Como pregar a respeito do sofrimento


Os Salmos obscuros

Lições dos salmos obscuros

Nota do autor: Incluí esta parte dos Salmos (obscuros) em forma de anexo para que preguem ou estudem-os na escola dominical ou em grupos pequenos. Estes são os Salmos que nunca utilizamos nas orações por serem distintos dos outros, que infundem fé e esperança.

I.    Que quer dizer Salmos “obscuros ou escuros”?

1.    Os salmos que com freqüência evitamos ler, porque os sentimentos do salmista parecem estar contra os fundamentos da fé.
a.    O livro El mensaje de los Salmos: Un comentario Teológico, de Walter Brueggemann, chama a esses salmos de Salmos de desorientação.
b.    Brueggemann coloca os seguintes Salmos na categoria de desorientação: 13, 32, 35, 49, 50, 51, 73, 74, 79, 81, 86, 88, 90, 109, 130, 137, 143.

2.    Estes Salmos, com freqüência, combinam sentimentos de tristeza e pesar, com dúvidas a respeito da atenção de Deus para com o fiel.
a.    O Salmo 35 contém muitas imprecações e até pede aos anjos de Deus que persigam quem traiu a confiança do salmista.
b.    O Salmo 109 talvez tenha a expressão mais cruel de ódio pessoal e sede de vingança nos Salmos, algo que discutiremos mais adiante.
c.    O Salmo 137 é o mais famoso por seu final, ao desejar a morte às criancinhas da Babilônia.
d.    O Salmo 79 expressa a indignação pelo prazer maligno daqueles que destruíram Jerusalém e o Templo, e implora a Deus que faça o seguinte:

“12 Retribui sete vezes mais aos nossos vizinhos as afrontas com que te insultaram, Senhor!”

e.    O Salmo 74 é parecido com o 79 que clama por vingança contra os que profanaram o Templo. Depois de listar as ofensas, o salmista virtualmente acusa a Deus por não ter feito nada para detê-los.
“10 Até quando o adversário irá zombar, ó Deus? Será que o inimigo blasfemará o teu nome para sempre? 11 Por que reténs a tua mão, a tua mão direita? Não fiques de braços cruzados! Destrói-os!”
f.    O Salmo 88 (discutido em seguida) é de um pesar pessoal inconsolável, enquanto Deus parece estar alheio:
“13 Mas eu, SENHOR, a ti clamo por socorro; já de manhã a minha oração chega à tua presença. 14 Por que, SENHOR, me rejeitas e escondes de mim o teu rosto?”
g.    O Salmo 142 e outros parecem barganhar com Deus à maneira de Jacó:
“7 Liberta-me da prisão, e renderei graças ao teu nome. Então os justos se reunirão à minha volta por causa da tua bondade para comigo.”.
II.    Por que devemos incluir estes Salmos na pregação e adoração?
1.    Aparentemente Israel estava pronta para usar esses Salmos. Se os ignoramos, estaremos perdendo caminhos de fé comprovados.
2.    Esses Salmos expressam as épocas “obscuras” da fé.
a.    Épocas nas quais a fé parece não satisfazer e parece chegar ao fim.
b.    Uma fé real, que não é estática, mas crescente, com freqüência se move na obscuridade antes de mover-se na grande luz.
c.    Brueggermann analiza a todos os Salmos usando três conceitos e dois movimentos chaves que se repetem na vida de fé.
d.    Os três conceitos:
i.    Orientação – a fé alegre e confiante em Deus é vista como a fé que controla o mundo
ii.    Desorientação – acabada a alegria, o mundo parece estar descontrolado e Deus parece estar distante e desinteressado.
iii.    Nova orientação - a fé é surpreendida por uma reorganização alegre da experiência de reconhecer que Deus está no controle; ou a fé se faz frutífera novamente, mas de outra maneira, baseada em uma nova bênção de Deus.
e.    Os dois movimentos:
i.    Da orientação à desorientação – a confiança em Deus é severamente diminuída por sofrimentos terríveis ou pela solidão espiritual.
ii.    Da desorientação à nova orientação – aqui, o sofrimento dá lugar à graça inesperada, que restaura a confiança e leva a fé a um nível mais profundo e mais elevado que antes da desorientação.

3.    Os Salmos “obscuros” servem como um antídoto contra a religião triunfalista, na qual a fé é equivalente a um sem número de vitórias seguidas.
4.    Os Salmos “obscuros” servem como antídoto contra a ilusão moderna de controle através da confiança demasiada na ciência, na política, etc.
5.    Os Salmos obscuros envenenam o relativismo.
a.    O relativismo é como uma flor de plástico. Seu discurso de alienação e seu modelo de desesperança só podem sobreviver quando a alienação e o desespero se mantêm abstratos.
b.    Os Salmos obscuros apresentam um mundo de tragédias reais. O relativismo não tem nada a oferecer neste mundo e desaparece em silêncio.

III.    O Salmo 14 – Um canto à necessidade de uma vida com Deus
a.    Este Salmo é ligeiramente obscuro
b.    Trata-se de uma expressão e queixa comum: Deus permite que as pessoas o ignorem e continuem em sua arrogância.
c.    Muitos sermões foram baseados na sua primeira linha.
1.    Diz o tolo em seu coração: “Deus não existe”.
2.    Foi essa linha que Anselmo usou em seu argumento ontológico.
d.    Mas agora todo o Salmo nos fala, uma vez que estamos vivendo em uma cultura pós-cristã.
“3 Todos se desviaram, igualmente se corromperam; não há ninguém que faça o bem, não há nem um sequer.”
1.    Quase todos nós sentimos a frustração que esse Salmo quer transmitir.
2.    “Se estamos bem, por que Deus nos adverte?”
“7 Ah, se de Sião viesse a salvação para Israel!”
e.    Este Salmo dá a oportunidade de meditar nas frustrações pela maldade que explora o inocente.
f.    “4 Será que nenhum dos malfeitores aprende? Eles devoram o meu povo como quem come pão, e não clamam pelo SENHOR!”
g.    Também proclama que Deus é infalivelmente fiel ao justo e afligido, e este será justificado.
“5 Olhem! Estão tomados de pavor! Pois Deus está presente no meio dos justos. 6 Vocês, malfeitores, frustram os planos dos pobres,  mas o refúgio deles é o SENHOR.”.
IV.    Salmo 109 – Um canto ao ódio
a.    Este Salmo é inflexível em seu afã de castigar o perverso. Usa palavras fortes para chamar a atenção de Deus, para que este derrame todo tipo de sofrimento sobre aqueles que traíram e acusaram falsamente o salmista e, sobretudo, líder.
b.    As maldições (v.6 a 9) aparentam vir dos acusadores do salmista.
1.    A mudança de plural para singular sugere isso.
2.    Isso explicaria a origem das maldições deste salmo.
3.    Isso também pode tirar este Salmo da categoria dos obscuros.
c.    Mas, o verso 20 parece sustentar uma idéia mais comum de que as palavras das maldições sejam realmente do próprio salmista.
d.    O salmista não compreende que se pode “odiar o pecado e amar o pecador”. Ele é muito franco em dizer do seu ódio pelo pecado e pede a Deus que os castigue.
“28 Eles podem amaldiçoar, tu, porém, me abençoas. Quando atacarem, serão humilhados, mas o teu servo se alegrará. 29 Sejam os meus acusadores vestidos de desonra; que a vergonha os cubra como um manto.”
e.    O autor destila seu ódio desejando ao pecador todo tipo de calamidades.
“16 Pois ele jamais pensou em praticar um ato de bondade, mas perseguiu até a morte o pobre, o necessitado e o de coração partido. 17 Ele gostava de amaldiçoar: venha sobre ele a maldição! Não tinha prazer em abençoar: afaste-se dele a bênção!”
f.    O ódio é tão profundo que aparece em sonhos de vingança, onde o sofrimento é imaginado detalhadamente.
“11 Que um credor se aposse de todos os seus bens, e estranhos saqueiem o fruto do seu trabalho. 12 Que ninguém o trate com bondade nem tenha misericórdia dos seus filhos órfãos. 13 Sejam exterminados os seus descentes e desapareçam os seus nomes na geração seguinte.”.
g.    Este salmo nos traz repúdio, por um bom motivo. Parece contrastar com os princípios cristãos sobre o ódio e a ira.
“Mas eu lhes digo que qualquer que se irar contra seu irmão estará sujeito a julgamento. Também qualquer que disse a seu irmão: ‘Raca’, será levado ao tribunal. E qualquer que disser: ‘Louco!’, corre o risco de ir para o fogo do inferno.” (Mateus 5: 22)
“Mas eu lhes digo: Amem os seus inimigos e orem por aqueles que os perseguem...” (Mateus 5:44)
“Abençoem aqueles que os perseguem; abençoem, e não os amaldiçoem.” (Romanos 12:14)
“...pois a ira do homem não produz a justiça de Deus.” (Tg.1:20)
h.    Mas ignorar o Salmo 109 não resolverá problema nenhum
1.    Esse é somente o exemplo extremo de um sentimento que ocorre muitas vezes nos Salmos.
2.    A amargura pessoal com freqüência é mencionada.
i.    Talvez os Salmos nos ensinem que devemos partilhar com Deus todas as nossas emoções.
1.    Mesmo os sentimentos não aceitáveis, que estão em nossos corações, podem ser incluídos nas orações.
2.    Ao incluir ressentimentos e desejos do castigo de Deus nas orações, pelo menos colocamos a ira sob a vontade e o controle de Deus.
1.    Assim teremos menos propensão à vingança
2.    E maior estímulo ao pensar nos abusos contra Deus
j.    Nosso mecanismo natural é suprimir esses sentimentos
1.    O sentimento tal é inaceitável, portanto não se deve sentir.
2.    Isso faz com que se esconda grande parte dos sentimentos de si mesmo e, sobretudo, de Deus.
k.    Esse Salmo pode ser um salva-vidas às vítimas que sofreram demasiado abuso tanto que seu mecanismo para a supressão dos sentimentos inaceitáveis já não funciona.
1.    O Salmo nos permite sentir o que de fato sentimos.
2.    Os piores momentos podem ser amenizados, quando expressados a Deus, usando esse Salmo ou outros como base.

V.    O Salmo 88 – Um canto do centro do pesar
a.    Este Salmo não apenas expressa as tristezas do momento como também estados permanentes de aflição.
b.    O salmista vê toda sua vida afligida por Deus.
“15 Desde moço tenho sofrido e ando perto da morte; os teus terrores levaram-me ao desespero.”
“17 Cercam-me o dia todo como uma inundação; envolvem-me por completo.”
c.    O que ocasiona a expressão do pesar é a aproximação da morte, possivelmente uma morte prematura.
“3 Tenho sofrido tanto que a minha vida está à beira da sepultura!”.
d.    A primeira parte (v. 3 a 8) é uma intenção de expressar os sentimentos de uma pessoa às portas da morte.
1.    O Salmo é difícil de ser lido neste contexto.
2.    O terror humano é normal à aproximação da morte, aparentemente inevitável.
“4 Sou contado entre os que descem à cova; sou como um homem que já não tem forças.”
“7b ...com todas as tuas ondas me afligiste.”
“8b ...Estou como um preso que não pode fugir...”
3.    Essa aproximação inevitável da morte se repete nas queixas finais.
4.    Em seguida, o salmista sofre a separação de seus entes queridos.
“8a Afastaste de mim os meus melhores amigos e me tornaste repugnante para eles...”
1.    Isso se repete no versículo 18.
2.    Talvez esta seja a separação emocional que é a inclinação natural quando alguém está perto da morte.
5.    Tamanha dor é sentida porque parece ser Deus que sujeita o salmista a isso. Os versículos 6 a 9 e 14 a 18 repetem que Deus é o responsável.
e.    Outra parte importante (Vs. 10 a 12) é sua imaginação tétrica de como será a morte. O enfoque é como se ele estivesse totalmente separado da comunhão com Deus.
1.    Uma série de perguntas retóricas que deduzem que a resposta é negativa:
“10 Acaso mostras as tuas maravilhas aos mortos? Acaso os mortos se levantam e te louvam? 11 Será que o teu amor é anunciado no túmulo, e a tua fidelidade, no Abismo da Morte? 12 Acaso são conhecidas as tuas maravilhas na região das trevas, e os teus feitos de justiça ,na terra do esquecimento?
2.    Diferente dos Salmos de lamento, esse Salmo não tem final feliz.
1.    Segundo o comentarista, uma das últimas palavras do Salmo é “trevas”.
2.    O salmista termina da mesma maneira que começa.
f.    Os que já estiveram no leito de morte com alguém, reconhecerão muitas das emoções deste Salmo.
1.    Ansiedade nervosa
2.    Desamparo
3.    Solidão
4.    Pavor
g.    Ensinar este Salmo para a congregação pode proporcionar uma preparação para a experiência da morte, e também pode ajudar ao moribundo e aos que dele cuidam.
h.    Quanto ao crescimento espiritual, este Salmo provê uma maneira poderosa ao ilustrar como Deus preparou a mente de Israel para a idéia do além.
1.    Este Salmo clama pelo mais além e se sente desamparado sem ele.
2.    Mal consegue afirmar que Deus é fiel apesar das aparências – desconhece a fé de Paulo quanto à eternidade.
i.    Finalmente, este Salmo é rígido sobre a nossa posição em Deus.
1.    No final, não importa o que haja no meio, estamos na mão de Deus.
2.    Quando nos abençoam, é Deus quem o faz.
3.    Quando sofremos, é Deus que permite o sofrimento.
4.    Já que isto vai contra a piedade de alguns membros, como é difícil para nós mostrarmos o quanto dependemos de Deus.
1.    A tendência natural é viver como se Deus não fosse mais do que um visitante em nossa vida.
2.    Isso não significa que seremos menos tentados – se culpamos a Deus por nosso sofrimento.
3.    Por outro lado, se me chateio com Deus, pelo menos estou com Deus.
4.    Pode ser que, enquanto vivemos neste mundo cruel, a única maneira de nossas almas não desenvolvidas não se chatearem com Deus, é viver sem ele. Chateados com Deus, mas sempre com ele.

VI.    O Salmo 73 – Um canto à justiça oculta de Deus.
a.    Este Salmo é uma descrição da frustração profunda de viver em um mundo onde Deus não castiga instantaneamente ao ímpio.
b.    O Salmo tem afirmações com as quais todos se identificam, mesmo que haja sentimentos que aprendemos a suprimir.
“3 Pois tive inveja dos arrogantes quando vi a prosperidade desses ímpios. 4 Eles não passam por sofrimento e têm o corpo saudável e forte.”
“8 Eles zombam e falam com más intenções; em sua arrogância ameaçam com opressão.”
“12 Assim são os ímpios; sempre despreocupados, aumentam suas riquezas.”
“13 Certamente foi-me inútil manter puro o coração e lavar as mãos na inocência.”
c.    A estrutura do Salmo é algo simples
1.    O salmista admite que tão tentador era invejar o ímpio (Vs. 2 e 3) e repete essa tentação do versículo 13 ao 15, cercando sua descrição de êxito do ímpio nos versículos  4 a 12.
2.    Ele descreve a vida fácil e o êxito do ímpio com tantos detalhes que serve para provocar o mesmo sentimento de inveja em todos nós.
3.    A mudança dramática ocurre nos Vs. 16 e 17.
“16 Quando tentei entender tudo isso, achei muito difícil para mim...”
“17 ...até que entrei no santuário de Deus, e então compreendi o destino dos ímpios.”
   1. Esse é o caminho da dúvida até a fé mais profunda. Ao estar separado da fé pela frustração de felicidade do ímpio. O salmista entra no santuário e tem uma ampliação repentina de sua visão que inclui o castigo do impío, e mais importante ainda, as bênçãos dos que têm a Deus.
4.    A maioria dos que têm fé ativa já passou por momentos como os descritos nos Vs. 16 e 17.
1.    Uma época de confusão e preocupação acerca de alguma incongruência na fé.
2.    Seguido de um reconhecimento repentino da solução do problema por um novo discernimento.
5.    O salmista descreve a destruição repentina e inevitável do ímpio (Vs. 18 1 20).
1.    As imagens do verso estão prontas.
2.    No meio de um sonho, sou totalmente levado por ele, e parece real, mas ao despertar concluo que nada dele é real, e não me importa absolutamente nada.
3.    Portanto, a felicidade do ímpio é uma ilusão, apesar de ser muito tentadora, mas irreal.
6.    Vs. 21 a 22 expressam o arrependimento por haver duvidado de Deus.
7.    Vs. 23 ao 28 conclui o Salmo com expressões de felicidade e bem estar por termos a Deus.
1.    Enfoque nos Vs. 25b e 26.
“25b ...E na terra, nada mais desejo além de estar junto a ti.”
“26 O meu corpo e o meu coração poderão fraquejar, mas Deus é a força do meu coração e a minha herança para sempre.”
2.    Isto aclara que o sofrimento do v. 14 não vai embora. Acontece simplesmente que é melhor ter a Deus com os sofrimentos que ter consolo e vida fácil, mas sem Deus.

d.    Este Salmo pressupõe Deuteronômio 32:35
“A mim pertence a vingança e a retribuição. No devido tempo os pés deles escorregarão; o dia da sua desgraça está chegando e o seu próprio destino se apressa sobre eles.”
i.    Há comparações óbvias nos versos 2, 18 e 19.
ii.    Mais a frente, o objetivo do Salmo é aprender a confiar nessa promessa, mesmo quando tudo aparenta o contrário.
iii.    Este Salmo nos ajudará a confiar na teología de Deuteronômio 32:35, repetida em Romanos 12:19, que a vingança pertence a Deus.
1.    Deus castigará o ímpio.
2.    Posso levar meu ressentimento até Deus e confiar nele para um castigo perfeito contra a maldade cometida para comigo.
3.    Isso tira a vingança das minhas mãos.
VII.    Advertências finais a respeito dos Salmos obscuros.
a.    Esses Salmos não podem ser usados sem critério. 

1.Qualquer escritor teatral sabe que a maneira mais rápida de aparentar profundidade é apelar para o trágico.
Seria fácil usar os Salmos para impressionar a congregação com nossa seriedade.
2. Esses Salmos tratam das lutas reais a respeito da fé. Esta é sua valía e também seu perigo.
Se levantamos os problemas que esses Salmos levantam, devemos dar a congregação os instrumentos necessários para que sejam bem estudados e refletidos.
 

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