Conto

Um avião está no meu quintal.

         
Um susto levei, foi um estrondo ouvido e sentido como se tivessem acertado a minha casa, olhei ao redor sentado no sofá em frente a televisão, nada notei de anormal, continuei assistindo o meu programa dominical. Começo escutar vozes, aumentando cada vez mais, e logo a seguir sirenes, abro a porta da sala e dou de frente há várias pessoas, todas curiosas olhando no meu quintal, ao virar a miha cabeça para saber do que se tratava, quase não acreditei, tinha um avião no meu quintal!
          Não era um boeing 737, nem mesmo o que leva mais de 800 passageiros, era um pequeno avião monomotor, estava ileso e sem quebrar nada, incrível esta situação. Como o avião é pequeno, um paraquedas é capaz de suportar o seu peso e fazer um pouso com segurança. Fui ver se estava tudo bem, estavam no avião o piloto Cláudio Silva e sua esposa Marina Silva, ambos estavam passeando quando houve uma pane no motor, tiveram que soltar todo o combustível e acionar o pára-quedas.
          O problema agora eram os curiosos em frente da minha casa, afinal de contas, com tanto avião caindo, praticamente é uma rotina ver isso, só espero que não caia mais nenhum em meu quintal. Espero ver mudanças na aviação antes que caia um e faça desaparecer o meu quintal.
          Na verdade eu não gostei deste programa dominical, pois fui entrevistado por vários programas de televisão  e de rádio, além de ter que ficar disponível para as autoridades até altas horas de domingo, sendo que segunda-feira tinha que trabalhar logo cedo. O problema de ser entrevistado é o de ter de responder as mesmas questões, o engraçado é que todas noticiavam que eram a primeira emissora a chegar no local, e sempre faziam as mesmas perguntas, pareciam cópias uma das outras.
          No final, por volta das duas horas da manhã retiraram o avião do meu quintal, enfim pude ir dormir.
 
 
 
Dia das Bruxas.

1.

O dia amanhecera em Matinal, uma cidade pequena, aconchegante,
de hábitos tranqüilos, com várias igrejas de diversas religiões. A harmonia era a
tônica da cidade, onde até mesmo na Prefeitura Municipal, era difícil haver atritos
políticos, somente havia sido constatada uma briga em plenário, onde dois vereadores
divergiam sobre o nome a ser dado há uma determinada rua, cada um queria por o nome da
mãe do outro, prestando uma homenagem. O presidente da sessão, para concluir a
discórdia, sugeriu que fosse dado o nome mediante a fusão dos dois, e em ordem
alfabética, assim a rua passou a ser chamada de Eugênia Maria.
Não haviam bandidos, e a polícia tinha apenas serviços
burocráticos, como licenciamento de habilitação de motoristas, era uma cidade calma
realmente, onde a paz e harmonia era seguido a risca por todos os seus moradores. Na
escola, única do município, o desenvolvimento escolar era mais aprofundado, pois o
contato entre professores e alunos era maior, havia concordância entre educadores e
educandos. Praticamente era a cidade dos sonhos de todo cidadão, podia-se dizer que
havia mágica, pois era quase inacreditável o que se passava.
O time de futebol da cidade, treinava constantemente no campo,
dentro das dependências do Clube Esportivo de Matinal, onde contava com alguns
aparelhos de musculação, além dos jogadores, os associados faziam uso. Na manhã do dia
28 de outubro, não puderam realizar, quando dirigiam-se para o treino, houve um forte
abalo, onde o chão tremeu por quase um minuto, seguiu-se um forte estrondo, ao
observarem se todos estavam bem, notaram um buraco bem no centro do campo, foram
verificar, simplesmente havia cedido o terreno, fazendo um buraco em torno de quatro
metros. Impedidos de jogarem futebol, foram realizar o treino no campo da prefeitura.
O técnico Alfredão, ficou surpreso com o acontecido, logo
pensou ser problemas com a retirada em demasia de água, para servir as torneiras da
cidade, mas somente os especialistas poderiam comprovar algo. Não tendo o que fazer
ali, foi treinar a sua equipe, essa estava participando de um campeonato regional.

                                          2.

No dia 29 de outubro, o dia amanheceu nublado, e em plena
primavera, estava com a temperatura que lembrava do inverno, era um dia aparentemente
triste. A merenda escolar seria sopa de macarrão com frango e alface, um cardápio
apreciado por todos na escola, aliás, era difícil algum aluno não repetir. A escola
possuía duzentos e cinqüenta alunos por período, e no momento da merenda, os
lavatórios contavam com cinqüenta torneiras. As bandejas com os pratos estavam
dispostos em vários pontos para evitar grandes filas.
Os alunos que estudavam no período da manhã, faziam atividades
extra curriculares a tarde, onde por volta das quinze horas, João, Alberto e Ana,
reuniam-se na casa de Laurinda, para brincar um pouco de vídeo game, ficava um
quarteirão da escola, e lá passavam quase uma hora se divertindo. Os jogos de luta
eram os preferidos, onde disputavam quem conseguia fazer o maior número de pontos, e
Ana quase sempre era a campeã.
Por volta das quatro horas, começaram a sentir dor de barriga,
o único banheiro na casa foi pouco, pois não paravam mais de usa-lo, era pura
disenteria. Além desse sintoma, começava a dar sinais de febre alta, a mãe de Laurinda
não teve outra alternativa, senão leva-los ao posto de saúde. Ao entrar no
estabelecimento de saúde, não eram os únicos, mais de setenta crianças estavam ali,
com os mesmo sintomas, era uma epidemia.
Ao questionar o que tinha acontecido, o que era comum: a
merenda escolar. O médico chefe, Dr. Ricardo, não pensou duas vezes, e pediu uma
análise na comida da escola. Estava decretado estado de calamidade pública, pois o
posto não tinha como atender tantos de uma vez só.
Já passavam das vinte horas, e agora eram as crianças do
período vespertino que estavam chegando, e todas com os mesmos sintomas. Por volta das
vinte e uma horas, a análise da merenda chegara, foi constatado um alto nível de
bactérias, restava agora abrir uma sindicância para apurar os procedimentos de
condução da merenda.

                                          3.

Uma noite difícil, mas enfim o dia 30 de outubro chegara, mas
o tempo continuava nublado, e o buraco no campo exalava um odor de enxofre, aos pouco
ia contaminando a cidade pelo cheiro forte, chegava até dar ânsia, já estavam
assustados com o que estava acontecendo, não era algo normal. Além das aulas terem
sido suspensas devido a merenda, agora o problema era o odor exalado.
Já passava do meio-dia, e parecia estar de noite, estava
escuro. Os telefones não funcionavam mais, os pneus dos carros estavam murchos, e não
conseguia mais saber onde começava ou terminava a cidade, não era possível mais sair
da mesma.
Para acalmar a população, assustada, o prefeito pediu aos
padres e pastores orações para superarem um momento de crise, e sem explicação. A
população estava quase toda reunida, com seus quase três mil habitantes, na praça
central, esperando por explicação, ou quem sabe, a salvação.

                                          4.

Passados alguns segundos da meia-noite, já no dia 31 de
outubro, surge um clarão, invertendo a noite pelo dia, o cheiro de enxofre fica mais
forte, e um ser alado aparece, acima de todos que estavam na praça. Aos poucos foi
descendo no meio da multidão, alguns enxergavam um homem, outros uma mulher, ainda
tinha aqueles que enxergavam sendo uma criança. Não havia rosto definido, até a forma
não parecia ser tão definida.
Passeia no meio da multidão, aponta um cidadão, e esse cai,
aponta para o outro, acontece a mesma coisa, e por catorze vezes seguida. Mas o décimo
quinto não cai, e faz afastar o ser alado, desaparecendo. A pessoa que havia
conseguido afastar era Rosa. Ao verificarem as pessoas que caíram, constataram estarem
mortas, mas uma havia escapado.
Novamente aparece o ser alado, começa a apontar para as
pessoas, essas caem mortas novamente. Rosa resolve ficar a frente do ser alado, e
novamente esse some. Não foi preciso muito tempo para entender que tinha uma arma para
se defender, e talvez a única forma. Essa pessoa era uma prostituta, onde atendia
vários clientes, inclusive de cidades vizinhas. No momento estava grávida. As
perguntas eram muitas, mas era impossível achar alguma resposta, com um episódio em
andamento.
Novamente o ser alado aparece, mas dessa vez comunica-se
mentalmente com cada pessoa:
_Sou Taelone, devastador. Aquele que ameaçar meu filho, será
castigado! Voltarei daqui um ano, para passar o meu reino ao meu herdeiro! Que ninguém
ouse a toca-lo.
Pronunciou essas palavras e logo desapareceu.
 
 
O Flautista.

               Lá estava ele de novo, o músico, o flautista tocando o seu instrumento, portátil, assim poderia levar a qualquer lugar, onde estivesse poderia executar melodias, quase como um passarinho. Às vezes era um estorvo, outras, era o animador, o comandante da dança, da euforia, da alegria de estar mais um dia vivo, num dos bairros mais violentos daquela cidade. Nem sempre fora assim, devido à desestruturação das famílias, a perda do poder aquisitivo, o estímulo do pensamento fútil, foram responsáveis por gerar gerações perdidas, onde os valores básicos quase não existiam, e para discordar de tudo isso, o flautista Zé da Roda tocava o seu instrumento. Tinha este apelido, pois quando criança brincava com pequenos pneus conduzidos por um pedaço de pau, tendo a ponta um arame. Mas não era só nas brincadeiras, ia para a escola com este brinquedo, para onde fosse a pé, levava. Um dia este menino cresceu, tornou-se músico, com uma família para cuidar, trabalhava em qualquer situação de músico, tinha coragem para enfrentar qualquer problema, desde que estivesse tocando o seu instrumento, a flauta. 
               Como tocava onde fosse convidado, um grupo de forró o chamou, esta parceria durou por uns dois anos e meio aproximadamente, era um conjunto em início de carreira, tinham apenas sete meses de experiência, sendo a infra-estrutura, de certa forma precária, o transporte era um caminhão, daqueles antigos, e os quatro músicos tiveram de ir na cabine, dois foram sentados, e dois de pé, de costas e encurvados ao pára brisa, o motorista não fazia parte do grupo,. A viagem demorou cerca de uma hora e meia, e quando chegaram ao seu destino, mesmo sentindo dores, foram arrumar o som, descarregando as caixas do caminhão e montando em cima do palco, depois de terem colocado todos os cabos, testado a energia, fizeram a passagem de som do conjunto. 
               Tinham saído de casa às treze horas, e eram quase nove horas da noite, quando veio a notícia de que o jantar não iria chegar, alguém da organização do evento tinha esquecido de encomendar, e faltando uma hora para dar início ao baile, não seria mais possível ir há algum lugar, mas tentaram negociar para levarem uns salgadinhos no decorrer do baile. Quando o relógio marcou dez horas da noite, teve início o forró, o salão já estava com metade do recinto ocupado, tinha tudo para faturarem bastante.
Passavam das duas horas da madrugada, ainda não havia chegado nenhum salgadinho, mas o salão estava cheio, e a pista de dança era contínua, nunca ficava vazia e assim foi até às quatro horas da manhã, onde se deu o desfecho, e também apareceram três coxinhas de frango miúdas, como eram em quatro músicos, tiveram de dividir. O pior ainda estava por vir, quando estavam carregando o caminhão, o tecladista e cantor da banda foi procurar o promotor do evento, não encontra, conversa com vários da equipe, eles alegam que logo estaria ali presente, pois fora resolver alguns problemas pessoais. Já passavam das cinco horas da manhã, e nada, mais meia hora se passou, e veio a notícia, só daria para acertar o baile no meio da semana, como não havia como dizer não, aceitaram e foram embora. 
               Até hoje não viram nem sombra deste dinheiro, para pagar o frete foi outro grande problema, o flautista negociou a sua bicicleta, o tecladista a única televisão que tinha, era de catorze polegadas e o baixista ainda teve de entregar o aparelho de som. Era vida difícil, porém, fazia parte da profissão, nem sempre conseguiam receber pelo serviço, e às vezes ainda eram considerados vagabundos.
O Zé da Roda desfez a parceria, pois fora convidado a participar de um programa de rádio, onde apresentava um programa e fazia gravações para as propagandas, o tempo era curto e era difícil conciliar as duas atividades. Era uma rádio comunitária, a legalização estava em andamento, portanto era considerada pirata, a documentação para deixar em ordem era difícil, mas como uma cidade poderia ficar sem rádio, e ouvir os programas locais, de interesses da comunidade onde estava inserida? Pergunta quase impossível de ser respondida. 
               O flautista não desanimava, tinha sempre o pensamento positivo, e cada dia, era um outro dia, onde novas oportunidades poderiam vir, surgir espaços novos, um músico precisava lutar, mas se não tiver um pequeno apoio, é quase impossível a sobrevivência deste, e com este pensamento, o Zé da Roda tocava todas as tardes no programa da Rádio Praça Central.