A "Lenda Negra": Verdades e Mentiras

Como surgiu a má reputação dos países ibéricos, católicos e colonizadores

Por Fernando Cohnen  (Para SuperInteressante – Edição Portuguesa, número 119 – Março de 2008)


 

 Foram retratados como cruéis, atrasados e fanáticos; eles próprios acreditaram nisso. Os historiadores estão a rever essa imagem exagerada (por vezes, falsa) e a descobrir os interesses ocultos dos autores da campanha negativa.



O Alvo da Chacota dos Vizinhos

Este quadro satírico do pintor Phillip Moro mostra Filipe II (I de Portugal) montado numa vaca que representa os Países Baixos e que é ordenada pelo duque de Alba. Vêem-se, também, o duque de Anjou (na cauda) e Guilherme de Orange e Elizabeth I da Inglaterra, aliados contra a Espanha.

Retrato de Felipe II - Phillip Moro

 

Assassinos Cruéis?

Os espanhóis cometeram atos repreensíveis na América, mas gravuras como esta, do flamengo Theodor de Bry, que mostra Hernando de Soto a chacinar índios na Flórida, contribuíram para forjar uma imagem maldosa e cruel dos conquistadores.



 


Será que Espanha fez algo no mundo sem ser queimar hereges ou perseguir eminências científicas, destruir civilizações e deixar por todo o lado a marca sangrenta de sua passagem?” perguntava, em 1914, o historiador e sociólogo Julián Juderías, no livro A Lenda Negra. O título tem servido, desde então , para designar a visão exageradamente negativa e manipulada do país urdida por alguns autores anglo-saxões, franceses e flamengos, empenhados em retratar a Espanha (que durante grande parte deste período incluía Portugal) como uma nação anómala, cruel e tirânica, inimiga do progresso e das inovações. Nos seus panfletos, os autores dessa campanha propagandística divul- gavam a imagem de que a Ibéria era governada por uma série de déspotas que teriam utilizado a Inquisição para dominar uma população de súbditos incultos.

Qual a razão de tamanha sanha? O que provocou essa sucessão de opiniões depreciativas? A resposta deve ser procurada na posição de poder adquirida por Espanha, depois da descoberta da América, com a expansão do império na época de Carlos I e do seu filho, Filipe II, I de Portugal, o primeiro rei que uniu na sua pessoa os dois lados do mundo dividido pelo Tratado de Tordesilhas. Um poder formidável, que nunca teve, antes ou depois, qualquer equivalente. A partir de então, os espanhóis começaram a ser retratados no estrangeiro como indivíduos atrasados, fanáticos, cruéis e pouco dotados; nas palavras do papa Júlio II, hereges cismáticos, mistura de judeus e marranos”.

Hoje, o historiador francês Joseph Pérez recorda que, naquele tempo, a cultura dominante na Europa era a espanhola, e a moda que imperava provinha de Castela. “Esse êxito provocou uma reacção anti-espanhola semelhante à quue se verifica, hoje, contra o imperialismo americano. Foi assim que surgiu a Lenda Negra."

Os ataques não vinham apenas do estrangeiro

Durante vários séculos, a historiografia anglo-saxónica difundiu a ideia de que aquilo que conhe- cemos como “civi1izacao moderna” (0 desenvolvimento técnico e económico, a Ciência, o pro- gresso, a tolerância) era filha da Reforma protestante, e que as nações latinas e católicas, como a Franca, Espanha, Portugal ou Itália, eram incapazes de se integrar nesse modelo cultural.

Seja como for, os ataques não vinham apenas do exterior. Joseph Pérez acredita que muitos espanhóis assumiram a Lenda Negra e contribuiriam mesmo para a cimentar. Um homem tão cult0 como Manuel Azaha, por exemplo, uma da personalidades mais importantes do século XX espanhol, chegou a afirmar: “Enquanto dormíamos, as restantes nações reinventaram uma civilização, da qual não participámos, cuja rejeição sofremos e na qual temos de nos incorporar ou deixar de existir".

Actualmente, a maioria dos historiadores já corrigiu a avaliação negativa que os especialistas anglo-saxónicos e numerosos intelectuais espanhóis faziam do pais. “A Espanha é um pais normal, com formas de vida e cultura comparáveis as de outros países europeus, pelo menos desde finais da Idade Média", diz Pérez.

Em sintonia com as opiniões do historiador francês, 0 britânico Hugh Thomas afirma que a Espanha de Carlos V realizou uma magnifica façanha ao criar uma nova sociedade ma América, a qual incorporava a civilização crista mas também se apoiava mas raízes profundas da cultura indígena. Thomas, autor da obra mais completa sobre a conquista do México, considera que a Lenda Negra tem escasso fundamento.

Os hispanistas propõem uma visão mais sensata.

Outro prestigiado historiador inglês, John Elliot, acredita que a Lenda Negra ainda ira perdurar mais alguns amos até a objectividade científica conseguir triunfar “É de esperar que um certo equilíbrio se consiga impor antes de chegarmos ao 600.° aniversario do Descobrimento da América”, comentava há alguns amos, com ironia, este hispanista britânico quando a Espanha se preparava para comemorar, em 1992, os 500 anos da chegada de Cristóvão Colombo ao Novo Mundo.

Por sua vez, Stanley Payne assegura: “E demasiado típica a apreciação de que a conquista espanhola da América foi um dos episódios mais lamentáveis da Historia. Talvez exprima um ressentimento francês por terem perdido a Guerra dos Sete Amos, em 1763, e, com isso, a maior parte do seu império americano. Seja como for, parece reflectir preconceitos típicos surgidos originalmente no século XVI”,comenta 0 historiador britânico, que também se especializou em temas hispânicos.

A dureza da repressão espanhola na Flandres foi tão odiosa como outras levadas a cabo por Inglaterra ou por França naquela época e mesmo noutras mais recentes. Durante a chamada “Noite de São Bartolomeu” (25 de Agosto de 1572), os católicos franceses lançaram, sob os auspícios da rainha-mãe, Catarina de Médicis, e d0 filho, 0 rei Carlos IX, uma terrível ofensiva contra os protestantes que causou a morte de milhares de pessoas em Paris e noutros locais. No reinado de Luís XIII, 0 cardeal Richelieu contribuiu ainda mais para a perseguicção dos huguenotes após o cerco prolongado de La Rochelle, em 1628.

Do Iluminismo ao anti-semitismo velado

O historiador Juan Pablo Fusi afirma que a Franca daquela época não foi, como pretendia Michelet, o grande historiador do século XIX, a pátria da civilização, das Luzes, da liberdade e dos direitos humanos. “As guerras religiosas dos séculos XVI e XVII entre católicos e protestantes quebraram a unidade moral de Franca", sublinha. A verdade é que os pais do Iluminismo, de Voltaire e da Enciclopédia se transformou, imediatamente depois, no da Restauração borbônica; no final do século XIX, inicio do século XX, Franca foi uma das nações europeias que caíram, de forma mais ou menos velada, no anti-semitismo. Foi ali que ocorreu 0 caso Dreyfuss, que surgiu o nacionalismo reaccionário de Maurras e Barres, que apareceu o “colaboracionista” Pétain.

Embora não se possa negar o protagonismo repressivo da Inquisição nem do seu mais sinistro ideólogo, Tomas de Torquemada, 0 Santo Oficio foi um poderoso instrumento para manter uma coesão religiosa que não havia no resto da Europa. A Inquisição E impediu que a Península Ibérica e fosse palco de guerras religiosas, como aconteceu em Franca e na Alemanha com o aparecimento da Reforma. Julian Juderías interrogava-se: “O que teria acontecido se Castela tivesse continuado católica e Aragão se tornasse Calvinista e a Catalunha, luterana?”. A Ibéria mostrou-se intolerante na defesa da unidade religiosa, mas essa intolerância foi semelhante à manifestada por Isabel I (Elizabeth I) quando declarou guerra aos católicos, 0 que provocou um banho do sangue cm Inglaterra.

Estima-se que, nos quinze anos em que Torquemada permaneceu à frente do Santo Oficio, foram condenados à fogueira entre quatro e oito mil judeus convertidos e-: um numero menor de muçulmanos Todavia (e sem qualquer intenção de atenuar o que constituiu uma repressão selvática), esses suplícios não foram inusuais noutros pontos da Europa e, mais recentemente, cm quase todos os cantos do planeta.

A perseguição do judeus ocorreu em todo o continente

A decisão de expulsar mouros e judeus foi um dos pontos mais aproveitados pela propaganda que pretendia difamar 0 império católico mais poderoso da época. Tanto o exílio forçado a que foram condenados os primeiros como a expulsão em massa dos segundos representaram duas opções politicas terríveis e sem sentido, sobretudo vistas da perspectiva do século XXI.

Todavia, devemos situa-las no contexto da época, pois tiveram antecedentes e réplicas cm toda a Europa. Em Inglaterra, as comunidades hebraicas foram obrigadas a partir para 0 exili0 em 1290; em Franca, em 1306; em Brandeburgo, em 1510; na Baviera, em 1554. Os ataques aquela minoria religiosa foram frequentes em t0d0 0 continente e sucederam-se ate a0 sécul0 XX, altura em que se produziu 0 extermínio nazi, que causou mais de seis milhões de m0rt0s. Os progroms perpetrados por Estaline não s0 afectaram 0s judeus 0m0 t0das as minorias étnicas que habitavam a URSS. Quanto a expulsão dos muçulmanos, será licit0 recordar as desl0cac6es forcadas de populações que se verificaram na Europa após a Segunda Guerra Mundial 0u as barbaridades cometidas pelas potências c0l0niais europeias em África no século XIX.

Convém lembrar, também, que 0s Estados Unid0s nasceram das colônias puritanas e da sociedade escravagista d0 Sul. “A expansão para Oeste, n0 sécul0 XIX, implicou 0 aniquilamento dos p0- pl vos índios A Guerra de Secessão (1860-64) constituiu um verdadeir0 massacre”, afirma Fusi. O gra- ve é que a abolição da escravatura após o confronto civil não pôs termo ao problema do racismo. Ainda hoje há cerimónias de iniciação do Ku Klux Klan em algumas zonas dos Estados Unidos.

A expansão ultramarina constitui o outro grande argumento da Lenda Negra. As potências emer- gentes (Franca, Grã—Bretanha e Holanda) uniram-se contra o país que lhes disputava os novos territórios e negaram a Espanha o direito de manter 0 seu império. Para isso, nada melhor do que fabricar uma campanha de propaganda sobre as crueldades cometidas na América.

Para Sábato, os ingleses foram mais racistas

Não há duvida de que a evangelização e 0 conceito de império foram utilizados para escravizar os povos indígenas, mas é também verdade que os monarcas espanhóis promoveram a protecção dos aborígenes, tarefa de que incumbiram as ordens religiosas e que não teve eco nas colonizações levadas a cabo por outros países A0 gesto evangelizador, a Coroa espanhola acrescentou uma obra de integração cultural no Novo Mundo, reflectida na construção de cidades extremamente bem organizadas em que havia, além de catedrais e igrejas, escolas e centros de ensino. Em 1551, os dominicanos fundaram em Lima, actual capital do Peru, por decreto de Carlos V, a Universidade de San Marcos, a mais antiga da América.

O escritor argentino Ernesto Sábato afirma que a Lenda Negra “foi iniciada pelas nações que pretendiam substituir 0 império mais poderoso da época, entre as quais a Inglaterra, que cometeu no mundo inteiro atrocidades tão graves como as espanholas, embora agravadas pelo seu clássico racismo”. Sabato considera que, se a Lenda Negra fosse uma verdade absoluta, os descendentes dos povos indígenas subjugados deveriam manter um ressentimento atávico contra a Espanha, “e não só isso não acontece, como dois dos maiores poetas de língua castelhana de todos os tem- pos, Ruben Dario, da Nicarágua, e César Vallejo, do Peru, eram mestiços e cantaram a Espanha em poemas imortais”, sublinha o escritor argentino.

Uma opinião semelhante foi defendida pelo escritor mexicano e Prémio Nobel da Literatura de 1990, Octávio Paz: “Não se pode pensar em termos da Lenda Negra. E evidente que a descoberta da América e a sua conquista estiveram repletas de horrores, mas também de gestas gloriosas que não podemos deixar de lado, e creio, sem receio de me enganar, que aqueles que a definem como a comemoração do genocídio dos povos americanos cometem um erro grave, porque é historica- mente falso e a-histórico por definição”

FC.



Mais

Os Instigadores da Má Fama

Muitos textos panfletários de protestantes ingleses, alemães e flamengos, como “0 Livro dos Mártires” (1554), de John Foxe, denunciavam a subordinação do Império espanhol à Inquisição e retrataram Filipe ll como um fanático religioso que via hereges por todo o lado.

Em 1581, Guilherme de Orange escreveu a “Apologia”, onde acusava o duque de Alba de ser o cão-de-fila de Filipe ll e de ordenar milhares de execuções expropriações na Flandres. Acusou ainda o rei espanhol de mandar matar-lhe o filho, Carlos, e a mulher, Isabel de Valois.

Por sua vez, o ex-secretário de Filipe ll, Antonio Pérez, despeitado com rei, escreveu, com o auxílio de Isabel I (Elizabeth I) de Inglaterra, outro libelo que viria a criar sentimento anti-ibérico na Europa. Em Franca, Montesquieu discorreu sobre espanhois e portugueses numa das “Cartas Persas”: "A circunspeção é a característica mais brilhante de ambas as nações; manifesta-se principalmente de duas maneiras: nos óculos e nos bigodes."

Depois de apelidar de ociosos (“inimigos do trabalho”), beatos e intolerantes os povos ibéricos, afirma que não usufruíram de tranqüilidade filosófica “porque estão sempre apaixonados”.

Segundo Voltaire, as matemáticas nunca foram cultivadas por estes povos, cujas principais ocupações eram “a guitarra, as mulheres e a linguagem gestual”.




O Defensor dos Índios

Um dos livros mais importantes para a difusão da Lenda Negra doi uma versão adulterada da “Brevíssima Relação da Destruição das Índias”, de frei Bartolomeu de las Casas, editada de forma fragmentaria em 1598. O libelo acusatório incluía gravuras do famoso editor Teodoro de Bry que exageravam a crueldade dos conquistadores para com os indígenas. 

Na realidade, a obra original do dominicano espanhol, publicada em Sevilha em 1552, fora encomendada pela Junta de Valladolid, que pretendia que ele apresentasse por escrito e em tom acusatório, embora de forma não tão exagerada, as suas alegações sobre a colonização na América. O objectivo da Junta era persuadir o imperador Carlos V da necessidade de aprovar medidas legislativas para melhorar o tratamento aplicado aos colonizados. Os instigadores da Lenda Negra esqueceram-se de mencionar que, em 1516, o padre Bartolomeu de las Casas fora nomeado “defensor dos índios” pelo regente, o cardeal Cisneros, o que revelava o genuíno interesse da Coroa espanhola pelos seus novos súditos.

Uma atitude de que não poderia vangloriar-se, por exemplo, o rei Leopoldo III da Bélgica, cuja aventura colonialista no Congo causou a morte de milhões de pessoas em pleno século XIX.



O Genocídio da América

A conquista da América do Sul teve aspectos positivos e negativos, mas, ao contrário do quê aconteceu na América do Norte, a zona do continente que esteve em mãos ibéricas possui uma componente fundamental de mestiçagem, pois os conquistadores não se importaram do se misturar com os conquistados. 

Espanha foi a primeira potência colonial a debater publicamente os direitos dos índios. Países como a Holanda, a França e os Estados Unidos (que se limitaram a oferecer re servas aos poucos nativos que sobreviveram à conquista do Oeste) não promulgaram leis para proteger os colonizados. 

Sabe-se hoje que a diminuição da população indígena se deveu, sobretudo, às doenças que os colonos levaram da Europa, como a varíola e a gripe. Por outro lado, criaram-se até universidades; se os conquistadores tivessem sido assim tão intolerantes, não teriam tido a preocupação de educar os colonizados. 

Actualmente, a par das línguas européias, os índios conservam os seus próprios idiomas.