UM PT TRISTE

Manoel Del Rio,  advogado, assessor jurídico de movimentos sociais

                                     

                             UM PT TRISTE


01/07/2013

No início do ano escrevi um pequeno texto para avaliação interna do andamento da política municipal no inicio do governo.

As coisas andaram e confirmam as nossas preocupações. Na última confraternização do partido para comemorar seus 33 anos, encontrei um PT triste, sem entusiasmo e muitos resmungos pelos corredores. Especialmente dos candidatos a vereadores não eleitos com o sentimento de exilados políticos, vez que não podem assumir responsabilidades no governo municipal.  Deste modo, dou publicidade a este texto para contribuir na superação dos desafios que estamos enfrentando.

 ARTIGO DE CIRCULAÇÃO INTERNA AO PT (Até o PED 2013)

 Eleição (2012) em São Paulo: Processo Democrático inconcluso

 

O PT-DM (Partido dos Trabalhadores) da cidade de São Paulo implantou um grande processo democrático para eleição (do prefeito) na cidade. Primeiro a escolha do candidato. Realizou plenárias em 99% (todos) dos Diretórios Zonais, onde os cinco pré-candidatos ouviram a militância do partido. As direções zonais expunham as prioridades das regiões, seu diagnóstico e ouviram os pré-candidatos. Isso fortaleceu enormemente o Partido e sedimentou as bases eleitorais. Concluída essa etapa, candidato já escolhido, teve inicio as plenárias para debater e elaborar o Programa de Governo. Debateu-se, estudou-se os principais assuntos relacionados ao enfrentamento dos principais problemas que os paulistanos vivenciam. Sem delongas, de modo democrático, com participação da base partidária, das bases sociais e intelectuais, o programa (de governo) estava formulado (pronto). De posse desse programa, grande contingente social estava preparado para a campanha eleitoral.

A campanha eleitoral foi brilhante. A partir dos DZ’s (Diretórios Zonais do Partido) e dos candidatos a vereador do PT, a campanha foi levada em todos os cantos da cidade. Chegou nas favelas, cortiços, nas fábricas, no comércio..., bem, em todos os lugares tinha alguém fazendo campanha.

Este processo bem arquitetado, entre outros fatores, viabilizou a vitória eleitoral do PT em São Paulo.

Formação do Governo

Terminada a eleição, havia uma expectativa que o processo democrático em andamento continuasse. Mas, isso não ocorreu. Interrompeu-se a democracia partidária em andamento. Transparece a concepção de que a vitória eleitoral foi resultado da excelência de uma ou algumas pessoas e não coletiva do PT e das forças sociais organizadas.

Percorreu-se um caminho de escolha de gestores de secretarias, subprefeituras, etc, incompreensível para as forças sociais e bases partidárias vitoriosas na eleição. Um rumo cheio de noções confusas e falsos raciocínios. Apresenta incompreensão do papel desempenhado pela base partidária no período eleitoral. Desprezou-se a empatia que havia sido construída com a militância na etapa anterior e quase nenhuma opinião foi respeitada e nenhuma consulta foi realizada nas instâncias do partido e bases sociais para a formação do novo governo municipal.

Primeiro diz que precisa ser técnico. O que é uma grande bobagem. A ditadura militar governou 21 (longos anos) com técnicos como Sergio Naia (engenheiro e ex-deputado), entre tantos outros, que jogou os trabalhadores nessa miséria profunda. Pelo andar da carruagem (se assim fosse) nem Lula poderia ser subprefeito, porque não é técnico. Na verdade, essa formulação bate contra toda luta do PT e do próprio Lula para demonstrar a capacidade do trabalhador. E Lula demonstrou isso muito bem no exercício da Presidência. A propósito, vale a pena ver e ler o poema Operário em Construção, que Lula em 1979 pediu que Vinicius de Moraes lesse no 1° de Maio, para afugentar esse argumento de classe dos que sempre mandaram nos trabalhadores.

Na verdade, essa concepção de mundo está embasada no Fordismo/Taylorismo, que separa a concepção da execução do trabalho. Separa o trabalho intelectual do trabalho manual. Sabemos perfeitamente o infortúnio que esse modelo de gestão produz nos trabalhadores.

As aberrações continuaram. Falam que há um comitê (uma comissão) que avalia isso ou aquilo (que valida quem participa ou não do governo), mas as bases vitoriosas da eleição ficam de fora. Nada podem opinar.

Este caminho está sangrando o PT, mais que o mensalão. Pois sabemos que essa é uma armação das forças conservadoras para atacar o PT. Trouxeram para a gestão pública pessoas que assim que o PT, em 2004, deixou o governo, desapareceram, (logrou) não participou de reuniões partidárias, não votou nos PED’s, não moveu uma palha contra a gestão dos últimos oito anos da prefeitura, não os encontramos na campanha eleitoral, e também filiados que não estão em dia com as finanças do partido. Como esses exemplos, encontramos dezenas de pessoas assumindo posição estratégica na gestão e sequer tangenciaram nossas bandeiras de luta. Na gestão de subprefeituras e secretarias, esses, embora técnicos e/ou concursados/comissionados, não são neutros. Muitos trabalharam nas eleições para nossos adversários. Muitos são fisiológicos, sem convicções próprias, entram em qualquer lado que puder. Confere imenso espaço para forças políticas que foram adversárias no primeiro turno. Isso sangra as bases partidárias e pode provocar um processo perigoso de afastamento da militância do PT e bases sociais do compromisso com a gestão municipal.  E pode deixar nosso governo municipal fragilizado frente a possíveis ataques das forças conservadoras. Ainda há tempo para corrigir esse rumo equivocado. Vale reler “O Príncipe” de Maquiavel “tem mais a temer das elites conspiradoras do que das massas, por isso deve tentar formar uma aliança com o povo contra a aristocracia...” Ganhar eleição e manter a mesma metodologia de gestão dos adversários não é nada inteligente. É preciso avançar nas relações com as forças populares.


Uma grande oportunidade

Uma boa gestão em São Paulo impacta em todo Brasil. Por isso é necessário que as forças eleitorais vitoriosas e comprometidas com nosso Programa de Governo, estejam na gestão do governo. Não se trata de colocar as bases sociais e partidárias dentro do governo. Tão pouco oferecer empregos para bases descontentes. Trata-se de participação no rumo da gestão. Poder influir, cobrar e defender nossa gestão quando necessário. Não se trata também de colocar algumas figuras do partido na gestão e, pronto. Trata-se de colocar na gestão das políticas públicas os melhores quadros do partido, respaldados pelas bases partidárias e sociais. Aproveitar essa oportunidade para realizar, de forma pedagógica, o exercício de governar. Manter a empatia, estreitar laços entre a militância, as bases partidárias e eleitorais. E abrir espaços para parcerias, gestão com participação das comunidades populares organizadas.

O projeto dos trabalhadores implica em mudanças nas bases econômicas, na eliminação da desigualdade social, etc. Mas, para isso, os trabalhadores precisam treinar suas habilidades de gestor e controle das políticas públicas. A gestão do município é uma grande oportunidade para os trabalhadores. Sem preconceito de classe, juntos e misturados, seguirmos em frente. O partido é concebido como instrumento de disputa do poder. Sendo assim, os quadros partidários não podem ficar fora da gestão da fração do poder público conquistada.

Em seus 33 anos de existência o PT governou a cidade de São Paulo por 8 anos – governos Luiza e Marta. Acumulou a experiência através do Modo Petista de governar. Treinou e capacitou quadros partidários no exercício da gestão pública. Agora o PT tem plenas condições de realizar um bom governo e, oxalá, na próxima eleição renovar nosso mandato.

De outra forma, daqui a quatro anos, quando o governo se dirigir as bases sociais e partidárias, poderá se surpreender, não encontrar mais a quem se dirigir. Ocorrerá o fenômeno de 2004 (em São Paulo), por todos conhecidos, inclusive seu resultado. Parodiando o comediante Chaves, vamos dizer: “E agora, quem poderá nos defender? O Chapolim Colorado” E aí, talvez, seja tarde demais.

 Manoel Del Rio   - Advogado e Assessor Jurídico de Movimentos Sociais 

 Contatos: manoeldelrioblas@gmail.com, Twitter:@ManoelDelRio, Facebook:Manoel Del Rio   

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