5.5 - Foi criminoso

O QUE NOS FIZERAM FOI CRIMINOSO

por Fernando de Sousa Ribeiro, antigo alferes miliciano da C. Caç. 3535

Eu não sou crente, mas se calhar devia converter-me e fazer uma peregrinação a Fátima a pé. O facto de ter conseguido regressar de Angola são e salvo foi um milagre. Só pode. O que nos fizeram foi criminoso.

Em Santa Margarida, onde estivemos durante cerca de dois meses antes de partirmos para Angola, não tivemos Instrução de Aperfeiçoamento Operacional (IAO), como deveríamos ter tido. Já falei sobre este assunto e por isso não me vou alongar muito sobre ele. Diziam-nos os nossos superiores hierárquicos que só iríamos ter IAO em Angola. Por isso, o que o pessoal teve em Santa Margarida foi uma instrução meio a sério e meio a brincar, apenas para ir mantendo a malta ocupada e minimamente ativa até ao dia da partida para Angola. Enquanto isso, o Batalhão de Caçadores 3885, que também estava em Santa Margarida e estava mobilizado para Moçambique, passou o tempo todo em IAO, numa atividade frenética que contrastava de forma chocante com a semi-indolência do nosso. Se eu próprio não tivesse tomado a iniciativa, que foi estritamente minha, de dar uma instrução intensiva aos meus próprios subordinados em Santa Margarida, ter-me-ia visto em muito maus lençóis em Angola. Ninguém, em todo o comando do batalhão, parecia estar minimamente preocupado com a guerra que nos esperava. Ninguém. O que nos fizeram foi criminoso.

Em Angola, também acabámos por não ter IAO nenhuma. Diziam-nos que ela iria acontecer no Úcua, que era onde os comandos costumavam fazer as semanas de campo, mas não aconteceu. Não houve IAO no Úcua nem houve em lado nenhum. Partimos do Grafanil diretamente para os Dembos. O que nos fizeram foi criminoso.

Aos nossos camaradas angolanos, que se nos juntaram no Grafanil, ainda fizeram pior do que a nós. Mal aqueles nossos camaradas acabaram a especialidade, em Sá da Bandeira, foram levados diretamente para o Grafanil, para se nos juntarem. Em janeiro de 1972, eles tinham começado a recruta; em junho já estavam a caminho da guerra! Tal como aconteceu connosco, também eles não receberam nenhuma instrução que se parecesse com uma IAO. Fomos todos para a guerra com uma preparação de merda. Brancos, negros e mestiços. Poucas unidades terão partido para a guerra tão mal preparadas como o nosso batalhão. O que nos fizeram foi criminoso.

Se o que se passou até então foi de uma imperdoável gravidade (e foi), o que dizer do que nos aconteceu a seguir? O que nos aconteceu a seguir foi simplesmente isto: durante os primeiros seis meses de comissão, obrigaram-nos a fazer a guerra completamente sozinhos. Exatamente, sozinhos. Desde junho de 1972 até janeiro de 1973, as companhias operacionais do nosso batalhão foram as únicas forças militares que combateram nas zonas de Zemba, Cambamba e Mucondo. Repito, para que não restem dúvidas. Ao longo dos nossos primeiros seis meses de comissão, nenhuma outra força atuou na área do batalhão de Zemba, além das companhias operacionais do próprio batalhão. Nem comandos, nem paraquedistas, nem companhias de intervenção, nem TEs, nem GEs, nem "flechas", nem artilharia, nem aviões, nem nada! Nada de nada! Estivemos completamente sozinhos frente aos guerrilheiros da FNLA e do MPLA, que eram mais numerosos do que nós e que atuavam num terreno que nós não conhecíamos e que era de uma extrema dificuldade. Durante esses

primeiros seis meses, só a Força Aérea é que deu sinais de vida, e foi só para evacuar os nossos infelizes companheiros feridos! O que nos fizeram foi criminoso.

Acho que até hoje ainda ninguém chamou a atenção devida para a gravíssima situação em que nós nos encontrámos durante esse tempo e nesse lugar, situação ocorrida precisamente numa ocasião em qua ainda éramos inexperientes e, ainda por cima, estávamos mal e porcamente preparados. Numa altura em que, mais do que nunca, deveríamos ter recebido apoio, não tivemos apoio absolutamente nenhum, fosse de quem fosse, fosse de que forma fosse. O que tivemos foi desapoio e mais desapoio, qual deles o mais irresponsável e mais desumano. O que nos fizeram foi criminoso.

Foi ainda mais criminoso porque foi deliberado. Sim, esta solidão forçada a que estivemos sujeitos durante os primeiros seis meses de comissão foi propositada, por vontade do próprio comandante do nosso batalhão, o então tenente-coronel Azevedo. Foi mesmo em Zemba que eu tive conhecimento desta vontade do comandante. Ouvi-a revelada por um alferes da CCS, já não me lembro de qual. Talvez tenha sido o Sousa. Ou então o Rico, que não sabia guardar segredos. Não importa. O que importa é que o comandante conseguiu convencer o brigadeiro de Santa Eulália a não enviar tropas de intervenção ou quaisquer outras forças para o subsetor de Zemba. E, pelos vistos, o brigadeiro era um banana e satisfez a vontade ao Azevedo. E porque é que o Azevedo não queria que forças estranhas ao batalhão atuassem no subsetor? Porque queria ser ele a ficar com os louros todos. Todos os êxitos militares que acontecessem no subsetor seriam da exclusiva responsabilidade do batalhão; logo, dele mesmo, como comandante do batalhão que era. Esperava assim ganhar medalhas e promoções. À custa do nosso sacrifício e só à custa do nosso sacrifício. É claro que o major Lacerda também ansiava encher o peito de medalhas e ser promovido à custa do nosso sangue, suor e lágrimas. O que nos fizeram foi criminoso.

Se o Azevedo e o Lacerda fossem bons comandantes, teriam pelo menos tentado apoiar-nos e animar-nos. Mas não fizeram nada disso; fizeram precisamente o contrário. O comandante, sobretudo, não fez nunca outra coisa que não fosse ofender-nos e insultar-nos, chamando-nos coirões, sacanas e outros epítetos ainda menos recomendáveis. Nunca ele reconheceu o nosso esforço e o nosso sacrifício. Nunca! Para ele, fizéssemos o que fizéssemos ou deixássemos de fazer, éramos sempre uns sacanas de uns coirões! O major, pelo menos, não nos insultava, mas não só nunca manifestou o mais pequeno reconhecimento pelo esforço sobre-humano que estávamos a empreender, como fez ainda pior: EXIGIU (palavra dele) que sofrêssemos mais baixas em combate!!! Por mais inacreditável que isto possa parecer, aconteceu mesmo! Ele não exigiu que causássemos mais baixas ao inimigo; exigiu que fôssemos nós a sofrê-las!!! Juro que ele o fez! Os guerrilheiros que estavam na mata e que nos combatiam eram chamados terroristas. Com razão ou sem ela, a verdade é que os guerrilheiros lutavam por uma causa e estavam dispostos a matar-nos por ela. O comandante e o major não lutavam nem defendiam causa nenhuma, mas estavam dispostos a matar-nos para satisfazer o seu próprio egoísmo! Os verdadeiros terroristas não estavam na mata; estavam dentro do quartel de Zemba. O que nos fizeram foi criminoso.

Em janeiro de 1973, deu-se uma reviravolta na guerra do nosso batalhão. O novo brigadeiro de Santa Eulália (um tal Rebelo de Andrade, que veio transferido do comando do setor do Cuanza Norte para o da AM1) resolveu criar um comando

operacional, especial de corrida só para combater o MPLA. Foi chamado COP1 (Comando Operacional nº 1) e nele foram integrados o batalhão de Quicabo e as companhias de Santa Eulália e do Mucondo. Ficando com a companhia 3537 fora da sua alçada operacional, o nosso batalhão ficou apenas a poder contar com a 3535 e a 3536. Além disso, as regiões da FNLA que tinham competido à companhia do Mucondo (concretamente as regiões do Catoca e do Mufuque) passaram também para a 3535 e a 3536. Como só podia contar com duas companhias, o tenente-coronel Azevedo não teve então outro remédio senão aceitar a intervenção, no seu subsetor, de forças estranhas ao batalhão. Foi então que vieram os paraquedistas, vieram os "flechas", veio a artilharia e veio a aviação. Finalmente! Foi o fim do nosso isolamento operacional. Deixámos de nos sentir sozinhos, entregues apenas aos insultos e às exigências estúpidas do Azevedo e do Lacerda. O que nos fizeram foi criminoso.

Eu não sou crente, mas se calhar devia converter-me e fazer uma peregrinação a Fátima a pé. O facto de ter conseguido regressar de Angola são e salvo foi um milagre. Só pode. O que nos fizeram foi criminoso.

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