FOME


Manoel Del Rio,  advogado, assessor jurídico do movimento  de Moradia

A Fome em São Paulo¹

 

A fome é uma desgraça, uma desgraça, uma... repetia o desempregado

ao pedir ajuda para comprar comida. Seu olhar ia longe, parecia não encarar

as pessoas, voltava-se para o estômago. Seus movimentos expressavam

fraqueza, sofrimento, tristeza, humilhação.

Onde estava este homem?

Na África?

Na Ásia?

Enfrentava a seca do Nordeste?

Não. A cidade de São Paulo o acolhia.

Ali no Centro. Na avenida principal.

Largo São Francisco 31/05/2011 - 12h00

Ele vagava.

Tinha fome.

Tanta riqueza o cercava. Bancos, comércio e sua infinidade de

mercadorias, restaurantes, que maravilha de pratos! Edifícios suntuosos e

carros luxuosos.

Entretanto, ele estava ali, tinha fome. A fome é uma desgraça. Ele não

estava sozinho.Muitas almas, em outros pontos da cidade, encontravam-se na

mesma situação.

No Anhangabaú, no Largo da Batata, na Praça da Sé, na Barão de

Itapetininga, no Brás, em Pinheiros, em Santa Cecília, nos cortiços, pensões

e ocupações de prédio no Centro, no Lajeado, no Itaim Paulista, em Camargo

Velho, na Vila Guarani, em Paraisópolis – Morumbi. Quem diria! Na Vila

Formosa, no Tatuapé, no Jardim Ângela, no Largo do Arouche, no Heliópolis

– Ipiranga, na Praça Princesa Isabel, na Vila Industrial, no Anhanguera, no

Ceagesp, milhares lutam pelas sobras. Meu Deus! Eles estão em todo lugar.

Nos trens lotados, nas obras do Rodoanel e na reforma do viaduto.

Na fábrica, que tristeza, o trabalhador não se alimentava para levar a

refeição para os filhos.

Ah! Em Marsilac, tem o Benedito, ele dorme em qualquer lugar,

desmaia, não tem forças, vida estragada.

São tantas estórias...

Ele só “fica no soro”. Não tem alimentos em casa. O pai está

desempregado. A mãe ganha trinta reais por quinzena, mas esta semana só

recebeu dez reais. A patroa não completou o pagamento.

Ela teve problema de cegueira, perdeu a visão. Não pode ir à escola.

Voltou a enxergar. Agora está com lesões nas articulações.

Eles não aprendem nada na escola; pararam de crescer.

É como uma epidemia. São Milhares, milhões de almas, que habitam

essa cidade. A fome os ataca. Não ingerem os nutrientes suficientes para suas

necessidades vitais.

Que mal é esse que assola esta metrópole?

Fourier² observara: “na civilização, a pobreza brota da própria

abundância”. Esta afirmação é adequada para São Paulo.

A cidade produz uma das maiores riquezas do mundo. Mas, em suas

entranhas, gera um rastro sinistro de destruição humana.

Este livro, por meio da linguagem fotográfica, procurar revelar a fome

presente nas pessoas. É um produto de longa convivência com famílias inteiras

dizimadas pela carência de alimentos.

 A proposta de produzir esta edição surgiu em 1993. Nasceu quando

organizamos a APOIO, baseada na campanha contra a fome. Viabilizou-se

este ano com a parceria entre nós e as agências CAFOD, P.P.M e D&P.

Durante três meses, os fotógrafos percorreram os diversos pontos

da cidade. Encontraram algumas dificuldades. Uma delas: ninguém admite

passar fome. Um outro aspecto foi o impacto depressivo que o contato com a

realidade provoca. O trabalho desses profissionais foi brilhante.

Recebemos a contribuição da equipe de médicos da Organização

Nacional da Saúde (NOS). Conversamos muito sobre a questão: a presença

da fome seletiva, ou seja, a ausência de vitaminas e proteínas e o excesso de

carboidratos. As conseqüências desastrosas para o organismo humano desse

tipo de alimentação.

Enfim, aqui está o livro.

Que proliferem soluções afim de extinguir esta tragédia social.

Que a fome pereça!

Que a vida humana alcance sua plenitude!

 São Paulo, dezembro de 2002

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1. Este texto faz parte da introdução ao livro fotográfico “A Fome em São Paulo”.

2. Fourier – filósofo e sociólogo francês, crítico da “civilização moderna”, viveu entre 1772 - 1837

Manoel Del Rio - Presidente da Apoio

manoeldelrioblas@gmail.com - 

 

Twitter: @ManoelDelRio -  

facebook: ManoelDelRio

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