PARA DIR NO CLUB DE POESÍA (Biblioteca Central de Ferrol)






Poema
Em todas as ruas te encontro | em todas as ruas te perco | conheço tão bem o teu corpo | sonhei tanto a
tua figura | que é de olhos fechados que eu ando | a limitar a tua altura | e bebo a água e sorvo o ar | que
te atravessou a cintura | tanto tão perto tão real | que o meu corpo se transfigura | e toca o seu próprio
elemento | num corpo que já não é seu | num rio que desapareceu | onde um braço teu me procura || Em
todas as ruas te encontro | em todas as ruas te perco


Poema
En todas las calles te encuentro
en todas las calles te pierdo
conozco tan bien tu cuerpo
soñé tanto tu figura
que ando con los ojos cerrados
delimitando tu estatura
y el agua bebo y sorbo el aire
que te atravesó la cintura
tanto tan cerca tan real
que mi cuerpo se transfigura
y alcanza su propio elemento
en un cuerpo que ya no es el suyo
en un río ya desaparecido
donde me busca un brazo tuyo
En todas las calles te encuentro
en todas las calles te pierdo



Lembra-te Lembra-te | que todos os momentos | que nos coroaram | todas as estradas | radiosas que abrimos | irão achando sem fim | seu ansioso lugar | seu botão de florir | o horizonte | e que dessa procura | extenuante e precisa | não teremos sinal | senão o de saber | que irá por onde fomos | um para o outro | vividos Recuerda 

Recuerda que todos los momentos que nos coronaron todos los caminos radiantes que abrimos irán encontrando sin fin su ansioso lugar su botón floreciendo el horizonte y que de esa búsqueda extenuante y precisa sólo nos quedará como señal saber que irá por donde fuimos uno al otro vividos «O regresso de Ulisses», O regresso de Ulisses O HOMEM É UMA MULHER QUE EM VEZ DE TER UMA CONA TEM UMA PIÇA, O QUE EM NADA PREJUDICA O NORMAL ANDAMENTO DAS COISAS E ACRESCENTA UM TIC DELICIOSO À DIVERSIDADE DA ESPÉCIE. MAS O HOMEM É UMA MULHER QUE NUNCA SE COMPORTOU COMO MULHER, E QUIS DIFERENCIAR-SE, FAZER CHIC, NÃO CONSEGUINDO COM ISSO SENÃO PRODUZIR MONSTRUOSIDADES COM ESTA FAMOSA «CIVILIZAÇÃO OCIDENTAL» SOB A QUAL SUFOCAMOS MAS QUE, FELIZMENTE, VAI DESAPARECER EM BREVE. | PELO CONTRÁRIO, A MULHER, QUE É UM HOMEM, SOUBE SEMPRE GUARDAR AS DISTÂNCIAS E NUNCA PRETENDEU SUBSTITUIR-SE À VIDA SISTEMATIZANDO PUERILIDADES, COMO FILOSOFIA, AVIAÇÃO, CI NCIA, MÚSICA (SINFÓNICA), GUERRAS, ETC. ALGUNS PEDANTES QUE SE TOMAM POR LIBERTADORES DIZEM-NA «ESCRAVA DO HOMEM» E ELA RI ÀS ESCÂNCARAS, COM A SUA CONA, QUE É UM HOMEM. || DESDE O INÍCIO DOS TEMPOS, ANTES DA ROBotSTÓNICA GREGA, OS ÚNICOS HOMENS-HOMENS QUE APARECERAM FORAM OS HOMENS-MEDICINA, OS HOMENS-XAMAS (HOMOSSEXUAIS ARQUIMULHERES). ESSES E AS AMAZONAS (SUPER-MULHERES-HOMENS). MAS UNS E OUTRAS ERAM DEMAIS, E DESDE O INÍCIO DOS TEMPOS QUE PENÉLOPE ESPERA O REGRESSO DE ULISSES. MAS O REGRESSO DE ULISSES É O HOMEM QUE É UMA MULHER E A MULHER QUE É UMA MULHER QUE É UM HOMEM. El regreso de Ulises EL HOMBRE ES UNA MUJER QUE EN VEZ DE TENER UN COÑO TIENE UNA PICHA, LO QUE EN NADA PERJUDICA LA NORMAL MARCHA DE LAS COSAS Y AÑADE UN TIC DELICIOSO A LA DIVERSIDAD DE LA ESPECIE. PERO EL HOMBRE ES UNA MUJER QUE NUNCA SE COMPORTÓ COMO MUJER, Y QUISO DIFERENCIARSE, HACER CHIC, NO CONSIGUIENDO CON ELLO SINO PRODUCIR MONSTRUOSIDADES COMO ESTA FAMOSA «CIVILIZACIÓN OCCIDENTAL» QUE NOS SOFOCA PERO QUE, FELIZMENTE, VA A DESAPARECER EN BREVE. POR EL CONTRARIO, LA MUJER, QUE ES UN HOMBRE, SUPO SIEMPRE GUARDAR LAS DISTANCIAS Y NUNCA PRETENDIÓ SUSTITUIR LA VIDA SISTEMATIZANDO PUERILIDADES, COMO FILOSOFÍA, AVIACIÓN, CIENCIA, MÚSICA (SINFÓNICA), GUERRAS, ETC. ALGUNOS PEDANTES QUE SE CREEN LIBERTADORES LA LLAMAN «ESCLAVA DEL HOMBRE» Y ELLA RÍE CON DESCARO, CON SU COÑO, QUE ES UN HOMBRE. DESDE EL INICIO DE LOS TIEMPOS, ANTES DE LA ROBOTÓNICA GRIEGA, LOS ÚNICOS HOMBRES-HOMBRES QUE APARECIERON FUERON LOS HOMBRES-MEDICINA, LOS HOMBRES-CHAMANES (HOMOSEXUALES ARCHIMUJERES). ÉSOS Y LAS AMAZONAS (SUPER-MUJERES-HOMBRES). PERO UNOS Y OTRAS ERAN EXCESIVOS. Y DESDE EL INICIO DE LOS TIEMPOS ESPERA PENÉLOPE EL REGRESO DE ULISES. PERO EL REGRESO DE ULISES ES EL HOMBRE QUE ES UNA MUJER Y LA MUJER QUE ES UNA MUJER QUE ES UN HOMBRE. Um Grande Utensílio de Amor um grande utensílio de amor meia laranja de alegria dez toneladas de suor um minuto de geometria quatro rimas sem coração dois desastres sem novidade um preto que vai para o sertão um branco que vem à cidade uma meia-tinta no sol cinco dias de angústia no foro o cigarro a descer o paiol a trepanação do touro mil bocas a ver e a contar uma altura de fazer turismo um arranha-céus a ripar meia-quarta de cristianismo uma prancha sem porta sem escada um grifo nas linhas da mão uma Ibéria muito desgraçada um Rossio de solidão Autografia Sou um homem | um poeta | uma máquina de passar vidro colorido | um copo uma pedra | uma pedra configurada | um avião que sobe levando-te nos seus braços | que atravessam agora o último glaciar da terra || O meu nome está farto de ser escrito na lista dos tiranos: | condenado à morte! | os dias e as noites deste século têm gritado tanto no meu peito que | existe nele uma árvore miraculada | tenho um pé que já deu a volta ao mundo | e a família na rua | um é loiro | outro moreno | e nunca se encontrarão | conheço a tua voz como os meus dedos | (antes de conhecer-te já eu te ia beijar a tua casa) | tenho um sol sobre a pleura | e toda a água do mar à minha espera | quando amo imito o movimento das marés | e os assassínios mais vulgares do ano | sou, por fora de mim, a minha gabardina | e eu o pico do Everest | posso ser visto à noite na companhia de gente altamente | suspeita | e nunca de dia a teus pés florindo a tua boca | porque tu és o dia porque tu és | a terra onde eu há milhares de anos vivo a parábola | do rei morto, do vento e da primavera | Quanto ao de toda a gente –tenho visto qualquer coisa | Viagens a Paris –já se arranjaram algumas. | Enlaces e divórcios de ocasião –não foram poucos. | Conversas com meteoros internacionais –também, já por cá | passaram. | Eu sou, no sentido mais enérgico da palavra | uma carruagem de propulsão por hálito | os amigos que tive as mulher que assombrei as ruas por onde | passei uma só vez | tudo isso vive em mim para uma história | de sentido ainda oculto | magnífica irreal | como uma povoação abandonada aos lobos | lapidar e seca | como uma linha férrea ultrajada pelo tempo | é por isso que eu trago um certo peso extinto | nas costas | a servir de combustível | e é por isso que eu acho que as paisagens ainda hão-de vir a ser | escrupulosamente electrocutadas vivas | para não termos de atirá-los semi-mortas à linha | E para dizer-te tudo | dir-te-ei que aos meus vinte e cinco anos de existência solar | estou em franca ascensão para ti O Magnífico | na cama no espaço duma pedra em Lisboa-Os-Sustos | e que o homem-expedição de que não há notícias nos jornais | nem lágrimas à porta das famílias | sou eu meu bem sou eu partido de manhã encontrado perdido | entre lagos de incêndio e o teu rosto grande! Autobiografía Soy un hombre un poeta una plancha para vidrio de colores un vaso una piedra una piedra configurada un avión que sube llevándote en sus brazos que atraviesan ahora el último glaciar de la tierra Mi nombre está harto de ser escrito en la lista de los tiranos: ¡condenado a muerte! los días y las noches de este siglo han gritado tanto en mi pecho que hay en él un arbol milagrado tengo un pie que ya dio la vuelta al mundo y la familia en la calle uno es rubio el otro moreno y nunca llegarán a encontrarse conozco tu voz como mis propios dedos

(antes de conocerte yo ya iba a besarte a tu casa)

tengo un sol sobre la pleura
y todo el agua del mar a mi espera
cuando amo imito el movimiento de las mareas
y los asesinos más vulgares del año
soy, por fuera de mí, mi gabardina
y yo la punta del Everest
puedo ser visto por la noche en compañía de gente altamente
sospechosa
y nunca a tus pies floreciendo tu boca
porque tú eres el día tú eres
la tierra donde yo hace miles de años vivo la parábola
del rey muerto, del viento y de la primavera
En lo tocante a las cosas comunes –he visto algunas cosas
Viajes a París– ya conseguimos algunos.
Uniones y divorcios de ocasión –no fueron pocos.
Conversaciones con meteoros internacionales –también pasaron
por aquí.
Yo soy, en el más enérgico sentido de la palabra
un vehículo de propulsión por hálito
los amigos que tuve las mujeres que asusté por las calles por donde
pasé una sola vez
todo eso vive en mí para una historia
de sentido todavía oculto
magnífica irreal
como una población abandonada a los lobos
lapidar y seca
como una línea férrea ultrajada por el tiempo
es por eso por lo que traigo un cierto peso extinto
a las espaldas
que uso de combustible
y es por eso por lo que creo que los paisajes acabarán por ser
escruplosamente electrocutados vivos
para no tener que arrojarlos semimuertos con caña
Y por decirlo todo
te diré que a mis veinticinco años de existencia solar estoy
en franca ascensión hacia ti El Magnífico
en la cama en el espacio de una piedra en Lisboa-Los-Sustos
y que el hombre-expedición de quien no hay noticias en los periódicos ni
lágrimas a la puerta de las familias
¡soy yo bien mío soy yo partido de mañana encontrado perdido entre
lagos de incendio y tu retrato grande!

                                «Autografia», en Pena Capital, Lisboa, Contraponto, 1957.




Poema podendo servir de posfácio 


ruas onde o perigo é evidente | braços verdes de práticas ocultas | cadáveres à tona de água | girassóis | e
um corpo | um corpo para cortar as lâmpadas do dia | um corpo para descer uma paisagem de aves | para
ir de manhã cedo e voltar muito tarde | rodeado de anões e de campos de lilases | um corpo para cobrir a
tua ausência | como uma colcha | um talher | um perfume || isto ou o seu contrário, mas de certa maneira
hiante | e com muita gente à volta a ver o que é | isto ou uma população de sessenta mil almas | devorando
almofadas escarlates a caminho do mar | e que chegam | ao crepúsculo | encostados aos submarinos | isto
ou um torso desalojado de um verso | e cuja morte é o orgulho de todos | ó pálida cidade construída |
como uma febre entre dois patamares! | vamos distribuir ao domicílio | terra para encher candelabros |
leitos de fumo para amantes erectos | tabuinhas com palavras interditas | – uma mulher para êste que
está quase a perder | o gôsto à vida – tome lá – | dois netos para essa velha aí no fim da fila – não | temos
mais – | saquear o museu dar diadema ao mundo e depois | obrigar a repor no mesmo sítio | e para ti e
para mim, assentes num espaço útil, | veneno para entornar nos olhos do gigante || isto ou um rosto um
rosto solitário como barco em | demanda de vento calmo para a noite | se nós somos areia que se filtre | a
um vento débil entre arbustos pintados | se um propósito deve atingir a sua margem como | as correntes
da terra náufragos e tempestade | se o homem das pensões e das hospedarias levanta | a sua fronte de
cratera molhada | se na rua o sol brilha como nunca | se por um minuto | vale a pena | esperar | isto ou a
alegria igual à simples forma de um pulso | aceso entre a folhagem das mais altas lâmpadas | isto ou a
alegria dita o avião de cartas | entrada pela janela saída pelo telhado | ah mas então a pirâmide existe? | ah
mas então a pirâmide diz coisas? | então a pirâmide é o segredo de cada um com | o mundo? || sim meu
amor a pirâmide existe | a pirâmide diz muitíssimas coisas | a pirâmide é a arte de bailar em silêncio || e
em todo o caso || há praças onde esculpir um lírio | zonas subtis de propagação do azul | gestos sem dono
barcos sob as flores | uma canção para ouvir-te chegar


Poema pudiendo servir de posfacio
calles donde el peligro es evidente
brazos verdes de prácticas ocultas
cadáveres en la superficie del agua
girasoles
y un cuerpo
un cuerpo para cortar las lámparas del día
un cuerpo para descender un paisaje de aves
para ir de madrugada y regresar muy tarde
rodeado de enanos y de campos de lilas
un cuerpo para cubrir tu ausencia
un cubierto
un perfume
o esto o su contrario, mas de algún modo hiante
y un gentío arremolinado para ver de qué va

esto o una población de sesenta mil almas devorando
almohadones escarlatas sobre el camino de la mar
y llegando
al crepúsculo
reclinados sobre los submarinos
esto o un torso desalojado de un verso
y cuya muerte es el orgullo universal
¡oh pálida ciudad edificada
como una fiebre entre dos descansillos de escalera!
vamos a entregar a domicilio
tierra para los candelabros
lechos de humo para amantes erectos
tablillas con palabras prohibidas
–una mujer para éste que ya casi ha perdido el gusto
de vivir –hala, ahí va–
dos nietos para esa viejecita del final de la fila –ya no
nos quedan más–
saquear el museo para dar una diadema al mundo y
obligar a restituirla al mismo sitio
y para tí y para mí, asentados en un espacio útil,
veneno para derramar en los ojos del gigante
esto o un rostro solitario como un barco
en demanda de vientos flojos para la noche
pues si somos arena que se filtre
a un viento débil entre arbustos pintados
si un propósito debe alcanzar su margen como
las corrientes terrestres tempestades y náufragos
si el hombre de las hospederías y de las pensiones alza su
frente de empapado cráter
si en la calle el sol brilla como nunca brilló
y si por un minuto
vale la pena
que esperemos
o esto o una alegría igual a la sencilla forma de una mano
brillando entre el ramaje de las más altas lámparas
o esto o la alegría del avión de cartas
entrada por la ventana salida por el tejado
¡ah! pero, entonces, ¿la pirámide existe?
¡ah! pero, entonces, ¿la pirámide habla?
¿la pirámide es, pues, el secreto de cada uno con
el mundo?
en efecto amor mío la pirámide existe
la pirámide nos dice muchas cosas

la pirámide es el arte de bailar en silencio
y en cualquier caso
hay plazas donde esculpir un lirio
zonas sutiles donde el azul se expande
gestos sin dueño bajo las flores barcos
y una canción para oírte llegar
                             
[Queria de ti um país de bondade e de bruma]
queria de ti um país de bondade e de bruma | queria de ti o mar de uma rosa de espuma
[Quería de ti un país de bondad y de bruma]
quería de ti un país de bondad y de bruma
quería de ti el mar de una rosa de espuma
«Queria de ti um país de bondade e de bruma...», en Discurso Sobre
a Reabilitação do Real Quotidiano, Lisboa, Contraponto, 1952.
[Ama como a estrada começa]
Ama como a estrada começa
[Ama como empieza el camino]
Ama como empieza el camino

                         «Ama como a estrada começa...», en Poesia
                                   1944-1945, Lisboa, Delfos, 1961.


O navio de espelhos
O navio de espelhos | não navega, cavalga || Seu mar é a floresta | que lhe serve de nível || Ao crepúsculo
espelha | sol e lua nos flancos || (Por isso o tempo gosta | de deitar-se com ele) || Os armadores não
amam | a sua rota clara || (Vista do movimento | dir-se-ia que pára) || Quando chega à cidade | nenhum
cais o abriga || (O seu porão traz nada | nada leva à partida) || Vozes e ar pesado | é tudo o que transporta ||
E no mastro espelhado | uma espécie de porta || Seus dez mil capitães | têm o mesmo rosto || A mesma
cinta escura | o mesmo grau e posto || Quando um se revolta | há dez mil insurrectos || (Como os olhos da
mosca | reflectem os objectos) || E quando um deles ala | o corpo sobre os mastros | e escruta o mar do
fundo || Toda a nave cavalga | (como no espaço os astros) || Do princípio do mundo | até ao fim do mundo


El navío de espejos


El navío de espejos
no navega, cabalga
Su mar es la floresta
que de nivel le sirve
Al crepúsculo irradia
sol y luna en los flancos
(Por eso al tiempo le gusta
acostarse con él)
No aman los armadores
su claro derrotero
(En cuanto al movimiento
se diría que para)
Al arribar a puerto
no hay muelle que lo abrigue
(Nada trae su bodega
nada lleva al partir)
Voces y aire pesado
no otra cosa transporta
(Y en el mástil radiante
una especie de puerta)
Sus diez mil capitanes
tienen el mismo rostro

(La misma banda oscura
el mismo grado y puesto)
Cuando uno se rebela
hay diez mil insurrectos
(Como los ojos de la mosca
reflejan los objetos)
Y cuando alza uno de ellos
el cuerpo sobre el mástil
y escruta el mar al fondo
Todo el barco cabalga
(como los astros en el cielo)
Desde el principio
al fin del mundo

                         «O navio de espelhos», en A Cidade
                                   Queimada, Lisboa, Ulisseia, 1966.


Exercício espiritual
É preciso dizer rosa em vez de dizer ideia | é preciso dizer azul em vez de dizer pantera | é preciso
dizer febre em vez de dizer inocência | é preciso dizer o mundo em vez de dizer um homem || É
preciso dizer candelabro em vez de dizer arcano | é preciso dizer Para Sempre em vez de dizer Agora |
é preciso dizer O Dia em vez de dizer Um Ano | é preciso dizer Maria em vez de dizer aurora
Ejercicio espiritual
Es preciso decir rosa en vez de decir idea
es preciso decir azul en vez de decir pantera
es preciso decir fiebre en vez de decir inocencia
es preciso decir el mundo en vez de decir un hombre
Es preciso decir candelabro en vez de decir arcano
es preciso decir Para Siempre en vez de decir Ahora
es preciso decir El Día en vez de decir Un Año
es preciso decir María en vez de decir aurora

«Exercício espiritual», en Manual de Prestidigitaça~
o, Lisboa, Contraponto, 1956.


Ortofrenia
Aclamações | dentro do edifício inexpugnável | aclamações | por já termos chapéu para a solidão |
aclamações | por sabermos estar vivos na geleira | aclamações | por ardermos mansinho junto ao mar |
aclamações | porque cessou enfim o ruído da noite a secreta alegria por | escadas de caracol |
aclamações | porque uma coisa é certa: ninguém nos ouve | aclamações | porque outra é indubitável: não
se ouve ninguém


Ortofrenia
Aclamaciones
dentro del edificio inexpugnable
aclamaciones
porque tenemos ya sombrero para la soledad
aclamaciones
porque sabemos estar vivos en la nevera
aclamaciones
porque estamos ardiendo junto al mar mansamente
aclamaciones
porque cesó al fin el ruido de la noche la secreta alegría
por escaleras de caracol
aclamaciones
porque una cosa es cierta: nadie nos oye
aclamaciones
porque otra es indudable: no se oye a nadie
«Ortofrenia», en Planisfério e Outros Poemas, Lisboa,
Guimara~es Editores, 1961.

Barricada


Quando já não pudermos mais chorar e as palavras forem pequeninos suplícios e olhando para trás
virmos apenas homens desmaiados, então alguém saltará para o passeio, com o rosto já belo, já
espontâneo e livre, e uma canção nascida de nós ambos, do mais fundo de nós, a exaltar-nos! | Tu sabes
se te quero e se fomos os dois abandonados, abandonados para uma bandeira, para um riso que sangre,
para um salto no escuro, abandonados pelos lúgubres deuses, pelo filme que corre e desaparece, pela
nota de vinte e um pedais, pela mobília de duas cadeiras e uma cama feita para morrer de nojo. Minha
criança a quem já só falta cuspir e enviar corpo e bens para a barricada, meu igual, tu segues-me; tu
sabes que o caminho é insuportavelmente puro e nosso, é um duende gritando no telhado as ervas
misteriosas, é um rapaz crescendo ao longo dos teus braços, é um lugar para sempre solene, para
sempre temido! E o Rossio é uma praça para fazer chorar. Salvé, ó arquitectos! Mas choremos tanto que
será um dilúvio. Automóveis-dilúvio. Sobretudos-dilúvio. Soldadinhos-dilúvio. E quando essa água
morna inundar tudo, então, ó arquitectos, trabalhai de novo, mas com igual requinte e igual vontade:
vinde trazer-nos rosas e arame, homens e arame, rosas e arame.


Barricada
Cuando ya no podamos llorar más y las palabras sean
diminutos suplicios y mirando hacia atrás no veamos
sino hombres desmayados, entonces alguien saltará al
paseo, con el rostro ya hermoso, ya libre y espontáneo, y
una canción nacida de los dos, de lo más hondo de nosotros
dos, exaltándonos.
Tú sabes si te quiero y si fuimos los dos abandonados,
abandonados a una bandera, a un escarnio sangriento, a un
salto en las tinieblas, abandonados por los lúgubres dioses,
por la película que corre hasta perderse, por el billete de
veintiún pedales, por el mobiliario de dos sillas y una cama
hecha para morir de hastío. Pequeño mío a quien ya sólo falta
escupir y enviar cuerpo y bienes a la barricada, tú, igual a mí,
me sigues; tú sabes que el camino es insoportablemente puro
y nuestro, es un duende voceando en el tejado las hierbas
misteriosas, es un joven creciendo a lo largo de tus brazos, es
un lugar solemne para siempre, para siempre temido. Y el
Rossio es una plaza como para llorar. ¡Salve, arquitectos! Pero
lloremos tanto que será un diluvio. Automóviles-diluvio.
Abrigos-diluvio. Soldaditos-diluvio. Y cuando ese agua tibia
lo haya inundado todo, entonces, oh arquitectos, volved a
trabajar, mas con igual primor y voluntad igual: venid a
darnos alambre y rosas, hombres y alambre, alambre y rosas.

O jovem mágico
O jovem mágico das mãos de ouro |que a remar não se cansa muito | e olha muito depressa (como se
fosse de moto) | veio hoje ficar a minha casa || Vivia longe longe já se sabia | tão longe que era absurdo
querer determinar | metade campo metade luz | aí era a sua casa o sítio onde era longe || mesmo de
olhos fechados (como ele estava) | e de braços cruzados (como parecia dormir) | o jovem mágico das
mãos de ouro | que era todo de empréstimo à minha noite || que falou por acaso que nem se chamava
assim | (segundo também contou) tinha vivido há muito | ele, que estava ali, era um falsário | um fugido
de outro basta ver os meus olhos || nada sabemos de nós a não ser que chegámos | sem uma luz a esconder-nos
o rosto | belos e apavorados de estranhos casacos vestidos | altos de meter medo às aves de longo curso || nem há
noites assim não há encontros | ao longo das enseadas | não há corpos amantes não há luzeiros de astros | sob
tanto silêncio tão duradoura treva || e não me fales nunca eu sou surdo eu não te oiço | eu vou nascer feliz
numa cidade futura | eu sei atravessar as fronteiras das coisas | olha para as minhas mãos que te pareço
agora? || No entanto surgiu como simples criança | conseguia sorrir sentar-se verter águas | com as
mãos na cintura livre natural | ele que era um fantasma um fugido de outro | um que nem mesmo se
chamava assim | o jovem mágico das mãos de ouro | desaparecido nu de todos os sítios da Terra

El joven hechicero


El joven hechicero de las manos de oro
que en trabajar no pone mucho empeño
y mira muy deprisa (como si fuese en moto)
vino a parar hoy a mi casa
Vivía lejos lejos como era bien sabido
tan lejos que era absurdo pretender precisar
mitad luz mitad campo
ahí tenía su casa el sitio aquel tan lejos
hasta de ojos cerrados (como estaba)
y de brazos cruzados (como fingía dormir)
el joven hechicero de las manos de oro
que a mi noche le había sido prestado
que por azar habló que ni siquiera se llama así
(por lo que él mismo dijo) había vivido hacía mucho
tiempo
él, el que estaba allí, era sólo un falsario
alguien huido de otro si basta ver mis ojos
nada sabemos de nosotros mismos salvo que hemos llegado
sin una luz que nos oculte el rostro
hermosos y aterrados vestidos con extrañas chaquetas
altos hasta asustar a las aves de largo recorrido

ni hay noches como ésta no hay encuentros
en las ensenadas
no hay cuerpos que se amen no hay luceros que brillen
bajo tanto silencio tan pertinaz tiniebla
y no quieras hablarme soy sordo no te oigo
voy a nacer feliz en una ciudad futura
sé atravesar las fronteras de las cosas
mira mis manos ¿qué te parezco ahora?
Y no obstante surgió como una criatura
lograba sonreír sentarse hacer sus cosas
con las manos en la cintura natural libre
él que era sólo un fantasma alguien huído de otro
alguien que ni siquiera se llamaba así
el joven hechicero de las manos de oro
desaparecido desnudo de todos los sitios de la Tierra


De profundis amamus
Ontem | às onze | fumaste | um cigarro | encontrei-te | sentado | ficámos para perder | todos os teus
eléctricos | os meus | estavam perdidos | por natureza própria || Andámos | dez quilómetros | a pé |
ninguém nos viu passar | excepto | claro | os porteiros | é da natureza das coisas | ser-se visto | pelos
porteiros || Olha | como só tu sabes olhar | a rua os costumes | O Público | o vinco das tuas calças | está
cheio de frio | e há quatro mil pessoas interessadas | nisso || Não faz mal abracem-me | os teus olhos | de
extremo a extremo azuis | vai ser assim durante muito tempo | decorrerão muitos séculos antes de nós |
mas não te importes | não te importes | muito | nós só temos a ver | com o presente | perfeito | corsários
de olhos de gato intransponível | maravilhados maravilhosos únicos | nem pretérito nem futuro tem | o
estranho verbo nosso

De profundis amamus
Ayer
a las once
fumaste
un cigarrillo
te encontré
sentado
quedamos para ir perdiendo
todos tus tranvías
los míos
estaban ya perdidos
por naturaleza propia
Recorrimos
diez quilómetros
a pie
nadie nos vio pasar
excepto
cómo no
los porteros
es lo más natural
que a uno lo vean
los porteros
Mira
como sólo tú sabes
la calle las costumbres
El Público
el pliegue de tus pantalones

está lleno de frío
y hay cuatro mil personas a las que eso
interesa
No importa abrácenme
tus ojos
de uno a otro extremo azules
así será durante mucho tiempo
antes que tú y que yo pasarán muchos
siglos
pero no te preocupes
mucho
a nosotros tan sólo nos concierne
el presente
perfecto
corsarios de ojos de gato intranspasable
maravillados maravillosos únicos
ni futuro ni pretérito tiene
el raro verbo nuestro

                     «De profundis amamus» en Pena Capital,
                                 Lisboa, Contraponto, 1957.


Poema
Faz-se luz pelo processo | de eliminação de sombras | Ora as sombras existem | as sombras têm exaustiva
vida própria | não dum e doutro lado da luz mas no próprio seio dela | intensamente amantes loucamente
amadas | e espalham pelo chão braços de luz cinzenta | que se introduzem pelo bico nos olhos do homem
|| Por outro lado a sombra dita a luz | não ilumina realmente os objectos | os objectos vivem às escuras |
numa perpétua aurora surrealista | com a qual não podemos contactar | senão como amantes | de olhos
fechados | e lâmpadas nos dedos e na boca


Poema
Se hace la luz por el procedimiento
de eliminar las sombras.
Mas las sombras existen
las sombras poseen una exhaustiva vida propia
no de uno y otro lado de la luz sino en el seno mismo de la luz
intensamente amantes locamente amadas
y extienden por el suelo brazos de cenicienta luz
que se introducen por la boca en los ojos del hombre
Por otra parte la sombra dicta la luz
no ilumina realmente los objetos
los objetos viven a oscuras
en una perpetua aurora surrealista
con la que no podemos establecer contacto
sino como amantes
con los ojos cerrados
y lámparas en los dedos y en la boca

                        «Poema [Faz-se luz pelo processo...], en Pena Capital,
                                     Lisboa, Contraponto, 1957.


Poema
Reconheço este quarto impermeável | reconheço-te estás adormecido | o peito muito aberto as mãos
luminosas | o grande talento dos teus dentes miúdos || Há o perigo de um grito lindíssimo | quando
andas assim comigo no invisível | Quando a manhã vier sairás comigo | para o espaço que nos falta para o
amor | que nos falta || A aurora | está fatigada || a aurora | como um rio nosso | em torno dos elevadores ||
Tinha eu a idade | de um marselhês | silencioso | e tímido | Tu davas-me a lousa dos magos | o teu riso as
letras | mais obscuras do alfabeto || Foi há muito tempo | ou agora | na caverna dos leões expressivos || A
caverna que dá para a caverna | a caverna os lagos diligentes || Belo tu és belo | como um grande espaço
cirúrgico || Porque tu não tens nome existes || A minha boca | sabe à tua boca || A minha boca | perdeu a
memória | não pode falar as palavras | entram no seu túnel | e não é preciso segui-las || Disse que és alto |
alto | branco e despovoado


Poema
Reconozco este cuarto impermeable
te reconozco estás adormecido
el pecho muy abierto las manos luminosas
el enorme talento de tus dientes menudos
Hay el peligro de un bellísimo grito
cuando andas así conmigo en lo invisible
Cuando despunte el día has de salir conmigo
al espacio que nos falta al amor
que nos falta
La aurora
está cansada
la aurora
como río nuestro
contorneando los ascensores
Tenía yo la edad
de un marsellés
silencioso
y tímido
Tú me dabas la piedra sepulcral de los magos
tu sonrisa las más oscuras
letras del alfabeto
Fue hace ya mucho tiempo
o ahora
en la caverna de los leones expresivos
La caverna que lleva a la caverna
la caverna los lagos diligentes
Bello tú eres bello
como un gran espacio quirúrgico
Porque tú no tienes nombre existes
Mi boca
sabe a tu boca
Mi boca
perdió la memoria
no puede hablar las palabras
penetran en su túnel
y no es necesario perseguirlas
Dije que eres alto
alto
blanco y despoblado

[A vida...]


A vida | às portas da vida || e o azul masculino de um rio || Amor Ardente | de forma distinta

[La vida...]
La vida
a las puertas de la vida
y el azul masculino de un río
Amor Ardiente
de distinta manera

Poema
Tu estás em mim como eu estive no berço | como a árvore sob a sua crosta |
como o navio no fundo do mar


Poema
Tú estás en mí como yo estuve en la cuna
como el árbol bajo su corteza
como el navío en el fondo del mar


A Antonin Artaud
I. Haverá gente com nomes que lhes caiam bem. | Não assim eu. | De cada vez que alguém me chama
Mário | de cada vez que alguém me chama Cesariny | de cada vez que alguém me chama de Vasconcelos |
sucede em mim uma contracção com os dentes | há contra mim uma imposição violenta | uma cutilada
atroz porque atrozmente desleal. || Como assim Mário como assim Cesariny como assim ó meu | deus de
Vasconcelos? | Porque é que querem fazer passar para o meu corpo | uma caricatura a todos os títulos
porca? | Que andavam a fazer com a minha altura os pais pelos baptistérios | para que eu recebesse em
plena cara semelhante feixe de estruturas | tão inqualificáveis quanto inadequadas | no acto em mim
sòzinho como a vida puro | eu não sei de vocês eu não tenho nas mãos eu vomito | não quero | eu nunca
aderi às comunidades práticas de pregar com pregos | as partes mais vulneráveis da matéria || Eu estou só
neste avanço | de corpos | contra corpos | Inexpiáveis || O meu nome se existe deve existir escrito nalgum
lugar | «tenebroso e cantante» suficientemente glaciado e horrível | para que seja impossível encontrálo
| sem de alguma maneira enveredar pela estrada | Da Coragem | porque a este respeito -e creio que
digo bem- | nenhuma garantia de leitura grátis | se oferece ao viandante || Por outro lado, se eu tivesse um
nome | um nome que me fosse realmente o meu nome | isso provocaria | calamidades | terríveis | como
um tremor de terra | dentro da pele das coisas | dos astros | das coisas | das fezes | das coisas
II. Haverá uma idade para nomes que não estes | haverá uma idade para nomes | puros | nomes que
magnetizem | constelações | puras | que façam irromper nos nervos e nos ossos | dos amantes |
inexplicáveis construções radiosas | prontas a circular entre a fuligem | de duas bocas | puras || Ah não
será o esperma torrencial diuturno | nem a loucura dos sábios nem a razão de ninguém | Não será mesmo
quem sabe ó único mestre vivo | o fim da pavorosa dança dos corpos | onde pontificaste de martelo na
mão || Mas haverá uma idade em que serão esquecidos por completo | os grandes nomes opacos que hoje
damos às coisas || Haverá | um acordar

A Antonin Artaud
I
Habrá gentes con nombres que les caigan bien.
No es mi caso.
Cada vez que alguien me llama Mário
Cada vez que alguien me llama Cesariny
cada vez que alguien me llama de Vasconcelos
me sobreviene un contraer de dientes
siento sobre mí una imposición violenta
una cuchillada atroz por lo atrozmente desleal.
¿Pero por qué Mário por qué Cesariny por qué santo
dios de Vasconcelos?
¿Por qué quieren traspasar a mi cuerpo
una caricatura a todas luces repugnante?
Qué andaban haciendo con mi dignidad los padres
por los batisterios
para ir yo a recibir en plena cara semejante manojo de estructuras
tan incalificables como inadecuadas
al acto en mí solo como la vida puro
yo no sé ustedes no está en mis manos yo vomito
no quiero
yo nunca comulgué con las comunidades expertas en asegurar con clavos
las partes más vulnerables de la materia
Me encuentro solo en este avanzar
de cuerpos
contra cuerpos
Inexpiables
Mi nombre de existir existirá escrito en algún lugar
«tenebroso y cantante» suficientemente gélido y horrible
para que sea imposible encontrarlo
sin de alguna manera tomar la carretera
Del Valor
porque al respecto –creo tener razón–
ninguna garantía de lectura gratis
se le ofrece al viandante
Por otra parte, si yo tuviera un nombre
un nombre que se me adecuase realmente mi nombre
eso provocaría
calamidades
espantosas
como un temblor de tierra
en la piel de las cosas
de los astros
de las cosas
de las heces
de las cosas
Habrá una edad para nombres muy distintos a estos
una edad para nombres
puros
nombres que magneticen
constelaciones
puras
que obliguen a irrumpir en los nervios y huesos
de los amantes
inexplicables construcciones radiantes
en disposición de circular entre el hollín
de dos bocas
puras
Ah no será el esperma torrencial diuturno
ni la locura de los sabios ni la razón de nadie
No será incluso quién sabe el único maestro vivo
el fin de la danza espantosa de los cuerpos
donde pontificaste martillo en mano
Habrá una edad en que serán totalmente olvidados
los grandes nombres opacos que hoy damos a las cosas
Habrá
un despertar
«A Antonin Artaud», en Pena Capital, Lisboa, Contraponto, 1957.


You are welcome to Elsinore
Entre nós e as palavras há metal fundente | entre nós e as palavras há hélices que andam | e podem darnos
morte violar-nos tirar | do mais fundo de nós o mais útil segredo | entre nós e as palavras há perfis
ardentes | espaços cheios de gente de costas | altas flores venenosas portas por abrir | e escadas e
ponteiros e crianças sentadas | à espera do seu tempo e do seu precipício || Ao longo da muralha que
habitamos | há palavras de vida há palavras de morte | há palavras imensas, que esperam por nós | e
outras, frágeis, que deixaram de esperar | há palavras acesas como barcos | há palavras homens, palavras
que guardam | o seu segredo e a sua posição || Entre nós e as palavras, surdamente, | as mãos e as paredes
de Elsenor | E há palavras e nocturnas palavras gemidos | palavras que nos sobem ilegíveis à boca |
palavras diamantes palavras nunca escritas | palavras impossíveis de escrever | por não termos connosco
cordas de violinos | nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar | e os braços dos amantes
escrevem muito alto | muito além do azul onde oxidados morrem | palavras maternais só sombra só
soluço | só espasmo só amor só solidão desfeita || Entre nós e as palavras, os emparedados | e entre nós e
as palavras, o nosso dever falar


You are welcome to Elsinore
Hay entre las palabras y nosotros metal fundente
hay entre las palabras y nosotros hélices en marcha
que pueden darnos muerte violarnos extraer
de lo más hondo de nosotros el secreto más útil
hay entre las palabras y nosotros perfiles ardientes
espacios llenos de gente de espaldas
altas flores venenosas puertas por abrir
y escaleras y punteros y niños sentados
a la espera de su tiempo y de su precipicio
A lo largo de la muralla que habitamos
hay palabras de vida hay palabras de muerte
hay palabras inmensas que esperan por nosotros
y otras, más frágiles, que ya dejaron de esperar
hay palabras ardientes como barcos
y hay palabras hombres, palabras que guardan
su posición y su secreto
Entre las palabras y nosotros, sordamente,
los muros y las manos de Elsinor
Y hay palabras nocturnas y palabras gemidos
palabras que a los labios nos suben ilegibles
palabras diamantes palabras nunca escritas
palabras imposibles de escribir
porque no tenemos con nosotros cuerdas de violines
ni toda la sangre del mundo ni el abrazo todo del aire
y los brazos de los amantes escriben muy muy alto
más allá del azul donde oxidados mueren
palabras maternales sólo sollozo sólo sombra
sólo espasmos sólo amor sólo soledad deshecha
Entre las palabras y nosotros, los emparedados
y entre las palabras y nosotros, nuestro deber hablar
                               

Os Pássaros de Londres

Os pássaros de Londres

cantam todo o inverno

como se o frio fosse

o maior aconchego

nos parques arrancados

ao trânsito automóvel

nas ruas da neve negra

sob um céu sempre duro

os pássaros de Londres

falam de esplendor

com que se ergue o estio

e a lua se derrama

por praças tão sem cor

que parecem de pano

em jardins germinando

sob mantos de gelo

como se gelo fora

o linho mais bordado

ou em casas como aquela

onde Rimbaud comeu

e dormiu e estendeu

a vida desesperada

estreita faixa amarela

espécie de paralela

entre o tudo e o nada

os pássaros de Londres


quando termina o dia

e o sol consegue um pouco

abraçar a cidade

à luz razante e forte

que dura dois minutos

nas árvores que surgem

subitamente imensas

no ouro verde e negro

que é sua densidade

ou nos muros sem fim

dos bairros deserdados

onde não sabes não

se vida rogo amor

algum dia erguerão

do pavimento cínzeo

algum claro limite

os pássaros de Londres

cumprem o seu dever

de cidadãos britânicos

que nunca nunca viram

os céus mediterrânicos

                                         Mário Cesariny, in "Poemas de Londres"

Em Todas as Ruas te Encontro

Em todas as ruas te encontro

em todas as ruas te perco

conheço tão bem o teu corpo

sonhei tanto a tua figura

que é de olhos fechados que eu ando

a limitar a tua altura

e bebo a água e sorvo o ar

que te atravessou a cintura

tanto tão perto tão real

que o meu corpo se transfigura

e toca o seu próprio elemento

num corpo que já não é seu

num rio que desapareceu

onde um braço teu me procura


Em todas as ruas te encontro

em todas as ruas te perco