uma noção de totalidade sem fusão e uma noção de essência que é relativa e não mais fundacionada. Neste sentido, rompe com a faceta ensimesmadora e auto-suficiente do individualismo moderno clássico, ao mesmo tempo que opera uma vigorosa "mediação (ou comunicação)" com a lógica do capitalismo de modo que a mercadoria possa ser usada "para produzir significados espirituais e mesmo morais. Significa dizer que "eliminar a mercadoria seria o mesmo que eliminar o espírito", tal como fica evidenciado no capítulo V, Espiritualidade, diversão e consumo.

Assim, de novo insisto que aqui aparece a fertilidade heurística de Carnaval da Alma, o mercado não é descartado como meio de promoção do vínculo, nem tampouco associado a atitudes puramente instrumentais, egóticas e personalistas, mas como revelador de outras razões contidas nas escolhas dos errantes, sobretudo aquelas que dizem respeito à troca. Assim, "o consumo Nova Era não pode ser tomado "como um epifenômeno da mercantilização universal, promovida pela lógica capitalista e sua capacidade de transformar tudo em mercadoria, mas como um meio de expansão da própria cultura moral e espiritual Nova Era, porque o consumo corresponderia a uma exigência lógica mesma dessa cultura espiritual". Os buscadores que almejam "a liberação do espírito dos códigos sociais que supostamente inibiriam a sua realização plena e sempre renovada" dirijem-se "à liberdade do mercado consumidor para a criação de um 'espaço de vida' que simbolica e ritualmente se contraporia ao 'espaço social' - a vida regular, ocupada com os trabalhos cotidianos e sujeita a um sistema de interditos e cheia de preocupações". O consumo assim experienciado coloca em comunicação "a realidade imediata do ego e a realidade mais vasta da 'vida'". Ou seja: busca espiritual e consumo não são "pólos excludentes", mas "em correspondência". Em correspondência com o "desejo" - mais enquanto fonte de "prazer" e de "busca" do que de efetiva realização - que apela para a comunicação, para a troca intensiva de bens transportadores do "espírito do mundo", para a relação, para a comunhão fática com o divino, enfim, para a comunidade sem fusão. Por isso sua conexão com a realidade mais vasta da vida iluminadoramente mostrada no capítulo VI, Uma semana no Vale Dourado: a experiência liminar do encontro.

A comunidade que é questão na Nova Era é uma "comunidade de errância", pois é aquela que realiza a "comunhão fática" com o divino. Ao possibilitar o "encontro", o estar junto - tanto na forma de "comunidade dentro do mundo" quanto na de "comunidade fora do mundo" - "existiria independente da necessidade de algo a comunicar", pois levaria os buscadores "a experimentar um sentido transformado de comunhão daquele comumente aceito - isto é, de significado comum partilhado - para transparecer a idéia de uma comunicação ampliada'', capaz de "congregar e unir pessoas, tradições culturais, religiosas e lingüísticas diferentes, desde que existam palavras para trocar". E sabemos nós que quem diz troca diz reciprocidade, diz produção da vida mesma. E é sobre os desafios contemporâneos que a produção da vida enfrenta que se debruça admiravelmente o capítulo VII, Encontro para a nova consciência ou o carnaval da alma. A questão ou o desafio que Leila se põe diz respeito a compatibilidade entre a "cultura religiosa errante" e a emergência de um "padrão de civilidade". Mais uma vez a perspectiva norteadora do trabalho revela-se em plena potência criativa. No mundo globalizado, a religião extrapola sua esfera mais estrita e mais propriamente social, para figurar "como um recurso simbólico" que coloca "problemas que não são inteiramente religiosos", uma vez que dizem respeito a possibilidade outra de "pensar a ordem social em termos de contexto global". A religião torna-se, assim, uma "patrimônico cultural global", ou seja, universaliza-se como "a convivência do múltiplo". Dito de outro modo: o argumento central é o de que "quanto mais as religiões exprimem o exceder dos limites sociais de relações, mais elas ampliam a noção de relação e mais sociais elas se tornam".

O paradoxo, constitutivo do espírito de nosso tempo - a tensão entre o estar junto e o estar com - é, no caso da Nova Era, não resolvido, pois não se trata de uma síntese, mas experimentado na busca de uma "ideal de 'fusão' tão radical" (leia-se a identificação do sagrado como o humano e com a vida), "que só se consegue realizar em um nível não essencialista", aquele de "uma unidade sem essência", isto é, "de busca de uma essência que não se substancializa nunca de forma definitiva" e que permite "a experimentação da diversidade". É para esse padrão de civilidade que o universo novaerizado aponta: "o sentimento de uma relação problemática entre indivíduo e sociedade, tentando visualizar os aspectos extra-societais do self, propiciando "o aparecimento de categorias outras para pensar o significado que a humanidade pode então adquirir". Dito de outro modo: a civilidade novaeirista, com seu multiperspectivismo religioso representa uma abertura do campo da significação não em direção ao ego, à identidade, ao intersocietal, mas na direção de um "domínio de comunicação não-societal" vivido enquanto espiritualidade e experimentado "como o exato momento da passagem, no qual o indivíduo transformado em self 'desrespeita fronteiras e reencontra a humanidade'". Eis a carnavalização em ato, pois aponta para "a possibilidade de estabelecer vínculos e captar sentidos que ainda não estão dados, mas que podem ser imaginados". A moralidade Nova Era é uma "moralidade da semelhança e do eterno 'tornar-se'", na qual o outro não é o antagonista, mas "presença". Bingo! Carnaval da Alma inspira, instiga o pensamento a ir mais longe, a ver no "multiperspectivismo religioso" contemporâneo e na "cultura religiosa errante" o que Mauss chamou de "a vontade de ligar"2.

 

* Prêmio Jabuti 2001 - Categoria Religião.
1 Veyne, Paul. O inventário das diferenças: História e Sociologia. São Paulo: Brasiliense, 1983. p. 54-55.
2 Comentando a noção de participação em Lévy-Bruhl, Mauss diz: "A participação não é somente uma confusão. Ela supõe um esforço para confundir e um esforço para juntar; existe desde a origem a vontade de ligar." (apud Backes-Clément, Catherine. "Le mauvais sujet", L'Arc Marcel Mauss, Paris: Librarie Duponchelle, 1990, p. 63).

Veja também:

Entrevista com a professora Leila Amaral (clique AQUI para abrir o arquivo)


Recensão do livro Carnaval da Alma: comunidade, essência e sincretismo na Nova Era, de Leila Amaral 

Índice do Livro
Apresentação
Introdução
Capitulo 1: a nova era em perspectiva histórica
Capitulo 2: ocultismo para não-iniciados
Capitulo 3: a obsessão pela cura
Capitulo 4: o poder sagrado do som
Capitulo 5: espiritualidade diversão e consumo
Capitulo 6: uma semana no vale dourado
Capitulo 7: encontro para a nova consciência ou o carnaval da alma
Conclusão
Glossário
Referencias bibliográficas


SOBRE A ERRÂNCIA RELIGIOSA (clique AQUI para abrir o PDF)
RESENHA de Kelson Gérison Oliveira Chaves sobre o livro
Carnaval da alma: comunidade, essência e sincretismo na nova era


Identidade e Multiculturalismo no Encontro para Nova consciência
Veja o artigo completo (clique AQUI para abrir o PDF)
Melise Lima Lunguinho
UFCG
Kamilla Rocha Ferreira
UFCG
Orientador: Prof. Dr. Rodrigo de Azeredo Grunewald
UFCG

Palavras-chave: pluralismo religioso, identidades, sincretismo.

Apresentação
O Encontro para a Nova Consciência (ENC) É um evento macro ecumênico que acontece
anualmente em Campina Grande durante o período do carnaval.Esse evento teve início em 1992
e reúne as mais diversas tendências religiosas com a proposta de discutir e encontrar soluções
para os mais distintos problemas globais.
O ENC tem sido estudado no âmbito dos novos movimentos religiosos,como uma das
manifestações da Nova Era ou New Age,que tem como filosofia a criação de um novo mundo
mediado pela integração de todas as coisas.è importante destacar que enquanto o restante do
Brasil se diverte com a "festa da carne" em Campina Grande o Encontro para a Nova
Consciência se voltou para a festa do espírito ou "o carnaval da alma" cedendo espaço ao
sagrado , em busca de respostas que aquietem o espírito e harmonize o homem com a natureza
e com Deus.Durante esse evento inúmeras correntes de pensamento se manifestam com o
propósito de encontrarem o equilíbrio cósmico e terreno para ávida humana .Dentro dessa ótica
buscamos discutir as origens e o propósito de encontro destacando suas características e a
importância desse evento pra a cidade de Campina Grande como fomentador do turismo.No que
diz respeito à metodologia utilizada é importante destacar que utilizamos-nos de uma técnica
instrumental básica a observação participante,capaz de permitir um maior grau de envolvimento
com as categorias pesquisadas.Além desta usamos bilbilografias relacionadas ao referido tema.

Fonte: http://www.anpuhpb.org/anais_xiii_eeph/textos/ST%2020%20-%20Melise%20Lima%20lunguinho%20e%20Kamilla%20Rocha%20Ferreira%20TC.PDF



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ONG Nova Consciência,
5 de jan de 2014 16:44
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ONG Nova Consciência,
8 de jan de 2014 04:04
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ONG Nova Consciência,
8 de jan de 2014 03:49
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ONG Nova Consciência,
8 de jan de 2014 04:18
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