5.1 - O Ataque

Lembram-se da noite do dia 1 de Janeiro de 1973? Para todos os hóspedes do Zemba foi  inesquecível!

Mas vamos por partes. Na segunda feira, dia 1, houve uma corrida de S. Silvestre, iniciando-se à porta de armas, ida pela estrada de Santa Eulália, até ao cruzamento para a Sanzala da Paz, ai cortava-se em direcção à Sanzala, depois descia-se até ao ribeiro que passava a cerca de 500 metros do Quartel, apanhava-se a picada do poço e curvava-se à esquerda directamente para o Quartel, totalizando um total de 3,7 km. Á frente ia um jipe e um unimog, para a segurança, foram cerca de três dezenas os concorrentes todos cheios de genica, mas que depressa foram ficando para trás, sendo apanhados pelo carro vassoura, uma berliet.

O total do percurso demorou cerca de vinte minutos sendo ganho por um soldado do pelotão de morteiros, havendo prémios para os quatro primeiros lugares. Mas o melhor seria à noite com fogo-de-artifício e tudo.

Pelas 19H30, encontrava-me eu a efectuar o balanço do armazém, sim a nossa tropa sabia tratar dos seus militares, eu como Furriel de Operações Especiais, tropa de elite, tinha a meu cargo o armazém dos comes e bebes que se vendiam nos três bares existentes, Soldados, Sargentos e Oficiais, tarefa que durante os 27 meses de estadia em Angola me orgulho de ter desempenhado com todo o mérito o conhecimento que me foi possível. Como vêm a minha especialidade foi altamente desempenhada e aproveitada.

Mas como ia a dizer, pelas 19h30 entrou no armazém o Prates, o Quarteleiro, e convidou-me para ir jantar com ele e mais alguns Alentejanos no seu local de trabalho, lá fui, os outros convidados eram o Quintas e o Barrigoto, sendo o jantar uma açorda de tomate.

Comemos, bebemos e conversamos. Entretanto começou a chover torrencialmente, como só em África é possível, eram cerca das  20H45 já noite cerrada, começamos a ouvir um forte ruído como se alguém estivesse a bater à porta, dizendo o Prates – Quem será o maluco a esta hora e com esta chuva? Tendo eu dito, ò pá isso foi aí na arrecadação da operacional, pois o som vem de lá.
Entretanto o Prates levanta-se e vai à porta e ao abrir esta verificou-se que afinal o som era de tiros, eu aproximei-me da porta e nesse momento houve-se uma rajada e as luzes do Quartel apagaram-se completamente

Então não pensei em mais nada, corri pela parada fora, directamente ao meu quarto, coloquei as cartucheiras, peguei na G3 (estava vestido com farda n.º 2, camisa de manga curta, calções e sapatos), e corri para o meu abrigo, ao chegar a esta já lá estava o Alferes Rico mais alguns soldados, de imediato entrei dentro do abrigo, só que aquele estava cheio de água que dava quase até à barriga.

Lá me ajeitei e ai ficamos cerca de uma hora durante a qual se ouviram bastantes tiros de mauzer ou PPSH, tiros esses dos nossos “amigos” “turras”, da nossa parte também ouve intenso tiroteio, embora não soubessem para onde atiravam, o que era preciso era dar ao gatilho.

Às tantas o Alferes Rico começou a queixar-se que tinha um ferimento no braço, acendemos um fósforo e juraríamos que na verdade se tratava dum ferimento de bala.

Passada uma hora como o “fogachal” tinha terminado, lá começamos a sair dos abrigos recolhendo às casernas.

Na messe de Sargentos a conversa prolongou-se até cerca da uma da manhã e eu fui-me deitar vestido, não tendo pregado olha toda a noite, pois a todo o momento esperávamos novo ataque, mas felizmente até de manhã não voltou a haver qualquer ataque.

Pensamos que os “turras” estavam preparados para atacar ao amanhecer, porém como a chuva tinha começado cedo e muito forte, resolveram atacar mais cedo, o ataque em principio foi efectuado de três pontos distintos, atacaram o Quartel do lado do campo de futebol, a Sanzala do lado esquerdo atingindo esta e o Quartel ao mesmo tempo.

No dia 2 da parte da manhã continuei com o meu trabalho de “gestor” do armazém e à tarde fui efectuar um reconhecimento em volta da Sanzala, tendo encontrado vestígios do ataque, havendo indícios de também terem morteiros 60 que não chegaram a utilizar, certamente por causa do mau tempo.

Pensámos na altura que tal ataque se deveu à prisão de um individuo que segundo informações da altura era Secretário de um dirigente do MPLA chamado Pierre Malange, comandante dum aquartelamento situado a cerca de 10 km do nosso Quartel, ou em alternativa foi uma retaliação pelo facto da companhia 3535 ter destruído todas a Lavras dum importante acampamento, no qual até então ninguém tinha conseguido entrar, nem Comandos nem Páras.

Mas o mais engraçado, que ainda não contei, foi a reacção de cada um dos Soldados, que só no dia seguinte se soube, houve de tudo desde os medrosos, que se deitaram debaixo da cama a chorar (não vi mas contaram que houve quem o fizesse), até aos mais destemidos que saíram para a rua aos disparos, sendo de destacar o nosso amigo (o Alzheimer não me deixa lembrar o nome, se alguém ler esta e o souber diga-me), condutor auto de uma berliet por sinal um individuo de fraco parte físico, que pegou na sua arma G3, foi até à porta de armas, descarregou o seu carregador para o ar, e depois muito importante de si, voltou a colocar a arma às costa, dizendo, - já fiz a minha obrigação, agora vocês continuem! e foi para a sua caserna, onde se deitou muito tranquilo da vida adormecendo no somo dos justos.

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