CORTIÇOS


Manoel Del Rio,  advogado, assessor jurídico do movimento  de Moradia

Introdução ao Livro de Fotos “Cortiços” publicado em 1998

 

“Porque todo homem precisa de um lugar para onde ir”

                                                                                    "DOSTOIEVSKY"

 

“Quando eles se cansavam de andar pelas ruas, eles pediam:

 - Mãe, eu quero ir pra casa!

 Aí eu tinha que explicar pra eles: nós não temos casa, até eles se acostumarem"

 

Esse é um pequeno trecho de uma entrevista concedida por uma moradora

de rua a uma repórter de uma emissora de rádio de São Paulo durante a

ocupação do prédio do INSS, abandonado há mais de 10 anos, na Avenida

Nove de Julho, 584, no centro de São Paulo.

 

O drama revelado no depoimento dessa mãe atinge de forma violenta mais de

dois milhões de almas na cidade de São Paulo. São favelados, encortiçados

e moradores de rua. São trabalhadores. São homens, mulheres e crianças

submetidas a condições inadequadas de sobrevivência na maior e mais rica

cidade do Brasil.

 

Os cortiços são moradias coletivas, instaladas geralmente em imóveis grandes

e velhos, deteriorados, adaptados irregularmente para serem alugados às

famílias de baixa renda. Na maioria dos cortiços moram dezenas de famílias

que disputam o uso de um ou dois sanitários coletivos; de um chuveiro – quase

sempre um cano que jorra água fria; e, um ou dois tanques de lavar roupas,

que também devem servir para lavar utensílios, louças e até mesmo alimentos.

Os encanamentos entopem com bastante freqüência espalhando esgoto

por toda habitação. As instalações elétricas sempre improvisadas provocam

curto-circuitos e incêndios. As famílias são confinadas em um único cômodo,

geralmente úmido e insalubre, em muitos casos sem janela.

 

As crianças são as maiores vitimas desse confinamento domiciliar. Em um

cortiço do bairro da Mooca, uma mãe de família deixava seus filhos (um de

oito, outros de dois anos) fechados no quarto sem janela, o dia todo, até voltar

do trabalho. Esses cômodos são dormitório, sala e cozinha ao mesmo tempo.

Ao lado das camas estão o fogão, a geladeira e a televisão. Em muitos casos

o espaço é tão reduzido que durante o dia o colchão fica de pé para permitir

a circulação interna das pessoas. De noite é estendido no chão para servir de

cama improvisada.

 

Aqui cabe a indagação: quais as causas que produzem essa infeliz realidade?

Devem existir muitas explicações, mas a observação singela de alguns 

aspectos econômicos e políticos da sociedade em que vivemos pode nos

ajudar a entender os motivos desse enorme e violento sofrimento humano.

 

Vejamos a questão do emprego e do salário. Segundo as últimas estatísticas

existem um milhão e meio de desempregados na Grande São Paulo. Ora, meu

Deus ... de que e como viverão estas almas? Visto este crime social que é o

desemprego, olhemos para os baixos salários : 100, 200, 300, 500, tudo inferior

às necessidades básicas de uma família trabalhadora. Para onde ir uma família

atacada pelo desemprego e por esse salário ofensivo à dignidade humana?

 

Na esteira do aprofundamento das precárias condições de vida dos

trabalhadores vem a ineficácia das políticas sociais públicas. Em raros

momentos políticos, os recursos públicos retornam na forma de salário indireto

à população pobre. Projetos habitacionais para moradores de cortiços mofam

nas gavetas. Não prosperam. Para os governantes e para a classe dominante

da cidade, o povo pobre deve morar segregado, distante de trinta a cinqüenta

quilômetros do centro. A cidade urbanizada e o uso dos recursos públicos são

só deles. É esta estrutura social, planejada e organizada pela classe dominante

que produz a tristeza, a humilhação e o sofrimento de nossos irmãos. Um

verdadeiro extermínio, lento e doloroso de seres humanos com o destino

traçado por que são pobres.

 

Este livro utiliza a linguagem universal de fotografia para registrar a dignidade,

a esperança e a luta cotidiana das mulheres, homens e crianças que moram

precariamente nos cortiços de nossa cidade. Com este livro queremos ampliar

a discussão sobre a implacável violência exercida todos os dias contra as

camadas sociais mais pobres. Queremos também fazer um chamamento a

todos que se importam com os destinos dos seres humanos à pratica de ações

solidárias para com a luta dessas  famílias por uma moradia digna.

O acesso a um abrigo para si e para sua família é um direito inalienável do ser

humano.

 

São Paulo, abril de 1998

 

Manoel Del Rio - Presidente da Apoio

manoeldelrioblas@gmail.com - 

 

Twitter: @ManoelDelRio -  

facebook: ManoelDelRio

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