Resumos das comunicações de tema livre



8 de Novembro de 2010

15 horas – 18 horas

 

 

Auditório 1

Moderador: Estrela Serrano (ERC)

Comunicações:

1. Ana Cabrera: O humor na campanha eleitoral: Legislativas 2009 em Portugal

Esta comunicação pretende debater o humor na campanha eleitoral a partir da análise do programa televisivo “Gato Fedorento esmiúça os sufrágios”.

O estudo é enquadrado nas teorias que discutem as crises das democracias (Rawnsley:2005 e Gimsborg: 2008) e os seus efeitos na crise do jornalismo. Estrutura-se também em torno de estudos que têm analisado programas de humor político (Paletz:1990, Boskin 1990, Bayam 2004 e Kees Brants: 2005). Pretende-se problematizar, a partir da análise daquele programa de entretenimento, em que medida o humor pode ser encarado como uma forma de intervenção política.

 

2. Nilza Mouzinho de Sena: O comentário político na televisão portuguesa: Construção ou descodificação da agenda política?

Os meios de comunicação social tradicionais tiveram um papel crucial, decisivo mesmo, no processo político que originou o regime representativo moderno, em que «os governantes são eleitos pelos cidadãos e considerados deste modo como seus representantes»  (Duverger, 1985: 57-66). Os diversos estudos sócio-culturais e políticos têm evidenciado um conjunto de novos cenários para o entendimento dos veículos de comunicação de massas privilegiando, muitas vezes, aspectos que se prendem com os coetâneos hábitos de consumo e com as premissas de optimização de direitos e valores associados ao modelo democrático.

A comunicação política vigente, totalmente refém da informação televisiva e da promoção audiovisual, aparece cada vez mais condicionada pela cultura da imagem, decorrente do “primado do visível” que tão bem descreveu Giovanni Sartori no seu Homo Videns. As limitações que a televisão impõe: com os seus tempos menores, com as suas frases curtas ou com a instantaneidade que exige como padrão para todas as mensagens preferenciais, tornam a política mais light mas também menos consistente, sem que ainda não tenham sido observadas putativas influências no regime.

Em televisão, o output informativo revela interesse pela política, dedica-se à política, mas sob um ângulo sempre toldado pela comercialização do produto em causa, pela sensação que pode causar a peça exibida, pelo comentário aguerrido, pelo acriticismo veemente. Bourdieu refere que o mundo televisivo “é dominado pelo pânico de aborrecer e pela preocupação da diversão a todo o custo” (1998: 88), pelo que: há um anti-intelectualismo mesmo quando os temas exigem madurez; prendem-se no acessório mesmo quando há substância nos factos políticos; polemizam antes de consensualizar ou aprofundar os assuntos.

O trabalho que agora se propõe pretende avaliar as características do comentário político na televisão portuguesa entre 2007 e 2008, cotejando os temas preferenciais em cada um destes produtos informativos, o carácter instrumental dos actores na dimensão política e o alcance do seu mediatismo na esfera pública com rotativismo de questões comentadas.

Apreendemos alguns destes fenómenos recorrendo a uma análise de conteúdo quantitativa e qualitativa de 80 programas repartidos ao longo de um ano, considerando paritariamente os comentários de Marcelo Rebelo de Sousa (RTP1), António Vitorino (RTP1), Miguel Sousa Tavares (TVI) e dos participantes do programa Quadratura do Círculo (SIC). Tornando evidentes traços que reflectem o recrudescimento da informação política e a descodificação das mensagens políticas, estes programas primam pela demarcação da agenda política e mediática, ao mesmo tempo que ensaiam a persuasão dos telespectadores. Os comentários em causa, altamente personalizados, evidenciam traços temáticos comuns, como a caricatura macro dos problemas estruturais de Portugal, em que podemos destacar diferenças de fundo entre os intervenientes mas a mesma tensão explicativa e o mesmo registo persuasivo do ponto de vista do discurso, com diferenças percentuais significativas no tocante ao temas preferenciais de cada de um dos actores em causa.

Sendo o comentário político televisivo palco excepcional na ligação entre media, jornalismo e democracia, este tema parece consentâneo com a proposta de argumento global desta conferência.

 

3. Thaïs de Mendonça Jorge: O jornalismo e a construção de mitos numa democracia. Como a mídia pode ajudar a construir e destruir um “salvador da pátria” antes, durante e depois de eleições

No Brasil dos anos 1980-1990, Fernando Collor de Mello encarnou uma figura do imaginário político das massas reconhecida como “o salvador da pátria” (Girardet). Para chegar ao status de um mito político tão poderoso, contou com um ambiente propício, com um cenário de representação da política (CR-P) favorável (Lima) e principalmente com o apoio dos meios de comunicação, que ajudaram a conformar sua imagem de super-herói, correspondente moderna dos antigos personagens da mitologia grega.

O mito do herói profano - o ladrão Robin Hood, o saqueador do sertão brasileiro Lampião, o Caçador de Marajás, como Collor mesmo se intitulou - absorve caráter sagrado quando é encarado como aquele que vem para salvar. Nos ritos messiânicos, ele é o próprio messias, figura forte junto a parcelas desatendidas do espectro social - a quem surge como semideus -, bem como para setores da sociedade alienados da participação nas instâncias de poder.

Pela análise das edições do Jornal do Brasil (JB) no período compreendido entre 1 de janeiro de 1989 e 31 de dezembro de 1992, acompanha-se a trajetória de entronização e o posterior declínio deste mito político. O estudo dos registros colhidos sobre Collor no JB levou à elaboração de dois modelos de análise do discurso em veículos jornalísticos impressos - um de ascensão, outro de queda -, que podem ser aplicados a pesquisas no campo conjunto da mídia e política. Não se trata, entretanto, da análise de discurso clássica, mas de uma metodologia proposta para averiguar a linguagem utilizada por um meio para abordar fatos jornalísticos em época de eleições presidenciais.

O matutino carioca - assim como quase todos os meios de comunicação brasileiros à época - se identificou com o corolário social-liberal pregado pelo então candidato do Partido da Reconstrução Nacional e investiu nesta faceta do que seria um “novo” nome no cenário. A obstinação pelo poder, a velocidade da escalada, o ímpeto da vitória ajudaram a construir o mito grandioso do personagem que se propunha a livrar o país de todos os males. Também foram esses elementos que alimentaram a sua destruição. O que era amor transformou-se em ódio e o sentimento estimulador de energias contido no mito acabou por gerar culpa. À intensidade da entrega correspondia uma rigorosa expiação e negação, onde o objeto do desejo se tornou objeto de execração.

Tudo isso está presente nas páginas analisadas do jornal. O presente trabalho sugere que esse instrumental pode ser valioso para a análise de fenômenos de massa, no âmbito das Ciências Políticas, Humanas e Sociais. O ex-presidente Fernando Collor de Mello, atual senador, retornou ao noticiário recentemente, ao pedir desculpas à população por um de seus grandes erros: o confisco das cadernetas de poupança dos brasileiros, em 1990, tão logo assumiu a Presidência da República. O artigo também pretende mostrar que um mito como o do “salvador da pátria” não tem nacionalidade nem ideologia e pode ser abraçado pelos meios de comunicação de massa a qualquer tempo, em qualquer lugar.

 

4. Antónia do Carmo Anjinho Barriga: Media, política e opinião: uma tríade complexa. Uma abordagem à opinião publicada em Portugal.

A comunicação que agora se propõe pretende ser uma abordagem à opinião publicada, em geral, e em particular à presença nos jornais das colunas de opinião que incidem sobre política nacional.

Introdutoriamente, traçaremos o panorama da evolução da publicação da opinião – na actualidade ela atinge uma enorme importância e visibilidade não só no plano mediático mas, numa relação de forte interdependência, também no plano político e social. Pretendemos, igualmente, reflectir sobre as estratégias e lógicas a que obedece a valoração desses espaços nos media - nunca tanto como hoje os meios de comunicação social se autopromoveram através da opinião publicada ou difundida de colunistas, colaboradores, comentadores ou auto-proclamados analistas.

Depois, propomo-nos incidir sobre quatro aspectos, assim sintetizados e agrupados:

Existe pluralidade e diversidade na opinião que é tornada publica? Os media, dessa forma, contribuem para uma maior democratização do espaço público ou, ao invés, para o seu “afunilamento”?

Será que as colunas de opinião se aproximam do modelo do tratamento (espectacularizado e espectacularizante) da política que é habitualmente feito pelos media (ampliado nos media audiovisuais, dado as marcas que indiciam a vacuidade do seu discurso evanescente sobre a politica) ou, pelo contrário, como é expectável, introduzem racionalidade na análise da actividade politica, propiciando a reflexão sobre ela, constituindo-se como um reduto de resistência a essa lógica formatada?

A fim de contribuir para esta resposta, propomo-nos dar conta dos principais resultados obtidos na pesquisa empírica que efectuámos, nomeadamente os que emergiram da “análise de conteúdo” efectuada a 566 textos de opinião publicados em 4 jornais portugueses.

Como podemos caracterizar profissional e socialmente os actores que assinam as colunas de opinião? Como se constrói a sua legitimidade?

Traremos a debate a apresentação de um quadro teórico e conceptual susceptível de nos ajudar a “ler” estes actores.

É também nosso objectivo apresentar as “auto-avaliações” e as percepções sobre a “opinião publicada”, a partir das respostas obtidas por entrevista a um conjunto de colunistas às seguintes questões: Que representações têm da sua própria actividade? Que impacto julgam que exercem? Como perspectivam o papel das colunas de opinião, em geral, na formação da "opinião pública" em Portugal?

 

5. Ana Cabrera, Carla Baptista, Carla Martins, Maria José Mata e Maria Teresa Flores: Política no feminino: estratégias de género e estratégias de visibilidade das deputadas parlamentares

Pretende-se nesta comunicação apresentar os primeiros resultados da investigação sobre: “Política no feminino - políticas de género e estratégias de visibilidade das deputadas parlamentares”

Trata-se de um projecto aprovado pela FCT que conta com sete investigadoras duas delas em universidades norte americanas.

Na investigação partimos dos seguintes pressupostos:

A Assembleia da República constitui um espaço privilegiado para avaliar quer a participação política no feminino quer as iniciativas parlamentares ligadas à temática de género. Este projecto tem como enfoque a representação das mulheres e das questões de género no Parlamento em três ciclos políticos da vida democrática portuguesa, recortados entre 1975 e 2002. O carácter inovador desta investigação prende-se antes de mais com a abordagem diacrónica proposta, simultaneamente envolvendo um período alargado da história da democracia portuguesa e incidindo em ciclos políticos que se traduziram numa evolução das políticas públicas de género. Por outro lado, pretende-se observar que valorização jornalística mereceram as iniciativas das deputadas no âmbito da cobertura parlamentar, assinalando-se este cruzamento entre política e media como outro aspecto original do projecto.
Nesta investigação o termo “género” abarca quer o feminino quer o masculino e considera o diferencial de poder político entre homens e mulheres. A literatura nesta área tem-se centrado na importância de uma representação equitativa dividida em argumentos simbólicos ou substantivos (Norris e Lovenduski 1989). Os argumentos simbólicos defendem que o Parlamento só pode ser realmente democrático se, enquanto forum público, incluir pontos de vista distintos provenientes de grupos díspares. Os argumentos substantivos realçam que as mulheres trazem consigo perspectivas únicas, que traduzem as suas atitudes e valores em agendas específicas e legislação política. Contudo, uma boa parte da investigação nesta área tem-se centrado, não nas vantagens de uma representação equitativa, mas nos obstáculos que as mulheres têm de ultrapassar para serem eleitas e nos debates em torno das quotas (Ballington e Karam 2005; Sawer, Marian et al. 2006; Paxton e Hughes 2007; Norris e Inglehart 2001).

Como referido, este projecto centra-se em três macro-ciclos da vida política portuguesa identificados como momentos impulsionadores da participação das mulheres nas instituições políticas e na vida pública: o Período Revolucionário em Curso (PREC, 1975-1976), o Cavaquismo (1985-1995) e o Guterrismo (1995-2002). O PREC, momento de consolidação da democracia portuguesa, representa uma ruptura ideológica com o Estado Novo, que claramente instituía mecanismos de bloqueio face à participação política das mulheres. Nos anos que se seguiram à Revolução de 25 de Abril as questões do género, enquadradas em torno da igualdade, democracia e liberdade, emergiram com fulgor e as mulheres começaram a construir uma legitimidade de participação pública, reconhecida na Constituição de 1976.
Os três governos social-democratas conduzidos por Aníbal Cavaco Silva são marcados por uma conjuntura de liberalismo económico e favorecida pelo dinamismo e internacionalização da adesão à CEE. Este contexto foi determinante na evocação de um discurso de igualdade em todos os domínios sociais, e a sua institucionalização no âmbito do quadro legal.
Nos governos socialistas liderados por António Guterres assumiu um cariz prioritário a promoção da igualdade de género em todos os níveis da vida pública. Nesta matéria, uma das suas decisões mais significativas foi a criação do Ministério para a Igualdade. Este período é igualmente caracterizado por um conjunto de iniciativas legislativas com impacto directo nas reivindicações de igualdade, como a “lei das quotas” e o referendo do aborto.
Estes ciclos políticos, na sua singularidade histórica, serão interpelados através de um feixe de questões tendo em vista alcançar os seguintes objectivos de investigação:
1. Sistematizar a presença feminina na instituição parlamentar, traçando funções, perfis e percursos das deputadas;

2. Identificar iniciativas e propostas relevantes das deputadas no que respeita a questões de género, reconhecendo e aprofundando os temas mais recorrentes da sua intervenção;

3. Conhecer as estratégias de visibilidade das deputadas, designadamente, os mecanismos de promoção das suas ideias e acções no relacionamento com os jornalistas;

4. Compreender em que medida a valorização editorial das questões de género está ancorada na sensibilidade dos jornalistas para esta problemática e nos constrangimentos profissionais e organizacionais dos meios de comunicação onde operam;

5. Analisar a cobertura jornalística focada em algumas iniciativas relevantes de deputadas em três periódicos de referência;

A prossecução dos objectivos enunciados suporta-se numa triangulação de metodologias. A abordagem metodológica assenta 1) na pesquisa dos arquivos parlamentares; 2) na realização de entrevistas a deputadas e a jornalistas parlamentares; 3) na análise discursiva tanto de intervenções parlamentares como de peças jornalísticas seleccionadas em três publicações periódicas, que contempla, neste último caso, o texto e as imagens.

 

6. Rita Figueiras: Gendered webstyle? Male and female strategies in the 2009 Portuguese general election campaign

In recent decades, Portuguese women have made significant progress in the electoral arena. However it was only in 2009 that, for the first time, a woman, Manuela Ferreira Leite (MFL), ran for Prime Minister. Even though formal obstacles to the women's participation have been removed and equality of opportunity is mandatory under Portuguese law, women’s under-representation has not changed in many spheres of decision, such as politics. Moreover, literature on gender and campaigns stresses that there are differences in male-female candidates regarding their attitude towards campaigns, due to a set of factors such as political socialization, media and voter's expectations. Thus, the way candidates present themselves and how the media cover their campaigns are central elements in the influence of voters’ choices.

The political science literature highlights that voters hold strong stereotypes about issue competencies and character features of women and men who run for office. With regard to issues, voters perceive women as more interested and capable of addressing social topics than men. In terms of personal characteristics, women are thought to be more consensuses oriented, compassionate, emotional, and less electable than men.

Regarding the media, several journalistic pattern trends can be highlighted: women tend to be stereotypically framed; they tend to receive less coverage than equivalent men running in the same race; they tend to be treated less seriously, portrayed as losers, and described by their appearance, emotions, and in relation to their families instead of their professions and competences.

Scholars also point to the effect of stereotypes on women electoral campaigning tactics, namely the “double-bind” constrains, where by female candidates must carefully balance masculine and feminine features. Stereotypes are considered to limit women’s strategic options as they compete in an arena in which leadership and assertiveness, considered male stereotypical features, are highly valued by voters.

Taking this into account, this research focuses on the role played by gender in Portuguese 2009 campaign and aims to discuss whether gender was an issue addressed by candidates; and whether dominant cultural gender stereotypes structured candidates’ campaigns. For this purpose, both prominent candidates - MFL and José Sócrates (JS) - web sites are the corpus for this research.

Web sites have becoming an important media tool for campaigns controlled by politicians, rather then interpreted by the media, providing them with an important means of communicating with voters. Thus, analyzing web pages will allow to identifying candidates’ themes, strategies and features. For this purpose, several variables were defined and sub-divided into a set of indicators: verbal components (issues, character traits, campaign strategies), nonverbal components (candidate dress, eye contact, facial expression, posture, settings of ads and photographs), and interactive components (home page, bio section, calendar of events and links section).

Based on the literature on women and men, campaigns and the characteristics of Portuguese society, this study argues that gender was not a central topic during the campaign; that MFL avoided explicit correspondence with female features, while JS incorporated some female stereotypical characteristics on his campaign and a more gender equality agenda orientation than MFL. This research aims to bring to light the gendering process in Portuguese elections, while comparing its results with the international literature on the subject.

 

7. Filipa M. Ribeiro: Utopia e jornalismo: o contributo para a democracia

O presente trabalho partiu de uma questão abrangente sobre a ciência na contemporaneidade: que relação pode existir entre ciência, utopia e jornalismo? Esta questão foi o elemento propulsor de um percurso que visou compreender como proceder a uma reflexão utópica no contexto da prática do jornalismo de ciência. Este percurso conduziu a uma questão mais específica que será tratada neste artigo: 1) em que medida pode a comunicação de ciência atingir e (trans)formar a identidade do indivíduo? Conclui-se que esta transformação apresenta as seguintes manifestações: 1) Jornalismo como uma narrativa de ordenação simbólica de relação com o mesmo e com o outro; 2) Multimedialidade; 3) Transferência e (trans) formação de valores; 4) Comunicação do «eu»; 5) Desenvolvimento pelo amor ao conhecimento; 6) Perfil fluido do jornalista. Assim,  analisam-se os possíveis impactos do contributo de uma abordagem utópica ao jornalismo de ciência, propondo uma nova condição para o exercício deste, bem como um conjunto de novos requisitos a que as notícias de ciência devem corresponder. Para isso, explora-se um modelo de jornalismo de ciência enquadrado na relação entre jornalismo e utopia. Na sequência do novo paradigma da ciência contemporânea, sumariamente apresentado neste trabalho, descreve-se uma nova configuração para a prática do jornalismo de ciência que pretende dar reposta às múltiplas metamorfoses do tecido comunicacional e científico sustentadas pela expansão de uma íntima relação entre comunicação, conhecimento e emoção. Na relação entre utopia e jornalismo, defende-se que a utopia é um elemento auto-renovador do jornalismo, pois faz com que este seja um discurso em permanente renovação, ou seja, uma narrativa utópica. Enquanto elemento renovador, a utopia também introduz a vertente de questionamento (utópico) no exercício do jornalismo, ultrapassando, pois, as ambiguidades de éticas e deontologias da profissão. Esta forma renovada de entender o jornalismo de ciência é mais eficaz e pertinente se se considerar a democracia não como uma framework fria, legalista e engajada religiosa e politicamente sem realçar os aspectos partilháveis entre comunidades, mas antes como uma comunidade ética moldada por uma história e diversidade ricas e com os fundamentos para que se possa falar de verdade e conhecimento. 

Para além da pesquisa teórica, o quadro instrumental de recolha e análise de dados escolhido para este trabalho inclui duas metodologias: as histórias de vida (de cientistas portugueses) e o inquérito por entrevista (a jornalistas de ciência portugueses). Os estudos de caso recolhidos a partir das histórias de vida revelam que a utopia é necessária à ciência e sociedade essencialmente na busca de mundos alternativos e no melhoramento total do ser humano. Quanto aos inquéritos por entrevista, se alguns informantes se atêm ao jornalismo tradicional, sublinhando ainda o primado do rigor, da objectividade e da ausência de emoções, já outro informante abre espaço para um jornalismo alternativo que, de preferência, consiga dirimir os constrangimentos vários a que a profissão está sujeita, bem como reciclar estereótipos que contaminam a relação entre ciência, media e democracia.

 

8. Heitor Rocha Lima da Costa e Rafael Salviano Marques Marroquim: Jornalismo e democracias: participação política e construção do debate no idioma público da mídia

O texto dispõe-se a refletir sobre o conceito proposto de fosso político da notícia, estabelecido quando as lacunas impressas no campo dos media, sobretudo do jornalismo, contribui na ausência de participação pública nas decisões e no debate racionalmente estabelecido. A partir de investigações acerca da democracia liberal e dos pressupostos de uma democracia deliberativa propõe-se uma ética do discurso no campo jornalístico capaz de incluir posicionamentos dissensuais, contra-hegemônicos e contra-factuais na discussão pública.

O noticiário está imerso na realidade interpretada pelos homens e subjetivamente dotada de sentido para eles na medida em que forma um mundo coerente. A formação desse presente comum, no entanto, cria, em determinadas situações, fendas na constituição tanto de técnicas quanto no campo do discurso dos meios que contribuem para o desenvolvimento de fossos da notícia. No caso específico da análise no campo político - com o envolvimento de atores como movimentos sociais, sociedade civil e os profissionais políticos -, essa disrupção aponta para uma das causas na falta de participação política e também na ausência de crítica com o reforço em mesmos âmbitos discursivos (pseudo-polifonia de fontes).

Ao ambientarem a política sob a lógica do input dos votos e do output do poder (modelo liberal de democracia), os periódicos criam as primeiras fendas na formação do que denominamos de fosso político da notícia. A estrutura informativa deste tipo de cobertura – com recorrência às fontes oficiais, foco nas intrigas ‘palacianas’ do parlamento, ausência de debate e crítica no tratamento de certos temas -, deixa rastros de uma autonomização dos representantes (profissionais políticos) ante a ação dos representados. Neste sentido, o papel do cidadão consiste em escolher periodicamente os seus representantes, restrito ao sustentáculo liberal do voto e não necessitando se envolver diretamente na esfera pública política.

Em ângulo oposto, encontra-se a ampliação dessa arena de visibilidade da vida coletiva compartilha a partir de uma noção mais abrangente da atividade política e de inclusão que, como procedimento, prevê a deliberação entre atores, o diálogo político. Na concepção deliberativa de democracia “as decisões que afetam o bem-estar de uma coletividade devem ser o resultado de um procedimento de deliberação livre e razoável entre cidadãos considerados iguais moral e politicamente” (BENHABIB: 1996, 69). Um processo que se alimenta e depende de informação.

 Do ponto de vista de práticas malsucedidas e certezas de ação abaladas, as argumentações divulgadas pela mídia procuram ter uma espécie de função reparadora. Isto explica por que os participantes da argumentação reconhecem não ter motivos para manter a atitude reflexiva, após o esgotamento de todas as objeções apresentadas, e se convencem da legitimidade de uma pretensão de verdade, compreendendo esta bem-sucedida desproblematização da discussão sobre a verdade como um sinal para retomar uma postura ingênua diante do mundo (HABERMAS: 2004b, 50).

No lugar da resistência dos objetos, nos quais nos deparamos no mundo da vida, o jornalismo deve expor nas controvérsias o embate a dos adversários sociais, cujas orientações axiológicas entram em conflito. No entanto, para que as pretensões de validade moral articuladas pelo jornalismo atinjam a força de um reconhecimento de legitimidade análoga à verdade, é preciso que se orientem por uma expansão constante dos pontos de vista de setores sociais excluídos na discussão pública, para que possa ser compensar a ausência da referência ao mundo objetivo. Assim, cabe-se refletir sobre as modalidades de acesso no campo jornalístico e de uma postura normativa e pós-convencional de verdade que garante a incursão deliberativa de temas e ações no espaço público de modo a diminuir as fendas assentes no distanciamento patente entre representantes e representados no mundo da vida.

 

 

Sala 1.04 do ID

Moderador: Nelson Traquina (CIMJ e UNL)

Comunicações:

1. Tony Queiroga: Ferramentas digitais nas redacções impressas portuguesas e brasileiras

O que jornalistas portugueses e brasileiros fazem com a internet e o computador como ferramentas essenciais para a prática profissional hoje? Esse é o objetivo principal da investigação levada a cabo durante nosso doutoramento.

O computador e a internet fazem cada vez mais parte da rotina jornalística. Eles se tornaram ferramentas fundamentais para a eficiência das atividades profissionais. Desde a introdução dos computadores pessoais nas redações, ainda na década de 1980, nos EUA, seguida da adoção irrestrita da internet, no meio da década seguinte, o trabalho de apuração vem se transformando em ritmo veloz.

Hoje, com o acesso à informação em quantidade praticamente infinita nas redes digitais, a reportagem passa a ser mediada por tecnologias, mais do que pelo contato direto com fontes humanas. A própria análise das informações apuradas muitas vezes só pode ser realizada pelo computador.

Resulta desse panorama que o jornalismo passa por transformações no seu saber-fazer. As várias etapas do trabalho de reportagem foram, e continuam sendo, radicalmente transformadas pelo emprego desse binômio: computador-internet. De um lado, jornalistas adotaram essas ferramentas digitais rapidamente, alterando as suas rotinas na produção noticiosa [fazer]. De outro, a avaliação e o juízo sobre essas transformações [saber] também passam por adaptações.

Esse trabalho apresenta uma análise do uso das ferramentas digitais por parte de repórteres e editores de jornais impressos, em Portugal e no Brasil. Também mapeia as percepções dos jornalistas sobre essas novas práticas. Ao todo, foram pesquisados 225 profissionais, entre repórteres e editores, no Brasil e Portugal, em grandes veículos da mídia impressa, espaços nos quais se produz o jornalismo de referência nos dois países. Os profissionais responderam, majoritariamente via internet, a um questionário de mais de 30 perguntas, com vários itens cobertos, o que gerou uma grande quantidade de dados.

Em resumo, os resultados apontam para eventuais afastamentos entre os profissionais portugueses e brasileiros, embora de forma geral concluam por uma mesma base de prática e avaliação profissional para ambas as nacionalidades. Esse dado reforça a hipótese da existência de uma cultura profissional compartilhada por jornalistas, em qualquer latitude do planeta.

Além disso, os resultados da investigação indicam que o uso das ferramentas digitais pelos jornalistas, embora já bem disseminado, ainda tem amplo espaço para se desenvolver. Esse ponto é particularmente importante na medida em que a tecnologia digital se tornou instrumento básico para a produção de jornalismo de qualidade, mais objetivo e menos vulnerável aos enormes perigos que hoje a profissão enfrenta.

Enfim, saber como estão sendo usadas e pensadas as ferramentas digitais pelos jornalistas nas redações impressas dos dois paises é o primeiro passo para que eles façam maior e melhor uso dessa tecnologia na produção de um jornalismo mais qualificado e objetivo, condição básica para o revigoramento das democracias contemporâneas.

Hoje, por mais que a democracia esteja disseminada como valor no Ocidente, muitas sofrem limitações, especialmente no que se refere à liberdade de expressão e opinião, bem como quando ela se dá contra os poderes políticos ou econômicos. Em um mundo no qual não existem mais fontes desinteressadas, onde a verdade e a mentira às vezes se apresentam da mesma forma, e a comunicação social está profissionalizada em todos os níveis, o jornalismo precisa fazer uso de novos métodos para apurar a verdade.  As ferramentas digitais têm um grande potencial nesse desafio, de forma ao jornalismo manter seus objetivos clássicos, e continuar a ser a voz dos interesses difusos na sociedade, confrontando de modo crítico os poderes organizados.

 

2. Carlos Canelas: Os Processos de Produção de Conteúdos Noticiosos Diários da RTP

na Era da Convergência Jornalística

Na era da convergência, os media noticiosos estão a atravessar tempos de mudança, uma vez que o fenómeno da convergência está a ter profundas implicações em diversas dimensões dos órgãos de informação, nomeadamente nas seguintes dimensões: tecnológica, empresarial, profissional, dos conteúdos e na relação com as audiências. Consequentemente, essas implicações estão a produzir alterações nos processos de produção e de difusão de conteúdos jornalísticos, bem como nos processos de recepção das mensagens noticiosas por parte das audiências.

Neste contexto, a presente comunicação tem como principal pressuposto apresentar e analisar os diversos processos de produção de informação jornalística difundida pelos vários serviços noticiosos diários da Televisão Pública Portuguesa.

Assim, o objecto de estudo é a RTP. Em Portugal Continental, o universo RTP é constituído pela sede, situada em Lisboa (RTP-Lisboa), pelo Centro de Produção do Porto (RTP-Porto) e pelas diversas delegações regionais (RTP-Viana do Castelo, RTP-Bragança, RTP-Vila Real, RTP-Coimbra, RTP-Viseu, RTP-Guarda, RTP-Castelo Branco, RTP-Évora e RTP-Faro).

Neste seguimento, a população deste estudo é constituída por profissionais que estão directamente envolvidos nos processos produtivos informativos da RTP, ou seja, jornalistas, repórteres de imagem e editores de imagem da RTP-Lisboa, da RTP-Porto e das delegações regionais da RTP.

Os dados, que sustentam esta comunicação, foram recolhidos durante o ano 2007, usando como métodos de recolha de dados o inquérito por questionário, a entrevista e a observação directa.

Relativamente à metodologia de tratamento e análise dos dados, usou-se a análise estatística para os dados obtidos através do inquérito por questionário e utilizou-se a análise de conteúdo para as informações recolhidas das entrevistas e da observação directa.

 A contextualização teórica desta comunicação foca as principais implicações da convergência nos media jornalísticos, em particular as que dizem respeito às verificadas nas redacções noticiosas televisivas, tendo como referências autores internacionais como Henry Jenkins, Mark Deuze, John Pavlik, José Alberto García Avilés ou Ramón Salaverría, e autores nacionais como Francisco Rui Cádima, Felisbela Lopes ou Nuno Goulart Brandão.

As investigações realizadas em Portugal sobre a informação jornalística televisiva não se têm debruçado sobre os processos de produção de conteúdos noticiosos, sendo muito poucos os estudos que abordam estas questões. Neste sentido, achamos que a presente comunicação poderá ser um bom contributo para este campo.  

 

 

 

3. Amanda Paz Alencar: La producción del espacio social en los contenidos informativos de televisión

Las más recientes investigaciones sobre los efectos de los medios de comunicación de masa describen el fenómeno de la globalización o “planetarización” (Wolf, 1994) como una de las tendencias que actúan en la evolución de los procesos sociales y comunicativos en la actualidad. La integración de diferentes culturas y regiones lleva a la creación de una única identidad y, por lo tanto, de una visión uniforme de los acontecimientos que constituyen nuestra realidad. Consecuentemente, a partir del surgimiento de la televisión digital que propicia una multitud de canales, prestamos una especial atención a un fenómeno que está ocurriendo y que se relaciona con el gran número de ofertas informativas, además de influir en la creación de las nuevas tendencias sociales. Estamos tratando de un problema que atañe a la emergencia de suplir un estudio sobre el fenómeno de la mediatización del espacio social inscrito en los textos de los informativos diarios en televisión, es un indicador de la contradicción entre la produción simplificada e inmediata de las informaciones ante la complejidad de los acontecimientos sociales. Por lo tanto, será necesario aplicar una metodología que posibilite configurar de qué forma el presente social queda reflejado en los contenidos informativos de los telediarios de gran audiencia en Brasil y España. La relevancia de esta investigación se basa en el desarrollo de un análisis sobre las tendencias geográficas en la representación del presente social dentro de la realidad de un Estado, en el caso de España, inserto en la Unión Europea con relación al Brasil, perteneciente al núcleo emergente de los países de América Latina. Por medio de la observación de la forma de producción del espacio social en Brasil y España, este trabajo tiene por objeto de estudio un análisis comparativo de los contenidos informativos de los telediarios de gran audiencia de los respectivos países, en particular Jornal Nacional, SBT Brasil, Telediario 2 e Informativos Telecinco. Consecuentemente, el presente proyecto tiene primordialmente el propósito de perfilar los nuevos modelos de la programación informativa con la aplicación en proyectos de investigación para el desarrollo de la integración social por medio de los nuevos aparatos de comunicación. Para tal fin, será realizado un análisis comparativo empírico de un Corpus de trabajo definido para la obtención de una visión más específica sobre la mediatización de los espacios públicos en los telediarios españoles y brasileños. Haremos un Estudio de caso por medio de un análisis comparativo explicativo y exploratorio de la muestra, que reunirá objetivamente datos representativos acerca de la producción textual de los contenidos de los cuatro telediarios. Las cuestiones que tratan del proceso de producción de las noticias dentro de los equipos editoriales diariamente serán analizadas con el fin de promover la comprobación o la refutación de las hipótesis formuladas a partir del estudio y de la observación sobre los nuevos caminos del periodismo televisivo brasileño y español. El estudio sobre la producción del presente social en los informativos también aborda una reflexión sobre el desarrollo de las nuevas tecnologías de la información en la era globalizada de la que dependen, primordialmente, de la expansión de los sistemas de las comunicaciones entre los distintos espacios públicos.

 

4. Marisa Torres da Silva: As cartas dos leitores na imprensa portuguesa: uma forma de comunicação pública

Constituindo-se como um espaço através do qual os leitores podem expressar-se sobre os mais diversos temas, as cartas dos leitores contêm, em si mesmas, potencialidades inequívocas ao nível do alargamento da comunicação e debate públicos. As teorizações sobre os conceitos de espaço público, democracia deliberativa ou responsabilidade social dos media são, pois, aqui assumidas como bases de sustentação fundamentais para uma reflexão que se pretende abrangente acerca do papel que as contribuições do público podem desempenhar no contexto das sociedades democráticas.

Na imprensa, as secções de correspondência são configuradas por um conjunto de regras informais definidas pelas publicações, que conferem uma especificidade ao tipo de vozes e temáticas que aí acedem e, consequentemente, adquirem visibilidade pública. Para estudar a forma como a voz dos leitores é enquadrada na imprensa portuguesa e o relacionamento que se estabelece entre esta última e os seus destinatários, centrámos a nossa investigação nas rubricas de cartas dos leitores de quatro publicações impressas portuguesas de âmbito nacional (três jornais e uma newsmagazine), mobilizando diversas metodologias, quantitativas e qualitativas, que nos possibilitassem não só uma compreensão mais profunda sobre o processo de selecção dos textos dos leitores, seus temas predominantes e estilos discursivos, mas também acerca das percepções que, quer a imprensa, quer o público, evidenciam sobre as funções do espaço de correspondência e, ainda, as motivações que estão na origem da procura de uma intervenção pública, na escrita de uma carta do leitor.

O contacto alargado com as redacções, a análise de conteúdo das cartas, as entrevistas com directores/provedores do leitor e os questionários com os leitores-escritores de cartas permitiram-nos, assim, inferir que a secção das cartas dos leitores, enquanto dispositivo de participação do público, é construída de acordo com práticas e valores orientadores da actividade jornalística em geral, que acarretam consequências neste espaço público de comunicação, nomeadamente, no que respeita à extensão, alinhamento e edição dos textos, bem como ao nível dos seus intervenientes. Identificámos, ainda, algum cepticismo e desvalorização do espaço das cartas por parte dos profissionais das redacções em análise, o que contrasta com a perspectiva idealizada que os mesmos demonstraram no que respeita às funções a desempenhar pelas cartas dos leitores. Por outro lado, verificámos que uma parte bastante significativa de leitores-escritores procura manifestar-se acerca de temas que considera como relevantes em termos do seu interesse colectivo, tendo, assim, a expectativa de que as suas participações sejam seleccionadas pelas publicações impressas, para, dessa forma, ganharem uma intervenção mais efectiva no debate público.

 

5. Ricardo Morais: Democracia, participação e deliberação: Os comentários dos leitores nos portais noticiosos como um espaço de deliberação

A democracia como forma de governo é um fenómeno recente no mundo. Antes do século XVIII, os principais teóricos da Filosofia Política não acreditavam na sua viabilidade e poucas foram as democracias que se consolidaram neste período (apenas os EUA, França e Inglaterra). Só mais tarde, com as transformações do mundo contemporâneo, é que se estimulou um considerável movimento de consolidação da democracia. O fim dos regimes ditatoriais em diversas partes do mundo contribuiu decisivamente para colocar a democracia em destaque, passando este a ser o modelo de governo adoptado por quase todas as nações.

Assim, se é verdade que a democracia é a forma de governo mais adoptada ao longo das últimas décadas, por outro lado, os problemas relacionados com a prática da política democrática, nomeadamente a questão da representação política, parecem ser cada vez mais comuns nos países com este tipo de regime.

Neste contexto, uma das principais preocupações dos investigadores contemporâneos centra-se no diagnóstico de uma crise na relação entre esfera civil e esfera dos representantes políticos, ou seja, considera-se que existe uma perda de confiança dos eleitores nas instituições representativas e uma apatia participativa que se revela na falta de interesse por parte dos cidadãos nas questões públicas.

Porém, nos últimos anos, a corrente deliberativa tem surgido como uma alternativa, que privilegia o ideal democrático e confere aos cidadãos a possibilidade de deliberarem racionalmente sobre as decisões que lhes dizem respeito. Intimamente ligada a esta ideia de deliberação está o papel desempenhado pela comunicação, concretamente, pelos meios de comunicação de massa. Neste cenário, importa saber qual o papel dos media, e especificamente dos novos media, na constituição de debates públicos. Será que os novos media funcionam como plataforma deliberativa? Pode-se pensar o processo de deliberação nos novos media? Os novos media, e especialmente os os portais noticiosos online, podem ser vistos como centro para a deliberação e para a troca pública de argumentos?

Este artigo propõe assim uma análise específica dos comentários dos leitores às notícias dos principais portais noticiosos nacionais procurando perceber se estes funcionam como espaços de debate público.

Tendo como ponto de partida a definição de deliberação, o trabalho procura aplicar os aspectos subjacentes a esta teoria numa análise de conteúdo de uma amostra de comentários de leitores dos principais jornais online portugueses. Pretende-se desta forma fornecer indicações sobre como a deliberação se pode manifestar dentro do contexto dos comentários dos leitores.

Considera-se assim, que este trabalho vai de encontro à vasta literatura que se apoia em pressupostos participativos e deliberativos de democracia, contribuindo não apenas para a reflexão teórica sobre a natureza da democracia contemporânea, mas também para se pensar a política contemporânea articulando aspectos normativos com estudos empíricos.

Por outro lado, com a escolha desta temática específica vamos ao encontro de recentes recomendações de alguns investigadores na área da deliberação e comunicação, segundo os quais “é necessário estudar como funciona a deliberação no âmbito dos meios de comunicação e analisar o tipo de interacção que se estabelece entre os sujeitos da deliberação…” (Arenas-Dolz, 2009, p. 45).

 

6. Helena Lima e Isabel Reis: O comentário do público e a distribuição editorial temática nos sites de rádio

Uma das preocupações suscitadas pelos sites noticiosos na internet é a participação do público que se verifica através de três formas preferenciais: o número de visitas, votações e comentários. A interactividade é característica do meio digital e tem acompanhado a criação de conteúdos informativos, sendo rapidamente entendida como forma de aferir a audiência e interesse por eles suscitados. Por outro lado, e do ponto de vista do público, cedo se constitui como uma ferramenta ao dispor da cidadania. Através das votações e dos comentários os cidadãos puderam, desde logo, exprimir as suas opiniões sobre as temáticas publicadas e, de alguma forma, validar a actividade informativa.

Tendo em conta a evolução recente da história da informação na web, este trabalho incide em particular sobre os sites de rádio, na sua vertente noticiosa. Uma das ideias afirmadas por um estudo realizado nesta área defende que as rádios hertzianas ainda são muito mais alvo da participação do público do que as suas páginas da internet. Os vários autores concordam que os sites de rádio serão pouco interactivos em comparação com outros cibermeios. A razão de ser desta disparidade estará ligada ao facto de só muito recentemente as estações terem possibilitado os comentários às notícias publicadas.

Tendo em conta o cenário enunciado, o objectivo deste estudo é avaliar a participação registada em dois sites de rádios – TSF e Rádio Renascença. A metodologia consistirá na da quantificação das notícias com comentário e a análise destes face às temáticas abordadas, num período de um mês.

Um estudo preliminar aponta para que as temáticas editoriais mais destacadas coincidam com um maior número de comentários. A grelha temática adoptada corresponde a política, desporto, economia, saúde, sociedade, religião, educação, justiça/tribunais/polícia, internacional, cultura, local e outras.

É com base nestes indicadores que se pretende aferir se as temáticas de maior incidência são aquelas em que se regista uma maior participação, remetendo-nos assim para a relevância da interactividade na net como forma de intervenção em termos de cidadania.

 

7. Marina Chiari: Implicações do jornalismo cidadão na qualidade do ciberjornalismo em Portugal – um estudo exploratório

Este trabalho pretende contribuir com reflexões sobre a influência dos conteúdos online produzidos pelos cidadãos na qualidade do jornalismo protagonizado pelo jornalista profissional. Tendo como background novas propostas para o papel do jornalista no mundo digital e as possibilidades – no que dizem respeito à interactividade – que o ciberjornalismo apresenta, pretendemos discutir especificamente o jornalismo cidadão alojado nos sites dos ciberjornais, e a relação entre esse conteúdo e o jornalismo profissional.

Que alterações o jornalismo cidadão alojado e estimulado pelos ciberjornais pode trazer para a qualidade do jornalismo realizado pelos profissionais daqueles meios de comunicação? Esta é a pergunta central que pretendemos responder num estudo exploratório fazendo uso de entrevistas a ciberjornalistas e traços de análise de conteúdo da produção online dos “jornalistas cidadãos”. Através dessa metodologia pretendemos responder o seguinte questionamento: Como os ciberjornalistas percebem o papel do jornalista cidadão? Com esta resposta pretendemos verificar as seguintes hipóteses: 1) Os jornalistas enxergam os jornalistas cidadãos como leitores mais exigentes; 2) Uma maior exigência por parte dos jornalistas cidadãos pode inspirar, influenciar ou mesmo forçar o jornalista profissional a ser mais rigoroso e produzir um jornalismo que sirva melhor a sociedade. Estas hipóteses têm o intuito de possibilitar uma reflexão sobre a transformação do paradigma da comunicação social e o seu efeito no quotidiano de uma sociedade democrática.

A interactividade nos media online é um ponto em constante discussão quando falamos das possibilidades que a Internet trouxe para a democratização dos meios de comunicação. Para além de uma mudança do paradigma comunicacional a interactividade estimula a criatividade, a participação e – no âmbito da investigação em jornalismo – uma constante reflexão sobre o papel das notícias e do jornalista. Através da análise de conteúdo à produção do jornalismo cidadão nos cinco ciberjornais com o maior número de acesso em Portugal nos últimos seis meses pretendemos analisar, numa amostra de 15 dias, a frequência da participação dos cidadãos; a presença e os tipos de mediação e censura por parte do ciberjornal; a interacção do jornalista profissional com o conteúdo do jornalismo cidadão através da presença de comentários; a presença de matérias de cunho colaborativo; a convergência da agenda mediática e dos temas abordados pelo jornalismo cidadão; a presença dos valores noticia no jornalismo cidadão, à semelhança do jornalismo profissional.

 

8. Geder Parzianello: O leitor de jornais impressos do interior do Sul do Brasil e a construção da democracia

Alain Touraine (1994, p.265) propõe uma reflexão em que a “idéia de sujeito é inseparável da idéia de relações sociais”, isto porque, a partir de sua perspectiva, o caráter social da vida humana define-se num processo de construção em que cada indivíduo exerce influência e é influenciado nas relações que estabelece com outros. Tais relações são mediadas por instituições, grupos ou classes sociais, assim como pelos media, sendo fortemente marcadas por diversos interesses e pelas forças hegemônicas que as circundam. Nesse sentido, acentua-se de forma decisiva a participação dos sujeitos na construção de uma sociedade democrática. Mas trata-se de uma participação que requer uma consciência interiorizada, imbuídos que todos estes sujeitos precisam estar de seu papel social, como atores sociais. Os sujeitos em cena, assim, portanto, se valem de espaços legitimados para o exercício efetivo de práticas democráticas que fortaleçam os ideais do bem-estar social e de construção da cidadania.  Espaços esses que se materializam na circulação de produtos de mídia, em sua efetiva capacidade de envolver sujeitos e servir-lhes como assento de falas diversas, como espaço formal de diálogo na esfera pública. Desde uma perspectiva de democracia dos meios, portanto, a imprensa será sempre mais cidadã quando baseada no respeito à diversidade, ao contraditório e à tolerância; no resgate à dignidade humana e à integridade pessoal. Nesse sentido, os meios de comunicação medeiam sujeitos e relações sociais de forma mais ou menos democrática, conforme o modo como condicionam a participação desses atores sociais em direção a suas audiências. Um problema se apresenta neste cenário, relativamente ao modo como jornais impressos, por exemplo, estabelecem as marcas de efetiva participação de leitores desde uma perspectiva democrática: sua atuação parece estar ainda, restrita em forma e conteúdo o que lhes confere um caráter pouco democrático e homogeneizante, mesmo em pleno século XXI. O presente artigo estuda marcas retóricas presentes nos textos jornalísticos de jornais impressos. Analisa textos de jornais de 10 (dez) cidades gaúchas do extremo Sul do Brasil, a partir de uma hipótese baseada em observação empírica, de que estes jornais revelam a presunção por um leitor idealizado sem diversidade e em que este diálogo não parece incentivado em suas diferenças. Sob um ponto de vista da liberdade como fundamento da concepção de democracia em Alain Touraine os jornais impressos parecem sofrer de uma espécie de sintomática endogenia que profissionais precisam vigiar e combater.

 

 

Sala 1.05 do ID

Moderador: Isabel Férin (CIMJ e UC)

Comunicações:

1. Jorge Pedro Sousa, Sandra Tuna, Patrícia Teixeira e Maria Érica Lima: Acção e pensamento jornalístico de António Rodrigues Sampaio, primus inter pares do jornalismo oitocentista português

António Rodrigues Sampaio foi um dos principais expoentes do jornalismo doutrinário e da política portuguesa no século XIX, podendo ser considerado o jornalista político de maior sucesso nessa época, até porque, embora por curto tempo, chegou a chefe do Governo. Este trabalho, sustentado em pesquisa bibliográfica, hemerográfica e documental e numa análise instrumental do discurso desse sujeito histórico, visa determinar qual o seu pensamento sobre o jornalismo e apresentar sumariamente os principais traços da sua acção jornalística, tendo em conta o contexto da época. Concluiu-se que a sua frase “antes quero uma imprensa anárquica do que uma imprensa perseguida” ilustra bem o seu pensamento jornalístico e cola-se à parte da sua vida em que, como publicista e panfletário, combateu pela mais ampla liberdade de imprensa e por um liberalismo de esquerda, causas às quais sacrificou a própria liberdade. Contraditoriamente, chegado ao Parlamento e, depois, ao Governo, tornou-se num paradigma do pragmatismo e da defesa dos progressos materiais do país em detrimento da ideologia e intentou vários processos judiciais contra jornalistas, paradoxalmente por abuso de liberdade de imprensa. Inclusivamente, atingindo a chefia do Governo, promulgou uma polémica lei que restringia o acesso dos jornalistas às informações policiais, roubando a acção policial ao escrutínio público. Um contradição ente pensamento e acção que, apesar de tudo, não ofusca a sua relevante acção jornalística dentro do contexto do Portugal de Oitocentos.

 

2. Ana Teresa Peixinho: Imprensa clandestina e República: Uma leitura de seis jornais oitocentistas

Compreendemos melhor a comunicação política do tempo presente olhando para o passado e reflectindo sobre modos comunicacionais e políticos que nos conduziram a este tempo presente. Sendo o espaço público mediático um ‘local’ privilegiado de observação do passado e do presente,  propomos, no nosso texto, um olhar sobre o século XIX, de modo a demonstrar de que forma o ideário republicano foi progressivamente penetrando o espaço público oitocentista. O facto de o Congresso “Media, Jornalismo e Democracia” se realizar no ano em que se comemora o centenário da República torna esta análise histórica do espaço público ainda mais pertinente.

Tendo em mente o papel crucial desempenhado pelo jornais, desde o início do século XIX, na divulgação de ideias políticas e, neste caso específico, na propaganda republicana que se vai insinuando no país, até eclodir no centenário camoniano de 1880 e, posteriormente, na revolta de 31 de Janeiro de 1891, a nossa comunicação centra-se em títulos como A Alvorada, O Regenerador, A Fraternidade, É Tarde, A República, O Republicano. Trata-se de seis jornais clandestinos, todos eles surgidos no ano de 1848, um ano crucial em termos de história política europeia e onde é possível compreendermos os condicionamentos políticos da comunicação e do espaço público. A partir de uma análise destes jornais – alguns de número único – podemos compreender como muito antes do aparecimento do Partido Republicano e da defesa do republicanismo por alguns membros da Geração de 70, um conjunto de homens promoveram um combate aceso contra as instituições monárquicas, defendendo o regime republicano em nome dos ideais da Revolução Francesa.

Convém sublinhar o estatuto clandestino destas publicações que terá ditado não só a sua efémera existência e o seu alcance público mas também os conteúdos veiculados e, sobretudo, o discurso que os enforma. Importa ainda compreender como, apesar de o analfabetismo atingir percentagens assustadoras (Santos, 1985: 147), facto que reduz o nível de influência pública dos jornais, e embora a liberdade de imprensa estivesse longe ainda de ser um bem adquirido (Tengarrinha, 1989: 126-129; 137-140; 148 e 184; Costa, 1993: 30-38; Pizzaroso Quintero, 1996: 357-360), a imprensa revolucionária marcou decisivamente o panorama jornalístico português, transformando o jornal num bem público, com forte impacto na opinião e na instrução públicas. Lembremos que a imprensa periódica foi um dos meios convocados por Costa Cabral para difundir, entre as diversas camadas sociais, o liberalismo económico, social e cultural, fomentando a formação de uma opinião pública educada segundo os valores da sociedade burguesa (Espada, s/d.). A partir daqui, o jornalismo português caminha no sentido da consolidação de uma imprensa romântica de opinião que, segundo Tengarrinha, se afirma a partir da década de quarenta, momento em que o jornal “vê crescer o seu papel como indispensável instrumento e meio de cultura política, organizador e mobilizador da opinião pública”, capaz de se tornar “o meio mais importante de que se dispõe para tentar criar correntes de opinião pública e transformá-las em clientelas eleitorais” (Tengarrinha, 1996: 12).

No trabalho, recorremos à análise do discurso numa análise comparativa dos primeiros números de cada um destes periódicos, procurando captar linhas temáticas convergentes e estruturas retóricas similares. Captamos, assim, a essencialidade de um discurso republicano, nesse ano de 1848, em germinação no espaço público oitocentista, numa revisitação do passado que nos ajuda a compreender o presente.

 

3. Mário Pinto: Liberdade de imprensa: da inexistência durante a ditadura aos usos abusivos em democracia

Direito inquestionável nos nossos dias, se bem que conquista relativamente recente, a liberdade de expressão sofreu inomináveis vicissitudes até atingir o estádio actual. Com efeito, se eram numerosos os que a reclamavam e tudo fizeram, durante a ditadura, para alcançar semelhante anelo, também não é despiciendo o número dos que, não inteligindo a sua essência, a destratam com aproveitamentos oportunísticos e pouco ortodoxos. Dicotomia posicional de que os testemunhos aqui coligidos e concatenados se pretendem apodixe.

Conjugadas as especificidades do período a analisar (por demais conhecidas, tanto a montante quanto a jusante) com as inerentes à idiossincrasia do prisma que elegemos para o equacionar, pode afigurar-se relevar do âmbito da pura utopia a pretensão de aflorar tal temática num contexto político, a ditadura, cuja principal marca genética é, justamente, a ausência de liberdade.

Todavia, não obstante tratar-se de um lapso temporal coincidente, a nascente, com a vigência de um regime tão sui generis pela negativa autoritário, esteado numa polícia que tudo controla e impede, em que os mais elementares direitos (incluído o de expressão) são postergados e/ou coarctados, que faz do medo (e da delação) condição sine qua non da sua existência, peculiaridades que nem por momentos se pode elidir insistir em votar este período ao ostracismo é algo com que não se pode pactuar, até porque de inconcutível contraproducência. Tão inaceitável quanto pretender deli-lo da memória colectiva: tal estratégia apenas serve para inviabilizar o seu estudo, o que de uma perspectiva histórica e cultural antes se impõe levar à prática. Desde logo porque condição sine qua non para a cabal compreensão do passado recente e, daí, do presente: mormente aquilatar de que modo e em que medida influenciou comportamentos actuais, levar à compreensão das mentalidades que os ditaram; e, sobretudo, permitir inteligir de que forma a imprensa aproveita hodiernamente a liberdade de expressão conquistada. O que a experiência nos mostra nem sempre ser a mais curial, a mais proba.

É, pois, partindo desta constatação liminar – e após dilucidar o relacionamento jornalistas/políticos, – que nos propomos proceder à exegese da coabitação destes, tendente a aferir em que moldes é exercida, pelos primeiros, a liberdade de expressão: se com a imprescindível probidade, se de forma abusiva, aproveitada para se arrogarem um ascendente, plasmado no designado ‘quarto poder’ (incensado, mais por temor do que por merecido respeito) que de facto não têm.

 

4. Carla Baptista: The political role of newspapers before the democratization of Portugal. A study about the Marcelo Caetano rule period (1968-1974)

This paper analyses how, during the last years of the Portuguese dictatorship (1968-1974), some daily newspapers contributed to change the ongoing professional relationship between journalists and politicians, especially the deputies working at the National Assembly (former Parliament).

The presence of a small group of deputies belonging to the "liberal wing", following the legislative elections of 1969, allowed journalists to cover the parliamentary discussions under a new framing, thus contributing to put the National Assembly at the centre of the political debate around issues like the democratization and the liberalization of the country. 

This new framing explored the idea of “conflict” and “dissent” over the major governmental policies, which remained essentially authorative and resisted to national and international pressures to restore democracy. Some journalists, especially those working at a few more progressive newspapers, where the effects of a dynamics of modernity were stronger (and visible through the hiring of younger, more literate and eventually highly politized professionals), helped to amplify the voices of the liberal deputies. These were practically the ones in politics who could speak more freely due to their parliamentary immunity and because political parties or movements remained forbidden outside electoral campaigns.

Whereas the relationship between journalists and politicians was usually distant and confined to strategic rituals organized and performed by politicians (mainly through press conferences, press releases and discourses), it became closer, expanding the range of journalistic practices for those covering politics: more interviews, commentary, opinion articles and political reportage.

This movement articulates with a more general trend towards the politization of a pre-democratic Portuguese society, the building of a political public of informed readers and the reinforcement of the political and social role of the National Assembly, usually considered to be a very devaluated political institution due to the existence of a sole political party and the dominance of governmental rule.

To construct this thesis, we treat a range of journalistic materials referring to the coverage of central political discussions taking place during the period of our analysis – namely around issues like a new press law, individual liberties, civic rights and human rights, the colonial war – as well as interviews with former journalists and deputies from that time.

 

5. Alice Mitika Koshiyama: O agendamento da informação na organização do golpe de 1964 no Brasil

A pesquisa que realizamos baseia-se em contribuições teóricas da interface entre teoria da história e teoria do jornalismo para análise do corpus referente aos dados referentes ao golpe de estado de 1964 no Brasil. A pesquisa permitiu elucidar o papel do jornalismo neste processo histórico, para além das perspectivas empiristas de torna-lo mero cúmplice ou vítima dessa conjuntura, como o fazem analistas que enxergam no jornalismo uma prática feita ao sabor das vontades individuais ou de circunstâncias do acaso. Uma perspectiva dialética da história da imprensa (cf. SODRE, N.W., A história da imprensa no Brasil, 1966) como parte da história da sociedade capitalista, colocou-nos a questão central deste estudo: o das relações entre mídia e sociedade. Ou seja, qual foi o lugar social (cf., CERTEAU, M. de., A escrita da história) da mídia no projeto político dos organizadores do golpe de 1964. As histórias desse processo mostram os interesses econômicos, sociais e políticos, das  elites identificadas com a internacionalização do capitalismo brasileiro ) cf. DREIFUSS, R, A. 1964: a conquista do estado) e com uma elite militar que queria o poder político, na conjuntura da guerra fria (STEPAN, A., O militares na política.) Aparentemente, podia-se supor que houve, nesta conjuntura o uso do jornalismo como instrumento de tomada de poder. Nossa pesquisa problematiza o tema: havia uma minoria que se organizou para ser oposição ao governo constitucional do presidente da República João Goulart. Havia um grupo de estudos encarregado de propor diretivas para os meios de comunicação de massas. No entanto, em relação ao jornalismo percebemos a partir da perspectiva das Teorias do Jornalismo (TRAQUINA, N.) que os grandes jornais brasileiros ligados ao golpe cumpriram seu trabalho, usando os recursos técnicos do jornalismo, cobrindo os eventos como notícias, reportagens, comentários e opinião. Agendaram o acompanhamento da sociedade e da política, agendando e apresentando aos leitores informações e não apenas pregações ou panfletos anti-governistas.

 

6. Marco José Gomes: A Revolução de Abril na imprensa italiana: percepções, discursos e objectivos políticos

Este artigo pretende abordar as repercussões da Revolução de Abril na política e na imprensa italiana, aludindo à forma como os acontecimentos portugueses foram utilizados para veicular uma determinada percepção do mundo social. O XIV Congresso do Partido Comunista Italiano (18 a 23 de Março, 1975) e a campanha para as eleições regionais (16 de Maio a 13 de Junho, 1975) são as sequências de eventos estudados.

Os objectivos desenvolvem-se em quatro níveis: analisar os discursos dos principais dirigentes do Partido Comunista Italiano, da Democracia Cristã e do Partido Socialista Italiano e identificar os elementos/contextos que reproduziram referências ao processo revolucionário português; enquadrar essas alusões/referências nos propósitos das forças políticas em confronto; a partir dos editoriais dos diários Corriere della Sera, La Stampa e Il Messaggero, aferir quais os actores mencionados e os cenários políticos desenhados; determinar o posicionamento político-ideológico dos jornais em causa. 

Metodologicamente, a designada imprensa de referência é aqui encarada como fonte histórica e objecto de estudo. Os jornais permitem recuperar os enunciados das fontes. Justifica-se ainda a utilização da imprensa partidária – L’Unità (PCI), Il Popolo (DC) e Avanti! (PSI) – como suporte privilegiado para observar os argumentos dos grupos políticos. Por outro lado, o editorial constitui a unidade de redacção que representa a voz do jornal, a sede de opinião. Portanto, útil para formar o corpus do estudo, estabelecer conjecturas, delimitar a orientação política das publicações. Este trabalho procura responder às seguintes perguntas: Em que medida se processou a instrumentalização política das ocorrências portuguesas e com que objectivos? Quais as personagens evocadas e os cenários políticos desenhados pela imprensa de referência?

Importa recordar que, desde o início de 1975, a rivoluzione dei garofani cimentava o seu carácter excepcional no âmbito da política e da imprensa italiana. A suspensão do Partido da Democracia Cristã avolumou a desconfiança dos partidos relativamente à natureza democrática do regime português. O XIV Congresso do PCI, destinado a debater o compromisso histórico, ficou marcado pelo abandono dos delegados da DC italiana em sinal de protesto pela interdição decretada pelo Conselho da Revolução. O turbilhão extravasou fronteiras, como descreve o France-Soir: “Os acontecimentos de Portugal estão já modificando as perspectivas políticas da esquerda europeia. O problema é particularmente grave em Itália. Enrico Berlinguer empenhou-se com determinação num novo caminho. [...] Agora, depois dos factos de Lisboa, este ‘compromisso’ parece seriamente em perigo”. A conferência do PCI iniciou um conturbado ciclo que viria a conhecer novo clímax com a campanha para as eleições regionais de 15 de Junho. Portugal voltou a suscitar sequências analógicas e díspares interpretações, também motivadas pelo ritmo do processo revolucionário e das eleições do dia 25 de Abril. Todo este clima provocou intensas reacções na imprensa, ora dando voz aos protagonistas, ora assumindo os próprios jornalistas posições políticas. Renso Carnevali demitiu-se do Corriere della Sera porque um título, que denunciava a censura dos tipógrafos portugueses do República, foi substituído sem a sua autorização.     

A pertinência da investigação provém dos escassos trabalhos existentes sobre o impacto da Revolução de Abril na imprensa internacional e na política italiana. De referir, porém, os pioneiros trabalhos de Mário Mesquita e José Rebelo (1994) - O 25 de Abril nos Media Internacionais -, mas visando a imprensa francófona. E o estudo de Vera de Matos (2010) intitulado Portugal e Itália. Relações Diplomáticas (1943-1974).

 

7. Carlos Camponez: A auto-regulação frustrada dos jornalistas portugueses (1974-2007)

O presente texto pretende fazer uma abordagem sobre a auto-regulação dos jornalistas portugueses nos 33 anos de democracia que decorreram entre 1974 e 2007.

A auto-regulação é um dos aspectos estruturantes da afirmação das profissões (Bergel). Desde a sociologia clássica (Durkheim, Weber) que o papel das profissões tem vindo a ser salientado como um dos aspectos marcantes das sociedades modernas. As teses sobre a Sociedade da Informação (Bell) têm salientado a importância dos profissionais e do saber. Porém, este fenómeno não se realiza sem contradições (Sennett; Rifkim). Em resultado das transformações operadas no seio do denominado Novo Capitalismo (Sennett) e do Capitalismo Imaterial (Gorz), verificamos que alguns sectores profissionais ligados aos colarinhos brancos sofreram também um processo de desqualificação. Este aspecto é tanto mais importante quanto ele é acompanhado, nas sociedades contemporâneas, por um reinvestimento dos valores em novos domínios profissionais (Valadier; Lipovetsky), naquilo a que Gilbert Vincent denominou por processo de deontologização. No jornalismo esta questão continua a ser crucial na medida em que a deontologia é uma das dimensões essenciais que estruturou o jornalismo como profissão (Feyel; Prodhome; Coleman; Wilkins).

Estes aspectos tornam ainda mais urgente a análise do caso dos jornalistas portugueses, que tiveram particulares dificuldades em afirmarem a sua profissão (Sobreira; Correia e Baptista) e a sua auto-regulação. Num contexto político em que se faz apelo a modelos de Governança (Beck; Kisseler e Heidemann) para a gestão e organização das sociedades, a importância dos media e a capacidade de auto-regulação dos jornalistas assume particular relevância para a democracia.

A análise que nos propomos fazer procura responder às seguintes questões: Qual o modelo que os jornalistas portugueses seguiram para afirmação da sua profissão? Como organizaram a sua auto-regulação depois do 25 de Abril de 1974? Como a exerceram? Quais as razões que poderão explicar a inexistência de uma auto-regulação dos jornalistas? Quais os desafios que o jornalismo português enfrenta hoje, neste domínio?

Em termos gerais, sustentaremos 1) que os jornalistas procuraram organizar a sua profissão de acordo com um modelo corporativo, sem corporação; 2) que a auto-regulação do jornalismo, em Portugal, viveu sempre à sombra do Estado; 3) que a liberalização que se verificou nos media, em particular a partir de 1990, em vez de promover a auto-regulação profissional, contribuiu para a sua desestruturação; 4) e que este aspecto explica o facto de assistirmos, em Portugal, a uma auto-regulação capturada pelo Estado, configurando uma situação paradoxal, uma vez que essa é uma perversidade atribuída, normalmente, às corporações: ou seja, a captura dos objectivos públicos com vista à realização dos seus interesses corporativos (Moreira).

As teses que pretendemos defender assentam na análise de 33 anos de decisões e discussões registadas em documentação do Sindicato dos Jornalistas, nomeadamente do tratamento crítico e estatístico dos pareceres do Conselho Deontológico, bem como em entrevistas aos presidentes daquele órgão de auto-regulação. Do mesmo modo, analisámos as decisões dos Congressos dos Jornalistas Portugueses e passámos em revista as investigações realizadas nos últimos anos (Cascais; Correia e Baptista; Fidalgo; Garcia; Maia; Meireles; Mesquita; Pinto; Ponte; Oliveira; Rebelo; Serrano; Traquina).

 

8. Liliana Pacheco: Perfil sociológico do jornalista português

No âmbito do estudo do Perfil Sociológico do Jornalista Português, financiado pela FCT e coordenado pelo Prof. Doutor José Rebelo, levado a cabo entre Outubro de 2005 e Abril de 2008, procurou-se aprofundar o conhecimento relativo a um grupo socioprofissional em constante recomposição e de importância decisiva na formação da opinião.

Note-se que os dados disponíveis até à data desta investigação sobre a profissão de jornalista resultavam de inquéritos à classe, realizados sob a alçada do Sindicato de Jornalistas, em 1987 e em 1997. No entanto, é de registar que na última década, muitas e muito profundas foram as transformações operadas no campo dos media em Portugal. Por outro lado, e contrariamente aos estudos anteriores, não se recorreu, desta vez, a uma sondagem. A metodologia adoptada abrangeu, com efeito, o universo total dos jornalistas.

A investigação do Perfil Sociológico do Jornalista Português combina duas metodologias: análise quantitativa de dados caracterizadores do grupo profissional e entrevistas semi-directivas a jornalistas. Os dados quantitativos que conduziram ao estudo sociográfico foram fornecidos pela Comissão para a Carteira Profissional de Jornalista e pelo Sindicato de Jornalistas, valores que estão actualizados até ao ano de 2009.

Nas entrevistas semi-directivas procurou-se abranger profissionais em diversas situações profissionais (no activo, estagiários, desempregados e reformados, etc), das mais diversas faixas etárias e de ambos os sexos. Integraram-se representantes de vários meios de comunicação social (imprensa, tv, rádio, produtoras, internet), com maior e menor visibilidade no espaço público, na esperança de alcançar um perfil-tipo o mais completo possível.

Para equilibrar a amostra foram ainda seleccionados cinco jornalistas sem especial visibilidade pública, retirados aleatoriamente da lista de associados do Sindicato.

Através dos dados apurados, foi possível traçar uma evolução do número total de jornalistas (entre 1987 e 2009), a evolução por género e a taxa de feminização, a percentagem de jornalistas por grupo etário, a distribuição dos jornalistas por tipos de título e por meios de comunicação social, o ano de acesso à carteira profissional, a situação profissional cruzando com faixa etária e género, as habilitações académicas dos jornalistas e a sua nacionalidade, e por fim, a situação dos jornalistas estrangeiros por habilitação académica e por situação profissional.

Foram várias as conclusões que se puderam tirar a partir deste estudo: o número de jornalistas com carteira profissional no decurso dos últimos vinte anos sextuplicou, regista-se uma tendência de feminização da profissão (as mulheres já são maioritárias na faixa dos 20 aos 34 anos), mas esta tendência ainda não chegou aos cargos de chefia que, em 80% dos casos, são desempenhados por homens. Na distribuição por meios de comunicação verifica-se que 58,4% dos jornalistas profissionais trabalha na imprensa; 14,4% na TV e 12,5% na Rádio.
A taxa de sindicalização na profissão é elevada e cerca de 60% dos jornalistas possuem uma licenciatura ou um bacharelato. É uma profissão jovem: 70% dos jornalistas têm entre 20 e 44 anos de idade. Dos titulares de carteira profissional, 5% declararam-se em situação de desemprego e 15% trabalha em regime livre.

Os resultados deste estudo, a análise quantitativa, bem como as entrevistas, serão compilados num livro a lançar pela editora Gradiva, com apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, e estão disponíveis para consulta no sítio: http://perfildojornalista.eusou.com/pt .

 

 

Sala 1.06 do ID

Moderador: Francisco Rui Cádima (CIMJ e UNL)

Comunicações:

1. Luís Bonixe: A cobertura radiofónica de campanhas eleitorais – do som ao multimédia

A comunicação que propomos tem por objectivo analisar a cobertura jornalística das campanhas eleitorais para as Legislativas e Autárquicas em Portugal feita nos sites das três principais rádios de informação portuguesas: Antena 1, TSF e Renascença.

A relação entre jornalismo e política tem sido objecto de variadíssimos estudos e no actual contexto de migração dos media tradicionais para as plataformas digitais surgem cenários que potenciam novos discursos e que legitimamente convocam novos quadros interpretativos acerca do papel dos meios de comunicação social no campo político.

No caso da rádio, a migração para o online tem implicações ao nível da sua expressividade, na medida em que de um meio sonoro se passou para um media multiplataforma e multimédia. Por outro lado, a presença da rádio em ambiente online cria condições para o uso de ferramentas que potenciam a interacção, a participação dos receptores no processo informativo e a diversificação temática.

O foco de análise da comunicação que apresentamos situa-se na observação destas novas potencialidades nos sites das rádios informativas, partindo do estudo da cobertura de duas campanhas eleitorais portuguesas.

 Assim, pretende-se contribuir para uma reflexão sobre o modo como esta “nova” rádio está a passar pelo processo de migração para o digital verificando nomeadamente a existência de novas formas de expressão, temáticas, fontes de informação, ferramentas de interacção e participação dos ciberouvintes no processo informativo que configurem um novo discurso e formas de tratamento de campanhas eleitorais.

A metodologia adoptada foi a análise de conteúdo das notícias disponibilizadas online nos sites da Renascença, TSF e Antena 1 no período das campanhas eleitorais para as Legislativas e Autárquicas de 2009. Procurou-se identificar os temas e protagonistas das notícias bem como observar o uso de ferramentas online que configurem uma nova expressividade da rádio.

O estudo que efectuámos permite-nos identificar dois cenários. Em primeiro lugar, que a cobertura das campanhas eleitorais analisadas nos sites das três principais rádios de informação portuguesas foi sobretudo centralizada nos eventos e incidências da campanha e menos nos temas públicos. Em segundo lugar, que os sites das rádios continuam colados à emissão radiofónica tradicional o que implica um subaproveitamento, por exemplo, ao nível da diversidade temática abordada e dos modelos de interacção.

 

2. Nayla Fernanda Andrade Lopes e Adélia Barroso Fernandes: Política na rede: O papel dos e-mails e vídeos que circularam na internet na eleição para prefeito de Belo Horizonte

Se não podemos falar em eleições diretas, na atualidade, sem mencionar a televisão, o processo eleitoral que levou Barack Obama à presidência dos Estados Unidos nos obriga a falar em internet. As eleições de 2008 em Belo Horizonte foram marcadas por trocas de acusações entre candidatos e tentativas de desqualificar o adversário. Até aí, nenhuma novidade. Mas o que diferencia esse pleito de eleições municipais anteriores é o uso intensivo da internet como ambiente de difusão de conteúdos a respeito de candidatos. A simples busca pelo nome de um candidato em sites de relacionamento e de compartilhamento de conteúdos deixa claro que a discussão em torno deles aconteceu de maneira bastante efetiva na internet.

Para a presente pesquisa, foi realizada análise de conteúdo dos 361 vídeos postados no site YouTube, a respeito dos candidatos à prefeitura de Belo Horizonte que foram para o segundo turno, Marcio Lacerda e Leonardo Quintão. Além dos vídeos, foram também utilizados 1800 tópicos de discussão do site de relacionamentos Orkut, resultantes da pesquisa pelos termos “marcio lacerda” e “leonardo quintão”; 21 e-mails com o tema “eleições 2008 em Belo Horizonte” recebidos pelas pesquisadoras ao longo do processo eleitoral; o debate realizado pela emissora de televisão TV Alterosa; e, finalmente, os programas do Horário Gratuito de Propaganda Eleitoral (HGPE) do segundo turno (de 13 a 24 de outubro de 2008).

O debate realizado pela TV Alterosa no dia 22 de outubro de 2008 foi o episódio, ao longo de toda a campanha, em que os candidatos trocaram mais acusações e de forma mais direta. Entre os assuntos mais tratados, a maior parte deles estava em circulação na internet. Já o Horário Gratuito de Propaganda Eleitoral (HGPE) respeita uma estrutura bastante distinta da dos debates. No HGPE, os candidatos são protagonistas e utilizam uma série de recursos para trabalhar sua imagem.

O presente trabalho tem como objetivos analisar de que maneira os temas que circularam na internet foram incorporados pelos candidatos em seus programas do Horário Gratuito de Propaganda Eleitoral (HGPE) e no debate da TV Alterosa, durante a campanha eleitoral para a prefeitura de Belo Horizonte em 2008; verificar quais os temas recorrentes nos vídeos, tópicos de discussão e e-mails, no horário eleitoral e no debate; e, por fim, observar se houve referências diretas ao papel dos e-mails e vídeos difamatórios na campanha televisiva, tanto no debate quanto no HGPE.

Diante de tais colocações, cabe o seguinte questionamento: de que maneira os temas que circularam na internet foram incorporados pelos candidatos em seus programas do Horário Gratuito de Propaganda Eleitoral (HGPE) e no debate da TV Alterosa, durante a campanha eleitoral para a prefeitura de Belo Horizonte em 2008?

Mesmo que as campanhas on-line ainda não tenham a mesma importância e magnitude das televisivas, a internet tem crescido como fonte de informação e discussão política, tanto que interferiu na campanha televisiva. E, como os conteúdos apresentados foram, em sua maioria, difamatórios, os candidatos adotaram, principalmente, a estratégia de desmentir tais afirmações.

Falamos muito em “possibilidades”. É possível que a internet aumente a participação política, é possível que influencie nos conteúdos das campanhas desenvolvidas pelos candidatos em outros meios (como vimos que aconteceu em Belo Horizonte em 2008), e é possível ainda que seja empregada de maneira mais intensa (e oficial) nos pleitos futuros. Mas paramos por aí. Afinal, especialistas fazem apostas a respeito da internet que, em um curto espaço de tempo, se mostram equivocadas. Podemos, no entanto, torcer para que a geração de eleitores “conectados” não se atenha a afirmar que “políticos não prestam”, já que terá uma vasta quantidade de informações disponíveis para embasar argumentos menos simplistas.

 

3. Jordi Rodríguez Virgili e Joslay Polanco Medina: Redes Sociales: herramientas que introducen el “diálogo” en las Campañas Electorales

La campaña de Barack Obama en Estados Unidos (2008) introdujo nuevas herramientas en la comunicación electoral. La gran cantidad de videos subidos en Youtube con un alcance de más de 150.000.000 de visitas, los dos millones de perfiles creados en Mybo y los 8.500.000 usuarios que desean ser “amigos” del popular candidato afroamericano, convirtiéndole en el político “más popular” en Facebook,   no son más que algunos datos que avalan la necesidad de dialogo patente en los ciudadanos y una nueva forma de entender la comunicación política y electoral desarrollada por los candidatos y partidos. En esta comunicación nos aproximaremos a esta nueva realidad y a sus efectos en la comunicación electoral. Para ello, analizaremos las características de estos “nuevos medios” que, a diferencia de los medios tradicionales, permiten el intercambio con el electorado. Además abordaremos su naturaleza y los cambios que introducen respecto a la comunicación electoral desarrollada a través de los medios de comunicación tradicionales. Finalmente, nos ocuparemos de las sinergias que estas nuevas herramientas crean con la comunicación offline en el período de Campaña Electoral, potenciando la efectividad de los mensajes y su capacidad de movilización. Nuestro objetivo, en última instancia, es demostrar que el escenario que plantean los nuevos medios exige reconsiderar la forma de entender la comunicación política y electoral.

 

4. Inês Amaral e Helena Sousa: Sociedade e comunidades 2.0: Uma proposta para equacionar modelos de comunicação num “alvo” em movimento

Neste trabalho defendemos uma mudança de paradigma social e comunicacional introduzida pela web e pretendemos reflectir sobre o panorama das redes sociais na Internet e dos seus suportes, equacionando a emergência de uma nova sociabilidade

Apresentamos uma conceptualização sobre o papel das redes sociais em cenário digital e operacionalizamos a distinção entre Sociedade 2.0 e Comunidade 2.0, recuperando os conceitos de Ferdinand Tönies (1985) e actualizando-os à luz do suporte técnico da nova sociabilidade desterritorializada e participativa: os media sociais.

Assumindo que a nova sociedade tem por base a exclusão do determinismo territorial e pode operacionalizar (nas sociedades ditas “info-incluídas”) uma divisão social e cultural de indivíduos, a proposta que apresentamos pretende contribuir para um quadro teórico com reflexões sobre a emergência de uma nova sociabilidade desterritorializada, assente num modelo de comunicação que está em permanente mutação, transformou o conceito de utilizador em “Consumer 2.0” e criou a possibilidade do receptor ser agora produtor para uma audiência global – estaremos no início da era dos “prosumers” em larga escala?

Nesta perspectiva, procuramos compreender se os ambientes das redes sociais constroem uma realidade social própria (independente do denominado “mundo offline”), baseada na actualização de antigas utopias como a “Era de Emerec”, de Jean Cloutier (1975).

 

5. Leila Nogueira e Marcus Kalil: Webjornalismo político e o processo comunicativo de Habermas

A comunicação proposta abordará o tema do webjornalismo político sob a ótica do processo comunicativo concebido por Habermas em sua teoria discursiva do Direito, tendo em vista a necessidade de conciliar os filtros presentes nas rotinas jornalísticas de produção com o conceito habermasiano da "situação ideal de fala".  

A democracia representativa brasileira enfrenta um momento de crise, caracterizada pelo distanciamento entre representantes e representados. Impõe-se a superação desse abismo que atualmente separa os governantes dos cidadãos, inserindo-se estes últimos nos debates que, formando a opinião pública, devem preceder e orientar as escolhas políticas daqueles.

Com sua teoria discursiva, Habermas oferece uma importante contribuição para o aprimoramento da democracia, propondo a inclusão do cidadão no papel de co-autor do ordenamento jurídico a que se sujeita. Para tanto, prega a legitimação do Direito pelo processo de normatização racional, resultado do agir comunicativo dos cidadãos no âmbito da esfera pública, definida como "uma rede adequada para a comunicação de conteúdos, tomada de posições e opiniões" (HABERMAS, 2003: 92). A imprensa é um importante elemento da esfera pública, do que decorre a necessidade de se investigar como ela pode melhor desempenhar seu papel no processo comunicativo descrito pelo filósofo alemão, ainda que precise aplicar certos filtros para definir o que será publicado.

Essa investigação será conduzida com base numa perspectiva teórico-empírica e partirá da premissa de que os meios tradicionais de comunicação padecem de maior interferência dos interesses econômicos, pois requerem grandes volumes de capitais para sua instalação e funcionamento, restando à internet, um papel de destaque na democratização da informação, inclusive, jornalística, dados os baixos custos de sua operação. Nessa linha de raciocínio, a pesquisa concentrar-se-á nas potencialidades do webjornalismo político como atividade capaz de, com menor dependência do poder econômico, informar o cidadão sobre o andamento da atuação de seus representantes, de um lado, e, de outro, captar e divulgar a opinião pública, aproximando os agentes políticos de seus representados.

As teorias do jornalismo que estudam as rotinas de produção da notícia (Newsmaking) referem-se à figura do Gatekeeper (guardião do portão) para pensar o papel do editor, reponsável por selecionar ou descartar as informações que vão ou não ser transformadas em notícias num determinado veículo (TRAQUINA, 2005, p.150). Este jornalista funciona, portanto, como um filtro que, diante da "superabundância de acontecimentos", retém uns e libera outros a partir da aplicação de diversos critérios de noticiabilidade, alguns bastante subjetivos, e dessa forma define o que vai ser visto e comentado pelo público.

Entretanto, a instituição jornalística não deixa de ser vista como fundamental para a consolidação da democracia em nenhum país do mundo por aplicar esses filtros. Ao contrário, é encarada como um elemento essencial para a manutenção do processo democrático das diversas nações do globo. Com o surgimento da internet e a evolução do jornalismo neste novo espaço, percebe-se que as possibilidades de acesso direto a informações de fontes oficiais são ampliadas e o cidadão comum passa a poder acompanhar mais de perto as instâncias sociais e a poder participar mais ativamente dos processos democráticos. É importante considerar, porém, que esta é apenas uma das potencialidades oferecidas pelo ciberespaço. Não há como garantir que, por ser possível, será real. Até porque, quanto maior for a oferta de informações, maior será também a necessidade de separar o que tem credibilidade do que não tem.

 

6. Ricardo Nicola: Ciberdemocracia e os sistemas transmidiáticos: Relações e reconfigurações

Graças aos aportes teóricos da definição da cibercidadania da pesquisa anterior (2006-2008), esta comunicação pretende traçar os caminhos para identificar as características e os desdobramentos da (re) construção dos conteúdos da mídia e sua logística através da legitimação dos ferramentais de linguagem das plataformas de tecnologias móveis e fixas. Aí entraria o papel das "tag", compreendidas como instrumentos do ciberdiscurso, em que se operacionaliza o conteúdo em função da gerência e distribuição das edições on-line. Sendo assim, visualizaremos os novos modelos de comunicação transmidiática focado mais nas mídias interativas - dentre as quais, a TV Digital, a web, os celulares, etc. - para detectar quais as falhas e as virtudes em seus modelos de produção jornalística, de entretenimento entre outros, para com isso trabalhar as tags tanto num papel info-inclusivo e, portanto, na promoção da ciberdemocracia -  dentro da cibersociedade - como de estudar o processo de sua criação.   

Sabe-se que o número de marcações textuais na rede e nos diversos sistemas convergentes midiáticos vem crescendo vertiginosamente. E o motivo desse crescimento pode ser melhor explicado pela forma como se caracteriza a ciberleitura, ou seja, ela tem como premissa os nós dos hiperlinks e constrói e reconstrói o conteúdo através da sintaxe das tags, tornando o mesmo vinculado a um conjunto de significantes – palavras, imagens, sons etc – que vão “propor” o sentido. Em outras palavras, como se caracteriza tal sintaxe?        

Num primeiro momento, verifica-se um manancial de dados formativos e informativos na web que se articula numa varredura a-linear proposta pelo ciberleitor. Esta, portanto, é a primeira etapa de como a respectiva sintaxe se operacionaliza; pois que, no decorrer do trajeto de recuperação de dados, tem vindo a delinear seu modus operandi e, de forma processual, tem procurado a legitimação dos seus conteúdos e procurando promover os processos de ciberdemocracia.

 Em vista do comportamento do cibercidadão (Nicola, 2007), os novos meandros da construção do sentido passam a ser novas variáveis do sistema cibernético, nos quais a codificação da tessitura comunicacional já não se estabelece sozinha do eixo imagem-texto bem como os direitos on-line. Ela procura uma forma híbrida em todos os momentos, dificultando separar o dado verbal do visual, os direitos dos deveres, e vice-versa, bem como minimizando a obrigatoriedade da vinculação de um significante a algo que será significado (Turkle, 1997).

Logo, a hibridização dos conteúdos digitais tem sido a marca registrada das tags e, numa primeira instância, as características apontadas acima podem até não parecer inéditas, mas a dificuldade de como se apreende a (re) construção do sentido, sua produção textual on-line e a cibercidadania, presentes no audiovisual digital, certamente o são. Em outras palavras, já é percebido há tempo pelos profissionais de comunicação o enigma que o texto digital jornalístico representa, razão primeira da dificuldade em sua produção num contexto transcultural.

De posse das características multivocal e multimodal (Lévy, Kerchkhove, 2008) do matriz digital, têm se definido e estabelecido as principais regras que auxiliam as diferentes atividades dos profissionais de comunicação envolvidos direta e/ou indiretamente nos ambientais digitais. Como somatório, a dimensão espaço-temporal em que a apreensão do texto virtual e sua recuperação se inscrevem, tem tornado cada vez mais complexa e até mesmo mais imprecisa as principais características de sua produção e reprodução. Além das considerações apontadas, o projeto tem, todavia, delineado, caracterizado e desmistificado a net apenas como o único local da produção e reprodução do jornalismo e de outras produções midiáticas. Entram em cena também os dispositivos móveis atuais (iPodR, iPhoneR, celulares, TV digital interativa, HDTV, IPTV etc.) e eles têm representado novos terrenos, ou multiplataformas, em que se solidificam pouco a pouco as matrizes do cibertexto. Dentro desta questão ainda, elencam-se os instrumentos que viabilizam os novos terrenos pós-modernos da glocalidade (Canclini, 1999) das transmídias com sua mobilidade loco-regional. Em geral, tais instrumentos são entendidos como novos desafios para a compreensão e, até mesmo, a convivência nas esferas cibersociais da pós-modernidade - já tão estudada - nos campos técnico e estético. Nesse trânsito de dados formativos, sejam eles do ponto de vista do conteúdo e/ou da forma - aí entrariam as produções jornalísticas nos dispositivos móveis – esta comunicação relaciona também as etapas que viabilizam a logística dessas novas mídias. O intuito principal tem sido o de estabelecer interfaces on-line hipermidiáticas mais compromissadas com todo tipo de produção digital, inclusive a jornalística, e a (re) construção do seu sentido, relegando para segundo plano seu objetivo tão-somente comercial promovido, em geral, pelas operadoras de telefonia móvel entre outros.

 

7. Geovana Maria Cartaxo de Arruda Freire e Elisianne Campos de Melo Soares: Cibercultura e direito de acesso à informação: Os casos Hadopi e Azeredo

O advento das tecnologias digitais possibilitou não apenas o surgimento da cibercultura e do espaço virtual, mas também o desenvolvimento de uma nova identidade humana no ambiente do ciberespaço e a desmaterialização das obras culturais.

A metamorfose dos suportes materiais onde tradicionalmente se fixavam as produções intelectuais foi o fator facilitador da distribuição destas produções. A simplificação dos processos de difusão de informações encontrou seu ponto alto com a Internet, tecnologia capaz de tornar nulas as distâncias geográficas e ligar, com uma rapidez jamais antes imaginada, indivíduos nos mais diferentes lugares do planeta.

A web nasceu com o ideal libertário e democrático de abrir o acesso dos indivíduos às produções intelectuais humanas. Por isso, ela se tornou a ferramenta da construção do saber coletivo por excelência, permitindo a descentralização do poder produtivo de informações e fomentando a recriação e remixagem do conteúdo de todos por todos.

No contexto da cultura livre, surgida com a web, as legislações que versam sobre os direitos autorais se vêem diante da necessidade de adaptação às mudanças das formas de produção, difusão e distribuição trazidas pelas novas tecnologias. O conflito entre os interesses públicos – dos usuários da Internet – e privados – dos autores e indústrias produtoras de obras culturais – se intensifica, e clama pelo difícil equilíbrio entre os diferentes atores sociais.

Na tentativa de atender às pressões dos majors da indústria, os governos elaboram projetos de leis que procuram regulamentar a Internet e exercer algum controle sobre o ambiente virtual. Tais atitudes devem ser observadas com cautela, já que alguns dos projetos apresentados endurecem a legislação a ponto de dificultar o acesso à web – através da burocratização - e até mesmo ameaçam, em alguns de seus pontos, o direito humano de acesso às informações.

Tendo em vista o objetivo de democratizar o acesso dos indivíduos à comunicação e às produções intelectuais de outros indivíduos, é preciso analisar criteriosamente as proposições de tais projetos, suas consequências e suas reais finalidades.

Propõe-se, portanto, a análise de dois projetos polêmicos: a Lei Criação e Internet, denominada HADOPI, criada na França, e o projeto de lei conhecido como Azeredo, surgido no Brasil. A partir das propostas de cada um dos projetos, analisa-se como as determinações de ambos os textos podem influenciar as atividades dos usuários na web.

 

8. Gerson Luiz Martins: As redes sociais e o ensino do ciberjornalismo

O trabalho faz uma análise da utilização das redes sociais no ensino de ciberjornalismo. Na maioria das escolas de jornalismo, o ensino de ciberjornalismo acontece, principalmente, por meio dos Blogs. Em algumas, os professores, ou os cursos em certa medida, proporcionam um ensino baseado no aprender a fazer fazendo e usam sistemas de publicação desenvolvidos na própria universidade, no caso de Campo Grande os exemplos do jornal laboratório na internet Em Foco e na Uniderp o caso do Unifolha. Na UFMS, assim como em vários cursos de jornalismo, se utiliza sistemas de publicação desenvolvidos por instituições comerciais, é o caso da Escola da Prática da UFMS. Entretanto, a maioria dos cursos, devido às dificuldades de se construir sistemas de publicação mais amigáveis e que atendam às demandas da produção dos alunos, usam os Blogs e aí pode-se citar inúmeros exemplos. Não obstante ao uso de sistemas de publicação próprio, comercial ou no formato de Blogs, há uma crescente utilização das redes sociais no processo de produção das notícias, principalmente Facebook, Orkut, Twitter, YouTube e ainda MSN. As redes são utilizadas para pautar as matérias, auxiliar na apuração por meio do intercambio de informações entre os estudantes-repórteres, para agendamento de entrevistas e pesquisa jornalística. Os recursos do YouTube são utilizados principalmente para oferecer outros suportes de informação, além do texto e das fotografias, como ferramenta para laboratório de jornalismo multimídia. O uso das redes sociais no ensino de ciberjornalismo acontece, na maioria das vezes, no processo da pesquisa jornalística. Esse processo se desenvolve pela troca de informações entre os estudantes, como citado, e ainda para o processo de edição em que os estudantes-repórteres mantém relacionamento com as fontes secundárias e com as assessorias de imprensa das fontes principais.

Um outro aspecto do uso das redes sociais na produção laboratorial em ciberjornalismo acontece no jornalismo participativo. Os estudantes-repórteres, em conformidade com as orientações dos professores responsáveis, abrem espaço de notícia e opinião para pessoas da comunidade, em pautas que são escolhidas como destaque nas edições especiais dos ciberjornais laboratórios. No que diz respeito ainda ao uso das redes sociais, um dos aspectos mais relevantes acontece na repercussão das notícias. Esse resultado é um dos elementos motivadores para os estudantes, pois têm oportunidade de receber um feed-back do seu trabalho. No projeto Escola da Prática, o estudante é recomendado a montar um portfólio de seus trabalhos. Essa recomendação é comparada àquilo que é realizado pelos estudantes de publicidade, como forma de constituir um currículo dos trabalhos a ser apresentado em propostas de trabalho profissional depois de formados. A recomendação de impressão acontece devido às possibilidades de perda do material publicado na rede, é um “seguro” para que as matérias produzidas não sejam perdidas, apagadas nos servidores repositórios dos ciberjornais laboratórios. Segundo estudo realizado por RECUERO (2009), “outro elemento que é característico das redes sociais na Internet é sua capacidade de difundir informações através das conexões existentes entre os atores”. Esse é um dos fenômenos que promovem essas redes no processo de apuração, ou melhor, de produção das pautas nos ciberjornais laboratórios, no processo de aprendizagem nas escolas de jornalismo.

Este trabalho analisa e avalia a importância do uso das redes sociais também como elemento que promove a identificação dos estudantes e desencadeia um uso profissional a despeito da perspectiva pessoal e de entretenimento normalmente realizada pelos jovens na adolescência e na juventude.

 

 

Sala 1.07 do ID

Moderador: Hélder Bastos (CIMJ e UP)

Comunicações:

1. Carmela García Ortega e Patricia Lafuente Perez: Las elecciones al Parlamento Europeo de 2009 en la prensa de referencia española: una cobertura en clave nacional

El pasado 7 de junio de 2009 los europeos acudieron a las urnas para elegir a sus representantes en el Parlamento Europeo. La campaña electoral fue seguida muy de cerca por los medios españoles. En concreto, este trabajo describe cuál fue el tratamiento que los dos principales diarios de referencia, El País y El Mundo, dieron a esta campaña.

Utilizando como método de investigación el análisis de contenido, este estudio pone de relieve cómo los medios españoles cubrieron en clave nacional una campaña de corte europeo y cómo dos temas, crisis económica y corrupción política, acapararon la mayor parte de la atención. 

Por último, esta investigación concluye mostrando, al igual que otros estudios, cómo las elecciones europeas son consideradas como comicios de segundo orden tanto para los medios, como para los políticos y la sociedad.

 

2. Tendai Chari: Press coverage of Zimbabwe’s 2008 election in two weekly newspapers

The election of 29 March 2009 in Zimbabwe has been the most controversial and widely publicized since the country attained independence from Britain in 1980. Having widely conceived as a conflict resolution mechanism which would end the country’s debilitating economic and political crisis of eight years the electoral outcome instead deepened the sense of political and economic uncertainty.  Zanu PF, the party which led the country to independence and had ruled for twenty-seven years lost its parliamentary majority for the first time to the opposition Movement for Democratic party (MDC), and its veteran leader Robert Gabriel Mugabe suffered his first defeat at the hands of the MDC’s Morgan Tsvangirai. However, Tsvangirai failed to secure the mandatory 51% for an outright victory thus, necessitating a run-off between Mugabe and Tsvangirai. Because of the high the stiff electoral competition and the curiosity associated with the elections events leading to the March harmonized elections and the presidential run-off attracted phenomenal media attention locally and internationally and the media became the battle ground for winning the hearts and minds of the electorate. The objective of this paper is to analyse coverage of the March 29 harmonized election and the 27 June Presidential run-off election in two weekly newspapers, namely state owned The Sunday Mail and the privately owned The Zimbabwe Independent. The paper focuses on media coverage as one possible factor of electoral outcomes and examines the representation of political actors and issues in the two newspapers with a view to understand ideological imperatives influencing such representation. The assumption here is that the press influence public opinion and perceptions and are the main source of information about public affairs in modern society. They social construct reality by selecting ‘relevant news’, accentuating certain issues while disregarding or downplaying others. Tentative observations  in this paper are that press coverage of the 2008 elections mirrors the contours chalked by media ownership, ideology and the socio-political divisions within the Zimbabwean society at the time of the elections.

 

3. Ericka de Sá Galindo: O jornalismo e o judiciário: Um olhar sobre a cobertura do julgamento da denúncia do “mensalão” no Supremo Tribunal Federal

O artigo pretende apresentar os caminhos traçados pela pesquisa desenvolvida durante o Mestrado na Universidade Federal de Pernambuco. O objeto de estudo escolhido foi o material produzido por dois periódicos de circulação nacional no Brasil durante a cobertura do julgamento da denúncia do chamado “esquema do mensalão”, no Supremo Tribunal Federal. O julgamento foi considerado o maior e mais importante na história da Corte, e incentivou a discussão, na grande mídia, de assuntos como a transparência do Judiciário brasileiro e a defesa da democracia.

O esquema do “mensalão” foi denunciado em 2005 pelo então deputado federal Roberto Jefferson e, segundo as denúncias, consistiu em um esquema de pagamento de propina a membros da base governista no Congresso em troca de votos. O esquema foi investigado e, em 2007, o caso chegou à pauta de julgamentos do Supremo Tribunal Federal, com 40 denunciados, entre membros do legislativo, executivos da administração federal e ex-ministros. O julgamento resultou na abertura de processo criminal contra todos os 40 denunciados, o que fez desse o julgamento de maior peso para a democracia brasileira.

A pesquisa está concentrada nos jornais Folha de S. Paulo e O Globo, dois periódicos de grande circulação nacional e protagonistas de dois episódios marcantes na cobertura: O Globo publicou fotos dos computadores pessoais de ministros com mensagens sobre as decisões; e a Folha de S. Paulo publicou trechos de uma conversa entre um ministro e seu irmão, após o julgamento, em que o ministro afirmava que o STF havia julgado sob pressão. A conversa foi ouvida por uma repórter do jornal, em um restaurante em Brasília. Esses dois episódios colocaram o jornalismo no primeiro plano do julgamento por causa da influência que a cobertura teria tido no desfecho do caso.

Além da classificação e análise das notícias, realizamos entrevistas semi-estruturadas com os jornalistas dos dois jornais que participaram da cobertura do julgamento. As impressões e informações colhidas nas entrevistas serviram para contextualizar e justificar algumas decisões editoriais durante a cobertura. A garantia de anonimato oferecida aos jornalistas entrevistados também contribuiu para conversas francas e reveladoras.

 As teorias utilizadas para dar suporte à análise das notícias e entrevistas foram a Teoria da Produção da Notícia e a Teoria das Representações Sociais, dentro do paradigma das teorias construtivistas.  Nosso objetivo foi identificar como a cobertura do julgamento da denúncia do “mensalão” contribuiu para a construção de uma idéia do Judiciário brasileiro e como o julgamento foi representado pelos dois jornais analisados.

A análise da cobertura aponta para a existência de algumas dificuldades dos jornalistas em cobrir o Judiciário e, também, do Judiciário interagir com a imprensa. Observamos, também, que a cobertura do julgamento do “mensalão” serviu para que jornalistas e editores pudessem refletir sobre como estão cobrindo temas relacionados aos direitos do cidadão, transparência do serviço público e democracia.

 

 

4. Valentina Marinescu: Framing the (I)migrant: The case of Romanian migrants images in Romanian media

Mass media play a central role in the formation of communities by creating an imagined unity among people and a sense of belonging to a community among them (Anderson, 1991). At the same time, media constitute one of the major sources of information that people use to shape their conceptions of self, others and the world. Media products, such as news, are also cultural artifacts that are deeply embedded in cultural, social and economic structures. Journalists use dominant frames of interpretation of the world and events they present in the news, defined as “persistent patterns of cognition, interpretation, and presentation, of selection, emphasis, and exclusion, by which symbol-handlers routinely organize discourse, whether verbal or visual” (Gitlin, 2000,1980:12).

The paper the analyses of the ways in which Romanian migrant identities are re-constructed through communication at transnational and national levels. As the starting point we took the recent debate about Romanian immigration in Italy (November 2007) and the issue of “national” identity it encompass. The events that took place in Italy had leaded the Romanian media to adopt a new editorial policy. In this way, some newspapers and audiovisual stations had started to daily present events located in the major Romanian communities of migrants spread all over European Union.

As the research hypothesis we propose the following ones:

1. The type of key elements which constitutes the stereotypical media representations of Romanian migrants will not vary among various Romanian printed media along four domain of interest: education, occupation, religion, and ethnicity.

2. The typology of reporting about Romanian migrants in the case of Romanian newspapers will highlight their negative and marginal actions within the emigrant country (and will minimize their social and civic involvements).

The research universe will comprise sample made from two national newspapers that has thematic sections devoted to “diasporic Romanian communities” from Europe. The sample was composed of articles published on the topic of the Romanian work force migration in the countries of the European Union in the intervals January 29- February 23 and April 6-22 in four main Romanian newspapers: Cotidianul, Adevărul, Jurnalul Naţional and Evenimentul Zilei. Both the qualitative and the quantitative research methods will be adopted in analyzing the empirical set of data. On the basis of „methods’ triangulation” principle and for validity reasons, the main methods of data collection will be: the quantitative content analysis, and the discourse analysis.

 

5. Rosangela Ferreira de Carvalho Borges: Os africanos dos PALOP na revista Afro: representações identitárias na mídia étnica em Portugal

O objetivo desta investigação é apresentar como são construídas as representações identitárias dos africanos dos PALOP (Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa, nomeadamente Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe) e seus descendentes, residentes em Portugal, na revista portuguesa Afro (estudo de produção), primeira publicação comercial etnicamente dirigida aos leitores africanos dos PALOP, durante o período de fevereiro de 2008 – lançamento da revista - a fevereiro de 2010, com a finalidade de situar os discursos que se constroem na revista e suas implicações no cotidiano destes africanos (estudo de recepção).

A investigação conta com uma análise de conteúdo sistemática do universo textual da revista Afro, na qual são recolhidos os discursos que fazem referência aos traços culturais e físicos diferenciadores, como forma de identificação do grupo a que se destina, ou seja, os africanos dos PALOP. O método utilizado na investigação é o quali-quantitativo, tendo como instrumentos de coleta de dados a análise de conteúdo, através da ferramenta computadorizada SPSS, e análise de discurso das entrevistas em profundidade com jornalistas da revista Afro e com os africanos dos PALOP e/ou descendentes, assinantes da revista.

Os primeiros trabalhos analisando as representações na mídia de imigrantes e de minorias étnicas remontam a finais dos anos 60 e início dos 70 do século XX, no âmbito dos Estudos Culturais, na Inglaterra. Em Portugal, é a partir de meados dos anos 90 que surgem os primeiros estudos focando desde o impacto geral da imigração no país à sua representação nos veículos de comunicação social, fundamentalmente na imprensa e na televisão. Entre os estudos de referência em relação à representação dos imigrantes e das minorias étnicas na mídia portuguesa, podemos destacar, inicialmente, os trabalhos de Cunha (1995; 1996; 1997; 2004; 2006), Cádima (2003), Santos (2005), Valdigem (2006), Silva Filho (2006; 2008), Lisboa (2007) e Borges (2008). Todos estes estudos, preservados às suas peculiaridades, apontam que parte significativa da representação étnica da imigração, construída pela mídia portuguesa, é proveniente de uma herança do passado imperialista do país, o que resultaria nos dias de hoje um enquadramento dos noticiários focado em percepções estereotipadas em relação aos imigrantes.

Na sequência dos estudos anteriores, esta investigação vem complementar e alargar as discussões e as reflexões sobre a representação da identidade étnica dos negros em Portugal, oriundos dos países africanos de Língua Portuguesa, nos media, produto cultural, em consonância com as prerrogativas da CPLP - Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, que privilegia a criação e a projeção internacional cultural dos valores dos povos que falam o português. 

 

6. Rita Joana Basílio de Simões: Media, prisões e justiça: o lugar da reclusão penitenciária no espaço púbico mediatizado

A visibilidade contingente de que gozam a justiça criminal, as instituições penitenciárias e as pessoas sujeitas a penas privativas da liberdade é um elemento da democracia que raramente é pensado. Tal visibilidade, pressupõe, por outro lado, o entendimento do papel exercido pelos media no espaço público, onde as lutas pelo reconhecimento dos conflitos e dos actores sociais que os originam têm lugar. Resultante, em primeira instância, de sucessivas mudanças na complexidade da interacção social (Thompson, 1995), este circunstancialismo epistemológico corresponde à reivindicação de um pensamento renovado, sensível à mediação comunicacional e à influência dos media na construção pública da justiça ou, como propõe de forma estimulante Habermas (1996), na formação e legitimação das leis e das decisões políticas.

Desde os clássicos estudos sobre a produção e amplificação de notícias de crime e condutas desviantes, surgidos nos anos de 1970 (Chibnall, 1977; Cohen, 1972; Cohen e Young, 1973; Hall et al., 1978;Young, 1971), que esta compreensão vem sendo ensaiada com maior ou menor investimento empírico. Atenta aos arranjos organizatórios passíveis de explicar a proeminência de uma nova cultura securitária, combinada com o acréscimo da população reclusa e o encarceramento regular de mulheres e de outros grupos sociais sem status, esta área de estudo oferece-nos visões dos media como fóruns colonizados por interesses dominantes, onde o consenso sobre a necessidade de políticas penais severas é orquestrado (Becket e Western, 2001; Garland, 2001; Newburn e Jones, 2001; Pratt, 2007; Reiner, 2002). Situada, sobretudo, nos Estados Unidos, mas com ressonância no Reino Unido e na Europa continental (Wacquant, 1999; Rivera Beiras, 2005), a viragem punitiva é explicada como o produto da acção dos media, da classe política e da descrença na ortodoxia preventiva, saliente na normatividade penal (Murphy, 1973; Wilson, 1975). 

A questão que se impõe, neste contexto, é se, entre nós, onde o debate reflexivo sobre a representação mediática e a realidade das práticas penais permanece por explorar, se encontram traços do discurso da emergência de uma cultura penal de excepção (Rivera Beiras: 2005: 174). Justamente com este propósito, ocupa-nos, neste trabalho, a construção simbólica do universo penitenciário, tendo por base a concepção de esfera púbica como plataforma democrática da formação da opinião (Habermas, 1996) e arrancando de uma perspectiva de género, sem a qual não é possível compreender o espaço público enquanto infra-estrutura que valoriza a pluralidade discursiva e possibilita o exercício da cidadania (Fraser, 1992; Silveirinha, 2004).

Superando o pensamento impressivo do qual o debate internacional parece emergir (Mathews, 2005), propomo-nos estudar o discurso mediático sobre as prisões a partir da consideração da sua visibilidade nas edições de 2008 de dois títulos da imprensa diária portuguesa. Orienta a nossa análise o pressuposto de que, se, por um lado, e tal como defende a tese foucaultiana (1975), a prisão nasce na esteira da passagem do espectáculo grotesco das execuções públicas para o exercício discreto do poder punitivo, que encontra no edifício prisional um laboratório apropriado para se aperfeiçoar, por outro, a natureza mediatizada do espaço público desestabiliza este argumento, crescentemente rarefeito à medida que os media se tornam em plataformas de expressão pública de preocupações e sentimentos populares para com a justiça e de propostas penais concretas da classe política. Guia ainda o nosso estudo o facto de, não obstante o decréscimo na lotação das prisões que a reforma legal de 2007 espoletou, a percentagem de população reclusa e a proporção do encarceramento feminino continuarem a afastar Portugal do conjunto dos países da Europa central (ICPS, 2009), onde estes mesmos índices são inferiores.

Além de problematizarmos as correlações entre aquelas idiossincrasias e o discurso mediático, sobre o qual lançámos uma análise discursiva e de conteúdo, procurando, por essa via, aferir o papel dos media na manutenção da reclusão penitenciária como a solução para o crime, a nossa investigação mostra como as relações de género desempenham um papel axial na estruturação da vida societária, lícita e ilícita, livre e em reclusão. A pesquisa situa-se, assim, em um terreno pouco explorado, mas, em todo o caso, essencial para a compreensão da democracia, a saber, o entendimento das estruturas de mediação da formação da opinião pública sobre o lugar da reclusão penitenciária e o sentido da justiça penal.

 

7. Luciana Miranda Costa: A imprensa brasileira e as questões ambientais no início do século XXI: Superficialidade e exclusão na cobertura jornalística

Este artigo trata da intensificação da temática ambiental no noticiário da grande imprensa brasileira no período 2002-2006. O objetivo da pesquisa, que teve apoio do CNPq, foi analisar, com ênfase na temática dos desmatamentos e incêndios florestais, como se estruturou o discurso da mídia impressa brasileira no início da década, quando o tema se tornou constante. Além disso, buscou-se analisar como os diferentes sentidos produzidos pela mídia impressa construíram e foram construídos a partir das diversas formações discursivas, que embasaram o discurso jornalístico através de suas “fontes” de informação. A base principal de dados foi obtida por meio da seleção, sistematização, comparação e análise de 1096 reportagens publicadas nas principais revistas (Veja, Isto É, Época) e jornais brasileiros (Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo, Correio Braziliense, Jornal do Brasil, o Globo, O Diário do Pará e o Liberal), coletadas nos sites dos veículos mencionados.

O instrumental teórico de análise, ancorado na Semiologia dos Discursos Sociais, esteve atrelado à premissa de que as relações de comunicação, analisadas através do discurso jornalístico, são relações de poder que dependem do capital simbólico dos agentes e instituições envolvidos, relacionado às estruturas materiais e institucionais da sociedade. O discurso é a principal arena na qual os diferentes capitais dos agentes lutam pelo poder simbólico e pela hegemonia de modos de perceber, definir e representar o mundo. O discurso possibilita apreender o consenso e o conflito existentes nas relações sociais através das “marcas” que ele carrega. Os sistemas simbólicos irão cumprir sua função política de instrumentos de imposição ou de legitimação da visão de mundo dominante, na medida em que são instrumentos estruturados e estruturantes de comunicação e conhecimento.

As principais conclusões da pesquisa podem ser assim resumidas: 1. A maioria das reportagens analisadas pode ser caracterizada como descritiva e factual, marcada por um tom de “alerta ambiental”, sem o necessário aprofundamento sobre as causas, conseqüências e repercussões dos fatos mencionados tornando-se insuficientes para informar e contribuir para formação de cidadãos preocupados com a questão ambiental ou para própria concepção de políticas públicas relacionadas ao tema; 2. As madeireiras e os sojeiros foram apontados na maioria dos textos jornalísticos como os grandes responsáveis pelo desmatamento na Amazônia; 3. Os veículos de abrangência nacional recorreram com bastante freqüência a fontes externas para embasar seu discurso, boa parte composta por cientistas e pesquisadores de universidades e ongs (organizações não governamentais) internacionais. No entanto, não houve questionamento por parte dos jornalistas, na grande maioria dos casos, sobre a validade, veracidade ou legitimidade da metodologia e resultados dessas pesquisas; 4. Os agricultores familiares, médios fazendeiros, índios e seus respectivos órgãos de representação apareceram de “forma secundária” nas matérias durante o período. Os índios, especialmente nas matérias locais, foram colocados ora como “vilões” da extração ilegal de madeira em terras públicas (parceiros de madeireiras) ora como “vítimas ingênuas” das madeireiras. O discurso jornalístico do período estudado (2002-2006) foi construído a partir de quatro formações discursivas principais: o discurso político do desenvolvimento sustentável, o discurso científico, o discurso ambiental das ongs e o discurso empresarial (com enfoque para as madeireiras). Esta tendência, provavelmente se manterá pelos próximos anos, pois se trata das vozes detentoras do conhecimento específico sobre a temática ambiental ou que dispõem de maior poder econômico.

 

8. Ana Paula de Siqueira Saldanha, José Wagner Ribeiro e Ana Célia da Rocha Santos: Simulacro da política e os telejornais

Partimos da proposição de que a televisão sempre foi fundamental para a política. Durante a ditadura militar no Brasil (1964-1985), a realidade política assumiu as formas permitidas pela simulação, graças à intervenção da mídia. Weber (2000) relembra que “o governo difundia a sua própria visão da realidade, diluindo certos fatos, criando outros e recorrendo a procedimentos de coerção, censura e violência”. Na contemporaneidade, guardando as devidas ressalvas, a mídia realiza operações através do sistema midiático tele-informativo, que exerce um papel fundamental, pois serve de canal de comunicação entre os diversos campos sociais constituídos e a população, no sentido de difundir e consolidar idéias e propostas que atendam aos seus interesses.

Assim sendo, a mídia, ao capturar regimes políticos, barganha relevância de cunho fundamental ao tomar para si os objetivos governamentais, formatados pelas tecnologias e por linguagens próprias desse meio, caracterizando-se como um sistema de comunicação pública, cuja função foi e é proporcionar homogeneização ou clivagens de imagens, ações discursivas e identificações políticas, já que, para difundir suas ideologias, os sistemas políticos necessitam de um meio de comunicação. Para realizar esse movimento, o telejornalismo, em período ditatorial, recorreu a diferentes suportes na construção de um Brasil “novo”, apresentando-se como locus de realização e simulacro da política. A estética publicitária foi um dos modelos mais utilizados pelo campo, no sentido de mascarar determinadas variáveis que emanassem do poder público constituído. Indagamos, pois: o que mudou vinte e três anos após o fim do regime ditatorial no que remete às relações/imbricações entre os campos da mídia e da política em tempos de democratização?

Para além das novas configurações sócio/político/econômicas que se apresentam na contemporaneidade, a “dita” liberdade de imprensa que permeia o nosso dia a dia, podemos observar que nos últimos dezoito anos, quando da primeira eleição direta pós-regime ditatorial, a mídia constituiu-se como campo de vetorialização dos demais campos sociais, com maior protagonismo público no processo de produção e difusão da informação. O profissional de comunicação assimila essa ascensão como status de conhecimento, julgando-se o detentor da razão, atribuído de poderes decisórios de justiça. O diferencial que encontramos entre esses dois “Brasis” é que o primeiro, ditatorial, permeava a censura, a repressão coercitiva, as atrocidades físicas contra o indivíduo que contestasse aquela forma de governo; nos dias atuais, os métodos empregados não são explícitos, mas subliminares/icônicos. O campo midiático, apesar de caminhar paripassu com os poderes públicos constituídos, tem suas rotinas produtivas guiadas por uma cultura organizacional própria, e sua funcionalidade obedece a uma filosofia que esta sintonizada com seus interesses político/econômicos.

Nosso trabalho busca investigar os mecanismos mais utilizados pela mídia telejornalística, explorando declarações de candidatos que tencionavam forjar um simulacro dos acontecimentos a depender dos mecanismos imputados à imagem social do candidato no próprio setting midiático. Pontualmente, examinaremos as eleições majoritárias municipais nos Estados de Alagoas, Bahia, Ceará e Pernambuco. Ateremo-nos às entrevistas realizadas no lócus telejornalístico e aos debates que possam vir a ocorrer no primeiro e segundo turnos das eleições nas mencionadas capitais.

 

 

Sala Multiusos 3

Moderador: Cristina Ponte (CIMJ e UNL)

Comunicações:

1. Wedencley Alves e Marco Túlio de Sousa: A fé na TV: Uma análise de discurso e argumentação do programa Show da Fé

O crescimento das religiões pentecostais no mundo é notável. No Brasil, ultrapassaram, em número de fieis, as protestantes históricas e já somam vinte e seis milhões (15,4%) segundo o censo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) no ano de 2000. A maioria das denominações pentecostais, principalmente as chamadas neopentecostais, utiliza os meios de comunicação como forma de atingir a um maior número de pessoas.

Diante desse panorama, nossa pesquisa visa discutir a relação entre mídia e religião. No presente trabalho, abordamos o Show da Fé, programa pertencente à Igreja Internacional da Graça de Deus, que é transmitido pela Rede Bandeirantes. O Show da Fé é um dos programas de destaque dentre os produzidos pelas igrejas (neo-)pentecostais do Brasil, por ser o único transmitido no horário mais valorizado da TV brasileira (entre 20h e 21h) e por ser veiculado por uma das quatro emissoras com maior audiência no país.

Como referencial teórico, utilizamos a análise de discurso francesa de filiação pecheutiana, pensando quais os sentidos presentes nos enunciados do missionário RR Soares (pastor que apresenta o programa) e dos fieis que participam do Show da Fé. A partir dessa base teórica, trabalhamos com conceitos como reversibilidade discursiva e formação discursiva, que, respectivamente, nos permitem compreender como se dá a relação entre os interlocutores, neste caso, o pastor e os fiéis, e os sentidos constituídos historicamente presentes na fala do pastor, na sua mise-en-scéne, e no arcabouço imagético do programa.

Devido às características do objeto, ou seja, o fim coercitivo claro na fala do pastor, recorremos também à teoria da argumentação de Chaïm Perelman e Lucie Olbrechts-Tyteca (1996). A teoria da argumentação nos permite observar as estratégias argumentativas presentes nos enunciados do pastor, lembrando que nesta articulação entre teoria da argumentação e teoria do discurso, passando de argumentos, tanto as estratégias quanto os enunciados são sobredeterminados pelas relações de sentido e de poder na linguagem.

O artigo é disposto em três partes bem definidas: levantamento de estado da arte dos estudos sobre a relação entre mídia e religião no Brasil; a apresentação de conceitos da teoria do discurso e da teoria da argumentação, assim como a discussão sobre as possibilidades de sua articulação, sem desconsiderar as questões próprias à inscrição epistemológica de cada uma destas teorias, e, por fim, a descrição e análise das materialidades lingüísticas e visuais, além dos sentidos que as atravessam.

 

2. Eliana da Motta dos Santos: Igrejas evangélicas e a mídia no Brasil: uma análise do discurso da revista Veja em relação às igrejas evangélicas

A investigação tem por objetivo descobrir e entender, por meio das reportagens de capa, como os jornalistas da revista Veja reportaram as igrejas evangélicas, frente ao fenômeno de expansão religiosa e as transformações sociais provocadas pelo segmento pentecostal, observando como produzem convicções, crenças e percepções sobre a identidade social dos evangélicos no Brasil.

A revista Veja é a maior publicação do gênero “revista semanal de informação” em circulação no Brasil, há 42 anos (1968 – 2010) e a quarta maior do mundo (atrás de Time, Newsweek e U.S. News). Atualmente tem 8.812.000 milhões de leitores, sendo 86% de assinantes,

A técnica aplicada, como método investigativo, será Análise do Discurso em suas narrativas e articulações. O estudo interdisciplinar, tem por base a Comunicação Social e dialogará com a Antropologia e com a Sociologia, à luz da Ética e valendo-se do referencial da Ciência da Religião e das Correntes Teóricas da Comunicação.

Hipóteses norteadoras para decifrar o comportamento dos jornalistas são: Qual o critério de relevância, da revista Veja na seleção de temas quando a abordagem refere-se às igrejas evangélicas? O imaginário religioso dos jornalistas determina a construção de sentidos? A abordagem da revista Veja privilegia e/ou manifesta preferência por algum grupo religioso/ De que forma?

Esta abordagem visa facilitar o diálogo, de forma democrática, entre a sociedade, entidades religiosas e profissionais de comunicação e não tem como objetivo “julgar” certo ou errado o procedimento das diferentes tendências religiosas do cristianismo brasileiro, pelo contrário, o principal objetivo é estudar como o jornalismo da revista Veja constrói sentidos sobre as igrejas evangélicas e como a abordagem mediática constrói a identidade social dos evangélicos como “ingênuos”, “enganados” ou “passivos” diante de líderes apresentados como corruptos, charlatães e como circula e legitimiza o discurso mediático na sociedade.

O interesse pelo tópico vem da minha experiência como jornalista independente. Iniciei a linha de pesquisa na graduação com o Trabalho de Conclusão de Curso, cujo resultado foi divulgado no site da revista semanal de crítica à mídia Observatório da Imprensa e no jornal russo Pravda, em 03 de março de 2008, pautando mais 49 sites com conteúdo religiosos e seculares.

O crescimento do protestantismo em larga escala nacional, se deu a partir dos anos 1980, atentos, os meios de comunicação abriram cada vez mais espaço para a cobertura desse segmento social. De acordo com os dados do Censo Demográfico de 2000, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os segmentos evangélicos crescem em todas as regiões do país. O número de fiéis da Igreja Católica Apostólica Romana de 83,8% em 1991 caiu para 73,8% em 2000. Já os evangélicos que, em 1991, representavam 9,1% dos brasileiros, nove anos depois, saltaram para 15,5% da população, ou seja, cerca de 25 milhões, o que representa um crescimento de 70%.

 

3. Angela Zamin: Relatos brasileiros de cobertura de conflitos: reflexões de jornalistas sobre democracia

Na produção de correspondentes e enviados especiais brasileiros, nas últimas cinco décadas, identificamos um conjunto significativo de relatos, publicados em livro, que descrevem as práticas jornalísticas de cobertura de conflitos. Considerando que o jornalismo produz efeitos de estabilidade para o que se mostra caótico, contraditório e conflituoso e que acaba por “dizer o que funciona como verdadeiro de uma época” (Navarro, 2006: 84), a partir de processualidades que lhe são próprias e que lhe permitem operar em termos de mediação e de interação (Fontcuberta e Borat, 2006), tais relatos podem ser examinados em sua potencial contribuição para reflexões sobre jornalismo e democracia.

No mundo em elaboração, os media contribuem para a definição simbólica dos acontecimentos. São suportes da identificação (Quèrè, 2005), hierarquização, atribuição de um determinado relevo (Souza e Lima, 2006) e circulação de sentidos. A propósito, o jornalismo não se nutre do que acontece simplesmente, mas daquilo que ao acontecer “produz alterações significativas na realidade presente das pessoas” (Chaparro, 2001: 41). Ao apresentar o mundo, o jornalismo participa de sua construção, ofertando mapas da realidade (Moreno Sardà, 1998). O jornalismo, portanto, não pode ser dissociado das condições de produção e da mediação nos espaços complexos da vida cotidiana (Silverstone, 2002).

A compreensão do jornalismo a partir desta perspectiva possibilita que se pense “sobre o estatuto da sua relação com o mundo da vida social” (Correia, 2005: 16). Longe de somente registrá-lo, o jornalismo atribui sentidos às ocorrências no mundo, a partir de práticas orientadas pelo contexto endógeno – a organização de trabalho, as regras anônimas que disciplinam historicamente o jornalismo, a comunidade jornalística – e exógeno. A esse último correspondem elementos sistematizados, a posteriori, por jornalistas que haviam vivenciado conflitos, envoltos na ausência ou cerceamento da liberdade de expressão. Neste contexto exógeno localizamos uma zona de instabilidade às margens do saber jornalístico, em que se evidencia um pensamento  jornalístico sobre democracia.

Como parte de uma pesquisa em desenvolvimento, organizamos um corpus de observação e análise formado por um conjunto de livros que dão conta da cobertura de golpes, revoluções e guerras que tiveram ocorrência no período 1960-2010. Trata-se de uma produção voltada para os acontecimentos e processos de cada tempo e lugar, que apresenta uma face singular ao deslocar-se do jornalismo diário para o livro, onde o que é dito não deixa de ser jornalístico, mas adquire outra densidade, entre o que circula nos jornais e os estudos de jornalismo. Sob tais condições, como os jornalistas entendem a democracia no processo de seu trabalho de cobertura? Como é que eles, passado o conflito, ao refletir sobre democracia, dão outros sentidos para a cobertura e se posicionam em relação ao ocorrido? As noções básicas para explorar esses relatos conjugam a práxis jornalística às singularidades na apuração e na apresentação dos acontecimentos.

 

4. Célia Ladeiro Mota: A construção discursiva na mídia do papel do Brasil na crise do Irã

O objeto da pesquisa a ser apresentada ao Encontro de Mídia, Jornalismo e Democracia, a se realizar em novembro em Lisboa, tem como foco a análise discursiva das notícias de jornais e revistas brasileiros (Folha de São Paulo, Globo e Veja) sobre a crise gerada entre o Brasil e os Estados Unidos, em maio de 2010, no que se convencionou chamar de a “Crise do Irã”. A crise foi provocada pela reação norte-americana no Conselho de Segurança da ONU, propondo sanções ao Irã, como resposta à posição adotada pela diplomacia brasileira de buscar um acordo com o país persa em torno da produção de energia nuclear.

O objetivo específico da análise é buscar os significados contraditórios sobre a identidade nacional dos brasileiros que emergiram do noticiário em questão. Estas contradições colocam algumas questões: de que forma o estrangeiro (notícias de jornais estrangeiros reproduzidas na mídia brasileira) constrói uma imagem do Brasil; como os ecos de uma identidade que vem evoluindo desde o colonialismo, e que se revela ora positiva, ora negativa, são reforçados pelo noticiário; o fato em questão e sua representação na mídia brasileira contribuíram para uma construção discursiva diplomática mais efetiva para as relações democráticas entre Brasil e Estados Unidos? Este último item permite analisar discursivamente as posições antagônicas do discurso diplomático dos dois países e seus conceitos de democracia.

Entendendo que o papel do analista de Comunicação é ampliar a compreensão sobre o processo sócio-histórico da produção de sentidos em notícias de jornais e revistas, a perspectiva teórica deste estudo se baseia na confluência entre discurso e prática cultural. Esta perspectiva teórica foi desenvolvida em tese de doutorado apresentada em 2008 ao programa de Pós-Graduação da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília, “Representações sobre a identidade nacional na notícia na TV: a crise dos vistos entre Brasil e Estados Unidos”.

O trabalho toma por base o conceito de discurso formulado por Norman Fairclough, da escola inglesa de Análise Crítica do Discurso: “o discurso é uma prática, não apenas de representação do mundo, mas de significação do mundo, constituindo e construindo o mundo em significado” (Fairclough, 2001). Para esta escola, a linguagem é uma prática social e histórica. Foucault gostava de dizer que “o fato de eu considerar o discurso como uma série de acontecimentos nos situa automaticamente na dimensão da história”.

Como tal, a linguagem da notícia é, também, um modo de ação social e historicamente situado, sendo, portanto, constitutiva, ainda, de identidades sociais, relações sociais e sistemas de conhecimento e crença, e neles se incluem uma representação da nacionalidade. Dentro desta perspectiva, a pesquisa vai analisar as dimensões textuais, políticas e culturais das notícias sobre o impasse na crise do Irã, para perceber como as notícias apresentam o conflito, qual o jogo dos sentidos produzido pela argumentação, e verificar como o brasileiro é representado e significado nestas notícias. Algumas evidências já surgem. A revista Veja garante que o Brasil deu um passo maior do que a perna. A Folha de São Paulo sugere que “sapos não devem coaxar em lagoas onde existem cobras”.  E finalmente, busco confrontar estes sentidos com uma construção histórica da identidade brasileira, sempre em luta contra a “ninguendade”, o sentimento de ser um ninguém, conforme afirmava Darcy Ribeiro.

 

5. Gabriela Brito Teixeira de Carvalho e Valquíria Aparecida Passos Kneipp: A espetacularização transforma sequestrador em fonte de informação: Um estudo da cobertura do Caso Eloá e Lindemberg no programa A Tarde é Sua

Partindo da relação entre a sociedade do espetáculo e o sensacionalismo, este estudo apresenta algumas reflexões sobre a forma exacerbada como a informação jornalística pode ser veiculada na televisão brasileira, muitas vezes, interferindo no relato do fato e transformando-o em espetáculo. Mesclando informação e entretenimento, o fato real é apresentado através de uma narrativa emocional que transforma a realidade cotidiana em show midiático. Assim, a análise dos recursos jornalísticos utilizados na construção da notícia pelo programa A Tarde é Sua, da emissora Rede TV, no caso específico do seqüestro de Eloá Cristina Pimentel, de 15 anos, pelo ex-namorado, é objeto deste estudo. A emissora, neste recorte, usou uma entrevista ao vivo com um seqüestrador, durante o desenvolvimento de um seqüestro. Esta atitude acabou interferindo no desfecho do seqüestro, porque levou o seqüestrador Lindemberg Alves a promover um espetáculo midiático através da televisão. Este trabalho analisa este fenômeno contemporâneo, através de um estudo de caso e dos critérios de noticiabilidade empregados pelo programa.

O programa de televisão A Tarde é Sua é transmitido pela RedeTV, de segunda à sexta-feira, das 15h05 às 17h05, com a apresentação da jornalista Sônia Abrão. O programa aborda matérias sobre artes, comportamento, política, saúde, economia e educação, contendo, também, reportagens policiais e reportagens do mundo das celebridades, com flagras e fofocas.

Além de ter tratado o caso como uma forma de espetáculo televisivo, o programa interferiu nas negociações e extrapolou os limites da ética jornalística. O seqüestro de Eloá Cristina Pimentel se refere ao mais longo seqüestro em cárcere privado já registrado pela polícia do estado de São Paulo, motivo este que fez com que a mídia brasileira fosse pouco a pouco ampliando sua atenção ao caso.

Esse polêmico seqüestro, pautado por todas as mídias de forma abusiva, fez com que o A Tarde é Sua, em busca de obter o exclusivo e aumentar seus pontos no Ibope, entrevistasse, de forma inadequada, o seqüestrador e a refém duas vezes durante o desenrolar do caso. A primeira entrevista foi feita pelo repórter do programa, Luiz Guerra, e a segunda entrevista foi feita ao vivo pela própria apresentadora, durante quase meia hora de conversa.

O objetivo dessa pesquisa foi analisar essas entrevistas feitas pelo programa, visando verificar se esse artifício utilizado foi feito de uma maneira sensacionalista para ganhar da concorrência ou não, abordando também suas conseqüências e sua repercussão na sociedade brasileira.

No primeiro momento se resgata a sociedade do espetáculo, teoria construída pelo francês Gui Debord. Mesmo tendo sido elaborada nos anos 60, ela é mantida e confirmada até os dias de hoje. O sensacionalismo, maneira muito comum nos dias atuais de se transmitir uma informação, com objetivo de chocar seus espectadores e, conseqüentemente, aumentar seu público, também foi retratado. A questão sobre a TV de qualidade e a ética jornalística foram outros assuntos abordados na pesquisa. 

Depois, foi feita a análise das duas entrevistas feitas pelo A Tarde é Sua com o seqüestrador e a refém, abordando a repercussão dessa cobertura para a mídia e a sociedade, e os seus desdobramentos.

Este trabalho foi desenvolvido pelo fato do tema ser atual e inédito, e por ter causado uma repercussão polêmica e jamais vista na mídia e na sociedade. Foi a primeira vez no Brasil em que uma apresentadora entrevistou ao vivo um seqüestrador durante o desenrolar do caso.

 

6. Ana Regina Rego e Ranielle Leal Moura: Jornalismo e visibilidade cultural nas publicações brasileiras

O jornalismo desde sempre tem se relacionado de forma intrínseca com a cultura, esta entendida aqui, como a produzida pelas diversas formas de manifestações artísticas e estéticas em todo o mundo. No processo histórico evolutivo vamos observar que em diversos momentos as atividades artísticas, sobretudo, a literária, e, o jornalismo têm se encontrado de forma quase híbrida. Bourdieu (2005, p. 99) nos relata que o campo cultural formou-se a partir da evolução da vida intelectual e artística. Nessa conjuntura, este autor ressalta que o desenvolvimento do jornalismo, área que atraía intelectuais marginais que não se enquadravam nas demais profissões então constituídas, foi um dos marcos constituidores do campo cultural. 

Nesta trajetória, o jornalismo e a literatura estiveram bem próximos até as primeiras décadas do século XX. Contudo, esse relacionamento nem sempre produziu discursos democráticos considerando que as manifestações que obtinham espaço de visibilidade eram, em um primeiro momento, oriundas da chamada cultura erudita e tinham como objetivo proporcionar distinção social, conforme Bourdieu (2008, p.34) tanto aos artistas que produziam, como ao público que consumia. O processo atual conserva a lógica da distinguibilidade, no entanto, as manifestações que atraem os olhares da mídia, nascem da interação entre as chamadas culturas eruditas, popular e de massa, em um movimento híbrido.

De acordo com Faro (2006, p.5) o jornalismo cultural é na verdade um “território de práticas jornalísticas que tanto reiteram os signos, valores e procedimentos da cultura de massa quanto discursos que revelam tensões contra-hegemônicas características de conjunturas históricas específicas”. Este autor é otimista ao afirmar que o jornalismo cultural não se encontra completamente preso às práticas mercadológicas e do marketing, já que o campo cultural não se submete completamente a estas e possui amplo poder de se recriar e reinventar. Na contramão, Azancot acredita que infelizmente nas editorias de cultura ainda reina a lucratividade nua e crua. ( AZANCOT, 2010, s/p)

Neste contexto, o jornalismo cultural aqui tratado se refere à prática de produção jornalística informativa, opinativa ou analítica dos elementos e acontecimentos que se apresentam no campo cultural.

O nosso olhar na presente investigação volta-se para três publicações jornalísticas que tem como foco as manifestações e a produção cultural. São elas: Bravo, Cult e Brasileiro, analisadas sob o prisma da análise de conteúdo por emparelhamento em seus exemplares de abril, maio, junho e julho de 2010, tendo ainda como metodologia complementar o método quantitativo de mensuração do espaço destinado ao tema em pauta, nas referidas revistas, através da unidade de informação de Morin (1974). O objetivo é, de um lado, identificar o grau de democratização e acessibilidade que possuem as diversas manifestações culturais e seus processos de produção e fruição, na mídia jornalística e consequentemente, na sociedade, através do mapeamento das matérias veiculadas. Neste momento, busca-se identificar quais são as áreas culturais que possuem maior visibilidade? De que parte do Brasil elas são oriundas? E que espaço lhes é destinado? Por outro lado, objetiva-se mapear os gêneros jornalísticos mais trabalhados na veiculação das matérias referentes à cultura, com vistas a identificar o grau de importância dado ao temas culturais retratados nas publicações citadas.

 

7. Ana Lúcia Prado: A percepção da presença do poder económico no jornalismo Português: análise dos jornais Público e Jornal de Notícias

A presença de grupos financeiros nas empresas de media, a publicidade e a crise económica que se abate sobre a União Europeia e, sobretudo, em Portugal têm influenciado a  cobertura dos jornais  impressos do país? Esta questão norteia a premissa deste trabalho que pretende – a partir da análise de conteúdos noticioso e publicitário de dois grandes jornais portugueses generalista e de referência, Público e Diário de Notícias – identificar marcas discursivas que denotem a possibilidade dessa influência. O pressupostos no qual se assenta a função social do jornalismo é justamente estar a serviço do interesse público e com isso fornecer certos subsídios para que as sociedades – pelo menos no Ocidente – vivenciem  a democracia. Parte-se neste estudo da provocação feita por Fernando Correia no livro “Jornalismo, grupos económicos  e democracia” e de outros autores que discutem a questão da centralidade dos media, dos valores notícias, do mercado, dentre outros pressupostos teóricos da teoria do jornalismo. A metodologia de análise do trabalho envolve  a análise de conteúdo o durante  três meses seguidos de edições dos dois jornais em tela – edições de sábado e de domingo, quando é suposto pensar que são mais volumosas em termos de conteúdo noticioso e publicitário, em 2010. Este trabalho compõe uma parte da pesquisa de doutoramento cujo objecto é a qualidade da informação jornalística.

 

8. Elizena Rossy e Luiz Martins da Silva: Telejornalismo e controlo social

Expurgar opinião dos fatos sempre foi uma dos propósitos basilares do jornalismo, dentro do seu ideário de buscar, como filtro de qualidade e idoneidade, manter-se sob a égide da trilogia: objetividade, imparcialidade e neutralidade. No Brasil, no entanto, como se não bastasse ocupar o status de “horário nobre” (paralelamente às novelas), os telejornais, especialmente os da noite, vêm se especializando numa função caracterizadamente socializadora, a de apresentar ‘fatos’ que enfocam uma perspectiva moralizante sob a ótica dos bons costumes, da boa conduta e do moralmente correto. E, com isso, embutem de forma indireta não apenas opinião, mas, sobretudo, uma mensagem subliminar, aquela que pode ser entendida como: ‘nós somos uma instância de controle social e temos o poder de normatizar acerca do bem e do mal e apontar quais são as melhores condutas em torno do bom, do belo, do justo e do bem, em síntese’. Neste trabalho, a partir de um estudo de caso do Jornal Nacional, o principal telejornal brasileiro e o mais nobre dos telejornais da Rede Globo, recortaremos situações típicas que demonstram a pertinência de nossa hipótese de trabalho: os telejornais procuram se afirmar como uma instância de controle social, para além da sua função primária de noticiar fatos. Essa teleologia, de mostrar personagens bons e exemplares diante de situações de dilema moral – como a de achar dinheiro alheio e o devolver aos donos ou entregá-lo à polícia – também se aproxima do propósito da principal telenovela, que vem logo a seguir, que é o de fornecer ao público – no horário de pico de audiência –, uma espécie de educação sentimental. No Brasil, é com as telenovelas que a televisão mais confirma o seu poder de socializar valores. A TV como agência de socialização não se conteve, porém, à ficção. Ela quebrou os clássicos paradigmas de qualificação da notícia, quais sejam: a objetividade, a imparcialidade e a neutralidade.


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Media, Jornalismo e Democracia 2010,
30/06/2010, 01:51
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