5.2 - O Brotas

O Cabo cuja alcunha era o Brotas(*), tal como o nome indica, era natural da Vila Alentejana de Brotas, sita no concelho de Mora, tinha um ar bonacheirão, um pouco anafado, mas sempre bem-disposto, um dia veio ter comigo, sendo eu o responsável pelo bar de Sargentos, e pediu-me – Furriel Paixão, você podia fazer-me um favor e deixar-me ir trabalhar para o Bar dos Sargentos ao que eu respondi que iria falar com os meus superiores e que sim e se não houvesse nada contra podia contar com o tal “emprego”.

Na verdade uma coisa tinha a tropa de bom , primeiro, as hierarquias eram para respeitar, e mesmo no meio do mato, existia uma bar para cada uma das classes, havia assim o Bar dos Oficiais, o Bar dos Sargentos e o Bar das praças, tal como o nome indica, o acesso aos mesmos estava vedado às classes “inferiores” ou seja os oficiais podiam frequentar todos os bares, os sargentos apenas o próprio bar e o dos praças e finalmente os soldados e os cabos, apenas podiam frequentar o seu bar.

Outra coisa boa era que os funcionários adstritos a esses bares estavam livres de outro tipo de serviços, não iam para o mato, não faziam rondas nem sentinelas, ainda que não tivessem tempos livres, nem fins-de-semana nem feriados. Sim porque mesmo no meio do mato, estes dias eram para respeitar, dormir até mais tarde, não fazer qualquer tipo de trabalho e até de passear (só que em Zemba, local onde se passa esta “estória” , não fosse possível qualquer atividades destas, já que estávamos limitados ao arame farpado, não podendo sair deste, sob pena virmos a ser acompanhados pelos nossos “amigos turras”).

Mas voltando à questão do meu amigo Brota, então lá consegui autorização para que ele pudesse trabalhar no Bar dos Sargentos.

Lá esteve a trabalhar durante alguns meses, sempre respeitador e servindo os utentes com esmero e um sorriso na cara sem lhe ouvir qualquer queixume.

Um dia em que eu me encontrava de serviço, foi necessário efectuar a segurança a uma coluna até Santa Eulália, Sede do Área Militar Norte, embora fosse apenas um aquartelamento, eram bastante melhor que Zemba, pois para além de ser bastante maior que Zemba, não estávam limitados pelo arame farpado, e até havia uma casa comercial, propriedade de um casal de brancos, e que serviam uns otimos bifes e uma cerveja  fresquinha. Era assim como se fossemos à civilização. Naquela altura ver uma mulher branca e poder comer fora do quartel era algo fora do normal, e era sempre com alguma ansiedade que todos esperávamos por nos poder deslocar àquele aquartelamento.

Foi assim, que nesse dia o nosso Brotas veio ter comigo e pediu-me para ir connosco. Eu nem hesitei, e disse que sim, sem ver as consequências que dai podiam advir, pois iria "desenfiado" ou seja clandestino e se houvesse um problema com ele era sempre uma grande chatice para ambos.

No regresso,  era obrigatório na chegada ao quartel, o responsável pela escolta mandar formar a sua equipa de soldados, alinhados em frente às viaturas, apresentar armas ao oficial de dia e fazer o relatório sumário como tinha decorrido a viagem e pedir autorização para mandar destroçar, ou seja cada um ir à sua vida.

Acontece que o amigo Brotas, em Santa Eulália tinha comido e bebido do melhor, neste caso mais bebido que o normal, ao alinharmo-nos o Brotas coloca-se muito direito ao meu lado, quando o oficial de dia se deslocou para a minha frente e eu me preparava para fazer a continência, o Brotas estatela-se direitinho e de costas no chão ficando sem acordo de sim tal era a bebedeira,  

Foi uma atrapalhação entre os restantes soldados, que numa de camaradagem rapidamente o retiraram, acontecendo que por sorte a luz solar estava a começar a perder a sua intensidade, dai que o oficial de dia nem se apercebeu de todo aquela trapalhada e o Brotas lá foi deitado na sua cama e dormiu regaladamente durante toda a noite.

Passado algum tempo, o Brotas começou a dizer-me que estava farto de estar naquele lugar e queria ir-se embora, queria vir para casa pois já não suportava aquela vida, eu disse-lha para ter calma, que todos nós estávamos a ficar saturados, mas tínhamos que ter paciência e aguentar, respondendo-me ele que se não viesse embora, dava em maluco.

Não fiz caso, até porque todos nós tínhamos dias em que o stress nos atacava, nessa altura dizíamos que estávamos com o cacimbo.

O Bar dos Sargentos era pegado com os quartos dos Sargentos, nos quais se incluíam os Furriéis como eu, e ao lado do Bar ficava o quarto onde dormiam dois Sargentos, e o Brotas dormia num quarta que ficava por detrás do Bar, ou sejam o seu quarto ficava ao lado do quarto dos Sargentos. Ora as nossas instalações eram fabricadas em madeira, logo o que separava os quartos uns dos outros eram um simples parede de madeira com dois ou três centímetros de espessura.

Certa noite, ai por volta da meia-noite ouvimos uma série de tiros disparados em rajada bastante perto. Como parte de nós ainda se encontrava acordado, rapidamente vamos ver o que se tinha passado.

O que tinha passado? tinha sido o Brotas que numa daquelas crises de "cacimbo" agarrou na sua arma, uma G3, e carregando no gatinho descarregou todo o carregador, estão a ver o que aconteceu, como as paredes eram de madeira, as balas passaram para o quarto seguinte,  e como as camas dos Sargentos, ficavam mesmo ao lado, as balas passaram a raspar aquelas, por sorte os Sargentos já eram homens experientes, salvo erro um deles era o Gamboa o Sargento mecânico, homem já na casa dos quarenta, bastante experiente e calmo. Em vez de se levantarem, deixaram-se cair da cama , rebolando para o lado, e foi assim que por sorte, milagre ou seja lá o que foi, nenhum deles ficou ferido.

Claro que o Brotas foi de imediato preso, e enviado para o presídio de Luanda.  Infelizmente até hoje nunca mais soube nada do amigo Brotas, não sei que pena teve nem se foi dado ou não como doido, a única forma de altura nos vermos livres da tropa..

Uma coisa é certa o Brotas viu-se livre de nós e do Zemba.

 

(*) Peço desculpa de te tratar assim amigo, mas já não me recordo o teu nome.

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