Maria mulher eucarística

 
Apostila conforme a Encíclica: “Ecclesia de Eucharistia,
números: 53 a 58”,do Papa João Paulo II.

Organizada por: a.agostin@gmail.com

  

A Eucaristia é um mistério de fé que excede tanto nossa inteligência, que nos obriga ao mais puro abandono à "Palavra de Deus".

 

Eucaristia fonte e ápice da vida da comunidade Igreja.

Maria “mulher Eucarística”

 

53.

Se quisermos redescobrir em toda a sua riqueza a relação íntima entre a Igreja e a Eucaristia, não podemos esquecer Maria.

`        Mãe e modelo da Igreja, Maria pode guiar-nos para o santíssimo Sacramento porque tem uma profunda ligação com ele.

`        A narração da instituição da Eucaristia, na noite de “quinta feira santa”, não fala de Maria. À primeira vista, o Evangelho nada diz a tal respeito.

 

Sabe-se que ela estava presente no meio dos apóstolos, quando, "unidos pelo mesmo sentimento, se entregavam assiduamente à oração" (At 1,14), na primeira comunidade que se reuniu depois da Ascensão à espera do Pentecostes.

At 1,14 – Todos eles com algumas mulheres, a mãe de Jesus e seus parentes, persistiam unânimes na oração.

 

E não podia certamente deixar de estar presente, nas celebrações eucarísticas, no meio dos fiéis da primeira geração cristã (dos discípulos e discípulas de Cristo), que eram assíduos à "fração do pão" (At 2,42).

At 2,42 – Eram assíduos em executar o ensinamento dos apóstolos, na solidariedade e na fração do pão e nas orações.

 

 

Para além da sua participação no banquete eucarístico, pode-se delinear a relação de Maria com a Eucaristia indiretamente a partir da sua atitude interior.

 

Maria é mulher "eucarística" na totalidade da sua vida.

 

A Igreja –aqui a igreja é a comunidade de todos os discípulos cristãos, isto é todos os batizados – vendo em Maria o seu modelo, é chamada a imitá-la também na sua relação com este mistério santíssimo.

 

 

Mysterium fidei! – Mistério de fé

 

54.

A Eucaristia é um mistério de fé que excede tanto a nossa inteligência e nos obriga ao mais puro abandono à Palavra de Deus.

 

`        “Isto é o meu corpo; isto é o meu sangue”. Ninguém melhor do que Maria pode servir-nos de apoio e guia nesta atitude de abandono.

`        "Fazei isto em memória de mim". Todas as vezes que repetimos o gesto de Cristo na “Última Ceia”, dando cumprimento ao seu mandato, ao mesmo tempo acolhemos o convite, que Maria nos faz, para obedecermos a seu Filho sem hesitação:

`        "Fazei o que ele vos disser" (Jo 2,5).

Jo 2,5 - A mãe diz aos serventes: Fazei o que vos disser.

 

Com a solicitude materna manifestada nas bodas de Caná, ela parece dizer-nos:

·         Não hesiteis, confiai na palavra do meu Filho. Se ele pôde mudar a água em vinho, também é capaz de fazer do pão e do vinho o seu corpo e sangue, entregando aos crentes =discípulos cristãos ou fiéis, aqueles batizados que nele crêem - neste mistério, o memorial vivo da sua Páscoa e tornando-se assim pão de vida.

 

55.

Maria, de certo modo, praticou a sua fé eucarística ainda antes de ser instituída a Eucaristia, quando se disponibilizou para Deus “com o seu fiat”.

`        Naquele momento ela ofereceu o seu ventre virginal para a encarnação do Verbo de Deus.

A Eucaristia, ao mesmo tempo em que evoca a paixão e a ressurreição, coloca-se no prolongamento da encarnação.

·         Maria, na anunciação, concebeu o Filho divino também na realidade física do corpo e do sangue, em certa medida, antecipando nela o que se realiza sacramentalmente em cada discípulo cristão isto é em cada batizado, quando recebe, no sinal do pão e do vinho, o corpo e o sangue do Senhor.

 

Existe uma profunda analogia entre o “fiat” pronunciado por Maria, em resposta às palavras do Anjo, e o “amém” que cada fiel pronuncia quando recebe o corpo do Senhor.

 

A Maria foi-lhe pedido para acreditar que aquele que Ela concebia "por obra do Espírito Santo" era o "Filho de Deus" (cf. Lc 1,30-35).

Lc 1,35 – O anjo lhe respondeu: O Espírito Santo virá sobre ti e o poder do Altíssimo te fará sombra; por isso o consagrado que nascer levará o título de Filho de Deus.

 

Dando continuidade à fé da virgem santa, é-nos pedido, no mistério eucarístico, para crermos que, aquele mesmo Jesus, Filho de Deus, e Filho de Maria, torna-se presente nos sinais do pão e do vinho, com todo o seu ser humano-divino.

 

“Feliz daquela que acreditou” (Lc 1,45):

Lc 1,45 – Feliz és tu que creste, porque se cumprirá o que o Senhor te anunciou.

 

No mistério da encarnação Maria antecipou a fé eucarística da Igreja.

 

Na visitação, quando leva no seu ventre o Verbo encarnado, de certo modo ela serve de "sacrário" - o primeiro "sacrário" da história, para o Filho de Deus, que, ainda invisível aos olhos dos homens, se presta à adoração de Isabel, como que "irradiando" a sua luz através dos olhos e da voz de Maria.

 

E o olhar extasiado de Maria, quando contemplava o rosto de Cristo recém-nascido e o estreitava nos seus braços, não é porventura o modelo inatingível de amor a que se devem inspirar todas as nossas comunhões eucarísticas?

 

56.

Maria viveu a dimensão sacrificial da Eucaristia ao longo de toda a sua existência ao lado de Cristo, e não apenas no Calvário.

 

Quando levou o menino Jesus ao templo de Jerusalém, "para o apresentar ao Senhor" (Lc 2,22), ouviu o velho Simeão anunciar que aquele Menino seria "sinal de contradição" e que uma "espada" havia de trespassar também a alma dela (cf. Lc 2,34-35).

Lc 2,22 – E quando chegou o dia de sua purificação.

Lc 2,34-35 Simeão abençoou e disse a Maria, a mãe: Vê está posto de forma que todos em Israel ou caiam ou se levantem; será uma bandeira disputada, e assim ficarão evidentes os pensamentos de todos. Quanto a ti, uma espada te atravessará.

 

`        Assim foi vaticinado (profetizado) o drama do Filho crucificado e de algum modo prefigurado (profetizado) o "stabat Mater" aos pés da Cruz.

 

Preparando-se, dia após dia, para o Calvário, Maria vive uma espécie de "Eucaristia antecipada", dir-se-ia uma "comunhão espiritual" de desejo e oferta, que terá o seu cumprimento na união com o Filho durante a Paixão, e manifestar-se-á depois, no período pós-pascal, na sua participação na celebração eucarística, presidida pelos Apóstolos, como "memorial" da Paixão.

 

Impossível imaginar os sentimentos de Maria, ao ouvir dos lábios de Pedro, João, Tiago e restantes apóstolos as palavras da Última Ceia (Lc 22,19): Isto é o meu corpo que vai ser entregue por vós.

Lc 22,19 – Tomando um pão deu graças, o partiu e o deu dizendo: Isto é o meu corpo, que é entregue por vós.

 

Aquele corpo entregue em sacrifício e presente agora nas espécies sacramentais, era o mesmo corpo concebido no seu ventre.

`        Receber a Eucaristia devia significar para Maria quase acolher de novo no seu ventre aquele coração que batera em uníssono com o dela e reviver o que tinha pessoalmente experimentado junto da Cruz.

 

57.

Fazei isto em memória de Mim” (Lc 22, 19). No “memorial” do Calvário, está presente tudo o que Cristo realizou na sua paixão e morte. Por isso, não pode faltar o que Cristo fez para com sua Mãe em nosso favor.

 

Entrega-Lhe o discípulo predileto e, nele, entrega cada um de nós: “Eis aí o teu filho”. E de igual modo diz a cada um de nós também: “Eis aí a tua mãe” (cf. Jo 19, 26-27).

Jo 19,26-27 – Jesus vendo a mãe ao lado do discípulo predileto, diz à mãe: Mulher aí está o teu filho. Depois diz ao discípulo: Aí está a tua Mãe. Desde esse momento o discípulo a levou para casa.

 

Viver o memorial da morte de Cristo na Eucaristia implica também receber continuamente este dom.

 

Significa levar conosco - a exemplo de João - Aquela que sempre de novo nos é dada como Mãe.

`         Cada cristão, cada discípulo nascido a partir da consagração batismal, carece assumir Maria também como sua mãe.

`         A negação desta realidade se opõe à Palavra de Cristo.

`         Todo cristão que aceita a “Palavra de Deus” aceita Maria por mãe.

 

Significa ao mesmo tempo assumir o compromisso de nos configurarmos com Cristo,

`     entrando na escola da Mãe e aceitando a sua companhia.

 

Maria está presente, com a Igreja e como Mãe da Igreja, em cada uma das celebrações eucarísticas.

 

Se Igreja e Eucaristia são um binômio indivisível, o mesmo é preciso afirmar do binômio Maria e Eucaristia.

`        Por isso mesmo, desde a Antigüidade é unânime nas Igrejas do Oriente e do Ocidente a recordação de Maria na celebração eucarística.

 

58.

Na Eucaristia, a Igreja une-se plenamente a Cristo e ao seu sacrifício, com o mesmo espírito de Maria.

`        Tal verdade pode-se aprofundar relendo o Magnificat em perspectiva eucarística.

 

Como o cântico de Maria, também a Eucaristia é primariamente louvor e ação de graças. Quando exclama:

`        A minha alma glorifica ao Senhor e o meu espírito exulta de alegria em Deus meu Salvador”,

 

Maria traz no seu ventre Jesus.

`        Louva o Pai “por” Jesus,

`        mas louva-O também “em” Jesus e “com” Jesus.

`        É nisto precisamente que consiste a verdadeira “atitude eucarística”.

 

Ao mesmo tempo Maria recorda as maravilhas operadas por Deus ao longo da história da salvação, segundo a promessa feita aos nossos pais (cf. Lc 1,55), anunciando a maravilha mais sublime de todas: a encarnação redentora.

Lc 1,55 – prometida a nossos antepassados, em favor de Abraão e sua descendência para sempre.

 

Enfim, no Magnificat está presente a tensão escatológica da Eucaristia.

`        Escatologia = 1. Ciência ou teoria do destino ou propósito últimos da humanidade e do mundo. 2 Teol Doutrina do destino último do homem (morte, ressurreição, juízo final) e do mundo (estado futuro)].

 

Cada vez que o Filho de Deus se torna presente entre nós na “pobreza” dos sinais sacramentais, pão e vinho é lançado no mundo o germe daquela história nova, que verá os poderosos “derrubados dos seus tronos”, e “exaltados os humildes” (cf. Lc 1, 52).

Lc 1, 52 – Derruba do trono os potentados e exalta os humildes.

 

Maria canta aquele “novo céu” e aquela “nova terra”, cuja antecipação e em certa medida a «síntese» programática se encontram na Eucaristia.

 

Se o Magnificat exprime a espiritualidade de Maria, nada melhor do que esta espiritualidade, pode ajudar-nos a viver o mistério eucarístico.

 

Magnificat - Lc 1 46-56 disse então Maria:

Minha alma proclama a grandeza do Senhor,

meu espírito festeja a Deus, meu salvador;

porque olhou a humildade de sua escrava

e daqui para a frente me felicitarão todas as gerações.

 

Porque o Poderoso fez proezas,

seu nome é sagrado.

Sua misericórdia com seus fiéis

continua de geração em geração.

 

Seu poder é exercido com seu braço:

dispersa os soberbos em seus planos:

derruba do trono os potentados

e exalta os humildes:

cumula de bens os famintos

despede vazios os ricos.

 

Socorre Israel seu servo,

recordando a lealdade,

prometida a nossos antepassados,
em favor de Abraão e sua descendência para sempre.

Recebemos o dom da Eucaristia, para que a nossa vida, à semelhança da de Maria, seja toda ela um magnificat!

 

Bibliografia:

Encíclica: “Ecclesia de Eucharistia’ números: 53 a 58”,

do Papa João Paulo II.

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