5.7 - A ida à lenha

No quartel de Zemba, encontra-se nas profundezas das matas dos Dembos, uma das zonas mais desertas em termos humanos, para lá se chegar tínhamos que andar mais de vinte quilómetros em picadas estreitas e ladeadas por uma floresta tropical: Zemba era aquele quartel onde se ia e voltava, não havendo mais destino além deste. O quartel era formado por edifícios de madeira, com telhados de zinco e buracos por todo o lado, ou seja os intervalos entre as tábuas de madeira deixavam passar o ar, o que até dava um certo jeito, pois sempre refrescava o ambiente.    

Para além do mesmo não  possuir  quais queres condições habitacionais, isto se compararmos aos tempos de hoje, não possuimos asso a Televisão,ou mesmo rádio, isto para não valar nas modernices de hoje que é a internete, nos anos setenta nem sequer se sabia o que era essa infraestrutura, hoje quase imprescindível no nosso dia a dia. 

Mas ao menos tínhamos uma vida muito saudável, pois não existiam todas aquelas tecnologias que nos roubam anos de vida, mas o mais importante eram as cozinhas ecológica dos oficiais, sargentos e praças, nada de modernices como seja o gás, electricidade ou mesmo o carvão. Todas as refeições eram confeccionadas a lenha, a qual tinha de ser recolhida nas matas das redondezas

Sempre que era necessário repor o "stock energético", lá se tinha de arranjar um grupo de “voluntários”, cabendo salvo erro ao oficial de dia, nomear os ditos, competindo ao Sargento de dia, organizar a segurança à equipa de trabalho.

Criada a equipa, lá íamos nós cima de uma viatura berliet picada fora, até ao local que achava-mos por bem recolher a respectiva lenha. Uma vez escolhido o local, normalmente um local de grande arborização,sendo o ideal locais onde existissem árvores de grande porte, pois mais rapidamente a nossa missão era cumprida.

Na verdade hoje em dia, abater árvores com aquele porte é considerado crime ecológico, lembro-me de que algumas tinham um troco que um só homem dificilmente a poderia abraçar, mas na altura ninguém estava sensibilizado para os problemas ambientais, e vá de deitar abaixo, pois o que importava era recolher a maior quantidade de lenha no mais curto espaço de tempo, até porque geralmente este tipo de tarefa era executada da parte da tarde, e a noite em Angola chega muito cedo.

Estamos a falar de um autêntica selva africana, com árvores e arbustos entrelaçados e de uma densidade enorme, bastando afastar-nos alguns metros e perdíamos de  vista os nossos camaradas, pelo que não pedíamos escolher um local muito longe da picada, pois dificilmente as viaturas podiam andar fora da mesma por muito tempo.

No meu caso e daquilo que consigo recordar, era uma autêntica aventura, uma vez que era uma oportunidade de ver “in loco” a magnifica selva africana, pelo que logo que chegados ao local seleccionado, como responsável pela segurança organizava o perímetro de segurança, e depois ia explorar as maravilhas que estavam à minha espera.

Para além das variadíssimas espécies vegetais, como eram lindas algumas plantas e as suas flores tropicais, mas o que mais me entusiasmava era a vida animal, para além de alguns macacos, coisa rara diga-se de verdade, a 

variedade da passarada era algo foram do comum, eles eram verdes, azuis, amarelos , eu sei lá, era algo que me deixava fascinado, como exemplo deixo aqui dois exemplares que fui pesquisar à Internet, mas que são tal e qual como aqueles que eu tive a prazer de ver. A viúva rabilonga, pássaro todo negro, com uma cauda enorme que lhe dificultava  o voar, bastava uma rebanhada de vento e a mesma via-se em grande dificuldade de seguir o seu caminho,  depois temos tecelão mascarado, de um amarelo vivo, e cuja melhor característica era o seu ninho, construído de e no capim, e que só um tecelão muito habilidoso conseguiria fabricar uma imitação do mesmo.

As borboletas eram também algo que me atraía, dada a sua grande variedade, como eram lindas e que vontade dava de as apanhar, embora as adorasse nunca tive “coragem” paras as capturar, mas recordo-me que houve um furriel, um camarada nosso pertencente ao batalhão que nos foi render, que era coleccionador e doido por elas,  e fazia incursões nos campos em volta do quartel para as apanhar, ou então aproveitava as saídas na ida à lenha ou outras missões para o efeito. Passados alguns tempos soube que tinha tido um acidente,  pois ia a corre atrás de um lindo exemplar e caiu, partindo salvo erro um braço.

 Mas o que mais me emocionou nessas idas à lenha foram as formigas kissonde, estas deslocavam-se em coluna, eram formigas de grande dimensão, do tamanho ou maiores do que as nossos formigas de asa, aquelas que normalmente surgem a quando das primeiras águas em Outubro.


Estas formigas deslocavam-se em coluna, nunca parando, não sei se as mesmas tinham ninho, ou não, pois elas pareciam que estavam sempre em movimento, eram colunas com um comprimento de 5 a 10 metros, e por onde passavam, deixavam um enorme rasto. Diz-se que se estas encontrassem no seu caminho algum animal adormecido, tratavam de o devorar, nada ficando a não ser os seus ossos, não sei se é verdade, pois a tal nunca assisti, mas relatos de autóctones, confirmavam que tal era verdadeiro.

E assim uma simples tarefa de ida à lenha, acabava por ser um verdadeiro estudo muito aliciante no campo da zoologia e da botânica.

PS: As fotos inclusas foram obtidas na Internet, pois infelizmente não tenho fotos dessas aventuras.

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