Octávio Mateus: No ninho dos dinossauros


Perfil de

Octávio Mateus visto por Nélia Silva, Janeiro 2007

Publicações

Biografia

Aos 31 anos, Octávio Mateus, doutorado em paleontologia pela Universidade Nova de Lisboa, tem uma carreira invejável: entre os artigos publicados, as espécies de dinossauros descritas e baptizadas por si e a colaboração com instituições nacionais e internacionais, é já uma referência para a ciência.

            Nasceu no “ninho de dinossauros” e acabou por seguir-lhes as pegadas, abraçando uma carreira ligada a eles. Desde criança, Octávio conviveu com o mundo da arqueologia e da paleontologia graças aos pais, fundadores do Museu onde mais tarde viria a desenvolver a sua carreira. A curiosidade intrínseca que nutria pela natureza levá-lo-ia certamente a seguir uma carreira ligada à história natural e à biologia, mas foi a proximidade à Lourinhã, “capital dos dinossauros” e ao Museu da Lourinhã que o levaram a enveredar por uma carreira na paleontologia, tendo tido a oportunidade de explorar um vasto espólio de fósseis, tornando-se num paleontólogo de renome internacional.

               Com o cabelo negro, rebelde, a marcar-lhe o rosto, explica porque costuma dizer “nasci num ninho de dinossauros”, apresentando três razões: porque nasceu numa família interessada em dinossauros, porque desde muito cedo estou ligado à Lourinhã, o epicentro de um área bastante rica em dinossauros e, por fim, porque muito cedo na minha carreira, estive a escavar, precisamente, um ninho de dinossauros.

            Nasceu a 31 de Janeiro de 1975 em Lisboa, mas cresceu na vila da Lourinhã. Era uma criança muito curiosa, com um interesse particular “pela natureza, pela vida selvagem. Ia muito para o campo, brincar com os animais, ver as plantas, isso tudo. Fui uma criança absolutamente normal, muito curioso, muito inquisidor no sentido científico, que ainda o sou…” Carla Abreu, actualmente colega no museu, conhece-o desde criança e lembra-se dele como “um miúdo que se aventurava muito, gostava de explorar tudo. Iam passear, ver bichos. Adora bichos! Apanhava cobras com uma facilidade doida! Ainda hoje! Gostava de encontrar particularidades nos animais, para conciliar com o que via nos livros.” O interesse pela natureza reflectia-se também na escola: “As minhas ciências naturais sempre foram o meu forte, obviamente” afirma, rindo, considerando que tinha pela natureza um interesse que lhe é natural, mas foi devido ao ambiente em que fui criado que surgiu o interesse pela paleontologia.

            Desde a criação do Museu da Lourinhã, em 1984, manteve sempre contacto com as actividades deste, graças ao facto dos pais terem ajudado a fundá-lo. “Sempre estive muito envolvido no museu, com os fósseis…”. Aos nove anos, lembra-se de descobrir um grande dente de dinossauro; no entanto, esta não foi a primeira peça que descobriu: “na verdade não me lembro da primeira peça que descobri porque sempre descobri fósseis quando ia com os meus pais para o campo.” 

               O interesse pela história natural levou-o a Évora, para se licenciar em Biologia. Escolheu Évora porque gostava do ambiente académico que já conhecia pois o irmão mais velho, Simão, estudava lá. A cidade universitária agradou-lhe “porque gosto de estar envolvido em inteligência (…), por gente que desenvolve trabalhos pioneiros, de estar na ciência de ponta e isso os ambientes universitários dão.” Quanto à escolha da biologia como formação base e não geologia, que é a via mais comum em Portugal, denota que tinha já noção do percurso que queria fazer, ligado à paleontologia, achando que a formação em biologia seria produtiva: “tem sentido o contributo que eu faço pela área da biologia (…) sou o primeiro biólogo com o doutoramento em paleontologia em Portugal. O facto de não haver ninguém na altura a fazer isso não me afectou absolutamente nada! Não sou o tipo de pessoas que toma opções porque os outros as tomam. E acho que haver formações diferentes em cada uma das áreas é importante. “

               Enquanto estudou em Évora continuou a colaborar com o Museu da Lourinhã. Escolheu para trabalho de fim de curso um espécime que estava no museu, que mais tarde viria a apelidar de Lourinhanosaurus antunesi.Esse foi o meu trabalho de fim de curso que publiquei e foi basicamente o início da minha carreira na paleontologia. Nesse momento comecei logo a estar ligado à Nova, tinha um orientador que era da Universidade Nova, ” o Professor Telles Antunes, iniciando essa ligação institucional.

               Primeiro, entrou como bolseiro para a Fundação de Ciência e Tecnologia. Depois tive uma bolsa de doutoramento, e agora estou com o pós-doutoramento. Continua a investigar pela Nova, mantendo afiliação também ao 
Museu da Lourinhã, onde tem acesso a espécimes para poder estudar. É assim que eu me sinto: da Universidade Nova e do Museu da Lourinhã.

               No Museu, as suas funções vão para além da investigação, tendo que realizar actividades ligadas à museologia, relações públicas…o que retira tempo para aquela que considera ser a função de todo o cientista: preparar os materiais, estudá-los e depois publicar os resultados: só marcamos o golo se publicarmos e temos obviamente que fazer o trabalho antes disso. Octávio conta já no seu currículo com vários artigos publicados, entre os quais se destaca uma publicação numa das melhores revistas científicas, a Nature: Tive a sorte…sorte não, o trabalho, de ser publicado pela Nature!

               Além da investigação pela Nova e pelo Museu está envolvido em escavações apoiadas pela National Geographic, em Angola, um território muito rico e ainda inexplorado pela paleontologia. É com entusiasmo que revela: Descobri o primeiro dinossauro de Angola! Além das escavações em Angola, já escavou em outros locais como é o caso do Laos e, claro, em Portugal.

               Colabora com várias instituições internacionais, na perspectiva de que as instituições devem ser abertas e cooperantes. Foi convidado para dar aulas nos EUA e foi considerado director científico para a paleontologia num museu alemão, o que prova o seu reconhecimento internacional.

            Neste percurso profissional, não consegue eleger o ponto mais alto, pois só consegue ver a minha carreira como um todo…

               No gabinete em que trabalha, no Museu, está exposta uma grande vértebra que indica qual o seu maior interesse: os dinossauros e a investigação, cujo produto, os seus artigos, guarda num gavetão gigantesco, num dos lados da sala. Virada para a janela, tem uma pequena estátua, “o pensador angolano”, oferecida pelo Professor Louis Jacobs, quando escavaram em Angola.

               Descreve-se como um workhaolic e, como tal, não tem muitos hobbies. Os meus hobbies estão ligados ao trabalho que faço, como forma de se enriquecer profissionalmente. Gosta de ler sobre a evolução de espécies e adora viajar. Além de ter um empresa que vende réplicas de dinossauros para museus, a Dinocast.com que é um hobbie que dá bastante trabalho. Carla Abreu, colega no museu, considera-o muito exigente, teimoso, mas que gosta de justificar a opinião, além de ser obcecado pelo trabalho.

            Quanto a projectos futuros, tem em mãos aquele que admite poder ser um dos principais desafios da sua vida: a criação do novo museu, o museu do Jurássico, um projecto ambicioso que pode mudar o panorama da paleontologia em Portugal e, obviamente, vai mudar radicalmente a Lourinhã. É um projecto de vida, que me é muito caro. Não avança pormenores pois ainda não está definido, estando dependente da vontade política, que tem oferecido alguma resistência. No entanto, Octávio Mateus não vê nisso um problema, afirmando convictamente, entre risos: não vejo problemas, vejo desafios e soluções!