2 LUTAS E A EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR

2.1 A Educação Física Escolar

A Educação Física, atualmente, tem como objeto de conhecimento as manifestações que compõem a cultura corporal de movimento, ou seja, trabalha com as formas de representação e compreensão do mundo expressas por meio do corpo.

Ao vivenciar as práticas corporais como fenômeno cultural, é possível contribuir para formar homens capazes de serem sujeitos na construção de uma sociedade, uma vez que a prática dos esportes, das lutas e das danças é, também, uma forma de se apropriar do mundo e não apenas fugir dele.

A escola sempre reflete os conflitos e contradições presentes na sociedade, o que permite que sejam compreendidos os interesses dominantes que articulam a organização, a administração e a definição de meios e fins na estrutura escolar, além de possibilitar que sejam situados os compromissos políticos pedagógicos do dia-a-dia.

A Educação Física tem como objeto de pesquisa o movimento humano, e está voltada para a educação do movimento pelo movimento; além de despertar no educando a consciência da necessidade de preservação do corpo, a fim de conquistar uma melhor qualidade de vida.

Ao falar em Educação Física, resgata-se o desenvolvimento de três níveis de conhecimento: sócio-afetivo, que visa a desenvolver o indivíduo como pessoa, estimulando a formação de uma personalidade estável e equilibrada; cognitivo, ligado ao desenvolvimento intelectual e à operação dos processos reflexivos; e motor, que trata diretamente do movimento e do seu desenvolvimento.

O homem, para ser completo, precisa ser visto como um ser físico-cognitivo-emocional. Esses campos desenvolvem-se simultaneamente, com ou sem a intervenção de um facilitador (o professor, por exemplo). No entanto, se uma dessas partes não for estimulada convenientemente o indivíduo se desequilibra, refletindo essa deficiência nas outras duas partes.

Os Parâmetros Curriculares Nacionais nos apresentam quatro grandes tendências pedagógicas para a educação física escolar: psicomotora, crítica, construtivista e desenvolvimentista.

Na tendência psicomotora, a educação física está envolvida com o desenvolvimento da criança, com os processos cognitivos, afetivos e psicomotores, buscando garantir a formação integral do aluno. O conteúdo predominante esportivo é substituído por um conjunto de meios para a reabilitação, readaptação e integração que valoriza a aquisição de esquema motor, da lateralidade e da coordenação viso-motora. A principal vantagem dessa abordagem é a maior integração com a proposta pedagógica da Educação Física. Porém, abandona completamente os conteúdos específicos dessa disciplina, como se o esporte, a dança, a ginástica fossem inapropriados para os alunos. Nessa abordagem as lutas podem ser consideradas um instrumento pedagógico de um potencial muito amplo, possibilitando estímulos nas diferentes dimensões: cognitiva, psicomotora e afetiva, devido à variedade de estímulos que a prática proporciona.

A tendência crítica passou a questionar as atitudes alienantes da educação física na escola, sugerindo que os conteúdos selecionados para a aula devem proporcionar uma melhor leitura da realidade pelos alunos e possibilitar, assim, sua inserção transformadora nessa realidade. Através das práticas em lutas, os alunos passam a integrar-se ao processo de movimento humano do qual fazem parte as lutas, compreendendo e tornando-se parte dele. Não há “despertar de consciência” pelo educando se o ensino das lutas restringir-se a repetição dos gestos e à prática com finalidade esportiva, de rendimento. Colocar o aluno em uma estrutura de treinamento esportivo, onde se é doutrinado para valorizar a disciplina e o cumprimento das regras impostas, assim como um atleta de rendimento, é promover a alienação da realidade que se vive. É necessário ampliar os seus horizontes, mostrar-lhe a verdadeira dimensão do mundo.

Na tendência construtivista, a construção do conhecimento ocorre a partir das interações da pessoa com o mundo. Para cada criança a construção do conhecimento exige uma elaboração, uma ação sobre o mundo. A proposta teve o mérito de considerar o conhecimento que a criança já possui e alertar o professor sobre a participação dos alunos na solução dos problemas. E, com certeza, o aluno já possui um cabedal de conhecimento do universo das lutas, adquirido através de cinema, programas de TV, quadrinhos, entre outros meios de acesso público.

No construtivismo a aprendizagem não decorre de um processo passivo, onde o ensino é baseado apenas em aulas expositivas, repetição e “decoreba”. O professor deve buscar meios de despertar o interesse e dar a eles um papel mais ativo;.

Ainda o autor acima cita Montaigne, que em 1580 já escrevia: “Não cessam de nos gritar aos ouvidos, como se por meio de um funil, o que nos querem ensinar, e o nosso trabalho consiste em repetir”.

Em uma metodologia construtivista, o professor utiliza-se de muitos brinquedos, jogos matemáticos e pesquisas. Cria situações com problemas que estimulam o raciocínio, e os alunos escolhem temas e participam na construção da aula. Nesta tendência os aspectos destacados nas aulas são valorização do raciocínio, respeito às idéias e aos possíveis erros cometidos pelas crianças, valorização do diálogo e da cooperação entre os alunos.

A tendência desenvolvimentista busca nos processos de aprendizagem e desenvolvimento uma fundamentação para a educação física escolar. Grande parte do modelo dessa abordagem relaciona-se com o conceito de habilidade motora, pois é por meio dela que as pessoas se adaptam aos problemas do cotidiano. Para essa abordagem, a educação física deve proporcionar ao aluno condições para que seu comportamento motor seja desenvolvido pela interação entre o aumento da variação e a complexidade dos movimentos.

Entendemos que as lutas e a Educação Física se completam, tendo em vista que a Educação Física necessita de estratégias de conhecimento do corpo e as quais as lutas representam muito bem essa necessidade, constituindo-se a Luta nas bases teóricas da Educação Física.

2.2 Lutas nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN)

A Educação Física é entendida como uma disciplina que trata do conhecimento da cultura corporal de movimento, os esportes, a dança, a ginástica, as lutas, entre outras temáticas que se relacionam com a cultura do movimento e com o contexto histórico-social dos alunos.

Para que o educando tenha um desenvolvimento completo e adequado, é necessário que ele seja estimulado durante a vida escolar para que possa conhecer e aprimorar suas habilidades e capacidades como um todo.

Para tanto, deve ter a oportunidade de vivenciar práticas corporais como: esportes, jogos, lutas e ginásticas; atividades rítmicas e expressivas; conhecimentos sobre o corpo.

De acordo com os PCN’s de Educação Física, o professor, durante a elaboração de seu planejamento, deve considerar o corpo como um organismo integrado, que interage constantemente com o meio físico e cultural, que sente dor, prazer, alegrias, medos etc.

É importante destacar que todas as práticas da cultura corporal de movimento possuem expressividade, pela qual, por meio de sua vivência individual, o ser humano produz a possibilidade de comunicação por gestos e posturas; e ritmo, pelo qual, desde a respiração até a execução de movimentos mais complexos, se requer um ajuste em relação ao espaço e ao tempo.

As lutas são disputas em que o(s) oponente(s) deve(m) ser subjugado(s), mediante técnicas e estratégias de equilíbrio, contusão, imobilização ou exclusão de um determinado espaço na combinação de ações de ataque e defesa. Constituem-se em um vasto conjunto de manifestações culturais históricas, que deve ser aprendido. Importante é, também por esse motivo, diversificar as lutas, não reduzindo o ensino a uma ou duas modalidades. Nesse ponto o professor que trabalha de forma extracurricular tem uma importância muito grande, pois oportuniza maior variedade de modalidades de lutas.

No Brasil, temos uma gama muito grande de lutas, onde cada cidade ou escola tem uma realidade e uma conjuntura que possibilitam a prática de uma parcela dessa gama. Dentre estas as quais podemos citar a Capoeira, o Caratê, o Judô, e algumas lutas muito populares e comuns na Escola, em festivais e gincanas como a Luta-de-braço e o Cabo-de-guerra, entre outras, que não podem deixar de ser conhecidas, pois constituem um leque muito amplo de possibilidades de aprendizagem.

Por meio das lutas, é possível contribuir com outras áreas do conhecimento, realizando um trabalho interdisciplinar em que o aluno entrará em contato com a história de seu país e de outros povos e nações com culturas diferentes, com possibilidades de vivenciar movimentos novos e enriquecer a sua cultura corporal.

2.3 Concepção

Como é desenvolvida a Luta na Escola. Em que volume e freqüência? Para todos os alunos ou àqueles que demonstram interesse pessoal? A valorização das lutas na escola é comum a todos os professores? A importância dada? Quais os objetivos? A forma de ensinar dentro da escola é a mesma das academias? Ou a metodologia é a mesma usada para ensinar os esportes. Será que há espaço no planejamento curricular de Educação Física para os conteúdos das lutas?

Nem sempre a Educação Física Escolar é desenvolvida de forma significativa com grande abordagem dos conteúdos. Estes estão resumidos à prática desportiva, principalmente aos esportes coletivos como voleibol, basquetebol, handebol e futebol, limitando a produção de conhecimento corporal e cultural do aluno. Esta tendência de desenvolvimento de modalidades desportivas no âmbito escolar, como única forma de entendimento da Educação Física, pode gerar uma caracterização das aulas de Educação Física como treinamento desportivo.

A Educação Física escolar já foi confundida com o esporte de maneira equivocada entre as décadas de 60 e 70, atendendo a interesses políticos que visavam se beneficiar desta condição. Desta forma, o esporte foi desenvolvido no âmbito escolar em uma concepção tecnicista, sendo aplicado desde as primeiras séries do ensino fundamental. Porém, já naquele período, havia quem criticasse esta iniciação precoce ao jogo desportivo já que Educação Física era sinônimo de esporte, e era obrigatória desde o ensino fundamental.

É quase natural, hoje, a extensão dessa relação com o esporte também para as lutas. As lutas são entendidas na visão tecnicista, sendo considerados apenas os seus movimentos físicos em detrimento das outras dimensões culturais, como história, filosofia e comportamento humano.

A aplicação da luta na Educação Física Escolar é entendida como uma iniciação esportiva, como aulas alternativas ou, ainda, como desporto, visando à formação de equipes escolares. Quanto à forma, são desenvolvidas como formas adaptadas ou simplificadas das lutas conhecidas, como atividades recreativas ou como jogos de luta. Também são comuns abordagens sob os seus outros aspectos que não o de combate corporal: a Capoeira é trabalhada como dança, o “Tai Chi Chuan” é aplicado como ginástica, bem como outras modalidades.

Quanto à forma de desenvolvimento, as lutas podem ser inseridas no planejamento curricular do professor de Educação Física, ou trabalhadas extracurricularmente. Neste caso, geralmente, ministradas por um instrutor de uma luta específica e não formado em Educação Física, ingressando os alunos que têm interesse na modalidade.

Contudo, por se tratar de apenas uma modalidade, e, de não serem conduzidas segundo um planejamento coerente com as necessidades pedagógicas dos alunos, não pode o professor de uma turma de alunos considerar estas aulas extracurriculares desculpa para deixar de desenvolver os conteúdos das lutas nas aulas de educação física. Tampouco usar o pretexto de que a escola dispõe de aulas de lutas para aqueles que desejarem. Lembrando que a metodologia que pode estar sendo utilizada pelo instrutor de luta consista em um método inapropriado para a especificidade física e afetiva dos alunos.

Segundo a concepção de alguns autores, as lutas podem ser vistas como uma unidade (“lutas escolares”), onde o professor permitiria uma “mistura” de elementos das diferentes modalidades de lutas, consolidados em uma modalidade escolar, com regras próprias.

Outros autores entendem que a educação física deve proporcionar uma iniciação à modalidade de luta. Nessa concepção, trabalhar lutas na educação física escolar, traduz-se em uma demonstração de várias modalidades aos alunos, como “opções” para que estes possam optar pela modalidade esportiva que desejam praticar, fora da escola. Assim, o professor não necessita ser formado em uma luta específica, pois pode facilmente usar de outros recursos como passeios a torneios de lutas, filmes e vídeos demonstrativos, para “demonstrar” apenas.

O trabalho do professor na Educação Física Escolar vai além de ensinar ou promover a iniciação em uma modalidade esportiva, ou seja a luta como um fim nela mesma. Cabe ao professor, atuar como um educador, pensando no aluno como uma unidade envolvida em um todo. Assim, o aluno deixa de ser um depositório de informações, para ser um educando atuante, que não aceita apenas um aglomerado de conhecimento, mas um conhecimento que lhe sirva para a vida.

Se atualmente a preocupação central e primeira da Educação Física escolar é com a formação integral da personalidade do aluno, de modo a levá-lo a ser o melhor que ele puder ser conscientemente de sua realidade, autônomo e capaz de auto-sugestão, então, a atenção de seus professores deveria estar mais voltada para os processos de aprendizagem e desenvolvimento de sua personalidade do que para os produtos comportamentais específicos, provenientes de desempenhos físicos. É claro que não é o processo educativo enquanto conjunto de técnicas, metodologias e sistemas reprodutores de resultados que deve ser encarado como prioritário. Mas, especialmente, o processo de crescimento de uma criança em formação, exposta as agressões do meio em que vive, principalmente na escola. A Educação Física tem de respeitar os níveis de maturidade motora, a capacidade de rendimentos e os interesses individuais de cada criança. Caso contrário, não passará de um adestramento físico.

As lutas na educação física escolar devem, também, pretender a formação integral da personalidade do aluno, proporcionando estímulo para o despertar conscientemente de sua realidade. Nessa concepção os movimentos técnicos são preteridos pelos desenvolvimentos cognitivos, psicomotores e afetivos. Nesse ponto todas as vivências na prática de lutas serão aproveitadas, mesmo a autopercepção das dificuldades na realização dos movimentos, as agressões, porventura, existentes, as vitórias ou as derrotas.

Os alunos devem perceber os resultados das atividades físicas como produto dos treinamentos, pois de certo modo contribui para o entendimento deles quanto às modificações fisiológicas e conhecimentos sobre o corpo.

Trata-se de muito mais que o aprendizado de movimentos de ataque, defesa, constitui-se no entendimento dessa manifestação cultural do movimento humano em todos os seus níveis e relações: a criação e desenvolvimento dos movimentos, historicamente produzidos, enquanto finalidade de combate ou autodefesa; os preceitos filosóficos que norteiam as artes marciais orientais e a relação desses com o contexto social e cultural na época; a presença em filmes e desenhos animados e a compreensão dos exageros e efeitos especiais; os eventos desportivos enquanto movimentos sociais, econômicos e políticos; as diferenças entre as modalidades; os benefícios e riscos, psicológicos e físicos, da prática de lutas.

As lutas e as artes marciais, quando trabalhadas em Educação Física Escolar, podem ser utilizadas como apenas instrumentos pedagógicos, visando oportunizar situações para desenvolver aspectos diferentes do aluno como psicomotor ou afetivo. Em uma analogia com o futebol escolar, este seria utilizado para desenvolver aspectos sociais como a cooperação, integração, sem haver preocupação do professor em trabalhar os conhecimentos específicos desse esporte (por exemplo: as regras, a estrutura, posição dos jogadores, eventos esportivos, fundamentos do esporte). É possível, seguindo uma tendência crítica nas aulas de educação física, contudo, estar-se-ia perdendo todas as possibilidades de informações peculiares a uma luta em específico: como a historicidade, o movimento cultural e político que fomentou a criação da luta, as diferenças entre os povos, entre outras.

A própria Educação Física ainda está em busca de sua identidade. E as lutas, como ramo da Educação Física Escolar, estão em situação menos avançada. É fácil constatar a estagnação em que se encontra, verificando-se o reduzido número de obras literárias específicas a respeito.

2.4 Elemento da cultura do movimento humano

As lutas estão presentes na vida humana em toda a sua existência. O homem primitivo lutava em todas as ocasiões. Nos momentos de perigo, de ameaça a sua vida ou de sua prole já realizava movimentos corporais básicos, como golpear com a mão ou pé, agarrar, empurrar, puxar,...

Treinaram-se guerreiros para derrotar exércitos inimigos; em seus rituais e celebrações, esses movimentos tinham a finalidade de saudar os deuses e entreter o povo.

Em diferentes civilizações, as lutas eram vistas de uma forma particular. Por exemplo, na China de 3000 anos a.C., utilizavam-se dos exercícios físicos com finalidades higiênicas, terapêuticas, além do caráter guerreiro (Tai Chi Chuan). Já na Índia, Buda atribuía aos exercícios o caminho da energia física, da pureza dos sentimentos, da bondade e do conhecimento das ciências para a suprema felicidade do Nirvana.

No Brasil, os índios contribuíram historicamente para as lutas, com movimentos rústicos e básicos, como nadar, correr, lançar, além de participarem de conflitos tribais. Posteriormente, vieram os negros com a capoeira em um diferente jogo de corpo.

Sem dúvida, a luta é um elemento da cultura do movimento humano, é parte integrante da sua natureza. Lutando, o homem modificou civilizações. A luta é um instrumento facilitador do potencial emocional, da autopercepção, da comunicação, das transformações do indivíduo e de suas relações com tudo que o envolve. Por ela aprende-se a conhecer a si e ao outro, compreender suas limitações e desenvolver suas capacidades e habilidades.

O trabalho com lutas engloba uma cultura corporal de movimento ampla e diversificada, em que, além dos seus movimentos de golpear e defender, encontra-se um vasto conjunto cultural herdado do povo de origem da luta. Esse conjunto cultural existe em todas as modalidades, ainda que a ocidentalização das artes marciais orientais tenha causado algum esquecimento, nesse sentido. A Capoeira, por ser uma luta nativa do Brasil, mantém as suas raízes históricas com maior plenitude.

Com base nessa definição, é necessário refletir sobre as lutas como atividade curricular das aulas de educação física. Não mais concebida como uma “opção diferente” de aula, mas um conjunto de conteúdos previsto nos Parâmetros Curriculares Nacionais, tão importante para o aluno quanto são os esportes e as danças.

Importante entender que a concepção de “Lutas”, enquanto componente da Educação Física Escolar, não deve ser limitada a atividades recreativas como o popular cabo-de-guerra, ditas “adequadas ao contexto escolar”, ou como prática de iniciação e treinamento desportivo da modalidade institucionalizada, como é muito comum observar nas aulas extracurriculares de Judô, Caratê. E, também, não pode ser oportunizado ao aluno o conhecimento de somente uma luta ou arte marcial.

2.5 Alunos com necessidades educativas especiais

Segundo o artigo: “Educação inclusiva: um estudo na área da educação física”, a participação dos alunos ditos “normais” em classes comuns com colegas “portadores de necessidades especiais”, colabora positivamente, minimizando o preconceito que os separavam antes. As atitudes observadas dizem respeito à manifestação de solidariedade, companheirismo, responsabilidade, cooperação e respeito ao outro, sem discriminação de características pessoais, físicas, sexuais ou sociais.

De acordo com o sítio da Secretaria de Educação Especial – SEESP, do Ministério da Educação, alunos com necessidades educacionais especiais são aqueles que: [...] apresentam, durante o processo educacional, dificuldades acentuadas de aprendizagem que podem ser: não vinculadas a uma causa orgânica específica ou relacionadas a condições, disfunções, limitações ou deficiências, abrangendo dificuldades de comunicação e sinalização diferenciadas dos demais alunos, bem como altas habilidades / superdotação.

Os tipos de necessidades educacionais especiais estão basicamente categorizados da seguinte maneira: altas habilidades / superdotação; autismo; condutas típicas; deficiência auditiva; deficiência física; deficiência mental; deficiência múltipla; deficiência visual; surdocegueira; e Síndrome de Down.

Dentro de cada uma dessas categorias existem muitas variações e o professor que desejar encontrar fórmulas prontas de metodologias para cada uma delas irá frustrar-se. Para introduzir-se no trabalho de lutas com alunos com necessidades educacionais especiais, é necessário conhecimento específico variado e muita criatividade, para produzir adaptações nas atividades. Um ponto positivo para as lutas, é que o universo das mesmas é muito variado, e uma pesquisa pelas diferentes lutas e artes marciais provavelmente revela uma ou outra modalidade mais fácil de ser adaptada, ou até mesmo pode despertar no professor, idéias de atividades para construção das suas aulas.

Na busca por uma educação inclusiva é essencial o desenvolvimento de uma pedagogia centrada na criança, buscando a participação e aprendizagem de todos os alunos e alunas. Sempre há uma forma de adaptar a luta, ou a aula, para possibilitar a participação também dos alunos que não possuem um nível desenvolvido de coordenação motora ou de desinibição, por exemplo. O portador de necessidades especiais, geralmente é subestimado na sua capacidade de realizar as tarefas preparadas pelo professor.

A adaptação dos métodos pedagógicos, deve ocorrer mediante a diversidade do alunado, com ou sem deficiências.

As abordagens do educador devem utilizar-se muito da interdisciplinaridade, das expressões artísticas, através de jogos, brincadeiras, proporcionando atividades sociais e motoras. Uma aula de luta, desenvolvida como no método ortodoxo de ensino adotado nas academias de luta, tem grande chance de afastar os alunos que se sentem inseguros para realizar os movimentos mais comuns. Pois, esses alunos, possuem maior dificuldade na realização dos movimentos novos, porque em sua vida, geralmente, são pouco estimulados no aspecto da coordenação motora.

Essas reflexões são importantes porque mostram a importância para que se abram espaços em ginásios de esportes, e em âmbito escolar, através de discussões e troca de informações entre os profissionais de educação física (professores de Educação Física e instrutores de lutas), reforçando a experiência que as lutas, podem trazer à vida dessas pessoas. Para a inclusão ocorrer é necessário que o professor busque sempre alternativas para ultrapassar os obstáculos que surgem no exercício do ensino escolar. Assim, quando todos na Escola adotarem a mesma postura, haverá uma transformação da Educação e o surgimento de alternativas pedagógicas que atendam as diferenças, e o desenvolvimento de uma educação para todos.

2.6 Contribuição pedagógica

Associada às aulas de Educação Física, as atividades de lutas oportunizam o desenvolvimento de um caráter autoperceptivo dos alunos, pois, quando utilizadas como instrumento de aprendizagem, colocam dificuldades motoras e psicológicas, potencializando a formação de um ambiente reflexivo e autocrítico para solução e compreensão dos problemas.

Vimos que a Educação Física trabalha com as formas de representação e compreensão do mundo expressas pelo corpo, portanto, o professor deve proporcionar aos seus alunos, assim como dizem os Parâmetros Curriculares Nacionais, a ampliação do repertório gestual, de maneira a capacitar o corpo para o movimento, possibilitando sentido e organização às suas potencialidades.

Porém, não basta demonstrar uma série de movimentos e pedir para que os alunos reproduzam. É preciso que a luta tenha um significado na aprendizagem. E, para isso, o professor deve planejar antecipadamente o que irá fazer e definir seus objetivos com clareza, para que a aula com lutas não se torne enfadonha e desestimulante.

O desenvolvimento cognitivo, intelectual, ou simplesmente, a “aquisição de conhecimento”, em lutas trata-se mais que saber o que é um “soco”, ou o que é a “Luta Livre”. Mais que repetir dezenas de movimentos existentes nas lutas, o educando necessita apreender os conceitos gerais que estão contidos em cada um desses gestos.

Muitos conceitos aprendidos com os movimentos de lutas, serão aproveitados em outras atividades físicas ou modalidades esportivas. Por exemplo, o conhecimento básico de quedas, ensinado no Judô, muito útil será para a vida toda do indivíduo, que poderá reduzir ou evitar danos em acidentes que lhe ocorram. Os conceitos de luta podem ser traduzidos para situações diárias do aluno, onde manter o auto-controle e escolher a melhor alternativa segundo o problema identificado (conceitos de “defesa” e “contra-ataque”), pode ser o caminho para uma vida social em equilíbrio com colegas, professores e amigos.

Assim, é possível a utilização das modalidades de lutas para o desenvolvimento do aluno de uma maneira ampla. Isso significa que além das práticas corporais, deve ser somada às praticas de comportamento e atitudes, de estímulo à pesquisa individual e a reflexão, para que os educandos não se limitem apenas aos momentos com o professor, mas utilizem o que aprenderam de bom e busquem mais conhecimento, fora das aulas.

A prática em uma modalidade de luta ou arte marcial pode apresentar mais benefícios em um aspecto que a prática em outra. Não é possível precisar essa diferença e o professor deve diversificar as atividades, para permitir o conhecimento da dimensão do universo das lutas e artes marciais. Na Capoeira, por exemplo, existem oportunidades para desenvolver o senso crítico, político e social, ao estudarmos o seu surgimento.

Sendo assim, sabendo que a luta é um instrumento com grande teor físico, emocional e intelectual, que contribui diretamente para o desenvolvimento global do indivíduo, e que esta arte faz parte da cultura humana, sua presença na escola é justificada, pois, por meio dela, o educando desenvolve a compreensão de sua capacidade de movimento, mediante um maior entendimento de como seu corpo funciona, podendo usá-lo expressivamente com maior inteligência, autonomia, responsabilidade e sensibilidade.

A luta é uma forma de integração e atividade coletiva, em que o educando tem a possibilidade de exercitar a atenção, a percepção, a colaboração e a solidariedade. Contribui, também, para o desenvolvimento do aluno no que se refere à consciência e à construção de sua imagem corporal, aspectos que são fundamentais para seu crescimento individual e sua consciência social. Por meio da luta, o indivíduo pode conhecer a si próprio e aos outros, explorar o mundo das emoções e da imaginação e criar e descobrir novos movimentos.

Alem disso são explorados aspectos relativos à flexibilidade articular e à capacidade aeróbica. A concentração, a adequação psicossocial, a melhora da auto-estima, o respeito e a disciplina são valores agregados à prática da luta.

Alguns objetivos possíveis de obter-se com a prática de artes marciais:

  • Equilibrar no ser humano os desejos com as tendências vocacionais, de tal forma que aprenda desejar o que na prática faz da melhor maneira;

  • Desenvolver o potencial do homem forte e corajoso, para o bem, o justo, o belo e o verdadeiro;

  • Ensinar a lidar com o medo;

  • Ensinar a viver estrategicamente;

  • Propor soluções de como preservar a saúde e controlar o estresse;

  • Ensinar a lidar com a solidão extraindo a mensagem do silêncio;

  • Mostrar como desenvolver a personalidade taticamente;

  • Mostrar como criar uma técnica que permita que os ideais conduzam a ações práticas em todos os instantes da vida;

  • Desenvolver o espiritual e o humano;

  • A prática da Filosofia das Artes Marciais implica, pois, uma forma de vida sóbria, sensata, paciente, plena de amor e em harmonia com todo o universo.

2.6.1 Desenvolvimento motor

“O desenvolvimento motor é a mudança progressiva na capacidade motora de um indivíduo, desencadeada pela interação desse indivíduo com seu ambiente e com a tarefa em que ele esteja engajado”.

Facilmente constatamos a evolução de um praticante de artes marciais que segue uma continuidade de aprendizado. Tradicionalmente os movimentos técnicos são ensinados gradualmente pelo nível de dificuldade motora. O tempo de aprendizagem é relativo ao treinamento de cada movimento: ao volume de repetições; à compreensão do movimento; e à motivação.

2.6.1.1 Destrezas motoras

“O termo destrezas motoras refere-se ao desenvolvimento do controle motor, à precisão e a acurácia na performance de movimentos tanto fundamentais quanto especializados”.

Em alguns movimentos de luta o controle motor e a precisão é fundamental para que se consiga realizar o movimento. A exemplo dos golpes que se realizam pulando e atacando com um dos pés, muito comuns no Taekwondo, um mínimo de destreza motora é requisito para que evitar uma queda ou uma lesão por luxação nos joelhos ou tornozelos.

O praticante desenvolve sua postura e equilíbrio, como características básicas para a realização dos movimentos de ataque e defesa. O próprio ato de caminhar e outras ações do dia-a-dia tornam-se mais eficientes em decorrência da aquisição de conhecimentos relativos à postura e posição plantar, como se pode observar na Figura 1, a seguir:

Figura 1 - esquema de posicionamento dos pés e quadril para o ensino de "bases" no Karatê.

2.6.1.2 Aptidão física

Aptidão física é “a habilidade de desempenhar tarefas diárias sem fatigar-se, e de possuir amplas reservas de energia para fins lucrativos e necessidades de emergência”.

A prática desportiva especializada do judô passa a desenvolver naturalmente as qualidades físicas específicas do judô, contudo, se não forem dosadas e trabalhadas adequadamente, respeitando a individualidade biológica e as necessidades de cada faixa etária, podem influir negativamente no desenvolvimento da criança.

Ainda, as qualidades físicas que podem ser melhoradas com a prática do Judô: resistência aeróbica, resistência muscular localizada, resistência anaeróbica, força, velocidade, potência muscular.

Um combate sempre exige dos dois oponentes o máximo de esforço físico. Com o aprimoramento dos gestos técnicos, há uma redução na exigência do esforço para se alcançar o mesmo objetivo. O aluno aprende a poupar e utilizar mais estrategicamente suas reservas de energia.

Com a prática de combate, percebe-se que para vencer é importante um bom condicionamento físico e, então, ocorre um aumento de interesse em praticar exercícios e atividades visando a melhora do desempenho.

2.6.2 Aprendizagem cognitiva

A aprendizagem cognitiva pode ser entendida como “a mudança progressiva na habilidade de pensar, raciocinar e agir”. Pode ocorrer na forma de aprendizagem de conceitos e aprendizagem perceptivo-motora.

A aprendizagem de conceitos vem a ser: “uma mudança permanente no comportamento motor do indivíduo, ocasionada por experiências delineadas para internalizar a compreensão de conceitos de movimento, conceitos de destreza, conceitos de aptidão e conceitos de atividade esportiva e / ou recreativa .”

Já a aprendizagem perceptivo-motora “envolve o estabelecimento e o refinamento da sensibilidade de o indivíduo perceber o mundo através do movimento”.

Os alunos podem adquirir diversos desses conceitos (de destreza, de atividade esportiva,...), bem como desenvolver a sensibilidade para perceber do mundo, se o ensino das as lutas na Educação Física Escolar objetivar o desenvolvimento global do indivíduo e não meramente a aprendizagem de uma arte marcial com finalidade competitiva-esportiva.

2.6.3 Crescimento sócio-afetivo

O Crescimento sócio-afetivo “é o processo de aprendizagem que amplia a capacidade da criança de agir, interagir e reagir efetivamente com outras pessoas, bem como consigo mesma”. As lutas oportunizam situações de relacionamento social e interno como competições, exercícios com parceiros, treinamento coletivo, compreensão das dificuldades de aprendizagem próprias e dos outros, superação da derrota, entre outras.

2.6.3.1 Autoconceito

O autoconceito pode ser entendido como a “percepção que alguém tem de suas competências físicas, cognitivas e sociais”. No treinamento de quaisquer modalidades de luta, o aprendiz é posto diante de muitas exigências motoras, físicas e afetivas, o que contribui para que ele realizar a auto-observação e conhecer-se melhor.

2.6.3.2 Socialização positiva

Uma socialização positiva, ocorre em forma de comportamentos cooperativos, camaradagem, bom espírito esportivo, todas essas atividades, indicadoras de comportamentos morais positivos.

A atividade física tem um potencial tremendo para promover comportamentos morais positivos e ensinar virtudes da honestidade, do trabalho em equipe, da lealdade, do autocontrole e da esportividade. Professores podem usar os dilemas morais que ocorrem durante as atividades motoras para estimular o crescimento moral entre os seus alunos, pois:

A criança que pratica esporte respeita as normas e se socializa. O esporte educa porque ensina a criança a conviver com a derrota e a vitória, ensina a respeitar as regras do jogo (as crianças devem respeitar a opinião de seus colegas e acatar a decisão da maioria do grupo), ensina a vencer (no jogo e na vida) através do seu esforço pessoal (às vezes tem que momentaneamente aliar-se a outros para atingir este objetivo, processo que os pedagogos chamam de cooperação ou companheirismo), ensina a competir (e isto prepara para a vida).

Na Revista do CONFEF nº 01, ano 2001, na matéria “Capoeira” encontramos relatos de alunos que eram viciados em drogas e até o de um que deixou o tráfico porque encontrou na Capoeira uma maneira de ocupar melhor o tempo. Ainda na mesma matéria, um instrutor de Capoeira afirma que, para o aluno “só o aprendizado do berimbau e do atabaque já ajuda muito, porque ocupa o tempo com coisas úteis” e “conseqüentemente é possível sua integração com a sociedade”.

2.6.4 Filosofia

Principalmente as artes marciais orientais, são dotadas de preceitos filosóficos que norteiam a aplicação dos movimentos e o comportamento do praticante.

A dinâmica da capoeira aprece indicar-nos que o ser humano nunca deve permanecer estático. A movimentação é essência da vida, e esta movimentação leva a um estado de permanente vigília e constante atenção. Para agir ou contrapor-se a uma ação, é necessário movimentar.

As artes marciais eram entendidas como conhecimentos que davam ao indivíduo um grande poder para as épocas antigas. Para que essas pessoas não se tornassem vilões ou usassem suas habilidades contra seus senhores ou pessoas da comunidade, eram doutrinados em códigos de conduta e moral rígidos.

Um ótimo exemplo é o Bushido (Figura 2), que se constituía no código dos princípios morais que os guerreiros japoneses (Samurais) deviam observar tanto em sua vida diária como em sua profissão, ou seja, os preceitos de cavalheirismo da nobre obrigação da classe guerreira.

Figura 2 - Sete princípios do Bushidô.

No Japão, os Samurais são famosos pelas suas habilidades como espadachim, mas também pela sua disciplina. Se ocorresse de transgredir alguma das regras do código ou falhar em suas responsabilidades, submetia-se ao ritual samurai de suicídio: o Sepukku.

No Karatê encontramos alguns princípios que são indicados para aplicação na vida diária do praticante, como meio de alcançar uma vida harmoniosa. Os Dojokun e o Nijukun que são os lemas do Karatê, os quais devem ser seguidos por todos os praticantes do Karatê. Alguns deles, extraídos do sítio do KaratêBarretos, estão relacionados abaixo:

  • Jinkaku Kansei ni Tsutomuro Koto: Esforçar-se para formação do caráter;

  • Kekki no Yu o Imashimuru Koto: Reprimir o espírito de agressão;

  • MAZU JIKO WO SHIRE SHIKOSHITE TAO WO SHIRE: Conheça a si próprio antes de julgar os outros;

  • KOKORO WA HANATAN WO YOSU: Evitar o descontrole do equilíbrio.