CANIDELO - DEDICAÇÃO AO SENHOR DA PEDRA - POEMAS DOS BLOGUES

 
 
 

Contributos para a história das Rusgas ao Senhor da Pedra, levadas a cabo por Canidelenses, desta feita, a organizada pelo meu pai, Alexandre Monteiro, entre 1936 a 1942 e, a em que minha mãe, Inês da mestra, participou em 1935 (?)

João da mestra

                                                              

Senhor da Pedra de 1935
*
*
Olha ali, que menina bonita,
Tão elegante tão distinta;
É a formosa protegida, neta
Da portentosa matriarca, - a Mestra.
É a beleza de porta-bandeira,
Suporta-a no alto, altiva.

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Vamos para o Senhor da Pedra,
Ver se a pegada do boi medra;
Foi milagre de antigamente.
Hoje vai milhares de gente,
De Canidelo, é tradição;
Desta aldeia todos vão.

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E lá vai a ti Conceição,
No grosso da expedição,
A tocar nos seus ferrinhos,
Por todos aqueles caminhos.
Mil Novecentos e trinta e cinco;
Vão dos oito aos oitenta e cinco.

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A seu lado segue o ti Zé,
Todo o caminho a pé,
Ao pescoço pendurado o tambor,
Maçaneta a bater-lhe com fulgor,
Saca d´almoço noutra mão,
Só vai comer arroz de feijão.
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Vai ancião excitado,
Com seu cavaquinho afinado,
Tilinta as cordas maravilhado,
Segue seu fado desgarrado,
Toca as modas de então;
Dança Esmeralda e Julião.
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Vai o Victor com sua viola,
Abre caminho por ali fora,
A tocar a cantar e orquestrar,
Por entre matas e pinheirais,
Ao ombro sacola a desfraldar,
Almoço, arroz e nada mais.
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Cruzam-se no caminho outras rusgas,
Também desta aldeia Canidelo,
Nenhumas com som tão belo,
Nem os malaquecos nem Os Primavera;
Tocatas tão harmoniosas, pudera,
Como a nossa rusga dos Chalados,
Não existe em nenhuns destes lados,
Terras de Rei Ramiro e seus reinados.
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É a rusga do “Grupo Os Chalados”,
Mais de trinta divertidos foliões,
Concertinas, harmónicas, acordeões,
Violas, banjos, Violinos,
Tambor, reco-reco e ferrinhos,
Mais o Alexandre a cantar;
O tenor improvisou com sua voz,
Foi a honra de todos nós.
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João da mestra

 

RUSGA AO SENHOR DA PEDRA

 

CANIDELO 1937 (?)
/
Ficou gravado na memória,
Grande rusga, com Glória,
Saiu para festa de rebenta,
Lá pelos anos quarenta.
/
O Mário, no Cavaquinho,
No Violão, o Victor manquinho,
Na Braguesa, o Francisco Ribeiro,
De Almeara partiram primeiro,
Com passagem p´lo Paniceiro.
/
Juntou-se o José Teixeira,
A tocar o seu Violão,
Ao passarem junto do Amor
E, todos juntos foram então,
P´ro Senhor da Pedra grande, ao Senhor,
P´ra junto daquela Ribeira.
/
Lá, no cimo do Penedo:
O Mário, o Victor, o Ribeiro e o Teixeira,
Acompanhados pelo fadista e tenor,
Alexandre Monteiro,

 

Cuja voz causava dor,
Na Alma e no Coração,
De toda a gaiata solteira,
Cantaram ao Senhor da Pedra,
Que, hoje a tocata, Sagrada, era.
/
Rivalizavam os Ranchos e as Tunas,
As Marchas e as Rusgas,
Os Marchantes Cantadores,
Acompanhados com seus tambores,

/

Violinistas e guitarristas, tocadores;
Dos Grupos dos Chalados,
Dos Primavera e Malaquecos,
A tocarem as suas Rebecas.

/

Voltaram pelo pequeno mas Grande,
Romaria do Senhor da Pedra,
Era a voz das Raízes de antanho,
Nas mentes daquelas gentes,
Que pelas Chouselas eram indulgentes.

/

João da mestra

 

Ao Senhor da Pedra Pequeno

/

A cantar e a dançar,
Instrumentos a tocar,
Violão e violino,
Mais o banjo e o cavaquinho.
/
Cantadores à desgarrada, à vez,
Tocadores, todos de uma vez,
Romeiros sem parar,
A caminhar e a dançar.
/
Segurando na mão os ferrinhos,
Tocava feliz o rapaz,
Percorria todos os caminhos,
A marcar ritmo, era um Ás.
/
A marcar ritmo ao caminheiro,
Durante todo o caminho, inteiro,
O bombo a tocar pausadamente,
Para a rusga daquela gente.
/
Três pancadas mais quatro,
Em ritmo cadenciado,
Em pele de animal esticado,
Era o bombo violentado.
/
Batido com maçaneta,
Com toda a força faz: BUM, BUM, BUM,
Depois de compasso marcado, responde,
BUM, BUM, BUM, BUM.
/
Três pancadas mais quatro,
A ritmo marcado a compasso,
Para cá, alguns já vinham de quatro,
Pelo vinho e pelo bagaço,
/
Era o regresso p´ro pequenino,
Depois da festa no grande,
Era eu ainda um menino,
E durou até ser grande.
/
Ó meu rico Senhor da Pedra,
No próximo ano eu repito,
Vou ver a pegada do boi,
De regresso, no pequeno fico.
/
Ó meu rico Senhor da Pedra,
Eu também lá hei-de ir,
Mesmo até ser velhinho,
Nem que colo tenha que pedir.
/
Ó meu rico Senhor da Pedra,
Meu Senhor da Pedra pequenino,
Tu eras o mais pobrezinho,
Quando eu era um menino.
/
Não tinhas pegada do boi,
Nem capela sobre penedo,
Nem tinhas prateadas areias,
Mas muito agora me premeias.
/
Com muito boa recordação,
Hoje és o GRANDE no meu coração;
Ó meu PEQUENO rico Senhor da Pedra,
ÉS O GRANDE, DE TODA A ERA.
/
Em Canidelo de raiz,
Me recordo de petiz,
Das histórias que me contavam,
Meus Avós, décimos netos da Raiz.
/
É do cruzamento, das Raízes daqueles Pinheiros,

Mais das Raízes de Canidelo;
Das Raízes do Povo de antanho,
Com as Raízes daquele lugar, CHOUSELAS,
Que saiu a força e a vitalidade de CANIDELO.
/
João da mestra

/

 

FUI AO SENHOR DA PEDRA, A PÉ

/

Fui ao Senhor da Pedra, a pé,

Confirmar se ainda é,

O que era antigamente.

/

Vi enormes grupos de gente,

A dançar e a bailar,

Mas sempre a caminhar,

Conforme era primitivamente.

/

Vi ranchos de folclore a dançar,

Homens com acordeão a tocar,

Mulheres de pandeireta na mão,

Onde logo se juntou o João,

Com sua voz a cantar.

/

Vi rusgas com arco embandeirado,

Raparigas com o riso rasgado,

Descalças e de chinelos na mão,

Onde se foi juntar o João,

Com elas juntamente a dançar:

/

Oh… acordei estremunhado…

…era eu a recordar.

/

Fui ao Senhor da Pedra a pé,

Para ver se ainda lá está,

A capelinha de pé.

Com tanta destruição,

Nunca se sabe o que farão,

Homens sem contemplação.

/

Fui ao Senhor da Pedra, a pé,

Minha mãe também lá foi,

Avó, bisavó e mais até,

Ver a pegada do boi.

/

Eles me acompanham actualmente,

Em espírito sempre presente.

/

Minha mãe foi porta-bandeira,

Há mais de setenta anos,

Num grupo de jovens raparigas, animados,

Que, ficou a ser, o Clube dos “Chalados.”

/

Fui ao Senhor da Pedra, a pé,

Também já lá ia o meu pai.

Comigo, agora o neto vai.

Espero um dia com bisneto ir,

/

Aí, irei a pé e a pedir,

Que me levem ao colo…,

mas que hei-de ir, hei-de ir.

/

É tradição antiga de todas as famílias:

Pais, mães, irmãos, avós, filhas,

E Consortes de boas sortes,

Ir-mos a pé ao Senhor da Pedra,

/

Ver a pegada do boi,

Para depois contar como foi,

Aos netos e bisnetos vindouros.

Assim fizeram nossos tesouros,

Bisavós, trisavós e tetravós.

/

E hoje, lá, rezamos por vós.

/

Hoje fomos vinte e três,

Que, abalamos outra vez,

Ao Senhor da Pedra, a pé.

Nossa rusga a maior é;

Move-nos grande amor, extra vulgar,

De união familiar.

/

A meio caminho é a merenda,

Bolinhos, rissóis, panados e croquetes,

Boroa, presunto, pescada frita em filetes,

Abancar é no pinhal que não paga renda.

/

Vamos lá a continuar,

São duas horas a caminhar,

Por entre matas e pinhais…,

/

Oh! …Era eu a recordar…,

Isso era antigamente,

Que no momento presente,

Pinhais…? Os há poucos ou jamais.

/

Fui apanhar camarinhas,

Às dunas, à beira-mar,

Comia-as, tão pequeninas,

Sabiam a água salgada,

Da água do mar as lavar.

/

Como agora recordo,

De quando éramos criancinhas.

/

Vamos por estrada marginal ao mar,

Não por sombra de pinheiro,

Mas debaixo de sol e de braseiro.

Vamos a pé e a caminhar,

E nós ali com tanto mar,

Não poderíamos ir a navegar?

/

Antigamente, ia meu pai montado em cavalo,

O cavalo é que ia a pé,

Todo repostado ia o cavaleiro,

A meter vista às moçoilas, prazenteiro.

/

Ou então iam de burro,

Em animal que não era burro,

Pois, quando na inteligência lhe dava,

Caminhar se recusava,

E ao dono até o mandava,

Montar p´ra outra manada.

/

Também iam em carros de bois,

Com suas carroças engalanadas,

Carregavam os mais idosos,

E toda aquela criançada.

/

Também os bois lá iam,

Ver a dos seus irmãos, a pegada.

/

Agora, outros de bicicleta vão,

A toda a força a pedalar,

Assim, mais depressa vão,

Nós, a pé, vamos mais devagar.

/

Todos nos vamos juntar,

Lá no terreiro, no areal,

De fronte p´ra capelinha,

Mas que grande arraial.

/

Lá no alto daquela pedra,

Lá está a capelinha,

Tão bonita tão pequenina.

Lá, encerrado está,

Nosso Senhor da Pedra.

/

Por trás, a pegada do boi,

Cuja lenda, há muitos séculos foi.

*

João da Mestra

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