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Quadros

A CABRA ESBAFORIDA

anti-romance em três atos

Ato um - saga dos velhos

Moldura: Um baralho de cartas sebentas e quatro velhos.  Uma mesa com tampo de madeira e quatro cadeiras com espaldar. Um cangirão de barro negro e quatro copos.

Os velhos recomeçam a jogar às cartas tentando reatar o jogo no ponto em que tinha ficado. Não havia bem a certeza e negociaram uns certos arranjos, o que conveio a todos. 
Um dos velhos bate o sebento valete de paus com uma risada bem desenhada nas gengivas destapadas.

No fim, os velhos reclamam cada um a sua vitória, um tipo diferente de vitória adequada aos méritos próprios.

Agora está outro velho a distribuir as cartas e fala mais rápido do que distribui. O outro, impensadamente , tira saliva da boca com o indicador como que para ajudar o primeiro. Um velho corta a vasa com o terno do trunfo.

O velho deu novamente as cartas, revelou o trunfo, arrebanhou a sua mão, cofiou o bigode amarelado e sorriu-se. O outro velho bateu a carta com violência erguendo a crista a modos que a dar ares do macho alfa que fora. Os velhos pouco se importavam com isso. Para eles o secretus secretorum estava no cartear e nos poucos sinais que o par adversário fingia ignorar. Eram os mesmos sinais que fingiam incorporar na mesma estratégia estafada com que, ora perdiam, ora ganhavam. Um dos velhos lá tirou um ás da sua mão com o qual vergastou furiosa e ruidosamente o tampo de madeira. O outro ao lado sofreu com o pensamento e o sobrolho a perda irreparável do seu rei. 

Os velhos discutiam qualquer coisa sobre se as espadas eram sabres ou floretes e mandaram vir mais um cântaro de vinhaça. Os velhos continuaram a bater as cartas sobre o tampo de madeira da mesa, acompanhando o pulsar do tempo. A um dos velhos a dama de paus recordou-lhe a Celeste Rodrigues e deu-lhe para começar a cantar fado. Acabaram o jogo com um empate e estiraram as costas por cima do espaldar das cadeiras. Um dos velhos disse, escancacarando os três dentes restantes em cujo esmalte restolhava a cauda murcha do Sol, "isto é que é vida!" Ao que outro anuiu com um arroto meio disfarçado pela idade e a cheirar a alho

As quarenta cartas rodaram outra vez de mão e cada um foi ver o que lhe coubera em sorte.

Os velhos há uns tempos que tinham posto os baralhos de parte e dedicavam-se a analisar, um a um, cada copo que enchiam do cangirão de barro negro e davam estalidos com a língua. Que esse, sim!, é que fora um ano bom. E torciam e retorciam o lóbulo da orelha, preso entre os dedos polegar e indicador, e piscavam o olho denunciando a aprovação partilhada.

Um dos velhos coçava insistentemente num dos pontos da cabeça, mais ou menos na zona temporal direita, e olhava esbugalhado para as dez cartas de copas tão vermelhinhas que lhe tinham ido parar às mãos. Infelizmente, como não tinha sido ele a dar, os trunfos passeavam-se indecorosamente por outras mãos. Ainda se o parceiro tivesse um bom jogo!.... E olhava para a cara dele mas só lhe via o carão embezerrado e seco que vestia todas as manhãs e que o acompanhava até ao deitar. 

Ato dois - À beira da estrada

Episódio 1 - No acampamento

O gato vem, bate o pingalim nas pernas e senta-se na pedra do caminho a descalçar as botas.
Não vale a pena esperar que o pássaro multicolorido regresse, ele não regressa. Pelo menos por enquanto! Pedintes são aos montes, desfilando obedientes na coluna imensa de gente ao longo da estrada. Tiro a rosa da lapela e desfolho-a. As pétalas caem lágrimas rosadas na poeira da berma. A saliva engasga a amante que contempla a foto murcha do homem fardado. O ar pesa, tem o cheiro de um produto fora de prazo. Passam veículos atarefados buzinando estafadamente. 

O gato olha-me com um sorriso enigmático. É prontamente arranhado pela gata e afasta-se ao pé coxinho com a bota na mão. Eu acho que ele vê a minha corrente de pensamentos, sentado num cadeirão ao lado do meu, no meu teatro íntimo. A tartaruga espoja-se no chão torcida e retorcida a procurar coçar-se no interior da carapaça. Para a acalmar, o coelho senta-se em cima dela e começa a fazer caretas. O coelho fazia cabriolices sem que a tartaruga se importasse. O gato é que apreciaria ver aquela cena em cima do porco-espinho. Mas o porco-espinho tinha-se cautelosamente afastado da estrada a deixar no seu pensamento a estrada para os cães. Se a estrada praticamente só tem um sentido porque não ir cada um por onde lhe apetece? Gostava de rever a ave, seguir com a cabeça os seus movimentos, seguir com os olhos a sua plumagem. Lá do alto é que se deve ver bem. O gato dá-se ares a mostrar como é que se é. Faz-se importantão quase sempre que não está a dormir, mas não à vista da gata que tem o sentido das conveniências e faz-se respeitar. A tartaruga adormeceu com o sapateado do coelho. O cão já marcou a sua presença em duas árvores na orla da estrada e agora regressou para ladrar aos burros que puxam carroças. O gato tem novamente as duas botas calçadas.

Do ar caem penas multicoloridas, balançando de um lado para o outro, aos ziguezagues, como se fosse cada uma um iô-iô. 

 - Está sempre a acontecer - disse, entretanto, a lebre - sou mais rápida que o pensamento. 
 - És, mas é, estúpida - pensou rapidamente o gato - quando corres, vejo um torvelinho atravessar-se à minha frente e dissipar-se algures no nada. Depois, mas muito depois, passa o teu pensamento, como um velho, agarrado à sua bengala.

O ouriço aconchegou-se na sua catatonia armadilhando de espinhos o seu derredor. Passavam jipes vindos da frente cheios de magalas amortalhados em ligaduras ensanguentadas. Ouvia-se o troar dos canhões ("troar dos canhões" era uma frase de que estavam cheios os romances de novecentos). Mas não se ouvia, nada se ouvia. {Apenas o horizonte púrpura dos clarões dos "xasers"}. Cada vez mais era assim: as coisas aconteciam. Aconteciam e pronto! A gata afiava as unhas no córtice da árvore. A boneca de trapos pegou na ardósia e escreveu uma afirmação. E depois outra. E, finalmente, a conclusão. Dir-se-ia um argumento válido. Fez a dedução sintáctica e concluiu tratar-se de um argumento válido. Aí estava: a lógica, ora precede a vida, ora lhe sucede, alternadamente. Como um pêndulo. A lebre passou a correr em sentido contrário. Ninguém a vira, claro. Era tão veloz! Mas sentiu-se uma ligeira brisa à sua passagem. A boneca de trapos garantiu que a invisibilidade da lebre era a prova ontológica da sua existência. E que a lentidão do pensamento mais não era que uma dúvida metódica. A boneca de trapos dizia coisas assim, coisas que ninguém entendia. O que a amargurava, por certo, chegando ao ponto de confessar que era uma língua de trapo onde não conseguia pôr tento. Quem a entendia e estimava era o ouriço que por ela nutria secretamente uma paixão inefável porque tida por contra natura. A boneca pegava no ouriço ao colo, afagava-o, e não se queixava de que ele a picava. Parecia até gostar das intempestivas e múltiplas picadas com que o ouriço a mimoseava quando se enrolava nos seus panos de trapo. 

A PM corria de um lado para o outro com os apitos na boca a tentar pôr ordem no caótico trânsito. 

A gata punha a casa em dia. Ao pé dela o gato arrastava a cauda pelo chão e baixava o pêlo. Abriu o jornal e leu a notícia que rezava assim: "Jasmonate perception by inositol-phosphate-potentiated COI1–JAZ co-receptor": E achou normal que assim fosse. O caracol divertia-se à brava a andar a toda a velocidade no skate. A notícia seguinte garantia que "An unprecedented nucleic acid capture mechanism for excision of DNA damage". O que achou normalíssimo dado que. E estalava a língua sempre que proferia aquele dado que. Para ela tudo acabava com um estipulativo dado que não dando margem a que se perdesse mais tempo em proliferas e prolixas demonstrações. Um dado que tinha um estatuto ontológico superior ao de um et coetera. O caracol sofria euforicamente a vertigem da aceleração. A boneca de trapos estimava que essa emoção resultava da segunda derivada neodamasiana cerebelosa. 

A coruja ria-se dos velhos a quem atribuía a crença de que o tempo era algo que só acontecia no intervalo de dois jogos. Sempre era tempo para escorropichar um copito. O caracol aproximou-se do grupo o skate fazendo um ooo00OOO00ooo arrevesado e enxugou os cornichos suados com a palma da mão. O ouriço bem queria saltar para cima do caracol e ir de boleia mas arriscava-se a empalar o caracol com algum espinho mais descuidado. Depois, lá se ia a boleia. A gata, que era esperta, percebeu a intenção do ouriço. Encolheu as espáduas ditando a sentença que todas as fêmeas proferem desde o início dos tempos: "machos!". 

Não se sabia nada da frente de guerra. Apenas os magalas feridos continuavam a passar uns de maca, outros pelos seus pés, outros, suposto que mortos, empilhados nas carroças puxadas a bois. O cão às vezes punha-se a correr ao lado destes a ladrar-lhes às pernas. Mas se conversavam sobre o que se passava por lá, nunca o disse.

O cão farejava à esquerda e à direita para cima e para baixo sob os pneus dos carros e no espaldar dos troncos das árvores. E ladrava às sombras que se acoitavam nas copas onde o sol não chegava para as vassoirar. O que o cão não gostava mesmo nada era de ver a tartaruga a tentar coçar o dorso estendendo a mão por dentro da carapaça. Dava-lhe umas raivas tais que rilhava os dentes fazendo um som característico. A gata é que não gostava daquele som e, por fim, o gato não gostava nada que a gata estivesse sempre a pensar comentários pouco benevolentes sobre as outras pessoas.

Episódio 2 - O estranho acontecimento que mudou a vida da boneca de trapos

Estavam todos na vertente poente do outeiro que ladeava a estrada e descia em ondulações harmoniosas até aos juncos que bordejavam a ribeira. A terceira ave desceu em voo picado na direcção da água, passou rasante a duas libelinhas que conversavam de janela para janela (posto que houvesse janelas), levantou o focinho e arrancou em voo rápido na direcção da alfa de centauro que, como se sabe, não é visível durante o dia mas, como se sabe também, as aves têm um sistema para detectar a alfa de centauro quando esta se encontra obscurecida pelo brilho do sol.

A erva era verde e fofa, sendo este último predicado o mais adequado ao facto de estarem sentados. O caracol decidira pôr o skate de lado e incomodava toda a gente a perguntar se alguém conhecia um meio de transporte mais rápido. Toda a gente o mandava ir de lebre prometendo que atiçariam o gato a correr atrás da lebre. Não que lhe desagradasse a ideia, mas com a gata por perto o gato não se atreveria. Para além de que a lebre não suportava a ideia de transportar no dorso aquela espécie de lesma com casa às costas. 

Em ziguezague semi-acrobático, mas completamente profissional, a pomba desceu dos céus e foi poisar no ombro da boneca de trapos. A pomba, ao contrário de Laqui-Laque, o cowboy solitário, não trazia o habitual raminho de oliveira com que palitava o bico como era seu hábito (posto que tivesse hábitos!). O gato teceu o seguinte comentário, rezando entredentes para os seus botões (suposto que os tivesse): - A puta da pomba é danada para a brincadeira, aquilo deve andar com ideias! - mas desentrelaçou os dentes logo de seguida, e deixou descair sobre o focinho aquele esgar risonho que utiliza no perfil da sua rede social. Também olhou arreceado para a gata não fosse aquela ouvir os seus pensamentos. E rodou o botão sintonizador para um nível de pensamento mais baixo. Tinha que encerrar-se no interior de uma larguíssima muralha de betão armado para proteger-se das incursões que a gata fazia aos seus lugares de privacidade.

O ouriço quase ia pisando o caracol que descansava das suas loucas correrias. Porque é que o caracol não se ia deitar à sombra da longa fila de tortulhos que tinham nascido ali aos molhos como auto-estradas? A chuva miudinha e o tempo encoberto tinham-nos trazido para ali e ninguém sabia se eram comestíveis ou venenosos, embora, nos tempos que corriam, quase tudo o que fosse comestível seria, certamente, venenoso. A pomba não deixava de sussurrar palavras venenosas aos ouvidos da boneca pensando que assim a levaria ao castigo. 

A boneca continuou a ler o jornal do dia na parte onde se lia, na primeira página, " Hemoglobin-induced oxidative stress contributes to matrix metalloproteinase activation and blood–brain barrier dysfunction in vivo" e viu que era bom. Um artigo é sempre bom sempre que o leitor predica a sua bondade. Também há aqueles que nós consideramos poéticos porque, uma vez ditos, reconhecemos neles uma certa musicalidade. E a musicalidade é aquela propriedade que se assemelha aos ritmos cardíacos que nos estimulam os cérebros de quando somos fetos, provavelmente os que provêm daqueles seres a que chamamos mães. A boneca pensava nestas coisas mesmo sem nunca ter tido uma mãe. A mãe é uma categoria apriori da existência sobre a qual nada se pode decidir sem primeiro nos desembaraçarmos do problema de quem apareceu primeiro, se o ovo, se a galinha. E a boneca ouviu qualquer coisa que lhe recordava Armstrong e pareceu-lhe bem. 

O gato olha-me como que a adivinhar a minha intenção e sorri-se, afastando as moscas com o pingalim. O cão abanava o rabo de felicidade irreprimível, e babava-se de contentamento. A gata prosseguia na lide doméstica e abanava a cabeça enquanto pensava como podia a natureza manter viva uma espécie de exemplares tão tontos. E chegava mesmo a sacudir a cabeça como se isso fosse de feita a ordenar as ideias que lhe vinham à cabeça enquanto trabalhava. Havia quem gostasse de trabalhar e ouvir música. Ela acompanhava o trabalho com o seu caleidoscópio de pensamentos. A coisa às vezes ficava tão pegada que ela até pensava que o que mais fazia era pensar e que o trabalho era para acompanhar os pensamentos. Não que fosse inteligente e culta como a boneca de trapos. Ela não tinha as palavras certas para ampliar o som dos seus pensamentos de modo a que os outros a ouvissem. Aquilo era só para ela. "Um passatempo", dizia. A boneca passava horas a ler os jornais, apanhava aquelas palavras esquisitas no meio de frases ouriçadas como quem anda à cata de amoras silvestres. Depois, amandava-as de rajada, sem hesitar ou gaguejar. Uma verdadeira intelectual, ou, segundo uma expressão que ficara dos velhos tempos, "uma betinha da católica"! Aquelas coisas que ela lia eram escritas por pessoas que parentetizavam a vida para ter tempo para escrever sobre a vida. Os mais ousados procuravam adivinhar o futuro. Quem não queria saber do futuro era o caracol que voltara aos rodopios vertiginosos do skate. A lebre, já preparada para sair em expedição e de binóculos a tiracolo, conferenciava com a coruja que acabara de chegar, terminado o batimento nocturno dos prados e matas adjacentes. O dia começava assim assim. O gato aperaltava-se, compondo o laço e mirando-se no espelho das botas acabadas de engraxar.

As cabrinhas não paravam de espinotear no montículo de areia. Andavam à roda numa fona, uma atrás da outra, às marradinhas no nada. O gato experimentou o chapéu de feltro novo que a gata tinha encontrado numa antiga lixeira, lavado e engomado com esmero. Mirou-se ao espelho, ajeitou-lhe a aba, agitou o pingalim e imaginou-se no papel de Indiana Jones. O coelho ria-se. Ria-se da vaidade do gato, e ria-se da toleima do caracol que insistia em dar a volta ao mundo na carapaça óssea da tartaruga.

É claro que o caracol fora instigado pelas ideias da boneca, mas ninguém, nem mesmo a boneca, percebia onde ele tinha ido buscar essas ideias. Sabemos que tudo o que é dito sai como um fio de voz pela boca das pessoas e fica preso como um papagaio a planar lá nos céus, cada vez mais longe, mais longe, mais longe... Houve alturas em que se pensava que os discursos faziam parte de histórias e que cada história criava e mantinha a identidade do indivíduo. Os bebés anafados continuavam a história dos progenitores e criavam a sua história pessoal que engordava ao sabor do tempo, narrativa expressa em termos de currículo de vida, de autobiografia; ou de romance, quando escrita pelo outro. Aliás, a própria narrativa separava o próprio do outro para criar o próprio. A boneca sacudiu os farrapos da cabeça como que a afastar este curso de pensamento que levava a nada. Ela sabia que o eu era uma ilusão, que se retirasse os trapos que a envolviam, largando-os no chão, nada restaria: o eu, como a identidade da cebola, são as várias camadas de trapos que se envolvem umas às outras.

As cabrinhas não se cansavam das cabriolices com que entretinham o adolescer complicado das suas hormonas. O cão é que não gostava dos respingos de areia que lhe chicoteavam o focinho gelado e húmido, aquilo era ferramenta para manter em excelentes condições de operacionalidade! Traçou a pata peluda bem à frente dos olhos ficando a espreitar por uma nesga de horizonte e resignou-se à petulância das cachorras de cabra. O coelho gostava das brincadeiras das cabritas e ainda pensou em meter-se debaixo da areia, escavar uma toca e aparecer no meio das duas, de braços abertos e com a boca atolhada de sorrisos, e dizer-lhes: "cucu!". Isso era o que ele pensava. Pois, como se sabe, os coelhos são danados para as cabriolices. Mas, daí a fazer... Resfriou-se-lhe a coragem, murcharam-lhe as orelhas e foi-se acoitar ao pé da lebre que resfolegava da última incursão ao mundo da vertigem.

A boneca sentia-se enjoada, fenómeno que já se repetia há uns dias e que as pessoas começavam a comentar. A gata, mais sabida, e que não dava ouvidos à voz do povo, preparava-lhe umas tizanas de hortelã do rio para atenuar os enjoos, que a boneca bebia sofregamente, mas que lhe provocava uma vontade constante de urinar. Quando lia as revistas, sentada debaixo do carvalho gigante, as letras e as gravuras bailavam à frente dos olhos, pesava-lhe a cabeça e acabava por ceder ao torpor da sonolência, a revista escorrendo-lhe pelo regaço para o chão, com os dardozinhos de sol que se escavam por entre as frestas da copa do carvalho a amolecerem o seu corpo de trapos.

As vozes malévolas convenceram-se de que aquilo era obra do ouriço. Nas noites de geada, o pobre enroscava-se nos trapos da boneca para evitar hibernar. Como o inocente passava a noite toda a remexer-se, a boneca costumava aparecer de manhã com os trapos todos esgaçados pelos espinhos do ouriço, que a gata se prestava de imediato a cerzir. O que eles não sabiam, o que a gata sabia de sobra, era das plumas da pomba que se amontoavam no interior dos trapos formando uma espécie de ninho que o ouriço aproveitava para se manter quentinho.

Episódio 3 - A lenda da criança que a serpente salvou de comer o pomo envenenado da madrasta.

A uns quilómetros dali, na outra margem da estrada, o mocho encontrou a criança.
- Olá, criança, o que andas aqui a fazer sozinha? - Perguntou o mocho movido por uma mistura de curiosidade e de ternura.
- Apanho florinhas, senhor mocho. É para dar à minha mãezinha...
- E onde está a tua mãe, criança?
- Está naquele monte - apontou - onde as pessoas ficaram todas a fazer ó-ó no chão quando o tempo se rachou ao meio e apareceu tanta luz.

O mocho, que até aí só coçara a cabeça, ficou petrificado e sentiu gelo dentro de si.
- E que vais fazer a seguir?
- Vou procurar a minha mãe, vou-me sentar ao lado dela à espera que acorde e vou-lhe dar estas lindas flores - e apontou para as flores que tinha na mão. - E ela vai ficar contente, e vai dar-me muitos beijinhos, vai puxar a minha cabeça para o colo dela e vai fazer-me muitas festinhas.

O mocho ficou sem saber o que fazer. Ainda pensou em dar o alerta à águia e pedir-lhe que lhe fizesse um ponto da situação de como corriam as coisas lá para Leste. Mas como contactá-la agora que ela andava sempre em missões complicadas e prioritárias? Como não podia deixar a criança ali, entregue aos seus próprios cuidados, assobiou no sentido contrário ao do vento e, passados curtos instantes, ouviu o restolhar no chão: era a cobra que respondia ao seu apelo.

Depois de um relato breve, pediu à cobra:
- Tens que tomar conta da criança e levá-la para o acampamento. Entrega-a aos cuidados da gata.

Dito isto, lançou-se em voo ascendente e perdeu-se no horizonte, por cima da rama das árvores.

A cobra fitou a criança nos olhos e disse-lhe em tom firme, mas carinhoso:
- Vem comigo ao nosso acampamento para conheceres amigos. E vais comer alguma coisa, senão a barriga cola-se-te ao peito. Depois, trataremos de encontrar a tua mãe.
- O que são amigos? - Perguntou a criança à serpente.
- Amigos... ? - A pergunta era tão embaraçante que até doía. De pouco serviria dar uma definição por condição necessária e suficiente, ou mesmo por género e diferença específica. Mesmo que tivesse o talento para conseguir tais definições... Por ironia, a cobra achava-se muito terra a terra. Podia tentar dizer-lhe que era parecido com, mas não se lembrava de nada que se parecesse com a amizade. Podia dar-lhe alguns exemplos, mas os que lhe passavam pela cabeça não estavam ao alcance dos conhecimentos de uma criança. Há coisas que toda a gente sabe o que são e que não se explicam. Mas as crianças são assim mesmo: não sabem, mas querem saber. E não se demovem até saber o que querem. E quando ficam a saber, nunca mais querem saber disso. Quer dizer que cresceram, que perderam a frescura matinal. Só muitos anos mais tarde, quando estiverem novamente ao cuidado dos outros, é que vão parar outra vez para indagar de novo. Tudo. Radicalmente.

A gata tinha duas preocupações no que respeitava à cozinha. A primeira, óbvia como se verá, consistia em proporcionar a cada membro do acampamento uma alimentação adequada às necessidades diárias de cada um, sem pôr em perigo a reserva de recursos estimada suficiente para os dois dias seguintes. Competia a outros a reposição do armazenamento de água, lenha, alimentos e condimentos. A segunda, por mais estranho que pareça, era a de manter todos afastados da área da improvisada cozinha garantindo-lhe a exclusiva soberania sobre um domínio que a enchia tanto de prazer como de prestígio.

Porém, agora parecia tresloucada com a súbita notícia de que iria ter mais uma boca para alimentar. Ainda por cima de uma criança. Se os bípedes têm uma alimentação estranha e complicada, como não será a de uma cria. Possivelmente precisaria de leite e não havia nas redondezas uma fêmea que o proporcionasse. Que a boneca de trapos tinha empranhanhado, já toda a gente o sabia; mas o seu sistema mamário só iria estar preparado no segundo trimestre de gravidez e apenas funcionaria depois de ter parido. E o problema do leite parecia não ter solução. O cão propôs ingenuamente que a gata fizesse parte da solução o que complicou ainda mais as coisas porque a gata assanhou-se, sem uma explicação aparente, e quem pagou as favas foi o gato das botas que ficou com um pelada no quadril.

No resto do acampamento faziam-se outros preparativos: o casal de pica-paus derrubava árvores para a preparação de madeiras; o coelho utilizava o ouriço cacheiro para aplainar as tábuas; o cão e a lebre improvisavam o berço à medida em que os materiais vinham chegando; as cabritas andavam pelo vale a apanhar e a acartar ervas e palha, e o caracol andava de skate de um lado para o outro a coordenar os trabalhos. Só o gato se punha de lado a bater com o pingalim nas calças de montar e a rever-se no espelho imaculado das suas botas engraxadas.

Ato três - A caixa e o monstro

Abrir ou não abrir a caixa! ... o monstro ... o monstro. Se um dia a destapar e vir a cara da morte. e se o monstro? ... Imaginava sempre a morte como tendo uma cara atraente. Não dava saída à insinuação generalizada de que tinha os dentes podres e a cara cheia de rugas. As pessoas gostam de a pintar de negro e esquecem-se que a sua irmã vida é que é a madrasta com as verrugas no nariz. Olho a caixa desejo e temo abri-la.

Abrir ou não a caixa?

O sábio olhou para a caixa com ar bovino. As concubinas dançaram com a coreografia adaptada à circunstância. Na sala, alguns dos presentes interrogaram-se sobre o significado dos números. A lua corria pálida o seu caminho solitário.

Estive vai não vai para abrir a caixa. A ideia de o fazer tolheu-me a ideia de o fazer.





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