Tasso da Silveira

Retrato de T.S.
(Tasso da Silveira. Foto do sítio Portal Dia-a-dia Educação:
http://portugues.seed.pr.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=46 )

 

FIAT

Madrugada de se ir levar os que partem

à Estação...

 

O ar vivo canta,

Os galos cantam,

E na alva tela

Da neblina

Deus começou a debuxar

As coisas prodigiosas...

 

E as árvores vão nascendo e vão florindo

E as montanhas desprendem-se da sombra densa,

Ao longe,

E os telhados vermelhos

E os chalets verdes

De Curitiba

Surgem como pinceladas passadistas

(mas tão frescas!)

Que aguarela...

 

E as madressilvas cheiram

Nos cercados de ripas toscas

E sussurram as frondes frescas

Ainda úmidas do instante da criação...

 

Oh, a silente caminhada

Pelas ruas tranquilas

Entre os jardins dormentes...

E, depois, a partida,

Na Estação...

 

... os que se foram pelo mundo afora,

Os que se foram para o encantamento da distância,

Os que foram “seja para onde for”!

 

Os galos cantam na manhã sonora,

o ar vivo canta.

 

Mas o trem que trepida longe

e agita no ar o lenço de um silvo longo e

melancólico

é um horizonte que recua

 

e faz, em nós, cada vez mais imenso

o deserto

interior...

(Tasso da Silveira in As Imagens Acesas, 1928)

 

 

 

 

 

A URBE VIOLENTA

      Desolação

Alma – infinita!

( A tarde é uma sinfonia lenta de silêncio.

O mundo todo é um êxtase longo

de silêncio.

Os caminhos pararam

na caminhada

para além...

E a sombra vem tão suave

como Jesus quando desce a um coração humilde...)

Alma – infinita!

(Oh, amanhã, na urbe violenta, o sol queimará

de novo a caliça lisa dos edifícios

monstruosos,

e do chão se erguerão outra vez as nuvens

turbilhonantes de poeira...

 

Amanhã, a multidão passará convulsa pelas ruas,

e as paixões, como cães,

sinistramente ladrarão...

 

Amanhã, eu irei, como os outros, para a vertigem

dolorosa,

e desejarei, e lutarei,

e serei miserável e mesquinho,

e me esquecerei de mim mesmo,

e desconhecerei o meu irmão,

e tornar-me-ei mais ínfimo que o pó...)

 

Alma – infinita!

 

(... e tão fugaz o instante

da consciência

da tua infinitude...)

(Tasso da Silveira in As Imagens Acesas, 1928)

Meu canto de alegria, Senhor.

Meu canto de plenitude,

porque existes, Senhor.

 

Meu canto inocente e novo

como o dos pássaros matinais.

 

Meu canto múrmuro e fresco

como o dos veios que escorrem

dos flancos verdes das montanhas.

 

Meu canto feliz e alegre

como o das searas e os jardins.

 

Meu canto essencial e profundo

como o das noites referventes

de mundos inumeráveis.

 

Meu canto fecundo e ardente

como o das enchentes de sol

nas grandes terras tropicais.

 

Meu canto universal e total

como o das vastidões oceânicas

em torno dos continentes.

 

Meu canto de origens fundas

como o dos ásperos rochedos

imemoriais.

 

Meu canto inflexível, rijo e tenso

como as correntes que equilibram

as esferas acesas.

 

Meu canto largo, longe, límpido

como o alto céu primaveral.

 

Meu canto livre como o vento,

meu canto puro como o fogo,

meu canto plástico como a água,

meu canto diáfano como o ar.

 

Meu canto de descobrimento,

meu canto de deslumbramento,

meu canto imenso e anunciador.

 

Meu canto porque existes,

- porque existes! – Senhor.

 

Meu canto antigo e inesperado

como a Dor...

(Tasso da Silveira, in O Canto Absoluto, 1940)

 

Não penses: “nunca fiz bem

a ninguém,

nem dei ao mundo o mais fugitivo instante de

         beleza...”

 

Acaso quando em tua miséria profunda

atravessavas a floresta morta, pela noite,

não acendeste uma fogueira?

 

Pois a essa hora, todos os astros se inclinaram

sobre a chama perdida,

e as árvores tiveram um frêmito longo e

                   comovido

 

e sonharam

 

... e, lá longe, quem sabe se algum viandante

                   cansado

não sorriu de alegria

ao ver iluminar-se,

dentro da noite morta,

aquela lâmpada

distante?...

 

(Tasso da Silveira, in As imagens Acesas, 1928)

 

 

Poetas de todos os tempos

e de todas as nações:

vossa lembrança é a minha mais profunda comoção.

 

Porque fundistes num só soluço milenário

a queixa humilde de cada homem,

a ânsia obscura de cada povo,

o grito perdido de cada momento do mundo,

e assim perpetuastes a tradição da dor e da alegria

e espiritualisastes e redimistes

a fadiga da Terra...

 

A vossa voz é o timbre humano

das verdades divinas.

 

Ela é que diz, acima de tudo, que somos irmãos no mundo,

e que a nossa estrada é uma só,

e que a nossa finalidade é a mesma...

 

Ela é que diz que o homem é sempre igual ao homem,

na fantasmagoria das ilusórias aparências

que infinitamente se escoam...

                                                               LAUS DEO

(Tasso da Silveira, in As Imagens Acesas, 1928)

 

Navio que vem de longe

traz muito carregamento.

Traz azeites, vinhos, viandas,

pesados, túmidos fardos,

sacos, surrões odres, arcas,

linhos, pratas e cristais.

Navio que vem de longe

vem com largo suprimento

(talvez que não volte mais).

 

Traz os corpos, traz as almas,

traz as distâncias e as ânsias,

e a esperança e o desespero,

traz as fadigas totais.

Navio que vem de longe

vem com a música do vento

gemendo nos mastros reais.

Vem com o peso das estrelas

das noites de travessia.

Vem com os medos e os anelos

das pobres almas aflitas

que talvez não voltem mais.

 

Navio que vem de longe

é o mar que vem. São as ondas,

os horizontes perdidos,

as longes terras ideais.

Traz no bojo o mar e o vento,

arrasta estrelas e vagas,

e solidões e distâncias.

Navio que vem de longe

traz muito carregamento.

Ah, talvez não volte mais...

(Tasso da Silveira, in Regresso à Origem, 1960)

(poesia homônima que finaliza o livro) *minha nota

 

Fio d’água, humilde e brando!

passarás despercebido

nesta humilde brandura

em que vieste cantando ou soluçando

ora, em alegre toada, ora, como um gemido,

correndo ao léu,

as minhas esperanças,

minha imensa amargura,

meu prazer, meu pesar, meu inferno e meu céu...

Entanto, houvesse quem, piedoso e amigo,

te auscultasse um momento,

caminhando contigo

(por teu caminho de alegrias e revezes,

- dia azul, noite má... )

- e esse veria o ardor violento,

impetuoso, por vezes,

com que te lanças

para um destino que nem sabes qual será...

 

Esse veria que há revoltas em teu seio,

revoltas, sonhos, ambições...

Ambições de crescer e avolumar-se... O anseio

(oh! teu supremo gozo!)

de um dia, entumescido,

ir rolando profundo e tumultuoso,

a acordar a floresta ao épico rugido

da caudal transbordante a escachoar em cachões...

 

Quem sabe do futuro?

teu curso humilde e lento,

teu curso, hoje obscuro,

poderá, na ânsia intérmina que sentes

no decorrer da viagem,

ir encontrando

outros filões, novas correntes

(outros filões de pensamento,

novas correntes de emoção)

e ir aumentando, e ir engrossando, e ir tumultuando,

e dominar, enfim, com teu canto selvagem,

terra e céus, que ao fragor enorme fremirão!...

 

Então,

pobre fio d’água cristlino:

que grandioso destino!

atravessar o mundo, atravessar,

indômito e tremendo,

a terra toda, haurindo o encanto da paisagem,

ruindo montanhas, fecundando o vale, e tendo

a certeza de um dia

tua alma transfundir na alma heroica e bravia

do Mar – a exaltação, a trágica harmonia,

o profundo clamor, o amplo tumulto! - o Mar...

(Tasso da Silveira, in Fio d’Água, 1918)

 

Tomo por um momento os acentos de Whitman,

Homens do Mar, para saudar-vos.

Para saudar-vos com uma saudação alegre e viva.

Porque, quando vou ao vosso encontro,

vou ao encontro de alguma coisa de mim memo,

do que há, talvez de mais fundo

e mais antigo em mim mesmo:

sabeis do Homem do Mar de que provenho

e que cantei num pean de deslumbramento

Homens do Mar, sois do Mar, sem dúvida...

Do Mar violento, que forrou de iodos salutantes

vossos pulmões, para os hausts formidáveis do ar oceânico.

E pôs elasticidade de onda em vossos músculos,

e modelou, com dedos michelangescos,

em relevos e sombras vossa máscara.

E encheu de diafaneidades e distâncias

a vossa alma

e de infinitudes o vosso desejo.

E acendeu fosforecências novas em vosso espírito.

Em face de vós, Homens do Mar, levantam-se

os vossos irmãos, os Homens da Terra:

 

os que no seu próprio ser prolongaram

o ser elementar do húmus fecundo.,

fermentante de energias criadoras.

Eles são como as árvores, têm o sentido da

fixidez e da profundidade, têm raízes que vão ao coração da realidade prodigiosa.

Vós sois como as velas leves e ágeis.

À vossa essência é o voluptuoso movimento,

a ebriez da amplidão e da paisagem sempre diferente.

 

Mas sobre vós e sobre eles arqueiam-se as mesmas eternas estrelas,

para as quais lançais, eles e vós,

o mesmo olhar perdido de desejo infinito.

 

Homens do Mar, de vestes alcatroadas

cheirando à maresia,

e de olhos fulgentes de imagens líquidas

e de ouvidos ressoantes de cânticos de ventos livres

eu vos saúdo com uma saudação alegre e fraterna.

Porque tenho um pouco da vossa alma.

Em mim vossa alma se fundiu

com a alma do Homem da Terra.

 

Sou árvore e vela a um só tempo.

Tenho, a um só tempo, o sentido das gestações

            profundas do húmus negro

e das profundas solidões marinhas.

Por isso, o olhar que, também, lanço às estrelas

sagradas vai embebido dessa dupla infinitude de ânsia:

da ânsia das grandes energias estáveis

e da ânsia das grandes energias inquietas.

 

Por isso também é que meu olhar

            incoercivelmente ultrapassa o lampejamento longínquo das estrelas

para buscar além a realidade última:

a realidade última do ser único e insondável...

(Tasso da Silveira, in O Canto Absoluto, 1940)

 

Mulher

            brasileira,

é a ti que eu falo.

À ti que obscuramente realizas

a mulher valorosa

da sabedoria bíblica:

a que é mais preciosa do que as pérolas das extremidades

            do mundo,

a em que serenamente confia

o coração do esposo,

a que recolhe a lã e o linho

e os tece com as suas mãos velozes,

a que se levanta noite ainda

para ordenar o longo trabalho do dia inteiro,

a que provou o azeite

e constatou que ele era bom,

e não deixará extinguir-se pela noite adiante

a chama do seu candieiro,

a que atende o mendigo à porta,

a que se revestiu de força e graça

e riu-se ao dia alvorecente,

a que recebeu dos filhos

 

à hora do despertar

a saudação feliz...

 

Mulher brasileira: guardarás

ao sopro do vento uivante

esta auréola de sonho e de pureza?

 

Vejo que não...

Vejo que invade o teu coração desprevenido

um vago fluido de inquietação.

Vejo que já tens ao lábio

o amargor de uma queixa,

vejo que foges

ao teu destino de fecundidade...

 

Mulher brasileira,

a mais tocada de Deus,

a mais tocada de graça maternal

entre todas as mulheres do mundo:

aprendeste a fazer do amor o gozo efêmero.

 

Que palavra de fogo

gravará na tua alma

o sentido destea tremenda negação?

 

Eras como uma terra primitiva

sobre cujo mistério

passou, fecunda, a sombra

do espírito criador.

 

passou, fecunda, envolta

na pulsação do humano amor.

 

E no espelho das águas mansas de tua alma

refletiram-se céus distantes e infinitos,

e no humus do teu corpo

a vida germinou e floresceu.

 

Eras como uma terra adormecida

que a esse frêmito novo despertou

para a plenitude da alegria

- a alegria de criar...

 

Mas, depois, esqueceste a transcendência

do teu destino.

E distendeste o corpo fatigado

e olhaste a vida em torno,

a hauriste em sorvo de lascívia,

e achaste

que o teu esforço heroico te roubava

a doçura das horas passageiras.

E, então, tomaste a decisão mortal:

estancar em teu ser

as nascentes do ser...

 

Mulher brasileira, com o sacrilégio desse gesto,

profanaste o santuário

dos destinos raciais.

Mulher brasileira, a mas tocada de graça

maternal

entre todas as mulheres do mundo:

não foi apenas ao transitório sacrifício

das volúpias misérrimas

que fugiste.

Foi às sagradas determinações

da Vida,

foi ao sonho

de Deus...

(Tasso da Silveira, in Discurso ao Povo Infiel, 1933)

 

Amada, que plenitude

de felicidade e beleza

e de simplicidade divina

no dia que passou.

 

De manhãzinha vimos, no jardim próximo,

pela janela, aberta ao sol,

da alcova perfumada,

uma ronda de crianças. E à noitinha,

quando íamos na alameda,

pela primeira vez descobrimos,

no céu profundo,

a ronda das estrelas...

 

E o dia todo

choveu sol.

E o dia todo,

entre a visão matinal,

de frescor infinito,

e a visão vesperal,

de infinito esplendor,

o meu olhar bebeu no teu

e o teu olhar bebeu no meu

a esperança inefável

de um destino incoercível

 

de felicidade

e de beleza

eternas...

(Tasso da Silveira, in Alegria do Mundo, 1940)

 

No berço pobre

( o berço é o mundo do sofrimento infinito)

o pequenino se estorce

na dor incompreensível.

 

Uns braços miraculosos

colhem-no do abismo fundo

e aconchegam-no a uns seios cálidos

e embalam-no docemente

num ritmo suave, suave.

 

A dor sem nome adormece lentamente

O pequenino adormece.

O embalo, porém, continua

nos braços miraculosos.

 

E o seu ritmo profundo e suave

comunica-se ao ar ambiente

do quarto pobre.

 

Transpõe as paredes encardidas,

contagia as árvores próximas.

E as árvores começam a dançar ao sereno balouço.

 

E pelas profundas raízes

se escoa o ritmo profundo

para as ocultas entranhas

da terra adormecida.

 

E a terra acorda a um estremecimento de sonho.

E cadencia ao ritmo imponderável

a sua lenta flutuação no etéreo oceano.

 

E, presas à Terra por invisíveis correntes fluídicas,

põem-se, de súbito, a acompanhá-la

na dança sonambúlica,

por toda a imensidão dos espaços sem fundo,

as estrelas eternas...

(Tasso da Silveira, in O Canto Absoluto, 1940)

FELICIDADE

 

Oh, a luta arrebata para a vida!

A dor exalta como um vinho quente!

Por isto, é herói quem sofre! A dor, somente,

A alma estimula a glória pressentida...

 

Mas, a ventura, a doce paz, a ardente

Felicidade – efêmera guarida... –

Como nos canta na alma comovida

Canções de morte, suaves... suavemente...

Ah! Perpetuar num sono derradeiro

O suspiro de alívio... E à dor do mundo

Fugir, sem mais querer o que se quis...

 

Ao silêncio entregar o ser inteiro,

Não mais sair desse êxtase profundo,

Para não deixar mais de ser feliz...

 

              (in Tasso da Silveira, A alma heróica dos homens, 1924)

 

                (De um papirus egípcio)

 

A morte hoje me aparece como a alegria de um convalescente,

como o ar matutino após a noite de febre ardente...

A morte hoje me aparece como o perfume de uma flor de lotus,

como o regresso de um marujo de países estranhos e remotos...

 

A morte hoje me aparece como o desejo desesperançado

que tem, de rever a pátria, o triste, o mísero exilado...

(Tasso da Silveira, in A Alma Heroica dos Homens, 1924)

 

 - Última atualização: maio/2010 - 


            Bibliografia:

Bibliografia: Puro Canto, Tasso da Silveira, 1962; Diálogo com as raízes (jornal de fim de caminhada) Edições GRD 1971, Salvador; Contemplação do Eterno, Tasso da Silveira, Edição da "Organização Simões", Rio. 1952. 

Todo o material aqui digitalizado possui direitos reservados ao autor e não podem ser reproduzidas por quaisquer meios. Poesias compiladas apenas para fins didáticos. 
A Poesia Eterna® se exime de responsabilidade sobre a má utilização deste sítio.
Comments