Avaliação de Risco Geotécnico no Morro do Cristo
Juiz de Fora – MG
Foi realizado um estudo técnico de avaliação de risco geotécnico em parte da área do Morro do Cristo, localizado no município de Juiz de Fora, Minas Gerais, com base em mapeamento geológico-geotécnico, inspeções de campo, análise geomorfológica e avaliação das condições de estabilidade do maciço rochoso.
O trabalho teve como objetivo caracterizar as condições geológicas e geotécnicas da encosta, identificar setores com instabilidade remanescente e avaliar os riscos associados a blocos rochosos, depósitos coluvionares e porções de solo residual mobilizadas após os eventos pluviométricos extremos registrados no município em fevereiro de 2026.
As atividades de campo foram conduzidas pelo geólogo Luiz Wallace, entre os dias 27 de março de 2026 e 21 de abril de 2026, incluindo vistorias “in loco”, descidas por cordas ao longo da encosta, mapeamento de unidades geotécnicas, identificação de blocos com indícios de instabilidade e registro fotográfico dos pontos de maior criticidade.
Caracterização Geológico-Geotécnica
O talude rochoso do Morro do Cristo apresenta orientação predominante Norte-Sul, com cota máxima aproximada de 230 metros. A litologia é composta predominantemente por rocha gnáissica, com diferentes graus de intemperismo.
Sobre o maciço rochoso ocorre uma camada de solo de espessura variável, por vezes rica em matéria orgânica, associada à presença de vegetação densa. A morfologia local apresenta relevo mamelonar, com formas convexas, topo arredondado e paredes íngremes, especialmente nas porções superiores da encosta.
Esse contexto geológico e geomorfológico favorece, ao longo do tempo, a formação de horizontes de solo residual, depósitos coluvionares e blocos rochosos individualizados, que podem apresentar comportamento desfavorável à estabilidade, especialmente após eventos de chuva intensa.
Principais Setores Avaliados
Região das Ruas Constantino Paleta e Marechal Deodoro
Na porção superior da encosta, nas proximidades das ruas Constantino Paleta e Marechal Deodoro, foi observado que o processo de instabilidade ocorreu principalmente na zona de contato solo-rocha.
O horizonte de solo residual localizado nas porções superiores do talude sofreu deslocamento sobre a superfície rochosa, provocando a exposição de blocos rochosos de volumes expressivos. Esses blocos, anteriormente parcialmente confinados pelo solo, passaram a apresentar condição desfavorável à estabilidade.
Verificou-se ainda que a morfologia do terreno contribuiu para a perda de energia do material mobilizado, fazendo com que parte dos detritos se depositasse ao longo da superfície rochosa e, principalmente, junto ao corte mecânico existente na denominada “Trilha do Tostão”.
Apesar da deposição de parte do material, foram identificados blocos de rocha de grande volume distribuídos nos pacotes de solo transportado, alguns ainda passíveis de deslocamento, queda ou rolamento.
Região Abaixo do Mirante do Cristo – Proximidades da Rua Halfeld
Logo abaixo do Mirante do Cristo, foi identificado grande volume de material mobilizado durante os deslizamentos associados às chuvas de fevereiro de 2026.
A ruptura da capa de solo residual foi condicionada pela saturação provocada pelas chuvas. O deslocamento dos detritos seguiu a morfologia natural do terreno, com fluxo concentrado principalmente ao longo da linha de talvegue, resultando na deposição de grande parte do material no sopé do talude.
Entretanto, parte do material coluvionar ainda permanece depositada sobre superfícies de menor declividade na face rochosa. Esses depósitos apresentam risco remanescente de movimentação, indicando a possibilidade de novos episódios de deslizamento.
Também foram observados blocos rochosos de grandes dimensões, principalmente nas porções centrais e inferiores do talude. Muitos desses blocos encontram-se individualizados e com sinais de desconfinamento, apresentando quadro desfavorável à estabilidade.
Além disso, foram identificadas placas rochosas típicas de alívio de tensão, que, embora não tenham sido diretamente afetadas pelo movimento inicial deflagrado pelas chuvas, também apresentam comportamento geotécnico preocupante.
Região da Rua Carmelo
A região próxima à parte superior da Rua Carmelo apresentou a maior heterogeneidade granulométrica do material movimentado.
Foram observados blocos rochosos volumosos, muitos dos quais ficaram depositados ao longo da cicatriz do fluxo de massa, sem alcançar o sopé da encosta. Esses blocos permanecem em condição de risco remanescente de queda ou rolamento.
Alguns blocos encontram-se posicionados em trechos de declividade muito acentuada ou parcialmente descalçados, o que aumenta significativamente o risco de movimentação. Em caso de deslocamento, esses blocos podem atingir áreas circunvizinhas, colidir com edificações ou até contribuir para a deflagração de novos movimentos de massa.
Por esse motivo, a área foi classificada como de risco muito alto, exigindo atenção imediata e intervenções estruturais de mitigação.
Conclusão Técnica
As chuvas extremas registradas no município de Juiz de Fora em fevereiro de 2026 configuraram um evento atípico do ponto de vista pluviométrico, com volumes muito acima da média histórica. Esse cenário contribuiu para a deflagração de diversos movimentos de massa, inundações e alagamentos em diferentes regiões da cidade.
No Morro do Cristo, as vistorias técnicas permitiram constatar um quadro de elevada instabilidade geológico-geotécnica, envolvendo blocos rochosos de grande porte, depósitos coluvionares, porções de solo residual mobilizadas e setores com feições evidentes de instabilidade.
Diante das condições observadas, conclui-se que há risco geológico muito alto remanescente, com possibilidade de novos movimentos de massa, queda ou rolamento de blocos.
Assim, recomenda-se a execução de obras emergenciais de estabilização e mitigação dos riscos geológicos, incluindo medidas estruturais compatíveis com a criticidade da encosta.
Em razão do risco remanescente identificado, não é tecnicamente recomendada a desinterdição dos imóveis localizados no sopé do Morro do Cristo antes da implantação das obras de contenção e estabilização necessárias.
Responsabilidade Institucional
Secretaria de Desenvolvimento Urbano com Participação Popular
Subsecretaria de Proteção e Defesa Civil
Juiz de Fora – Minas Gerais