5.6 - Filhos-da-puta


Filhos-da-puta! Grandes filhos-da-puta!
por Fernando de Sousa Ribeiro, antigo alferes miliciano da C. Caç. 3535
 


Muitos dos nossos companheiros da C. Caç. 3536 e da CCS talvez não saibam ao certo onde é que ficavam a Ponte do Zádi e o Béu. É natural, pois nunca lá devem ter ido. Pois bem. O Béu ficava a algumas dezenas de quilómetros a leste de Maquela e era onde estava a sede da companhia 3537. A estrada (de terra, claro) que ligava Maquela do Zombo ao Béu passava pela Ponte do Zádi, que era a sede da 3535, a minha companhia. A Ponte do Zádi, portanto, ficava entre Maquela e o Béu.

O comandante da minha companhia, que era então o capitão Antunes, gostava de ir todos os sábados à noite a Maquela divertir-se um pouco. Quem ficava a "tomar conta" do quartel era, por isso, um alferes. Várias vezes fui eu mesmo. Já aqui contei um episódio ocorrido num desses sábados à noite no Zádi, que envolveu o segundo-sargento Madeira e que podia ter resultado numa tragédia. Mas agora a história é outra, tão real como a do Madeira.

Num dos tais sábados à noite, parou à porta da messe de oficiais do Zádi um jipe, onde vinha sozinho o capitão Jardim, comandante da 3537, que também tinha ido a Maquela. Achei estranho que ele viesse sozinho, sem escolta. Mais estranho achei o estado em que ele se encontrava quando saiu do jipe. Completamente alterado e embriagado, como eu nunca o tinha visto antes, o Jardim avançou cambaleante e dirigiu-se-me, atropelando as palavras umas nas outras:

- Ó Ribeiro, deixe-me entrar para descansar um bocado... Filhos-da-puta! Estou completamente fora de mim... Que grandes filhos-da-puta! Não estou em condições de continuar a viagem até ao Béu... Eu devia mas era desertar! Preciso urgentemente de descansar... Mas que filhos-da-puta!

Fiquei completamente parvo com o estado em que o capitão Jardim se encontrava e com as palavras aparentemente desconchavadas que dizia. O Jardim, que era um homem sempre tão sereno, tão imperturbável, naquele estado... O que teria acontecido? Convidei-o a entrar na messe e a sentar-se. Servi-lhe já não sei o quê, disse-lhe para se descontrair e, quando ele ficou um pouco mais calmo, perguntei-lhe o que foi que aconteceu. O Jardim contou-me então o que tinha presenciado em Maquela.

Vou tentar reproduzir de forma clara e ordenada o que o capitão Jardim me contou de forma confusa.

Já era de noite, quando alguém entrou na messe de oficiais de Maquela para chamar o médico. Disse que tinha dado entrada no hospital da vila um homem muito ferido, que precisava de ser visto urgentemente. O dr. Brandão levantou-se e seguiu para o hospital. Quando entrou e viu o ferido, disse em voz baixa:

- Chicotadas...

O homem tinha as costas todas retalhadas, em carne viva! O Brandão perguntou em seguida, em voz mais alta, o que tinha acontecido. Responderam-lhe que o homem era um trabalhador de uma fazenda do Rino, que estava a cortar uma árvore lá na fazenda e que a árvore lhe caiu em cima. Comentou o Brandão:

- A cortar uma árvore à noite?... Ainda por cima num sábado?! Além do mais, uma árvore não faz ferimentos assim, como estes! O que este homem foi, foi chicoteado!

E acrescentou:

- Este homem precisa de ser evacuado imediatamente para Luanda. Eu não tenho meios aqui para tratar feridos com esta gravidade. Ele tem de ser evacuado imediatamente, senão morre-me nas mãos. Assim como está, ele não chega vivo até amanhã de manhã!

O comandante do nosso batalhão, quando foi informado da necessidade de evacuar para Luanda um ferido civil muito grave, porque tinha sido chicoteado quase até à morte, ficou muito preocupado. Comentou:

- Como é que vamos conseguir a evacuação de um homem para Luanda a esta hora? Aqui em Maquela não há aviões e, mesmo se houvesse, o piloto recusar-se-ia a voar de noite até Luanda. E com razão. Um voo noturno é muito arriscado.

Como era imperioso evacuar o homem, o comandante resolveu entrar em contacto com uma companhia de táxis aéreos que havia em São Salvador, a qual tinha pelo menos um avião permanentemente na pista. Esperava levar uma nega, como de facto levou.

- Ó senhor coronel - disseram-lhe de São Salvador. - Nós não temos condições para fazer voos noturnos até Luanda. Os nossos aviões não têm meios para fazer esses voos. O senhor coronel não leve a mal, mas não é por falta de vontade nossa. É mesmo impossível voar de noite até Luanda. Acredite. Só a Força Aérea é que pode fazer voos desses. Mais ninguém.

O coronel Azevedo agradeceu, desligou e comentou:

- Ora, ora, a Força Aérea... A Força Aérea só evacua militares, não evacua civis! E agora, o que vamos fazer?

Como não havia mais nenhuma alternativa, o comandante resolveu entrar em contacto com o Aeródromo Base do Negage, da Força Aérea, esperando receber uma firme resposta negativa.

- Daqui fala o coronel Armando Duarte de Azevedo, do Exército, comandante do Batalhão de Caçadores 3880, em Maquela do Zombo - identificou-se através do rádio. - Preciso de falar pessoalmente com o comandante da base ou quem o substitua, com a máxima urgência.

Responderam-lhe do Negage:

- O comandante da base não está. Como é sábado à noite, ele encontra-se ausente...

- Não interessa! Chame o oficial mais graduado que estiver aí a comandar a base neste momento! É muito urgente! - insistiu o Azevedo.

Quando o substituto do comandante da base chegou ao rádio, o Azevedo contou-lhe que havia em Maquela um civil gravemente ferido, que precisava de ser evacuado com a máxima urgência para Luanda. A resposta foi a que ele esperava:

- O senhor saber muito bem que nós não evacuamos civis; só militares - disse o aviador. - Além disso, não temos aviões capazes de fazer um tal voo até Luanda, a não ser aviões grandes, como os Nord-Atlas, que são aviões de transporte de tropas. Ora nós não vamos mobilizar um Nord-Atlas de propósito, só para transportar uma pessoa!

- Mas é um caso excecional, urgentíssimo! - insistiu o Azevedo.

- Lamento muito, mas não podemos. O senhor sabe muito bem isso.

   O coronel Azevedo teve então uma ideia.

- Ouça lá! - chamou, antes que o outro desligasse o rádio. - Não está nas funções da Força Aérea a prestação de assistência às populações?

- Está, claro que está - respondeu o aviador. - Isso cai no âmbito da "psico"...

- Então pronto! - exclamou o Azevedo. - O homem é negro, é da população local... Pode ser evacuado!

- O senhor é terrível! Não desiste!

- Não desisto, não - respondeu o Azevedo. - Está um homem a morrer e eu não vou desistir enquanto ele não for evacuado.

- Está bem, pronto, a gente evacua o homem e não se fala mais nisso, acabou! - cedeu finalmente o outro. - Mas é a primeira e última vez! Que não se volte a repetir!

- Espero que não, espero que não...

- Então fica assim: nós vamos entrar imediatamente em contacto com o nosso pessoal que está no aeródromo de manobra aí em Maquela, para que faça a iluminação da pista, e vamos já mandar um Nord-Atlas para aí.

O trabalhador ferido acabou finalmente por ser evacuado para Luanda. Se não foi no avião Nord-Atlas que se vê nesta fotografia, foi noutro igual.

De volta ao centro da vila, o comandante afirmou que o incidente ocorrido com o trabalhador tinha sido tão grave, que ia participar o caso à polícia, para que investigasse o que aconteceu. Um civil branco, que estava presente e que o ouviu, opôs-se firmemente à ideia, dizendo:

- Não vamos agora incomodar o senhor Rino por causa de um preto...

Perante a oposição manifestada pelo civil, o comandante desistiu da participação à polícia. O capitão Jardim disse-me que provavelmente tinha sido porque o Azevedo temia ser prejudicado na sua carreira militar. O Rino era o homem mais rico de Maquela e podia ter conhecimentos suficientemente influentes, que pudessem prejudicá-lo junto das altas chefias militares em Luanda.

O capitão Jardim, por seu lado, que tinha asssistido a todos estes acontecimentos pessoalmente, sentiu-se profundamente revoltado com o sucedido e começou a emborcar whiskies atrás de whiskies. A dado momento levantou-se desvairado, entrou no seu jipe e arrancou sozinho a caminho do Béu, sem esperar pela escolta que o tinha acompanhado. Durante todo o tempo, dizia sem parar:

- Filhos-da-puta! Grandes filhos-da-puta! Quase mataram um homem à chicotada! E é para defender estes filhos-da-puta que eu estou aqui! Eu devia mas era desertar! "Não vamos incomodar o senhor Rino por causa de um preto", diz o gajo... Um preto é um homem, porra! Mas que grandes filhos-da-puta!

Era isto mesmo o que ele dizia quando chegou à Ponte do Zádi e foi isto mesmo o que ele repetiu, inúmeras vezes, enquanto me contou o sucedido.

(Fotografia de Agostinho Pereira, do Cmd. Agr. 3952, feita em Santa Eulália)
Muitos dos nossos companheiros da C. Caç. 3536 e da CCS talvez não saibam ao certo onde é que ficavam a Ponte do Zádi e o Béu. É natural, pois nunca lá devem ter ido. Pois bem. O Béu ficava a algumas dezenas de quilómetros a leste de Maquela e era onde estava a sede da companhia 3537. A estrada (de terra, claro) que ligava Maquela do Zombo ao Béu passava pela Ponte do Zádi, que era a sede da  3535, a minha companhia. A Ponte do Zádi, portanto, ficava entre Maquela e o Béu.  O comandante da minha companhia, que era então o capitão Antunes, gostava de ir todos os sábados à noite a Maquela divertir-se um pouco. Quem ficava a "tomar conta" do quartel era, por isso, um alferes. Várias vezes fui eu mesmo. Já aqui contei um episódio ocorrido num desses sábados à noite no Zádi, que envolveu o segundo-sargento Madeira e que podia ter resultado numa tragédia. Mas agora a história é outra, tão real como a do Madeira.  Num dos tais sábados à noite, parou à porta da messe de oficiais do Zádi um jipe, onde vinha sozinho o capitão Jardim, comandante da 3537, que também tinha ido a Maquela. Achei estranho que ele viesse sozinho, sem escolta. Mais estranho achei o estado em que ele se encontrava quando saiu do jipe. Completamente alterado e embriagado, como eu nunca o tinha visto antes, o Jardim avançou cambaleante e dirigiu-se-me, atropelando as palavras umas nas outras:  - Ó Ribeiro, deixe-me entrar para descansar um bocado... Filhos-da-puta! Estou completamente fora de mim... Que grandes filhos-da-puta! Não estou em condições de continuar a viagem até ao Béu... Eu devia mas era desertar! Preciso urgentemente de descansar... Mas que filhos-da-puta!  Fiquei completamente parvo com o estado em que o capitão Jardim se encontrava e com as palavras aparentemente desconchavadas que dizia. O Jardim, que era um homem sempre tão sereno, tão imperturbável, naquele estado... O que teria acontecido? Convidei-o a entrar na messe e a sentar-se. Servi-lhe já não sei o quê, disse-lhe para se descontrair e, quando ele ficou um pouco mais calmo, perguntei-lhe o que foi que aconteceu. O Jardim contou-me então o que tinha presenciado em Maquela.  Vou tentar reproduzir de forma clara e ordenada o que o capitão Jardim me contou de forma confusa.  Já era de noite, quando alguém entrou na messe de oficiais de Maquela para chamar o médico. Disse que tinha dado entrada no hospital da vila um homem muito ferido, que precisava de ser visto urgentemente. O dr. Brandão levantou-se e seguiu para o hospital. Quando entrou e viu o ferido, disse em voz baixa:  - Chicotadas...  O homem tinha as costas todas retalhadas, em carne viva! O Brandão perguntou em seguida, em voz mais alta, o que tinha acontecido. Responderam-lhe que o homem era um trabalhador de uma fazenda do Rino, que estava a cortar uma árvore lá na fazenda e que a árvore lhe caiu em cima. Comentou o Brandão:  - A cortar uma árvore à noite?... Ainda por cima num sábado?! Além do mais, uma árvore não faz ferimentos assim, como estes! O que este homem foi, foi chicoteado!  E acrescentou:  - Este homem precisa de ser evacuado imediatamente para Luanda. Eu não tenho meios aqui para tratar feridos com esta gravidade. Ele tem de ser evacuado imediatamente, senão morre-me nas mãos. Assim como está, ele não chega vivo até amanhã de manhã!  O comandante do nosso batalhão, quando foi informado da necessidade de evacuar para Luanda um ferido civil muito grave, porque tinha sido chicoteado quase até à morte, ficou muito preocupado. Comentou:  - Como é que vamos conseguir a evacuação de um homem para Luanda a esta hora? Aqui em Maquela não há aviões e, mesmo se houvesse, o piloto recusar-se-ia a voar de noite até Luanda. E com razão. Um voo noturno é muito arriscado.  Como era imperioso evacuar o homem, o comandante resolveu entrar em contacto com uma companhia de táxis aéreos que havia em São Salvador, a qual tinha pelo menos um avião permanentemente na pista. Esperava levar uma nega, como de facto levou.  - Ó senhor coronel - disseram-lhe de São Salvador. - Nós não temos condições para fazer voos noturnos até Luanda. Os nossos aviões não têm meios para fazer esses voos. O senhor coronel não leve a mal, mas não é por falta de vontade nossa. É mesmo impossível voar de noite até Luanda. Acredite. Só a Força Aérea é que pode fazer voos desses. Mais ninguém.  O coronel Azevedo agradeceu, desligou e comentou:  - Ora, ora, a Força Aérea... A Força Aérea só evacua militares, não evacua civis! E agora, o que vamos fazer?  Como não havia mais nenhuma alternativa, o comandante resolveu entrar em contacto com o Aeródromo Base do Negage, da Força Aérea, esperando receber uma firme resposta negativa.  - Daqui fala o coronel Armando Duarte de Azevedo, do Exército, comandante do Batalhão de Caçadores 3880, em Maquela do Zombo - identificou-se através do rádio. - Preciso de falar pessoalmente com o comandante da base ou quem o substitua, com a máxima urgência.  Responderam-lhe do Negage:  - O comandante da base não está. Como é sábado à noite, ele encontra-se ausente...  - Não interessa! Chame o oficial mais graduado que estiver aí a comandar a base neste momento! É muito urgente! - insistiu o Azevedo.  Quando o substituto do comandante da base chegou ao rádio, o Azevedo contou-lhe que havia em Maquela um civil gravemente ferido, que precisava de ser evacuado com a máxima urgência para Luanda. A resposta foi a que ele esperava:  - O senhor saber muito bem que nós não evacuamos civis; só militares - disse o aviador. - Além disso, não temos aviões capazes de fazer um tal voo até Luanda, a não ser aviões grandes, como os Nord-Atlas, que são aviões de transporte de tropas. Ora nós não vamos mobilizar um Nord-Atlas de propósito, só para transportar uma pessoa!  - Mas é um caso excecional, urgentíssimo! - insistiu o Azevedo.  - Lamento muito, mas não podemos. O senhor sabe muito bem isso.  O coronel Azevedo teve então uma ideia.  - Ouça lá! - chamou, antes que o outro desligasse o rádio. - Não está nas funções da Força Aérea a prestação de assistência às populações?  - Está, claro que está - respondeu o aviador. - Isso cai no âmbito da "psico"...  - Então pronto! - exclamou o Azevedo. - O homem é negro, é da população local... Pode ser evacuado!  - O senhor é terrível! Não desiste!  - Não desisto, não - respondeu o Azevedo. - Está um homem a morrer e eu não vou desistir enquanto ele não for evacuado.  - Está bem, pronto, a gente evacua o homem e não se fala mais nisso, acabou! - cedeu finalmente o outro. - Mas é a primeira e última vez! Que não se volte a repetir!  - Espero que não, espero que não...  - Então fica assim: nós vamos entrar imediatamente em contacto com o nosso pessoal que está no aeródromo de manobra aí em Maquela, para que faça a iluminação da pista, e vamos já mandar um Nord-Atlas para aí.  O trabalhador ferido acabou finalmente por ser evacuado para Luanda. Se não foi no avião Nord-Atlas que se vê nesta fotografia, foi noutro igual.  De volta ao centro da vila, o comandante afirmou que o incidente ocorrido com o trabalhador tinha sido tão grave, que ia participar o caso à polícia, para que investigasse o que aconteceu. Um civil branco, que estava presente e que o ouviu, opôs-se firmemente à ideia, dizendo:  - Não vamos agora incomodar o senhor Rino por causa de um preto...  Perante a oposição manifestada pelo civil, o comandante desistiu da participação à polícia. O capitão Jardim disse-me que provavelmente tinha sido porque o Azevedo temia ser prejudicado na sua carreira militar. O Rino era o homem mais rico de Maquela e podia ter conhecimentos suficientemente influentes, que pudessem prejudicá-lo junto das altas chefias militares em Luanda.  O capitão Jardim, por seu lado, que tinha asssistido a todos estes acontecimentos pessoalmente, sentiu-se profundamente revoltado com o sucedido e começou a emborcar whiskies atrás de whiskies. A dado momento levantou-se desvairado, entrou no seu jipe e arrancou sozinho a caminho do Béu, sem esperar pela escolta que o tinha acompanhado. Durante todo o tempo, dizia sem parar:  - Filhos-da-puta! Grandes filhos-da-puta! Quase mataram um homem à chicotada! E é para defender estes filhos-da-puta que eu estou aqui! Eu devia mas era desertar! "Não vamos incomodar o senhor Rino por causa de um preto", diz o gajo... Um preto é um homem, porra! Mas que grandes filhos-da-puta!  Era isto mesmo o que ele dizia quando chegou à Ponte do Zádi e foi isto mesmo o que ele repetiu, inúmeras vezes, enquanto me contou o sucedido.  (Fotografia de Agostinho Pereira, do Cmd. Agr. 3952, feita em Santa Eulália)
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