Nei Loja - entrevistado: O trabalho dá valor ao homem

O trabalho dá valor ao homem 


O psicólogo Nei Loja,  conversou com a revista Rumos.


Rumos: Qual a importância que a psicologia confere ao trabalho para a realização do ser humano?


Nei Loja: Desde que a humanidade decidiu que as trocas seriam feitas por intermédio do dinheiro, este passou a ser uma espécie de bênção, o único meio capaz de realizar os planos materiais do homem. Para se conseguir o dinheiro, é preciso realizar algum tipo de trabalho que alguém queira remunerar. Assim se estabelecem as trocas.


R: No mundo da tecnologia e da globalização, o trabalho ainda é fundamental?


N. L.: O trabalho sempre será fundamental, porque não ocorre remuneração sem trabalho e nem se evitam perdas sem ele.


R: O trabalho dá qualidade ao homem...


N. L.: Em vários sentidos: faz o homem ter o que ele precisa para viver, dignifica-o na relação social, familiar e, principalmente, consigo mesmo.


R: Qualquer trabalho confere ao homem essa dignidade?


N. L.: Qualquer trabalho é mais digno para o homem do que a ociosidade. Todos os homens que trabalham, em qualquer ramo, merecem respeito.


R: O ócio também pode ser criativo?


N. L.: A atitude ociosa, que é a liberdade do pensamento, pode gerar idéias extraordinárias, mas o mundo, ao meu ver, não poderá ser governado pelo ócio, porque a natureza dotou o homem de impulsos de reprodução irresistíveis, como todas as espécies animais do planeta. O trabalho é uma forma, inclusive, de realização da vida sexual, o que é essencial do ponto de vista individual e social. Deixar essa questão fora dos interesses do trabalho seria não entender a humanidade.


R: O sociólogo italiano Domenico de Masi pretende que o lazer substitua paulatinamente o trabalho. É possível, hoje, imaginar o homem sem trabalho, com lazer quase integral?


N. L.: Na minha opinião, isso não vai ser desejado pelos seres humanos, pois estes se realizam e se estruturam por intermédio do trabalho.


R: E quanto aos trabalhos desagradáveis?


N. L.: Aparentemente, os seres humanos nascem com diferentes qualificações ou possibilidades. Não se pode dizer que todos nasçam iguais, com todas as possibilidades. O fato de um ser humano desenvolver trabalhos mais simples não significa produzir infelicidade para ele, pois esta não depende apenas disso.


R: A desigualdade não é fruto da falta de oportunidade, da injustiça social?


N. L.: Não apenas. A desigualdade, para a Psicologia, também é fruto das diferenças individuais, que estão relacionadas com as competências biológicas do indivíduo. Deve-se compreender que existem vários tipos de inteligências e não apenas uma inteligência geral. A inteligência verbal, por exemplo, leva à felicidade vendedores semi-analfabetos que ficam milionários.


R: O desenvolvimento da inteligência não seria fruto da educação, num mundo mais justo?


N. L.: Sem dúvida, mas sempre se tratará do desenvolvimento de um dom, ou seja, a inteligência com a qual a pessoa nasceu.


R: Ao seu ver as empresas que visam ao lucro têm uma compreensão adequada da importância do trabalho?


N. L.: Sim, porém limitadas a seus objetivos sociais. Percebo que as empresas estão ultrapassando todos os limites da super utilização do tempo de seus funcionários, obrigando-os a cargas horárias extraordinárias sem qualquer remuneração complementar, levando a que, em alguns casos, o trabalho se torne uma tortura, pois eliminou o tempo de lazer, almoços, horários com a família, ausência de fins de semana livres, etc. As empresas estão usando pouca gente para fazer o trabalho de muitos. Isso traz o aumento de doenças crônicas de trabalho: alcoolismo, baixa resistência imunológica, o recurso a drogas, ou seja, aquelas produzidas pelo estresse.


R: O trabalho deve ser protegido por um ente maior, como Estado, ou deve ficar apenas na esfera do mercado? 


N. L.: Seria recomendável que as pessoas que precisam de maior proteção tivessem emprego. Os normalmente dotados, ao meu ver, não precisam dessa proteção, porque são naturalmente capazes de se resolver. Existe muita confusão entre trabalho e emprego. A melhor orientação é que as pessoas procurem trabalho, algo que as realize, tornando-as felizes independentemente do quanto ganhem, pois o ganho é conseqüência da realização feliz de um trabalho perfeito.

R: O senhor imagina que o mundo esteja caminhando para uma crescente valorização do trabalho?


N. L.: Acredito que o mundo tem que caminhar para uma crescente valorização do ser humano, o que inclui trabalho adequado e feliz para cada pessoa.