PREÇO DAS PASSAGENS

Manoel Del Rio,  advogado, assessor jurídico de movimentos sociais


LUTA PELA REDUÇÃO NO PREÇO DAS TARIFAS DE TRANSPORTE PÚBLICO

Vinte centavos: "De grão em grão a galinha enche o papo."

16/06/2013

Vinte centavos a mais no preço da condução significa: menos 5 quilos de arroz, menos 2 quilos de feijão, menos 3 litros de óleo e menos 5 litros de leite. Isto para uma família de 4 pessoas que, em média, utiliza 200 viagens no mês. Falar somente em vinte centavos, isoladamente, é claro que é pouco. Mas, de grão em grão, a galinha enche o papo. Ocorre que o preço da condução é extorsivo em seu todo.

Em 1992, quando o PT deixou a prefeitura de São Paulo, a passagem valia US$ 0,20 (vinte centavos de dólar), hoje custa US$ 1,50 (um dólar e cinqüenta centavos). A inflação, segundo os jornais, de 1994 a 2013, atingiu 332%. Enquanto, a passagem no mesmo período subiu 540%. Quase o dobro da inflação. A qualidade dos transportes também desabou. Diminuiu o número de viagens por ônibus. A frota permanece a mesma de 2004. O número de passageiros aumentou em mais de 1 milhão e 200 mil de 2004 até 2012.

O sofrimento diário dos usuários do transporte público é indescritível. Em diversos países, os trabalhadores gastam em torno de 5% dos salários com transporte. No Brasil, a maioria dos trabalhadores gasta mais de 20 por cento do salário com transporte.

Os subsídios do poder público atingem até 70% em outros países. No Brasil, não passam de 12%. O peso recai sobre os trabalhadores.

Acompanhando essas manifestações pelo Passe Livre, verifiquei que essas pessoas estão cheias de razão. E lembrei-me de minha adolescência e do meu cotidiano utilizando os transportes públicos. Não dá para encobrir que as classes dirigentes da cidade sempre transportaram muito mal os trabalhadores.

Quando eu tinha 15 anos morava no Parque São Lucas, Zona Leste, e fui trabalhar em uma fábrica no Cambuci. Para conseguir entrar no ônibus, precisava andar uns dois quilômetros no sentido contrário para conseguir embarcar. Às vezes, nem isto resolvia. Um dia me desesperei, o tempo passava e não conseguia entrar. As portas estavam tomadas. Jovem, chorei. No próximo encorajei-me, agarrei-me na janela com o pé no estribo, fui. Mais adiante, uma das pessoas que estava na mesma situação minha, caiu. Nunca soubemos o que aconteceu com ele. O ônibus nem parou. No outro dia, o ônibus estava tão cheio e eu lá dentro espremido, carregava um lanche e uma garrafinha de chá, em uma sacola encostada na barriga. A garrafa ficou de ponta cabeça, soltou a tampa e o chá molhou toda a minha calça. Quando cheguei no serviço, os colegas tiravam sarro dizendo que eu tinha urinado. Outros colegas vinham pela Central do Brasil (Poá, Ferraz de Vasconcelos, etc). Um dia, um deles chegou ao serviço assustado, pois tinha caído entre o trem e a plataforma. Disse que a composição passava rente o seu nariz, mas se salvou. Lá muitos morriam. Caíam no decorrer da viagem. Freqüentemente ocorriam brigas na condução lotada.

Para os dias de hoje, os transportes públicos são caros e de péssima qualidade. Não transportam as pessoas com dignidade. Deste modo, o Poder Público não deve tratar as manifestações como caso de polícia, na base da repressão. Deve trabalhar junto com as lideranças do movimento para impedir os excessos e a ação de provocadores. No caso da gestão municipal, o melhor caminho é abrir o diálogo, constituir espaço de participação popular em todas as subprefeituras e de modo transparente buscar um novo modelo de transporte público sustentável.

Rumo a Tarifa Zero, Moradia perto do Trabalho, serviços descentralizados, entre outras mudanças necessárias.

Os trabalhadores realizam serviços para a sociedade, para todos os habitantes. Então, a tarifa deve ser custeada por todos. Um gari recolhe o lixo, realizando um serviço social. Assim ocorrem com a cozinheira, o pedreiro, os metalúrgicos, carpinteiros, químicos, professores, trabalhadores da saúde, etc. Todos realizam trabalho social, e os filhos dos trabalhadores se preparam para isso. Desse modo, as tarifas de transporte podem ser custeadas socialmente. Recursos não faltam. Usar os ganhos do pré-sal e outros minérios. Não desonerar carros, construção civil, etc. São atividades industriais que conferem lucros imensos aos seus donos. O poder público deve deixar de subsidiar aqueles que acumulam riquezas e passar a disponibilizar serviços públicos de qualidade, especialmente para os trabalhadores e seus filhos. Por estes e outros motivos, todo apoio à LUTA PELA REDUÇÃO DAS TARIFAS DE TRANSPORTE PÚBLICO. 

Manoel Del Rio,  advogado, assessor jurídico de movimentos sociais  - Manoeldelrioblas@gmail.com, Twitter:@ManoelDelRio, Facebook:ManoelDelRio

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