Na Biblioteca Central de Ferrol, os poemas de Mia Couto





O PECADO DO RIO


Na igreja,

Rosarinho se confessou:

engravidei do rio, senhor padre.


Com gesto de água

arredondou o ventre.


O padre

se enrugou:

ela que não usasse desculpa

para os seus mortais pecados.


A ofensa tremia

na voz dela quando retorquiu:

— Desculpe, padre,

mas Nossa Senhora

não emprenhou de um feixe de luz?


Para mais, acrescentou Rosarinho,

o senhor padre

nem nunca, nem jamais viu esse rio.


E rematou

com lânguida saudade: aquele ondear,

as tonturas que ele traz...


Pegou o padre pela mão

e o convidou a descer o vale.


Agora,

todas as noites

o padre se banha

nas águas do rio pecador.






DOENÇA


O médico serenou Juca Poeira.

Que ele já não padecia da doença

que ali o trouxera em tempos.


E o doutor disse o nome

da falecida enfermidade:

"Arritmia paroxística supraventricular"


Juca escutou, em silêncio,

com pesar de quem recebe condenação.


As mãos cruzadas no colo

diziam da resignada aceitação.


Por fim, venceu o pudor

e pediu ao médico

que lhe devolvesse a doença.


Que ele jamais tivera

nada tão belo em toda a sua vida.






MULHER


Solteira, chorei.

Casada, já nem lágrima tive.


Viúva, perdi olhos

para tristezas.


O destino da mulher

é esquecer-se de ser.






ELEMENTOS


Era água, mas ardia.


No centro do teu corpo

ardia.


Como um sol em plena chuva

ardia.


Era boca, mas navegava.


Entre beijo e barco se perdia,

água já sem viagem,

navegava.


Rumo a um destino

que fica depois do lugar derradeiro

navegava.


Pensei que era a noite,

mas era a terra.


Em mim se deitava um corpo

e era eu que me erguia

vazio como um rio nu.


Terra que entreabria e penetrava

e, afinal, era semente,

flecha de luz,

cinza antes do fogo,

semente


No falso suicídio da estrela-cadente

era terra,

água,

semente.

Tu.






AVESSO BÍBLICO

No início,

já havia tudo.


Mas Deus era cego

e, perante tanto tudo,

o que ele viu foi o Nada.


Deus tocou a água

e acreditou ter criado o oceano.


Tocou o chão

e pensou que a terra nascia sob os seus pés.


E quando a si mesmo se tocou

ele se achou o centro do Universo.

E se julgou divino.


Estava criado o Homem.





PEQUENINURA DO MORTO E DO VIVO

O morto

abre a terra: encontra um ventre


O vivo

abre a terra: descobre um seio





A COISA

O silêncio é o modo

como o marido habita a casa.


Vencida a porta, ao final do dia,

o homem assume porte e posses.


A mesa é onde os seus cotovelos

derramam milenares cansaços.


Nesse cotovelório

vai trocando vida por idade.


Partilha a medonhez dos bichos:

medo do silêncio,

mais pavor ainda das palavras.


Para a mulher,

Porém, ele não é senão um menino

no aguardo de um agrado.


Em redor do silêncio

ela rodopia, sem voz, sem cheiro, sem rosto.


Em solidão,

o homem come,

merecedor do que lhe é servido.


Depois,

bebe como se fosse bebido,

tragado pelo vazio dos desertos.


Dono do seu despovoado,

então, ele a agride, com ferocidade de bicho.


A mulher se estilhaça no soalho,

sombrio retrato da parede tombado.


No leito,

já servido o marido,

as lágrimas vão colando os seus fragmentos.


E a esposa volta a ser coisa.






FALTA DE REZA

Por insuficiência de reza,

por falsidade de crença

meu anjo me culpou

e vaticinou eterna penitência.


Mas não ajoelho

nem peço desculpa.

Não quero um deus

que vigie os vivos

e peça contas aos mortos.


Um deus amigo

que me chame por tu

e que espere por mim

para um copo de riso e abraços:

esse é o deus que eu quero ter.


Um deus

que nem precise de existir.






1 – O Amor, Meu Amor

Nosso amor é impuro

como impura é a luz e a água

e tudo quanto nasce

e vive além do tempo.


Minhas pernas são água,

as tuas são luz

e dão a volta ao universo

quando se enlaçam

até se tornarem deserto e escuro.

E eu sofro de te abraçar

depois de te abraçar para não sofrer.


E toco-te

para deixares de ter corpo

e o meu corpo nasce

quando se extingue no teu.


E respiro em ti

para me sufocar

e espreito em tua claridade

para me cegar,

meu Sol vertido em Lua,

minha noite alvorecida.


Tu me bebes

e eu me converto na tua sede.

Meus lábios mordem,

meus dentes beijam,

minha pele te veste

e ficas ainda mais despida.


Pudesse eu ser tu

E em tua saudade ser a minha própria espera.


Mas eu deito-me em teu leito

Quando apenas queria dormir em ti.


E sonho-te

Quando ansiava ser um sonho teu.


E levito, voo de semente,

para em mim mesmo te plantar

menos que flor: simples perfume,

lembrança de pétala sem chão onde tombar.


Teus olhos inundando os meus

e a minha vida, já sem leito,

vai galgando margens

até tudo ser mar.

Esse mar que só há depois do mar.


                                                                        No livro “Idades cidades divindades”





2 – Para Ti

Foi para ti

que desfolhei a chuva

para ti soltei o perfume da terra

toquei no nada

e para ti foi tudo


Para ti criei todas as palavras

e todas me faltaram

no minuto em que talhei

o sabor do sempre


Para ti dei voz

às minhas mãos

abri os gomos do tempo

assaltei o mundo

e pensei que tudo estava em nós

nesse doce engano

de tudo sermos donos

sem nada termos

simplesmente porque era de noite

e não dormíamos

eu descia em teu peito

para me procurar

e antes que a escuridão

nos cingisse a cintura

ficávamos nos olhos

vivendo de um só

amando de uma só vida

                           No livro “Raiz de Orvalho e Outros Poemas”





3 – Destino

à ternura pouca

me vou acostumando

enquanto me adio

servente de danos e enganos


vou perdendo morada

na súbita lentidão

de um destino

que me vai sendo escasso


conheço a minha morte

seu lugar esquivo

seu acontecer disperso


agora

que mais

me poderei vencer?

                                                     No livro “Raiz de Orvalho e Outros Poemas”






4 – Espiral

No oculto do ventre,

o feto se explica como o Homem:

em si mesmo enrolado

para caber no que ainda vai ser.


Corpo ansiando ser barco,

água sonhando dormir,

colo em si mesmo encontrado.


Na espiral do feto,

o novelo do afecto

ensaia o seu primeiro infinito.

                                                           No livro “Tradutor de Chuvas”





5 – Saudade

Que saudade

tenho de nascer.

Nostalgia

de esperar por um nome

como quem volta

à casa que nunca ninguém habitou.

Não precisas da vida, poeta.

Assim falava a avó.

Deus vive por nós, sentenciava.

E regressava às orações.

A casa voltava

ao ventre do silêncio

e dava vontade de nascer.

Que saudade

tenho de Deus.

                                          No livro “Tradutor de Chuvas”




6 – Mudança de Idade

Para explicar

os excessos do meu irmão

a minha mãe dizia:

está na mudança de idade.

Na altura,

eu não tinha idade nenhuma

e o tempo era todo meu.

Despontavam borbulhas

no rosto do meu irmão,

eu morria de inveja

enquanto me perguntava:

em que idade a idade muda?

Que vida,

escondida de mim, vivia ele?

Em que adiantada estação

o tempo lhe vinha comer à mão?

Na espera de recompensa,

eu à lua pedia uma outra idade.

Respondiam-me batuques

mas vinham de longe,

de onde já não chega o luar.

Antes de dormirmos

a mãe vinha esticar os lençóis

que era um modo

de beijar o nosso sono.

Meu anjo, não durmas triste, pedia.

E eu não sabia

se era comigo que ela falava.

A tristeza, dizia,

é uma doença envergonhada.

Não aprendas a gostar dessa doença.

As suas palavras

soavam mais longe

que os tambores nocturnos.

O que invejas, falava a mãe, não é a idade.

É a vida

para além do sonho.

Idades mudaram-me,

calaram-se tambores,

na lua se anichou a materna voz.

E eu já nada reclamo.

Agora sei:

apenas o amor nos rouba o tempo.

E ainda hoje

estico os lençóis

antes de adormecer.

                                                  No livro “Tradutor de chuvas”





7 – Idade

Mente o tempo:

a idade que tenho

só se mede por infinitos.


Pois eu não vivo por extenso.


Apenas fui a Vida

em relampejo do incenso.


Quando me acendi

foi nas abreviaturas do imenso.

Mia Couto                                                        No livro “Vagas e lumes”






8 – Companheiros


quero

escrever-me de homens

quero

calçar-me de terra

quero ser

a estrada marinha

que prossegue depois do último caminho


e quando ficar sem mim

não terei escrito

senão por vós

irmãos de um sonho

por vós

que não sereis derrotados


deixo

a paciência dos rios

a idade dos livros


mas não lego

mapa nem bússola

porque andei sempre

sobre meus pés

e doeu-me

às vezes

viver

hei-de inventar

um verso que vos faça justiça


por ora

basta-me o arco-íris


em que vos sonho

basta-te saber que morreis demasiado

por viverdes de menos

mas que permaneceis sem preço

companheiros






9 – Promessa de uma noite

cruzo as mãos

sobre as montanhas

um rio esvai-se


ao fogo do gesto

que inflamo


a lua eleva-se

na tua fronte

enquanto tacteias a pedra

até ser flor

                                                 No livro “Raiz de orvalho e outros poema”




10 – O Espelho


Esse que em mim envelhece

assomou ao espelho

a tentar mostrar que sou eu.


Os outros de mim,

fingindo desconhecer a imagem,

deixaram-me a sós, perplexo,

com meu súbito reflexo.


A idade é isto: o peso da luz

com que nos vemos.


No livro “Idades Cidades Divindades”

Por Nara Rúbia Ribeiro

Originalmente publicado no site Conti outra






Identidade

Preciso ser um outro

para ser eu mesmo


Sou grão de rocha

Sou o vento que a desgasta


Sou pólen sem insecto


Sou areia sustentando

o sexo das árvores


Existo onde me desconheço

aguardando pelo meu passado

ansiando a esperança do futuro


No mundo que combato morro

no mundo por que luto nasço





Poema da despedida

Não saberei nunca

dizer adeus

Afinal,

só os mortos sabem morrer

Resta ainda tudo,

só nós não podemos ser

Talvez o amor,

neste tempo,

seja ainda cedo

Não é este sossego

que eu queria,

este exílio de tudo,

esta solidão de todos

Agora

não resta de mim

o que seja meu

e quando tento

o magro invento de um sonho

todo o inferno me vem à boca

Nenhuma palavra

alcança o mundo, eu sei

Ainda assim,

                                               escrevo





Pergunta-me


Pergunta-me

se ainda és o meu fogo

se acendes ainda

o minuto de cinza

se despertas

a ave magoada

que se queda

na árvore do meu sangue

Pergunta-me

se o vento não traz nada

se o vento tudo arrasta

se na quietude do lago

repousaram a fúria

e o tropel de mil cavalos

Pergunta-me

se te voltei a encontrar

de todas as vezes que me detive

junto das pontes enevoadas

e se eras tu

quem eu via

na infinita dispersão do meu ser

se eras tu

que reunias pedaços do meu poema

reconstruindo

a folha rasgada

na minha mão descrente

Qualquer coisa

pergunta-me qualquer coisa

uma tolice

um mistério indecifrável

simplesmente

para que eu saiba

que queres ainda saber

para que mesmo sem te responder

                                                          saibas o que te quero dizer






Raiz de Orvalho

Sou agora menos eu

e os sonhos

que sonhara ter

em outros leitos despertaram

Quem me dera acontecer

essa morte

de que não se morre

e para um outro fruto

me tentar seiva ascendendo

porque perdi a audácia

do meu próprio destino

soltei  ânsia

do meu próprio delírio

e agora sinto

tudo o que os outros sentem

sofro do que eles não sofrem

anoiteço na sua lonjura

e vivendo na vida

que deles desertou

ofereço o mar

que em mim se abre

à viagem mil vezes adiada

De quando em quando

me perco

na procura a raiz do orvalho

e se de mim me desencontro

foi porque de todos os homens

se tornaram todas as coisas

como se todas elas fossem

o eco as mãos

a casa dos gestos

como se todas as coisas

me olhassem

com os olhos de todos os homens

Assim me debruço

na janela do poema

escolho a minha própria neblina

e permito-me ouvir

o leve respirar dos objectos

sepultados em silêncio

e eu invento o que escrevo

escrevendo para me inventar

e tudo me adormece

porque tudo desperta

a secreta voz da infância

Amam-me demasiado

as cosias de que me lembro

e eu entrego-me

como se me furtasse

à sonolenta carícia

desse corpo que faço nascer

dos versos

                        a que livremente me condeno






Nocturnamente

Nocturnamente te construo

para que sejas palavra do meu corpo

Peito que em mim respira

olhar em que me despojo

na rouquidão da tua carne

me inicio

me anuncio

e me denuncio

Sabes agora para o que venho

                                e por isso me desconheces




Trajecto

Na vertigem do oceano

vagueio

sou ave que com o seu voo

se embriaga

Atravesso o reverso do céu

e num instante

eleva-se o meu coração sem peso

Como a desamparada pluma

subo ao reino da inconstância

para alojar a palavra inquieta

Na distância que percorro

eu mudo de ser

permuto de existência

surpreendo os homens

na sua secreta obscuridade

transito por quartos

de cortinados desbotados

e nas calcinadas mãos

que esculpiram o mundo

estremeço como quem desabotoa

a primeira nudez de uma mulher

Manhã

Estou

e num breve instante

sinto tudo

sinto-me tudo

Deito-me no meu corpo

e despeço-me de mim

para me encontrar

no próximo olhar

Ausento-me da morte

não quero nada

eu sou tudo

respiro-me até à exaustão

Nada me alimenta

porque sou feito de todas as coisas

e adormeço onde tombam a luz e a poeira

A vida (ensinaram-me assim)

deve ser bebida

quando os lábios estiverem já mortos

Educadamente mortos



Palavra que desnudo

Entre a asa e o voo

nos trocámos

como a doçura e o fruto

nos unimos

num mesmo corpo de cinza

nos consumimos

e por isso

quando te recordo

percorro a imperceptível

fronteira do meu corpo

e sangro

nos teus flancos doloridos

Tu és o encoberto lado

da palavra que desnudo

 

Despedida

Aves marinhas soltaram-se dos teus dedos

quando anunciaste a despedida

e eu que habitara lugares secretos

e me embriagara com os teus gestos

recolhi as palavras vagabundas

como a tempestade que engole os barcos

porque ama os pescadores

Impossível separarmo-nos

agora que gravaste o teu sabor

sobre o súbito

e infinito parto do tempo

Por isso te toco

no grão e na erva

e na poeira da luz clara

a minha mão

reconhece a tua face de sal

E quando o mundo suspira

exausto

e desfila entre mercados e ruas

eu escuto sempre a voz que é tua

e que dos lábios

se desprende e se recolhe

Ali onde se embriagam

os corpos dos amantes

o te ventre aceitou a gota inicial

e um novo habitante

enroscou-se no segredo da tua carne

Nesse lugar

encostámos os nossos lábios

à funda circulação do sangue

porque me amavas

eu acreditava ser todos os homens

comandar o sentido das coisas

afogar poentes

despertar séculos à frente

e desenterrar o céu

para com ele cobrir

os teus seios de neve

Saudades

 Magoa-me a saudade

do sobressalto dos corpos

ferindo-se de ternura

sói-me a distante lembrança

do teu vestido

caindo aos nossos pés

Magoa-me a saudade

do tempo em que te habitava

como o sal ocupa o mar

como a luz recolhendo-se

nas pupilas desatentas

Seja eu de novo a tua sombra, teu desejo,

tua noite sem remédio

tua virtude, tua carência

eu

que longe de ti sou fraco

eu

que já fui água, seiva vegetal

sou agora gota trémula, raiz exposta

Traz

de novo, meu amor,

a transparência da água

dá ocupação à minha ternura vadia

mergulha os teus dedos

no feitiço do meu peito

e espanta na gruta funda de mim

                           os animais que atormentam o meu sono


Ser, parecer

Entre o desejo de ser

e o receio de parecer

o tormento da hora cindida

Na desordem do sangue

a aventura de sermos nós

restitui-nos ao ser

que fazemos de conta que somos



Fundo do mar

Quero ver

o fundo do mar

esse lugar

de onde se desprendem as ondas

e se arrancam

os olhos aos corais

e onde a morte beija

o lívido rosto dos afogados

Quero ver

esse lugar

onde se não vê

para que

sem disfarce

a minha luz se revele

e nesse mundo

descubra a que mundo pertenço



Morte silenciosa

A noite cedeu-nos o instinto

para o fundo de nós

imigrou a ave a inquietação

Serve-nos a vida

mas não nos chega:

somos resina

de um tronco golpeado

para a luz nos abrimos

nos lábios

dessa incurável ferida

Na suprema felicidade

existe uma morte silenciada

Árvore

cego

de ser raiz

imóvel

de me ascender caule

múltiplo

de ser folha

aprendo

a ser árvore

enquanto

iludo a morte

na folha tombada do tempo

Sotaque da terra (El acento de la tierra)

Estas pedras

sonham ser casa

sei

porque falo

a língua do chão

nascida

na véspera de mim

minha voz

ficou cativa do mundo,

pegada nas areias do Índico

agora,

ouço em mim

o sotaque da terra

e choro

com as pedras

a demora de subirem ao sol


Quissico

1. Deixei o sol

na praia de Quissico

De bruços

sobre o Verão

eu deixei o Sol

na extensão do tempo

Molhando, quase líquido,

o dia afundava

nas fundas águas do Índico

A terra

se via estar nua

lembrando, distante,

seu parto de carne e lua

2. Não o pássaro: era o céu

que voava

O ombro da terra

amparava o dia

A luz

tombava ferida

pingando

como um pulso suicida

um minhas ocultas asas

Pequeninura do morto e do vivo

O morto

abre a terra: encontra um ventre

O vivo

                 abre a terra: descobre um seio



TRADUTOR DE CHUVAS


Um lenço branco

apaga o céu.


A fala da asa

vai traduzindo chuvas:

não há adeus

no idioma das aves.


O mundo voa

e apenas o poeta

faz companhia ao chão



SEMENTEIRA

O poeta

faz agricultura às avessas:

numa única semente

planta a terra inteira.


Com lâmina de enxada

a palavra fere o tempo:

decepa o cordão umbilical

do que pode ser um chão nascente.


No final da lavoura

o poeta não tem conta para fechar:

ele só possui

o que não se pode colher.


Afinal,

não era a palavra que lhe faltava.


Era a vida que ele, nele, desconhecia.



SEIOS E ANSEIOS       

As vezes que morri

boca derramada entre os teus seios,

todas essas vezes

não me deram luto

porque, de mim, eu em ti nascia.


Todos esses abismos,

meu amor,

não me deram regresso.


Depois de ti,

não há caminhos.


Porque eu nasci

antes de haver vida,

depois de tu chegares.

O POETA

O poeta não gosta de palavras

escreve para se ver livre delas.


A palavra

torna o poeta

pequeno e sem invenção.


Quando

sobre o abismo da morte,

o poeta escreve terra,

na palavra ele se apaga

e suja a página de areia.


Quando escreve sangue

o poeta sangra

e a única veia que lhe dói

é aquela que ele não sente.


Com raiva

o poeta inicia a escrita

como um rio desflorando o chão.

Cada palavra é um vidro em que se corta.


O poeta não quer escrever.

Apenas ser escrito.


Escrever, talvez,

apenas enquanto dorme.      

     


http://www.algumapoesia.com.br/poesia3/poesianet358.htm

http://www.miacouto.org/category/mocambique-em-prosa-e-verso/