Um estudo sobre a graça

Igrejas e sermões cheios de graça

Introdução: Nada há melhor do que a graça de Deus, ainda que seja um dos temas mais mal entendido.
1.     A graça é um dos aspectos da fé cristã. De todas as grandes religiões do mundo, só o Cristianismo ensina a salvação pela graça e não por obras humanas. A ressurreição de Cristo, um sepulcro vazio, seria um outro aspecto, único, da fé cristã.
 
2.     A graça encontra-se em todos os relatos bíblicos, nem sempre especificamente mencionada, mas quase sempre presente.
 
3.     A graça encontra-se, também, no Antigo Testamento, onde dito vocábulo ocorre 20 vezes, incluindo a descrição de Deus como “cheio de graça”.  Contudo, é no Novo Testamento que encontramos maiores evidências.
 
“Pois todos nós recebemos da sua plenitude, e graça sobre graça. Porque a lei foi dada por meio de Moisés; a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo” (João 1.16-17).
 
“Com grande poder os apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor, e em todos eles havia abundante graça” (Atos 4.33).
 
O Novo Testamento termina com uma promessa sobre graça:
 
“A graça do Senhor Jesus seja com todos” (Apocalipse 22.21).
 
Uma das áreas do Cristianismo neo-testamentário que necessita de ser restaurada nas igrejas de Cristo é ter um bom conhecimento da graça e a capacidade de a aceitar e de a dar.
 
Aceitar a graça de Deus: alguns cristãos lutam com a idéia de serem perdoados por Deus. Sentem-se inseguros com a sua salvação e sem confiança,  vivendo na inquietação de que ainda não fizeram o suficiente ou que se deixarem de fazer algo se perderão.
 
Conceder a graça de Deus: nas igrejas de Cristo temos feito um excelente trabalho na identificação de doutrinas e mandamentos, mas não temos aprendido como conceder graça às pessoas, sobretudo como fazia Jesus. Por exemplo:
 
•      O que é mais fácil; condenar o pecado ou abraçar e amar ao pecador? Você se sente incomodo quando certas pessoas entram na igreja? Se as pessoas se vestem, pensam e atuam como nós, é fácil aceitá-las. Se não se vestem, pensam ou atuam como nós, ou têm um passado duvidoso, com frequência sentimos dificuldade em lhes dar as boas-vindas!
 
•      Jonas fez um bom trabalho, anunciando a condenação, mas não tinha amor para com os habitantes de Nínive. Ele não compreendia como é que Deus lhes poderia perdoar. Não entendia o conceito da graça. Era um profeta de Deus, mas não refletia o mesmo espírito.
 
•      Os fariseus e os líderes religiosos nos dias de Cristo afastavam-se dos pecadores e não podiam entender o fato de Cristo se associar com eles e os aceitar no círculo dos seus seguidores. Conheciam a palavra de Deus, mas não conheciam o seu coração.

 I.  Entender a Graça – O Seu Significado e o Espírito da Graça de Deus
 
O Novo Testamento usa a palavra “charis”, no original grego, cada vez que menciona graça ou cheio de graça, favor, agradecimento e gratidão. Refere-se à “linda bondade na vida”. O Novo Testamento emprega a palavra “charis” 155 vezes, quase sempre nas cartas de Paulo (100 vezes); I e II Coríntios (10 e 18); Romanos (24); Efésios (12); (Atos 17).  Falam-nos de um favor não merecido que Deus concede. É um dom gratuito de Deus a todos, o qual resulta na salvação e bênçãos de Deus.
 
“Graça” não é só um objeto (um dom) dado e recebido. É, também, um estado de espírito, uma atitude ou uma aproximação. “Doutrina” é o que cremos e que define a nossa fé. “Graça” é o espírito ou atitude com a qual praticamos a nossa fé. Enquanto que “graça” pode ser difícil de explicar ou de definir, é fácil “ver”. Note o seguinte:
 
B) Oséias e sua infiel esposa (Oséias 1-3). Ela não merecia o seu amor nem a sua dedicação,      contudo, ele as concedeu. Não merecia a redenção que lhe deu Oséias, mas ainda assim a recebeu.
A graça não se baseia em méritos – que tão bem ou mal os fazemos, ou porque a merecemos ou não. Baseia-se no amor incondicional de Deus, na sua misericórdia, no seu desejo de salvar e de redimir.
 
C) II Samuel 14.12-14 – David era para receber a Absalão (significa: meu pai é paz). Versículo 14 define “graça”: “Deus não tira a vida, mas cogita meios para que o banido não permaneça arrojado da sua presença”.
 
A graça não é “reprovar” pessoas que falharam. É planear formas de as trazer de volta; dar-lhes as boas vindas ao lar. Não se baseia no que fizeram ou não. Baseia-se na vontade de Deus de levar os que dele se afastaram de regresso à igreja.
 
3.     Note os exemplos da graça no Novo testamento:
 
A)   Mateus 11.28 – O grande convite de Cristo: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei (vos aceitarei)”. Não vos excluirei!
 
B)   Lucas 15.8-32 – O filho pródigo.
O pai deu as boas-vindas ao filho que intencionalmente se afastou e não lhe imputou o seu passado (O pai representa Deus e as boas-vindas são a graça oferecida àquele que falhou e praticou o mal).
 
O irmão mais velho, ressentiu-se, irou-se e se manteve distante. Era igual a Jonas. O irmão mais velho representa aqueles que se recusam a dar as boas-vindas ao lar, daqueles que fizeram algo de mal.
 
A sua congregação refletirá o espírito do Pai (a graça que aceita), ou refletirá o espírito do irmão maior (sem graça, desprezível).
A sua pregação refletirá o espírito do Pai ou o do irmão mais velho.
 
C)   Saulo de Tarso – Paulo o apóstolo – I Tim. 1.12-15 “e a graça de nosso Senhor superabundou com a fé e o amor que há em Cristo Jesus”.
 
A mesma “graça abundante” encontramos em:
João 8.1-11 – A mulher surpreendida em adultério.
João 4 – A samaritana junto ao poço (se uma mulher como esta fosse à igreja, muitos não saberiam o que fazer. Mas Cristo lhe ofereceu água viva; o convite para se tornar a sua discípula.
João 13.1-17 – Cristo lavou os pés aos seus discípulos. Eles estavam apegados ao seu orgulho, ao seu ego. Mas Cristo não os excluiu! Não os expulsou! Derramou a sua graça, os amou e eles foram transformados!
 
ESCLARECIMENTO:
A graça dá as boas-vindas ao lar a pessoas que falharam e se afastaram de Deus e da sua vontade, não é uma desculpa das falhas do passado ou fingir que nada aconteceu. Deus os presenteia com misericórdia e perdão pelos seus erros do passado e lhes permite regressar à igreja.
 
•      Com o objetivo de reparar o que está desfeito –restaurar a aproximação a Deus e aos demais seres humanos.
•      Com o objetivo de corrigir ou mudar os pensamentos e ações dos santos. Não aprova o pecado ou o mal. Mas busca suster o pecado e o mal na vida dos homens e transformar o pecador em santo.
•      Mas não nega ou retira as consequências dolorosas do pecado e do mal. A graça permite perdão e reconciliação com Deus, mas não desfaz milagrosamente todas as consequências negativas do pecado. Assim, também, está livre para obedecer a Deus ou se submeter à sua vontade.
Agora estamos prontos para definir a palavra “graça”.
 
1. Graça é um dom de Deus (não merecido, não conseguido, dado gratuitamente), de amor, misericórdia, perdão e salvação. É o dom de Deus para receber de volta as pessoas (Rom. 3.23,24).
Nota: Efésios Cap. 2
•      2.1-3 descreve os pecadores – faltas espirituais. Merecemos o inferno.
•      2.4-9 descreve a abundante misericórdia  de Deus e a sua graça como um dom para nós. Esse dom não se alicerça em nossas obras, mas sim no amor incondicional de Deus.
•      2.10-18 o dom vem por meio de Cristo e da sua cruz (não há graça recebida, exceto através do sangue e do sacrifício de Cristo).
Nota: v. 13 – “Mas agora, em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, já pelo sangue de Cristo chegastes perto”.
•      II Samuel 14.14 – Deus procura formas de o pródigo voltar a casa.
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2.19-22 – Somos bem-vindos de regresso à família de Deus. Já não somos estrangeiros, mas sim, família.
 
Exemplo: Os fariseus paravam as pessoas à porta e diziam: “Não podes entrar porque és pecador”. Cristo encontrava as pessoas à porta e dizia: “Entrem, sejam bem-vindas à família de Deus”, porque ele via potencialidade neles como filhos de Deus. Que dirás às pessoas que se apresentam à tua porta?
 
2. A graça, para ser real,  temos que a aceitar e concedê-la aos outros. Temos de aprender a não ver somente o pecador. Temos de aprender a ver alguém que pode ser perdoado e redimido como um filho de Deus.
 
3. A graça não é afastar pessoas. É dar-lhes as bem-vindas ao lar e começar o processo de as ajudar a transformarem-se nas pessoa que Deus quer que elas sejam e a terem a união legítima que Deus quer que tenham.
 
Perguntas para aprofundar-nos no estudo:
 
1.     Por que Jonas tinha uma atitude negativa para com os habitantes de Nínive, mesmo depois de Deus ter demonstrado a sua graça para com eles?
 
2.     Por que considerar o que fizemos no passado é um enorme exercício de inutilidade?
 
3.     Você pode pensar num antigo legalista que depois da sua conversão causou um grande progresso e crescimento na igreja? Podemos pensar na grande perda que teria sido se Deus tivesse excluído alguém como Paulo, por causa dos seus erros e seu terrível passado?
 
4.     II Pedro 3.18 conclui com estas palavras: “crescei na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo”.
 
II. Os temores da graça – O que nos impede de conceder graça aos outros, como fazia Cristo?
1.  Receamos permitir a entrada na igreja de alguém que não deve entrar. A igreja deve ser pura e contra o pecado. Consequentemente, costumamos proibir a entrada na igreja a pecadores.
 
•      Isto nos torna exclusivistas, iguais aos fariseus, e não inclusivos, como Cristo. Cristo nunca recusou aceitar alguém, apesar do seu passado; aceitou a todos os que se aproximaram dele com um coração honesto.
 
•      Esta é a minha reação pessoal: Prefiro permitir a entrada, em lugar de não a permitir a alguém que Deus aceita. Se alguém não pertence, Deus se encarregará dessa pessoa.
 
2.  Receamos que alguém abuse da graça usando-a como uma desculpa para o pecado. Alguns o farão! Romanos 6.1-2 diz-nos que Paulo teve que se enfrentar com esse problema. Alguém nos poderá enganar com aparência de justo, sendo que a realidade é bem diferente. Mas, a Deus não podem enganar. Ninguém alcançará seja o que for abusando da graça!
 
3.  Receamos dar a entender que aprovamos o pecado.                                                                    •      Devemos pregar a Palavra, ensinar exatamente o que ela diz a respeito do pecado, mas fazer sempre tudo que seja possível para que as pessoas se aproximem de Deus.
 
•      Devemos perdoar e mostrar constantemente a vontade de Deus.
 
•      Notemos Romanos 3.8 e I Cor. 6.9-11. Os coríntios fizeram tudo quanto se possa imaginar, mas acharam graça e perdão em Cristo. O passado deles era “história”. Agora, o seu presente requeria uma vida a um nível mais elevado.
 
•      Esta era a acusação contra Cristo; que ele aceitava pecadores e comia com eles. Para os seus acusadores isto significava a aprovação do pecado. Cristo não fazia tal coisa. Ele somente estava aceitando pecadores para os ajudar a serem santos.
 
4.  Receamos contaminar a igreja – Atenção:  a igreja não é para pessoas perfeitas, mas sim para pessoas que necessitam de Deus.
 
•      Quando tememos que alguém possa contaminar a igreja, estamos a ver pessoas com problemas em vez de potencialidades. Qualquer pessoa pode causar problemas, e quando isto acontece, os líderes devem exercer disciplina para que a igreja não seja prejudicada. Mas, pessoas não são problemas! Esses receios são usados por Satanás para impedir que concedamos graça às pessoas. São receios que Satanás usa para impedir que levemos pessoas a Deus. Estes pecados devemos vencê-los se queremos ser iguais a Cristo  e que a igreja seja como aquela pela qual Cristo morreu para a estabelecer.
 
Perguntas para aprofundar-nos no estudo:
 
1.     O amor incondicional de Deus significa salvação para todos? Amar alguém significa oposição a algo de mal que está a fazer? Como se consegue equilíbrio entre uma posição contra o pecado e ao mesmo tempo ajudar, oferecer esperança e graça aos pecadores?
 
2.     Que tipo de decisões tomamos quando o receio é a nossa primeira atitude? Recordam o receio de Abraão por causa da beleza de Sara, quando eles foram ao Egito? E o receio  de Israel para com os gigantes de Canaã? E o receio de Pedro naquela noite em que atraiçoou Cristo?
 
3.     A graça não permite nem promove a desobediência (Rom. 6). Não nos permite fazer a nossa vontade. Há diferença entre aquele que repetidamente cai em pecado (Gál. 6.1-2) e aquele que se submete à vontade de Deus? Como deve a igreja responder em cada caso?
 
III.  A diferença entre graça e legalismo (a salvação pela graça contrasta com a salvação pelas obras da lei, as nossas obras e a obediência).
 
Em Romanos e Gálatas, graça e lei são princípios opostos:                                                                •      A graça é a salvação recebida como um presente, sem que tenha importância o passado da pessoa, graças à nossa união com Cristo. Cristo obteve a nossa redenção; nós recebemos redenção.
•      Lei é a salvação como resultado da obediência, da capacidade do homem em fazer as obras corretamente, em seguir os mandamentos e restrições sem cometer erros. A tendência dos que pregam isto está na sua arrogância e pretensão, porque focaliza o esforço humano e não a misericórdia divina.
•      Legalismo é um sistema moral ou religioso de salvação que se caracteriza pelo cumprimento rígido e excessivo das leis e regulamentos.
 
Assim, em Romanos e Gálatas, a graça necessita de Deus para a salvação. A lei procura o homem e a sua capacidade para seguir leis e regras. Mas, o problema é que uma vez que desobedeçam às leis e regras, deixa de haver aceitação e salvação. As leis excluem aos que desobedecem. Notemos que é isso exatamente o que Cristo diz em Lucas 18.9-14, na história dos dois homens que subiram ao templo para orar. O fariseu (v. 9) representa os que confiam em si mesmos e que se acham justos por mérito próprio. Notemos a arrogância de espírito, o falso sentido de segurança, o afastamento dos que falharam e o desprezo do espírito legalista.
 
O legalismo oferece independência e segurança falsas, incitando a pôr a confiança nos seus próprios conhecimentos e obediência. O conhecimento ensoberbece – torna o homem arrogante (I Cor. 8.1). Assim, escrupulosamente corretos e totalmente obedientes aos estatutos e mandamentos, faz com que confiemos em nós mesmos como moral e religiosamente corretos, enquanto desviamos a nossa atenção do rompimento da nossa aproximação a Deus. O legalismo requer um exame contínuo e critica aos outros.
 
ESCLARECIMENTO:
Necessitamos da lei: as instruções de Deus, seus ensinos e mandamentos.
Necessitamos de tudo isto porque resulta em ordem, estabilidade e proteção. Cada advertência ou proibição na Escritura é para nos proteger de algo que nos afetaria espiritualmente. Regras, mandamentos e leis oferecem-nos ordem e estrutura para as nossas necessidades. De modo que a lei é santa,  e o mandamento santo, justo e bom (Rom. 7.12).
 
Contudo, a lei não pode salvar! Somente a graça pode salvar e nos unir a Deus. E a graça não nega ou anula as instruções e mandamentos de Deus. O único que concedeu graça, na sua forma mais pura, foi Jesus Cristo. Ele mesmo estava totalmente submisso à vontade de Deus e os seus mandamentos são coerentes  com a graça. A desobediência e rejeição em se submeter não é graça; é rebelião contra Deus e sua graça.
 
Nós, humanos, necessitamos de ordem, estrutura, e proteção (Os mandamentos e o ensino da Palavra de Deus instruem sobre como deve ser um casamento; como organizar a igreja, como devem funcionar plenamente a vida, as amizades, etc. Erros do passado não anulam a oferta da graça de Deus. É a oportunidade de começar de novo este momento, vivendo em submissão aos mandamentos e instruções de Deus. 

Consequentemente, é importante que vejamos e entendamos a diferença entre um ministério da graça (como o de Cristo e de Paulo), e um ministério de legalismo e leis (iguais aos dos fariseus e judaizantes).
 
1.  A graça centraliza-se nas relações entre pessoas – A lei centraliza-se em regras e conformidade para com as mesmas. Nota: Jesus Cristo é o personagem central da Bíblia e não os dogmas? Isto é uma afirmação ou uma pergunta?
Note Filipenses 3.3-14 – Paulo centraliza em si mesmo estes dois aspectos:
 
A)   V. 3-6 – Paulo, o fariseu, evidenciava as regras e a sua obediência às mesmas.  Refere-se a elas como  “confiar na carne”. Essa era a sua obediência. A sua religião consistia em seguir as regras, como a circuncisão ( os circuncidados eram aceites e os não circuncidados eram excluídos), e o seu zelo pela lei. Paulo obedecia às leis, mas a sua vida e o seu espírito nada tinham a ver com Cristo. Paulo, o fariseu,  era literalmente perigoso: podia prejudicar, ferir, prender e matar as pessoas que estivessem em desacordo com as suas regras e o seu conhecimento das mesmas (a sua teologia e interpretações).
 
Paulo seguia as leis, mas a sua vida não era aquela que Deus esperava dele. Hoje, é possível que a nossa pregação e a congregação sejam iguais? Claro que sim. Mas, se assim é, então não estamos a partilhar o ministério da graça.
 
B)   V. 7-14 – Paulo, o apóstolo da graça.
V. 9 refere-se à justiça que não provém de nós mesmos, mas que vem de Deus (é um presente de Deus)
V. 10,11 – Paulo aprendeu que o mais importante era conhecer Cristo e ser achado nele – esta é a linguagem de uma aproximação pessoal, íntima com Deus (Gál. 2.10) ? Isto descreve o ser “um com Cristo”, onde o Senhor domina a nossa vida, ações, pensamentos e a nossa relação com os outros.
V. 12,13 – Agora, Paulo fixa-se no futuro e não no passado.
 
A graça sabe que Deus não leva em conta onde estivemos ou o que temos feito. Deus só se interessa onde iremos. Deus se interessa que, de hoje em diante, somente caminharemos com ele.
 
2.  A graça liberta-nos do passado. A lei ergue o nosso passado contra nós mesmos. A lei cobra e castiga pelos nossos pecados passados e desobediência, porque a lei (legalismo) depende da nossa obediência e cumprimento perfeito dos estatutos. A graça depende do sacrifício de Cristo na cruz.
 
Esta é a lição em Mateus 20. 1-16. Os trabalhadores começaram a trabalhar em horários diferentes do dia, contudo, foram pagos por igual. V. 16: “os últimos serão primeiros, e os primeiros serão últimos”. Isto quer dizer que não depende  da obediência de alguém, mas sim da misericórdia de Deus.
 
A graça liberta a pessoa do seu passado e das suas faltas e erros. Note estes exemplos:
•      João 8.1-11 – a mulher surpreendida em adultério – Jesus perdoou; não a condenou.
•      João 4 – a mulher samaritana – tinha a religião, a moral e o seu passado errados. Tudo na sua vida estava errado! Ainda assim, Cristo oferece-lhe água viva e a oportunidade de o seguir.
•      Lucas 7. 35-52 – a mulher pecadora que lavou os pés de Cristo com as suas lágrimas; Jesus a perdoou, indiferente a qualquer que tenha sido o seu passado. Não se importou com o que ela tivesse feito.
Nota: o espírito daquela mulher era mais compatível com Cristo do que qualquer dos presentes em casa de Simão. Ela foi a única que lavou os pés do Mestre. Depois, em João 13.1-17, Cristo foi o único que lavou os pés dos discípulos!
 
O passado de uma pessoa não se pode mudar, corrigir ou consertar. Ou culpam essa pessoa ou lhe perdoam. Deus escolhe perdoar. Tudo o que se pode fazer quanto ao passado de alguém é começar de novo (a isto chamamos conversão – II Cor. 5.17). A graça começa onde encontramos pessoas, olhamos e continuamos em frente. Foi assim que Cristo tratou as pessoas. Assim, também, a igreja, hoje, as deve tratar.
 
Apliquemos os princípios, acima mencionados, a uma situação específica no mundo atual. Lutamos com a realidade atual de pessoas que foram casadas, divorciadas e novamente casadas. Damos-lhes as boas-vindas à igreja ou as excluímos?
 
•      Normalmente se aplica a lei, não a graça, às pessoas que falharam no casamento.
•      Quando aplicamos a lei, e não a graça, somos forçados a evidenciar o seu passado, a sua desobediência e a razão por que não as podemos aceitar. Isto significa que as acusamos dos seus erros passados e das suas falhas.
•      Quando aplicamos a lei, não a graça, não podemos dar as boas-vindas a pessoas com seus casamentos desfeitos. Somos forçados a recusar-lhes a entrada na igreja. Contudo, não foi assim que Cristo atuou.
•      Se aplicamos a graça, libertamos as pessoas para se aproximarem de Deus, alicerçadas no presente e no futuro. Nos baseamos na estrutura e ordem dos ensinos de Deus e no esboço de Deus para o casamento e para o lar (não haverá mais divórcio para esse casal)
•      Se aplicamos o ministério da graça, não olharemos para trás, nem condenaremos porque houve desobediência. Olhamos para diante, animamos e ajudamos as pessoas a viverem segundo a vontade de Deus.
 
(Se você está pensando: “eles não estão casados segundo a Escritura”. Então, que seja Deus a cuidar e a julgá-los. Mas, que o espírito da nossa congregação seja de graça e não de lei).
 
3.  Enquanto que a graça unifica, a lei separa (Rom. 14).
 A graça tem a ver com reconciliação, cura, ajuda para consertar vidas destruídas e levar à casa de Deus os que dele se separaram.
 
A graça é inclusiva – não obstante as diferenças (Rom. 14).  A lei sempre exclui se você não é exatamente como eu sou e não vê as coisas como eu as vejo. Note Efésios 2.14,15. Cristo desfez as barreiras que nos separavam para que todos fossem uma só família em Cristo; para formar uma nova criatura em Cristo.
 
A graça concentra-se nas necessidades que todos temos: salvação, um só salvador; Cristo, e oferece uma esperança comum: perdão para todos, sem que tenha importância o seu passado. Assim, a graça faz do Cristianismo algo atrativo e acessível a todos.
 
4.  A graça nos afasta do pecado. A lei nos conduz ao pecado (Rom. 7).
 Em Romanos 6-7, Paulo declara que a graça não é uma desculpa para pecar. Pelo contrário, é uma maneira de nos limpar do pecado. A lei, por outro lado,  não nos ajuda a evitar o pecado, mas o identifica e, até mesmo, cria em nós o conhecimento do pecado (Rom. 7.7-11) e a morte espiritual.
 
Pela graça originada no amor e centralizada em Deus e no grande amor de Cristo para conosco, somos fortalecidos e motivados a evitar o pecado. A lei identifica o pecado, mas não nos motiva a evitá-lo. Tudo o que a lei faz é dizer: “Miserável homem que eu sou! Quem me livrará do corpo desta morte?” (Rom. 7.24).
 
É a graça que nos traz paz e gozo interior. A lei deixa-nos a lutar para vencermos o que não podemos vencer sozinhos e deixa-nos com sentimentos de culpa, infelizes e tristes. As congregações que se centralizam na lei e não na graça, serão igrejas sem gozo e nada atrativas.
 
5.  A graça promove a honestidade – A lei parece promover fingimento e desonestidade.
 A graça dá liberdade ao crente para ser honesto consigo mesmo e com os outros. Sou uma pessoa necessitada que luta contra o pecado e fraquezas, mas a graça de Deus me é suficiente.
 
“E ele me disse: A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza. Por isso, de boa vontade antes me gloriarei nas minhas fraquezas, a fim  de que repouse sobre mim o poder de Cristo. Pelo que sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias,  nas necessidades, nas perseguições, nas angústias por amor de Cristo. Porque quando estou fraco, então é que sou forte” (II Cor. 12.9,10).
 
Paulo deixou bem claro em Romanos 7, que ainda lutava contra o pecado e fraquezas (seria bom pensar que, uma vez que a pessoa se torna cristã, as suas lutas contra o pecado e a tentação terminam – isto segundo a interpretação de alguns (Rom. 7.14-23). Mas, duvidamos e certamente esta não é a experiência comum. Felizmente, Paulo não se sentia apanhado pelos seus pecados (v. 24). Ele encontrou liberdade na graça e no perdão de Deus (Cap. 8). Felizmente, tanto para Paulo como para nós, a graça de Deus é suficiente para cobrir qualquer pecado ou luta que tenhamos.
 
Aqueles que se centralizam  na lei, não podem admitir fraquezas ou falhas porque a sua religião depende da sua perfeita obediência à mesma. Mas, ninguém tem sido perfeitamente obediente! Como resultado, são forçados a fingir que não têm nem pecados nem lutas. Ou, então, escondem seus pecados e lutas (sendo que mais tarde ou mais cedo serão encontrados). Tarde ou cedo, tudo virá à superfície e os que fingem e escondem as suas lutas e fraquezas, como hipócritas, elas se revelarão, causando um mal ainda maior no reino de Deus.
 
Esta honestidade permite-nos ser mais humildes. Podemos admitir livremente as nossas batalhas e a necessidade que temos de ser perdoados. As pessoas entendem esta espécie de honestidade e são atraídas tanto a Deus como a outras pessoas que se encontram nesta mesma luta.
 
Há uma enorme diferença entre um ministério da graça e um ministério da lei. Fomos chamados para sermos ministros da graça, não da lei (isto é legalismo).
 
Perguntas para aprofundar-nos no estudo:
 
1.     Porque Cristo escolheu uma pessoa como Saulo de Tarso para ser um seu apóstolo da graça? Por que um homem assim foi utilizado por Deus para iluminar a igreja com a importância suprema da graça?
 
2.     Por que é mais fácil fazer regras gerais para serem cumpridas absolutamente sem qualquer tolerância do que julgar a cada um segundo os seus méritos? Terá Deus autorizado que façamos estas regras gerais?
 
3.     Qual é a ligação entre orgulho e legalismo? Há alguma decepção nesse orgulho? (reprovamos os outros quando nós também temos falhado?).
 
4.     Por que é que, por vezes, nos centramos em obedecer a regras em vez de estabelecer boas amizades e buscar a reconciliação? São as regras (mandamentos) mais importantes do que a aproximação a Deus?
 
5.     Temos algum direito de dizer a Deus como ele deve conceder a sua graça (como fez o dono das terras em Mateus 20)?
 
6.     Como é que uma igreja, com mentalidade legalista, começa a extinguir-se? (Gál. 5.13-15)
 
IV. Formar congregações cheias de graça
 Ministérios e congregações que compreendam e concedam graça livremente, serão congregações capazes de alcançarem o propósito de Deus. Ministérios e congregações que não entendem nem praticam ou concedem graça não serão capazes de alcançarem o propósito de Deus.
 
I Timóteo 1.12-14 – deveria ser um plano para os ministérios e congregações.
•      V. 12 – Deus recebeu Paulo e o achou útil, apesar do seu passado. Deus o viu não como era (pecador), mas sim como poderia ser (em sua potencialidade)).
•      V. 13 – Deus concedeu misericórdia a Paulo, aceitando-o na família de Deus e o pôs ao seu serviço.
•      V. 14 – A graça de Deus abundava, juntamente com a fé e o amor encontrado em Cristo.
 
O que Paulo recebeu de Cristo (acima) é precisamente o que os ministérios e as congregações devem  ser e oferecer.
 
Como se pode colaborar para que haja congregações e pregações como esta; cheios de graça?
 1.     A graça começa por nós e pela liderança na nossa congregação.
A)   Aprender e pregar a vida e os ensinos de Cristo – Não só a doutrina, mas também o        espírito de Cristo. O espírito da vida e dos ensinos de Cristo os encontramos claramente em:
•      Mateus 18.21-35 – A história do servo malvado ( que não perdoava).
•      Mateus 20.1-16 – Os trabalhadores convidados em horas diferentes. Não tinha nada a ver com os méritos de cada um.
•      Lucas 7.35-52 – A mulher pecadora e as dívidas perdoadas.
•      João 8.1-11 – A mulher surpreendida em adultério, não foi condenada.
•      Lucas 15 – A história do filho pródigo.
B)   A leitura de Romanos e Gálatas, todas as semanas, e orações pedindo a ajuda de Deus para  que entendamos a mensagem e o seu objetivo( A graça é muito profunda e contra a nossa natureza humana. Teremos que ler os textos muitas vezes para que a verdade sobre a graça possa chegar aos nossos corações).
 
2.     Uma verdade para ser aplicada: A igreja não é somente para os perfeitos! Lucas 5.31,31 – Criticaram Cristo por incluir e associar-se (aceitar no seu círculo de amizades) aos pecadores; pessoas imperfeitas. Então, Cristo lhes mostra a grande verdade intimamente relacionada com a graça: “Não necessitam de médico os sãos, mas sim os enfermos; eu não vim chamar justos, mas pecadores, ao arrependimento”.
 
O que Cristo quis dizer é obvio no mundo físico, mas difícil de captar no mundo espiritual. Médicos e hospitais não são para os sãos, mas sim para os enfermos. Os hospitais são para pessoas com problemas de saúde, doenças, crises. São para pessoas que, sem aqueles serviços, morreriam! Da mesma maneira, a igreja não é só para os espiritualmente perfeitos, mas sim para os espiritualmente enfermos, com suas crises e doenças. A igreja não é só para os perfeitos, com casamentos perfeitos, mas sim para os doentes, cujo relacionamento pessoal falhou. 

Isto não significa que o pecado seja aceitável! Não, não é! Mas, os que mais necessidade têm da igreja e da graça de Deus são os pecadores. Isto não quer dizer que o divórcio seja aceitável. Não, não é! Deus odeia o divórcio. Mas, os que mais necessitam de Deus e da sua graça em suas vidas, são aqueles que têm fracassado.
 
3.     É necessário desenvolver, em nossas vidas, virtudes como: bondade, paciência, compreensão e misericórdia e incluir tudo isto na pregação.
Recordemos – Deus é contra o pecado, mas a favor do pecador. É importante que fique bem esclarecida esta verdade na pregação e na congregação.
 
A)   Gálatas 6. 1,2 diz: “Irmãos, se um homem chegar a ser surpreendido em algum delito, por vós que sois espirituais restaurai o tal com espírito de mansidão; e olha por ti mesmo, para que também tu não sejas tentado. Levai as cargas uns dos outros, e assim cumprireis a lei de Cristo”
B)   A palavra “restaurar” significa: reparar um osso fraturado, fazendo-o regressar ao seu sítio, ser paciente com o processo e cauteloso com a lesão (não acrescentando mais dor). “olha por ti mesmo”, é para nos lembrar que ninguém  está imune à tentação e livre de pecar. Cuidado, não sejamos arrogantes, crendo que nunca faremos aquilo que outros têm feito.
C)   I Tessalonicenses 2.7 – “antes nos apresentamos brandos entre vós, qual ama que acaricia seus próprios filhos”.
•      Da mesma maneira que não ridicularizamos uma criança quando tropeça e cai, mas a ajudamos a levantar e a curar a sua dor, da mesma forma não devemos ridicularizar um adulto que tropeça e cai no pecado. Antes porém, devemos animá-lo e ajudá-lo a levantar-se e a tentar que caminhe de novo (ainda que sejam 7 vezes 70 o número de quedas).
D)   II Timóteo 2.24,25 – “e ao servo do Senhor não convém contender, mas sim ser brando para com todos, apto para ensinar, paciente; corrigindo com mansidão os que resistem, na esperança de que Deus lhes conceda arrependimento para conhecerem plenamente a verdade”.
•      Por vezes, há necessidade de sermos bem rigorosos e aqueles que causam problemas têm que se entender com a liderança da igreja (I Cor. 4.21). Mas, o espírito de bondade e paciência torna a igreja atrativa e acessível por parte daqueles que querem regressar à casa de Deus. 

4.     Servir as pessoas com atos de bondade; servir sempre!
Não são as boas obras que salvam! Contudo, as boas obras são um procedimento natural numa vida cheia de bondade e da graça de Deus. Não se trata de enfatizar a doutrina correta que atrai as pessoas à igreja, mas sim, atos de amor, de paz, de gozo e o dom da graça de Deus que devem fluir até aos outros.
 
Boas obras, um coração que serve e faz o bem aos outros é uma das maneiras mais capazes de suavizar um coração duro e torná-lo receptivo ao ensino da Escritura.
 
Recordemos que Saulo, o legalista, literalmente separou e perseguiu pessoas com uma dose pesada de medo, ameaças e intimidações. Paulo, o apóstolo da graça, levou a verdade do evangelho atraindo pessoas ao Salvador.
 
Pecadores, ou seja, prostitutas, cobradores de impostos, adúlteros, etc., todos foram atraídos a Cristo. Eles, literalmente, fugiam a ele e não de ele. A razão é obvia: eles não recebiam de Cristo reprovação a respeito das suas faltas, nem tão pouco qualquer gesto de afastamento. Nele encontraram aceitação, amor e estímulo para continuar adiante com ele, deixando o pecado para trás!
 
A igreja atual não deveria fazer o mesmo? Não deveríamos aprender como atrair os pecadores em vez de os afastarmos? Por que é que os marginais se aproximavam de Cristo quando ele passava, e, agora, não se sentem bem-vindos entre os seus atuais seguidores? Será que, hoje, a graça de Deus está ausente das igrejas? Uma das melhores “boas obras”  que um cristão pode fazer é amar os pecadores de tal maneira que eles se sintam seguros e na certeza de que há um lugar para eles na família de Deus.

Aprendamos a aceitar e a conceder livremente a graça de Deus. Que nunca haja falta da graça na igreja, este mesmo corpo que deve proclamar e demonstrar “o evangelho da graça de Deus” a um mundo destruído e afastado de Deus.
 
Perguntas para aprofundar-nos no estudo:
 
1.     Com que nos importamos mais: com aquilo que alguns irmãos pensam de nós ou com o que Deus pensa? Fazemos só o que os irmãos aprovam ou ajudamos as pessoas marginalizadas e necessitadas?
 
2.     Como pode a igreja ser mais semelhante aos “Alcoólicos Anônimos”? Deve a igreja ser mais como um exército que pune (reprova) os seus soldados feridos em batalha? (Isto parece um absurdo, mas quando fechamos as portas às pessoas que falharam ou que estão lutando contra o pecado, não estaremos a permitir que morram espiritualmente?
 
3.     Quais são as trágicas consequências dos líderes que fingem ser espiritualmente perfeitos?
 
4.     Qual a parte da gratidão na mudança de um espírito legalista para um espírito da graça?
 
5.     Hoje, a igreja é o verdadeiro “Israel de Deus”. O que significa a palavra “Israel” e como é que o seu significado se aplica a este estudo? (Recordemos que o caráter de Jacó era bastante imperfeito. Durante quase toda a sua vida, ele lutou  e falhou no propósito de conservar os princípios de Deus. Mas, mesmo assim, Deus colaborou com ele e o ajudou. Jacó passou toda a sua vida lutando com Deus, mas pela sua divina graça, Jacó venceu!
 
6.     Se a salvação vem como resultado da graça (um presente de Deus), então,  por que são necessárias as boas obras? Por que são as boas obras indispensáveis para a salvação, segundo Mateus 25.31-46? (A melhor maneira de ensinar a graça, não será viver pela graça?)
 
 
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