POEMAS DE MIGUEL TORGA



MAGNIFICAT

Aí, a vida!

Quanto mais me magoa, mais a canto.

Mais exalto este espanto

De viver.

Este absurdo humano,

Quotidiano,

Dum poeta cansado

De sofrer,

E a fazer versos como um namorado,

Sem namorada que lhos queira ler.

Cego de luz, e sempre a olhar o sol

Num aturdido

Deslumbramento.

Cada breve momento

Recebido

Como um dom concedido

Que se não merece.

Aí, a vida!

Como dói ser vivida,

E como a própria dor a quer e agradece.


AOS POETAS

Somos nós
As humanas cigarras!
Nós,
Desde os tempos de Esopo conhecidos.
Nós,
Preguiçosos insectos perseguidos.
Somos nós os ridículos comparsas
Da fábula burguesa da formiga.
Nós, a tribo faminta de ciganos
Que se abriga
Ao luar.
Nós, que nunca passamos
A passar!...

Somos nós, e só nós podemos ter
Asas sonoras,
Asas que em certas horas
Palpitam,
Asas que morrem, mas que ressuscitam
Da sepultura!
E que da planura
Da seara
Erguem a um campo de maior altura
A mão que só altura semeara.

Por isso a vós, Poetas, eu levanto
A taça fraternal deste meu canto,
E bebo em vossa honra o doce vinho
Da amizade e da paz!
Vinho que não é meu,
mas sim do mosto que a beleza traz!

E vos digo e conjuro que canteis!
Que sejais menestreis
De uma gesta de amor universal!
Duma epopeia que não tenha reis,
Mas homens de tamanho natural!
Homens de toda a terra sem fronteiras!
De todos os feitios e maneiras,
Da cor que o sol lhes deu à flor da pele!
Crias de Adão e Eva verdadeiras!
Homens da torre de Babel!

Homens do dia a dia
Que levantem paredes de ilusão!
Homens de pés no chão,
Que se calcem de sonho e de poesia
Pela graça infantil da vossa mão!



IMAGEM

Este é o poema duma macieira.
Quem quiser lê-lo,
Quem quiser vê-lo,
Venha olhá-lo daqui a tarde inteira.

Floriu assim pela primeira vez.
Deu-lhe um sol de noivado,
E toda a virgindade se desfez
Neste lirismo fecundado.

São dois braços abertos de brancura;
Mas em redor
Não há coisa mais pura,
Nem promessa maior.

                                   Vila Nova, 4 de Abril de 1936   http://portodeabrigo.do.sapo.pt/torga13.html



Poema Melancólico a não sei que Mulher


Dei-te os dias, as horas e os minutos

Destes anos de vida que passaram;

Nos meus versos ficaram

Imagens que são máscaras anónimas

Do teu rosto proibido;

A fome insatisfeita que senti

Era de ti,

Fome do instinto que não foi ouvido.


Agora retrocedo, leio os versos,

Conto as desilusões no rol do coração,

Recordo o pesadelo dos desejos,

Olho o deserto humano desolado,

E pergunto porquê, por que razão

Nas dunas do teu peito o vento passa

Sem tropeçar na graça

Do mais leve sinal da minha mão...


     

Liberdade

Liberdade, que estais no céu...

Rezava o padre-nosso que sabia,

A pedir-te, humildemente,

O pio de cada dia.

Mas a tua bondade omnipotente

Nem me ouvia.

— Liberdade, que estais na terra...

E a minha voz crescia

De emoção.

Mas um silêncio triste sepultava

A fé que ressumava

Da oração.

Até que um dia, corajosamente,

Olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado,

Saborear, enfim,

O pão da minha fome.

— Liberdade, que estais em mim,

Santificado seja o vosso nome.    

                                                                     

À BelezaNão tens corpo, nem pátria, nem família,

Não te curvas ao jugo dos tiranos.

Não tens preço na terra dos humanos,

Nem o tempo te rói.

És a essência dos anos,

O que vem e o que foi.


És a carne dos deuses,

O sorriso das pedras,

E a candura do instinto.

És aquele alimento

De quem, farto de pão, anda faminto.


És a graça da vida em toda a parte,

Ou em arte,

Ou em simples verdade.

És o cravo vermelho,

Ou a moça no espelho,

Que depois de te ver se persuade.


És um verso perfeito

Que traz consigo a força do que diz.

És o jeito

Que tem, antes de mestre, o aprendiz.


És a beleza, enfim. És o teu nome.

Um milagre, uma luz, uma harmonia,

Uma linha sem traço...

Mas sem corpo, sem pátria e sem família,

Tudo repousa em paz no teu regaço.


Cântico de Humanidade

Hinos aos deuses, não.

Os homens é que merecem

Que se lhes cante a virtude.

Bichos que lavram no chão,

Actuam como parecem,

Sem um disfarce que os mude.


Apenas se os deuses querem

Ser homens, nós os cantemos.

E à soga do mesmo carro,

Com os aguilhões que nos ferem,

Nós também lhes demonstremos

Que são mortais e de barro.


Requiem por Mim

Aproxima-se o fim.

E tenho pena de acabar assim,

Em vez de natureza consumada,

Ruína humana.

Inválido do corpo

E tolhido da alma.

Morto em todos os órgãos e sentidos.

Longo foi o caminho e desmedidos

Os sonhos que nele tive.

Mas ninguém vive

Contra as leis do destino.

E o destino não quis

Que eu me cumprisse como porfiei,

E caísse de pé, num desafio.

Rio feliz a ir de encontro ao mar

Desaguar,

E, em largo oceano, eternizar

O seu esplendor torrencial de rio.

                                         http://www.citador.pt/poemas/requiem-por-mim-miguel-torga


ROMANCE


Ora pois: foi tal e qual como vos digo:

Minha Mãe, certo dia, pôs a questão assim:

-ou Ela, ou eu!

E ficou resolvido que no dia doze

Minha Mãe parisse,

E pariu!

Pariu e ninguém se opôs! Ninguém!

Como se fosse um feito glorioso

Parir assim alguém, tão nu, tão desgraçado!

Por mim,

Ainda disse que não.

Mas o seu Anjo da Guarda

Era forte e tenebroso…

E aquele frágil cordão

Deixou de ser o meu Pão,

O meu Vinho

E a paz eterna do meu coração

Mesquinho.

Deixou de ser o silêncio

Delicado e agradecido

Dos meus instintos menores…

Deixou de ser o Norte daquele lago

Onde boiava o meu corpo

Sem alegria e sem dores.

Deixou de ser aquela verdadeira

E sagrada ignorância do meu nome,

Que Satanás me disse, quando disse:

- Respira e come,

Respira e come,

Animal!

(A voz de Satanás já nesse tempo

Era humana e natural…)

Deixou de ser um mundo e foi um outro.

Foi a inocência perdida

E a minha voz acordada…

Foi a fome, a peste e a guerra.

Foi a terra

Sem mais nada.

Depois,

Sem dó nem piedade a vida começou…

Minha Mãe, a tremer, analisou-me o sexo

E, ao ver que eu era homem,

Corou…

LIRICA

Lírica, a tarde cai

Com secura nas folhas;

Lírica, a minha vista vai

A olhar o que tu olhas…

Oliveiras de sonho

A ver nascer a lua…

Liricamente ponho

A minha mão na tua


REPTO

Aceito o desafio.

Que poeta se nega

A um aceno do acaso?

Tenho o prazo

Acabando,

O que vier é ganho.

Na lonjura

Da última aventura

É que a alma revela o seu tamanho.

Extremo Oriente da inquietação

Lá vou!

A quê, não sei,

Mas lá descobrirei

Que razão me levou.

Lá, onde tanto que me precederam,

Se perderam,

E aprenderam, na perdição

Que só é verdadeiro português

Quem, um dia, a negar a humana pequenez,

Se inventa e se procura

Nas brumas do mar largo e da loucura.


ORFEU REBELDE

Orfeu rebelde, canto como sou:

Canto como um possesso

Que na casca do tempo, a canivete,

Gravasse a fúria de cada momento;

Canto, a ver se o meu canto compromete

A eternidade no meu sofrimento.

Outros, felizes, sejam rouxinóis…

Eu ergo a voz assim, num desafio:

Que o céu e a terra, pedras conjugadas

Do moinho cruel que me tritura,

Saibam que há gritos como há nortadas,

Violências famintas de ternura.

Bicho instintivo que adivinha a morte

No corpo dum poeta que a recusa,

Canto como que usa

Os versos em legítima defesa.

Canto, sem perguntar à Musa

Se o canto é de terror ou de beleza.


FICHA

Poeta, sim, poeta…

É o meu nome.

Um nome de baptismo

Sem padrinhos…

O nome do meu próprio nascimento…

O nome que ouvi sempre nos caminhos

Por onde me levava o sofrimento…

Poeta, sem mais nada.

Sem nenhum apelido.

Um nome temerário,

Que enfrenta, solitário,

A solidão.

Uma estranha mistura

De praga e de gemido à mesma altura.

O eco de uma surda vibração.

Poeta, como santo, ou assassino, ou rei.

Condição,

Profissão,

Identidade,

Numa palavra só, velha e sagrada,

Pela mão do destino, sem piedade,

Na minha própria carne tatuada



Quase um poema de amor

Há muito tempo já não escrevo um poema

De amor.

E é o que eu sei fazer com mais delicadeza!

A nossa natureza

Lusitana

Tem essa humana

Graça

Feiticeira

De tornar de cristal

A mais sentimental

E baça

Bebedeira

Mas ou seja que vou envelhecendo

E ninguém me deseje apaixonado,

Ou que a antiga paixão

Me mantenha calado

O coração

Num íntimo pudor,

- Há muito tempo já que não escrevo um poema

De amor.

Alentejo

A luz que te ilumina,

Terra da cor dos olhos de quem olha!

A paz que se adivinha

Na tua solidão

Que nenhuma mesquinha

Condição

Pode compreender e povoar!

O mistério da tua imensidão

Onde o tempo caminha

Sem chegar!...



Mudez


Que desgraça, meu Deus!

Tenho a Ilíada aberta à minha frente,

Tenho a memória cheia de poemas,

Tenho os versos que fiz,

E todo o santo dia me rasguei

À procura não sei

De que palavra, síntese ou imagem!

Desço dentro de mim, olho a paisagem,

Analiso o que sou, penso o que vejo,

E sempre o mesmo trágico desejo

De dar outra expressão ao que foi dito!

Sempre a mesma vontade de gritar,

Embora de antemão a duvidar

Da exactidão e força desse grito.

Mudo, mesmo se falo, e mudo ainda

Na voz dos outros, todo eu me afogo

Neste mar de silêncio, íntima noite

Sem madrugada.

Silêncio de criança que ficasse

Toda a vida criança,

E nunca conseguisse semelhança

Entre o pavor e o pranto que chorasse.


Viagem

Aparelhei o barco da ilusão

E reforcei a fé de marinheiro.

Era longe o meu sonho, e traiçoeiro

O mar…

(Só nos é concedida

Esta vida

Que temos;

E é nela que é preciso

Procurar

O velho paraíso

Que perdemos).

Prestes, larguei a vela

E disse adeus ao cais, à paz tolhida.

Desmedida,

A revolta imensidão

Transforma dia a dia a embarcação

Numa errante e alada sepultura…

Mas corto as ondas sem desanimar.

Em qualquer aventura,

O que importa é partir, não é chegar.

                                                                     ERRÂNCIA

                                              A voar por cima de Samarcanda,

                              Aceno à súbita memória

                              De meus avós almocreves

                              Que, por acaso, nunca aqui passaram

                               Quando iam ao Porto

                              Em machos guizalheiros,

                              E onde comiam tripas,

                              A buscar as especiarias de lá.

                              De primeira classe, num avião francês,

                              A enjoar champanhe e caviar,

                               Vou a Macau falar de Camões.

                               Em nome dele, e por eles,

                               Obreiros dum império de ilusões,

                               Vou, como novo andarilho,

                                Garantir ao futuro que Portugal

                                Terá sempre o tamanho universal

                              Da infinda inquietação de cada filho.

                      

https://clublecturapravia.files.wordpress.com/2009/12/poemas-miguel-torga1.pdf


SOBREVOLANDO SAMARCANDA


SALUDO A LA SÚBITA MEMORIA

de mis abuelos arrieros

que casualmente, nunca llegaron aquí

cuando iban a Oporto

en mulas cascabeleras,

buscando las especies de allí.

En primera y en un avión frances

saturado de champán y caviar,

voy a Macao a hablar de Camoens.

En nombre de él, y por ellos,

obreros de un imperio de ilusiones,

voy como un nuevo pionero,

a asegurar

al futuro

que Portugal

tendrá siempre la dimensión universal

de la infinita inquietud de cada heredero.

                                           Figueira da Foz, 14 de agosto de 1939

BREVE DESILUSIÓN

Esta pequeña hora,

sin tu imagen, sin tu espera,

ha sido una hora triste;

igual que despertar en primavera

cuando la primavera ya no existe.


Cárcel de Leiria, 30 de noviembre de 1939

EXHORTACIÓN

Hermano en la distancia, hombre

que en esta misma cama has de sufrir:

que ni el cielo ni la tierra te domen;

¡que no haya dolor que te impida vivir!


DUDA

Ha anochecido.

Aquí sentado, pensaba

en mi vida;

en esta tristeza arrastrada

que nadie quiere alegrar;

en esta hoguera cercada

por un invierno polar.

Y me preguntaba

si de mi vida quedaría

al menos una baba como

la del caracol.

Una excreción que brillase

cuando en ella se fijase

la luz del sol…


                                                Régua (Duero), 5 de enero de 1942

SÚPLICA

Río, que llevas mi sangre al mar

y en el mar la sepultas,

dora mi memoria.

Cuéntales a las olas y al viento

la inhumana historia

de mi dolor.

Que no piensen que todo se reduce

a una gota de sol y de perfume

disuelta en el polvo de tu color.


Coimbra, 9 de octubre de 1945

TELEGRAMA

¡Compañeros, sigo con mi cantar!

Los mismos versos, mas con más

coraje.

Más allá de vosotros y de mí, es el

hogar

en que se calienta el frío del viaje.

Compañeros, prosigo,

no sé si loco, si resucitado.

Mas perdido o liberado, ¡va conmigo

el poema cantado!



Coimbra, 1 de junio de 1947

BUCÓLICA

La tarde, dulce como un fruto, cae

madura, en el suelo.

¡Que venga alguien a coger

la Vida!

¿O ya no hay quien sepa apetecer

la manzana prohibida?



MOMENTO DE AMOR

Ven.

Duérmete apoyada en mi brazo,

Más débil que el tuyo.

Entrégate desnuda

a las manos de un hombre solitario

al que su sino maldito

no le deja siguiera luchar por ti.

Ven,

sin que te llame ni te prometa la vida

y siente que no hay

en el desierto de este mundo, nadie

con el alma más resguardada y

protegida.



Coimbra, 22 de octubre de 1950

SILENCIO

Es silencio lo que pides,

y silencio lo que pido.

Mas el poema es el sonido de los leves

pasos

de una aventura.

Si nada oyes,

si nada oigo,

Es que no hay Poesía.

Y, entonces,

¡ay de nosotros

y de nuestra armonía!



Coja, 24 de diciembre de 1952

NAVIDAD

Navidad fuera de la casa de mi padre,

lejos del pesebre en que nací.

Nieve blanca también, pero no cae

en el tejado de la infancia que perdí.

Filosofías sobre la eternidad;

chimeneas de salón, civilizadas;

y yo temblando de frío y de añoranza

por memorias en mí casi borradas…



Coimbra, 3 de mayo de 1954

PARQUE INFANTIL

¡Juega a la pelota, niño!

Dale patadas certeras

a la atiborrada imagen

de este mundo.

Traza en el firmamento

órbitas arbitrarias

en que los astros fingidos

pierdan su majestad.

Juega, en la eterna edad

que ya he tenido

y que perdí,

cuando, por imprudencia,

salté la raya blanca de la inocencia

y crecí.




Serra do Mar (Brasil), 14 de agosto de

1954

DESCUBRIMIENTO

Corazón portugués que no descansas:

sólo la fe de la infancia

pide la luna…

Guarda esa fe, que es la tuya,

y fíjate en los bienes

que dejas en el camino de la aventura.

Arriero lusitano, mira lo que tienes:

¡montaña y mar, cuna y sepultura!




SOMNOLENCIA

Boga,

sobre el mar,

la tarde en calma.

Sin alma,

un cuerpo

se extiende en la arena…

El sol, fugaz, encadena

la luz cansada

a la placidez de las olas…

Musa, cuando te llame,

deja que el sonido pase,

¡no me respondas!




San Martinho de Anta, 3 de mayo de

1964

LECCIÓN

Oigo todos los días,

al amanecer,

un bonito poema

cantado por un mirlo

madrugador.

Un poema de amor

sencillo y desprendido,

que deja en mi oído

avergonzado

la lección virginal

de lo natural

que es siempre igual y siempre variado.



Coimbra, 20 de febrero de 1966

RETRATO

Está en tus ojos la luz que me faltaba.

Puedo ahora ver lo que antes no veía:

el rostro de la alegría

en tu rostro.

Vino aún por soñar

en el hervor del mosto,

no sabes dudar

de las ilusiones.

Eres la vida que esperas…

En ti, las estaciones

son todas primaveras.



Almalagués, 16 de octubre de 1966

OTOÑO

Tarde pintada

por no sé qué pintor.

Nunca había visto tanto color,

gama tan rica…

Si es de muerte o de vida,

no lo sé.

Yo, simplemente, digo

que hay tanta fantasía

en este día,

que el mundo me parece

vestido por gitanas adivinas,

y que me gusta verlo, y me apetece

tener hojas, como las viñas.




Miramar, 19 de agosto de 1967

ESPERANZA

Quiero que seas

la última palabra

de mi boca.

La mortaja de sol

Que me cubra y resuma.

Mas como en el Adiós sólo hay bruma

en el entendimiento,

y hasta el aliento

traiciona a la voluntad,

grito tu nombre ahora a los cuatro

vientos.

Te juro, mientras puedo, lealtad

para toda la vida y en todos los

momentos.




San Martinho de Anta, 18 de septiembre

de 1970

ECO

¡Ah, tierra trasmontana

que no tienes un cantor a tu altura!

Un Marâo inspirado,

Un Duero inquieto,

un llano abierto

de carne y hueso,

capaz de recrear en otra verdad

esta grandeza austera,

en que las piedras parecen voluntad,

y ninguna voluntad se desespera.




Chaves, 11 de septiembre de 1975

LAMENTO

¡Patria sin rumbo es mi voz parada

frente al futuro!

¿En qué rosa de los vientos hay un

camino

portugués?

Un brumoso camino

de inédita aventura,

que un poeta, adivino,

vea con nitidez

desde esta gavia de locura…

¡Ah, Camôes, que no soy, afortunado!

También decepcionado,

mas recordando todavía la epopeya…

¡Ah, pueblo mío, traicionado,

mansa colmena

de la que nadie paladea la miel!

Ah, mi pobre corcel

impaciente,

alado

y condenado

a trotar en esta playa de occidente…



Coimbra, 20 de junio de 1978

ARCHIVO

¡Qué borroso tu retrato

en el álbum del recuerdo!

¡Qué vaga semejanza

entre la imagen que veo

y el dolor que estoy sintiendo!

Mentiría si te dijera

que te deseo todavía,

que mi instinto te reconoce y ansía.

Y sé que un día, sin querer,

me perdí

en ti,

como se pierde el hombre en la mujer.




Coimbra, 210 de mayo de 1982

META

Aún me falta un verso.

El más rebelde, lírico y sincero.

Un verso exacto; y no desespero

de cantarlo algún día.

Un verso de mágica poesía

y de lúcida verdad.

Un verso que con su brevedad

iluminada

sea la eterna alborada

de mi humanidad.





Coimbra, 11 de noviembre de 1982

CILICIO

Son tristes estos días de vejez.

El sol ya no calienta,

no hay sueños que apetezcan,

los versos desfallecen al nacer.

Mas hay no sé qué sádico placer,

qué infernal seducción,

en esta melancolía tan desamparada.

Es como tener razón

en una causa perdida, mal juzgada.



Coimbra, 11 de febrero de 1985

EJERCICIO ESPIRITUAL

Horas finales de la vida.

Cuántas es lo que no sé.

Mas, las que sean, que sean de poesía.

Aureoladas por la gracia

del claro entendimiento

y de la pura emoción.

Horas de exaltación

serena.

De tal modo pensadas y sentidas

que, después de vividas,

nada más valga la pena.




Coimbra, 23 de marzo de 1985

CODICILO

Añado

que no he sido feliz

en este grato papel

de ruiseñor humano,

año tras año,

sin sosiego ni medida,

cantándole a la luna

en el árbol de la vida.




Campo de Ourique, 11 de agosto de

1987

PASMO

¡No cambies en mis ojos, Alentejo!

Sigue desnudo y abrasado,

castamente labrado

por altivos poetas confiados,

que te refrescan con sudor

y amor,

soñando a la mancera de los arados.




San Martinho de Anta, 17 de septiembre

de 1987

IDENTIFICACIÓN

De esta tierra estoy hecho.

Rocas son mis huesos,

humus mi carne.

con arrugas en el alma,

corren por mis venas

impetuosos Dueros.

Doy poemas agrestes,

y estoy también lejos

en este mapa nuestro.

A trasmano y lejos…




Coimbra, 15 de octubre de 1987

INSPECCIÓN

Mi cuerpo, mi versátil dueño,

ya rebosando de vida, ya doliente.

Mi cuerpo, mi dilema permanente,

mi ausente certeza.

Mi cuerpo, pobre y única riqueza

que me he de llevar

al partir.

Mi cuerpo, mi supremo desengaño,

Y mi gusto carnal de sentir

que soy humano.




Coimbra, 20 de marzo de 1988

LEGADO

Ya no digo la palabra que te prometí.

Ya no hay tiempo, va a anochecer.

Óyela, pues, en el silencio que te dejo

como herencia.

En él, laten todos los versos

que te gusten,

míos o de otro poeta,

no interesa.

Lo que hace falta es que no esté muerta

en tu corazón

la aguda saudade

de los momentos que tuvimos.

Momentos de eternidad,

si sabes recordarlos como los vivimos.




Coimbra, 15 de junio de 1988

ENIGMA

Guarda.

Guarda el secreto

de mi amor.

Que ni por asomo puedan sospechar

que todos los poemas que he escrito

los has sabido tú primero.

Que he hecho de tu imagen

la imagen del mundo.

Y que nunca te he visto al natural,

musa irreal,

mujer incierta de mi certeza,

bella como la belleza.



Coimbra, 6 de enero de 1989

PERENNIDAD

Si yo no fuese poeta,

el día de hoy sólo sería

un lunes.

Igual a tantos otros,

de trabajo, de prisa y de fastidio,

y ya consumido.

Así, ha sido singular.

Ocioso,

moroso,

y reposado,

ha tenido

su duración en un verso demorado.

Diez sílabas que ahora

lo despiertan

y lo acunan

en mi oído,

después de sucedido.




Coimbra, 10 de diciembre de 1990

RECADO

No te sé decir más.

Después de tantos versos,

que te baste el silencio

de un poeta ardiente,

que siempre, naturalmente,

fue más allá de las palabras

del amor, amando.

Que, en cada beso,

sellaba los labios que lo nombraban.

Que aprendió, sufriendo,

que todo sucedía

sucediendo.

Que, hasta en momentos de evasión,

sabía

que la verdadera vida se vive viviendo.




Gaia, 24 de diciembre de 1990


ÚLTIMA NAVIDAD

Niño Jesús, que naces

cuando yo muero,

y traes la paz

que no me llevo,

el poema que te debo

desde que te acuné

en mi entendimiento,

y nunca te pagué

a satisfacción

de la devoción,

desentonado,

aquí lo dejo otra vez

a tus pies

como un tizón

apagado,

sin calor para arropártelos.

Con él me veo cumplido y

desengañado:

eres divino, y yo soy humano,

no llevo poesía en mí

digna de tí.





   O drama de escrever

Aqui estou eu,

Envolto numa manta de palavras vazias,

Á espera que as palavras venham para me agasalhar.

Tento de tudo para que elas venham e me aqueçam,

Mas nada parece ajudar,

Pois nem consigo pensar

Naquilo que posso criar.

As palavras começam a circular,

E estou a imaginar

Como posso improvisar.

Agora que já consigo rimar,

Posso parar,

Para assim admirar todo o trabalho

Que me fez chorar.




Eleição





Sou e ela, aqui no bairro. Sós,

Quando o luar me acorda e lhe prateia o lombo,

Cantamos nós

Eu um poema agudo, e ela um rombo.   


Rã, como a gerou a natureza,

Homem, porque eu assim o quis,

Somos os dois poetas da tristeza

Que há na gente infeliz.



Não era terra que a poesia olhasse

O lodo de que é feita e de que sou;

Mas a semente nasce

Onde o vento a deixou...



In Diário II (1943)