Liderança compartilhada

 
A liderança na Igreja de Cristo
Apresentado por Lou Seckler


Introdução

Desde o início da minha vida cristã tenho participado em estudos sobre liderança na igreja. Nos últimos anos eu mesmo tenho apresentado alguns estudos sobre esse tema. Contudo, os que frequentam estes estudos aprendem que a igreja de Cristo é para ser dirigida por um grupo ou pluralidade de presbíteros ou pastores, assistidos por diáconos.

Entre entender e aplicar o que entendem há uma grande diferença. A maioria dos que participam dos estudos de liderança nunca se motivam em preparar, eleger ou reconhecer oficialmente líderes na igreja. Não compartilham a liderança. Não dividem as responsabilidades.

Não é que os ensinos nas igrejas sejam incompatíveis com o que a Bíblia diz. Recordo-me ter ouvido varias vezes que “sempre que aparece na Palavra de Deus a palavra “pastores” como “bispos” ou “presbíteros”, estão sempre no plural. Por isso inferimos que a igreja que tem só um líder não está organizada conforme o padrão bíblico”.

É de lamentar que nós, na igreja de Cristo, sejamos tão culpados como qualquer outro grupo religioso que condenamos. Um 99% das igrejas de Cristo na América Latina são dirigidas e pastoreadas por uma só pessoa. A desculpa que dão é que na congregação não há homens preparados com quem compartilhar a liderança.

Por mais pequenas que sejam, as igrejas dos EUA, tem seus presbíteros. São raras as exceções. Os que ocupam esse cargo não são homens perfeitos nem são gigantes espirituais. Apesar dos seus defeitos, servem a Deus o melhor que podem para benção de todos e para que se cumpram os princípios bíblicos de I Timoteo 3 e Tito 1, que nós os latinos não respeitamos.

Sinceramente, não sei o que mais é preciso ensinar nas igrejas e seminários para que dividam suas responsabilidades, para tenham presbíteros. Há homens na igreja que com  um pouco de paciência e ensino bem poderiam ser líderes.

Talvez a razão que não há homens preparados não seja mais do que uma forma de descuidar um texto bíblico. Ou talvez seja desculpa para que o pregador não perca sua posição de dirigente totalitário. A razão agora é de menos. Que abramos os olhos!

Este estudo, ainda que não seja exaustivo, ajuda os cristãos a verem que na igreja de Cristo para ser um presbítero não é necessário ser neurocirurgião ou cientista de naves espaciais. Cristão maturos, de conduta exemplar, com conhecimento bíblico moderado e com vontade de trabalhar, poderão (e deverão) ser reconhecidos como líderes oficiais da igreja. Que sejamos mais fieis a I Timoteo 3 e Tito 1!


Lou Seckler                            lseckler@uccabilene.org  



LIÇÃO 1 – Jesus Cristo como líder



1)    Jesus Cristo proclamou o seu reino (Mar. 1.14-15), e os que ouviram a sua chamada formaram uma comunidade que adotou um padrão de vida diferente ao daquele tempo.
a)    Os discípulos de Cristo eram diferentes dos outros grupos (Mat. 12.2; Mar. 2.23).
i)    Os fariseus entenderam que os discípulos de Cristo não seguiam o hábito de jejuar (Mar. 2.18).

b)    No sermão do monte, Cristo descreveu a conduta moral que distinguia os seus discípulos dos demais religiosos (Mat. 5-7).
i)    Cristo esperava que os seus discípulos formassem uma comunidade cultural que fosse diferente da cultura actual.

2)    Os que seguiram a Cristo, deixando suas respectivas famílias, formaram uma nova família.
a)    Quando Cristo chamou os seus discípulos (Mar. 1.16-20), alguns deixaram seus pais no barco para seguir o Mestre.
i)    Diz Jesus Cristo em Mar. 10.29,30: “Em verdade vos digo que ninguém há, que tenha deixado casa, ou irmãos, ou irmãs, ou mãe, ou pai, ou filhos, ou campos, por amor de mim e do evangelho, que não receba cem vezes tanto, já neste tempo, em casas, e irmãos, e irmãs, e mães, e filhos, e campos, com perseguições; e no mundo vindouro a vida eterna”.

3)    Aqueles que deixaram os seus parentes encontraram em Cristo uma nova família: “Quem é minha mãe e meus irmãos?... Pois aquele que fizer a vontade de Deus, esse é meu irmão, irmã e mãe” (Mar. 3.33,35).
a)    Diferente das famílias de sangue, essa família se compunha de pessoas que não tinham nada em comum, exceto Cristo.
i)    Imaginemos Simão, o Zelote (um revolucionário contra Roma) na mesma mesa com Mateus, um cobrador de impostos, que trabalhava para o governo romano.
b)    Esta nova família reunia-se nos lares, e desfrutava da comida e do convívio.

4)    Aquela comunidade deveria praticar uma forma de liderança diferente.

5)    Cristo condenou aqueles que tinham sede de poder, dizendo: “Todas as suas obras      
eles fazem a fim de serem vistos pelos homens; pois alargam os seus filactérios, aumentam as franjas dos seus mantos; gostam do primeiro lugar nos banquetes, das primeiras cadeiras nas sinagogas, das saudações nas praças, e de serem chamados pelos homens: Rabi. Vós, porém, não queirais ser chamados Rabi; porque um só é o vosso Mestre, e todos vós sois irmãos. E a ninguém sobre a terra chameis vosso pai; porque um só é o vosso Pai, aquele que está nos céus” (Mat. 23.5-9)
a)    Logo, Jesus Cristo acrescenta: “Mas o maior dentre vós há de ser vosso servo. Qualquer, pois, que a si mesmo se exaltar, será humilhado; e qualquer que a si mesmo se humilhar será exaltado” (Mat. 23.11,12).
b)    Quando os discípulos procuravam posições de poder, Cristo comparava os seus às demais comunidades: “E ouvindo isso os dez, indignaram-se contra os dois irmãos. Jesus, pois, chamou-os para junto de si e lhes disse: Sabeis que os governadores dos gentios os dominam, e os seus grandes exercem autoridade sobre eles. Não será assim entre vós; antes, qualquer que entre vós quiser ser o primeiro, será vosso servo; assim como o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir, e para dar a sua vida em resgate de muitos” (Mat. 20.24-28).

6)    A característica que definia a liderança na comunidade de Cristo era o serviço (diakonia).
a)    “A Igreja”, um livro de Hans Kung (pág. 390) declara: “Diakonia” significa a actividade que cada grego reconhecia de imediato como uma baixeza: servir mesas, servir alimentos e bebidas. A distinção entre amo e servo era mais visível na mesa que em qualquer outro lugar, onde amos nobres se reclinavam à mesa com suas túnicas largas, enquanto os seus servos, com roupas cingidas, os serviam… A diakonia nunca perdia o seu sentido de inferioridade”.
i)    Diakonia ocorre em contextos de preparação de alimentos e cuidado das necessidades pessoais dos amos (Luc. 10.40; Act. 6.1; Mar. 1.31). A conotação mais ampla é a de cuidar das necessidades físicas dos demais (Luc. 8.3; Mar. 15.41). A ideia fundamental é esta: Viver para servir os outros.
b)    Jesus Cristo relaciona a liderança entre os discípulos com a sua liderança.
i)    Em Mar. 9.33-35 diz assim: “Chegaram a Cafarnaum. E estando ele em casa, perguntou-lhes: Que estáveis discutindo pelo caminho? Mas eles se calaram, porque pelo caminho haviam discutido entre si qual deles era o maior. E ele, sentando-se, chamou os doze e lhes disse: Se alguém quiser ser o primeiro, será o derradeiro de todos e o servo de todos”
ii)    (Luc. 22.25-27): “Ao que Jesus lhes disse: Os reis dos gentios dominam sobre eles, e os que sobre eles exercem autoridade são chamados benfeitores. Mas vós não sereis assim; antes o maior entre vós seja como o mais novo; e quem governa como quem serve. Pois qual é maior, quem está á mesa, ou quem serve? Porventura não é quem está à mesa? Eu, porém, estou entre vós como quem serve”.
c)    “Jesus e comunidade”, um livro de Gerhard Lohfink (pág. 49): “As passagens mencionadas acima indicam que Cristo queria que os seus discípulos fossem contra a cultura sobre a autoridade. Estas passagens apontam precisamente para o que hoje chamamos “estruturas de domínio”. Tais estruturas estão sempre presentes nas sociedades mundiais. Contudo, na comunidade dos discípulos de Cristo, não são permitidas relações de domínio”.
7)    Toda a história de Cristo descreve a natureza da sua liderança: a autoridade de Cristo estava baseada na sua decisão de tomar o nosso lugar na cruz.
8)    A questão básica que a igreja enfrenta é esta: Temos sido fiéis aos ensinos de Cristo sobre a liderança?
Conclusão: A igreja não pode viver com uma forma de liderança secular.






LIÇÃO 2 – Liderança bíblica ou secular?



1)    As nossas igrejas lutam para determinar a melhor forma de liderança e a melhor maneira de tomar decisões. Enfrentamos essas perguntas com experiências e opiniões diferentes. Ao mesmo tempo, reconhecemos que as igrejas, igual que as comunidades, tomam decisões e determinam o rumo do seu futuro. Deve haver uma forma reconhecida e legitima para liderar a congregação.
2)    Vimos em lições anteriores que Cristo confrontou os seus discípulos por causa da sua mentalidade secular sobre autoridade e liderança baseada no serviço.
a)    A própria autoridade de Cristo se baseava em seu serviço.
i)    Ele ensinou os seus discípulos a não buscar poder, mas a segui-lo no caminho do serviço.
3)    Seguir padrões seculares de liderança era para os primitivos cristãos uma tentação constante, segundo lemos em I e II aos Coríntios.
a)    Os coríntios praticavam política partidária quanto aos seus líderes (I Co. 1.10-13).
i)    Ao dizerem “Sou de Pedro”, “Sou de Apolo” e “Sou de Paulo”, os coríntios estavam introduzindo os seus valores seculares e políticos na igreja.
ii)    Segundo I Coríntios, muitos membros julgavam os seus líderes pelas suas capacidades de oradores e visão mundial (I Co. 1.17; 2.3).
iii)    A segunda carta de Paulo aos coríntios é uma defesa da sua liderança e uma resposta às críticas. Com base na defesa de Paulo, podemos ver as acusações que lhe eram feitas por suas debilidades.
(a)    Era débil.
(b)    Prometia visitá-los, mas logo mudava de planos.
(c)    Dizia que “sim” e que “não” ao mesmo tempo (II Co. 1.17)
(d)    Era humilde em pessoa, mas ousado à distância (II Co. 10.1)
(e)    Criticavam a sua saúde, dizendo: “Porque eles dizem: As cartas dele são graves e fortes, mas a sua presença corporal é fraca, e a sua palavra desprezível” (II Co. 10.10).
(f)    Os seus inimigos lhes comparavam a outros líderes, aparentemente usando medidas seculares (II Co. 10.12).
(g)    Criticavam Paulo por não aceitar ajuda financeira (II Co. 11.7-11).
(h)    Diziam que Paulo era um orador medíocre (II Co. 11.6).

b)    Os coríntios procuravam líderes conforme a sua expectativa quanto à liderança. Queriam alguém com boa aparência, atlético e que fosse orador eloquente.

4)    O desafio de Paulo nas cartas aos coríntios incide na defesa do seu ministério e oferece informação sobre uma liderança diferente da cultura daquela época.
a)    Em I Coríntios, Paulo reage ao conhecimento secular de liderança descrevendo a sua própria obra apostólica: “Porque tenho para mim, que Deus a nós, apóstolos, nos pôs por últimos, como condenados á morte; pois somos feitos espectáculo ao mundo, tanto a anjos como a homens” (I Co. 4.9-13).
b)    “Pois, sendo livre de todos, fiz-me escravo de todos para ganhar o maior número possível” (I Co. 9.19)
c)    Ao contrário do conhecimento secular de liderança, Paulo abdicava dos seus direitos, fazendo-se escravo dos outros e compartilhando o sofrimento de Cristo. A sua liderança é definida pela cruz de Cristo.

5)    O tema da II Coríntios é liderança cristã, visto que Paulo é forçado a demonstrar que é líder, àqueles que tinham a ideia secular sobre liderança.
a)    A relação entre ministro e ministério, ou servo e serviço aparecem mais vezes em II Coríntios do que em todas as outras cartas de Paulo (II Co. 3.3,7,9; 4.1; 5.18; 6.3; 8.4; 9.1,2; 8.19; 11.8,23).
b)    Atenção ao ministério conforme o via Paulo:

“Temos, porém, este tesouro em Vasos De barro, para que a excelência do poder seja de Deus, e não da nossa parte. Em tudo somos atribulados, mas não angustiados; perplexos, mas não desesperados; perseguidos, mas não desamparados; abatidos, mas não destruídos; trazendo sempre no corpo o morrer de Jesus, para que também a vida de Jesus se manifeste em nossos corpos; pois nós, que vivemos, estamos sempre entregues à morte por amor de Jesus, para que também a vida de Jesus se manifeste em nossa carne mortal” (II Co. 4.7-11).

“… antes em tudo recomendando-nos como ministros de Deus; em muita perseverança, em aflições, em necessidade, em angústias, em açoites, em prisões, em tumultos, em trabalhos, em vigílias, em jejuns, na pureza. Na ciência, na longanimidade, na bondade, no Espírito santo, no amor não fingido, na palavra da verdade, no poder de Deus…” (II Co. 6.4-7ª).

“São ministros de Cristo? Falo como fora de mim, eu ainda mais; em trabalhos muito mais; em prisões muito mais; em açoites sem medida; em perigo de morte muitas vezes; dos judeus cinco vezes recebi quarenta açoites menos um. Três vezes fui açoitado com varas, uma vez fui apedrejado, três vezes sofri naufrágio, uma noite e um dia passei no abismo… Além dessas coisas exteriores, há o que diariamente pesa sobre mim, o cuidado de todas as igrejas” (II Co. 11.23-25, 28).

6)    Paulo mostrou claramente em Filipenses a natureza da liderança cristã. Duas mulheres não se comunicavam (4.2). Então, ele escreveu que deveriam ser ensinadas a viverem de acordo com o que era definido pela cruz de Cristo. A liderança de Paulo e a sua autoridade não se podiam separar da sua paixão pelo serviço e sacrifício pelos outros.
a)    Filipenses 2.6.11 conta a história de Cristo, o qual se despojou a si mesmo e tomou a forma de servo. A autoridade de Cristo veio só depois do seu sofrimento e humilhação. Em todo o seu ministério, Cristo demonstrou o seu padrão de liderança.
b)    Outros líderes cristãos também seguiram o exemplo de Cristo. Disse Paulo a Timóteo: “Pois todos buscam o que é seu, e não o que é de Cristo Jesus. Mas sabeis que provas deu ele de si; que, como filho ao pai, serviu comigo a favor do evangelho” (Fil. 2.21-22).
i)    Epafrodito. ”… porque pela obra de Cristo chegou até às portas da morte, arriscando a sua vida para suprir-me o que faltava do vosso serviço” (Fil. 2.30).
ii)    Paulo era um líder cristão que seguia o exemplo de Cristo, contando todos os seus lucros como perdas para ganhar a Cristo (Fil. 3.2-11).
iii)    O conflito entre Evódia e Síntique (Fil. 4.2), somente seria resolvido se a igreja começasse a viver segundo o exemplo de Cristo.

7)    Em todas as gerações, a igreja experimenta a mesma tentação dos primeiros cristãos, ou seja: definir a liderança segundo os exemplos seculares. O nosso desafio é reconhecer que os líderes cristãos seguem o exemplo de um (Cristo) que se sacrificou por todos.



LIÇÃO 3 – Líderes como pastores
Actos 20.17-35



1)    Vimos que a liderança surge nas igrejas onde cada membro tem a responsabilidade de edificar o corpo de Cristo.
a)    Nas primeiras igrejas a função precedia o título. Por exemplo, eram reconhecidos os líderes que já estavam envolvidos em ministérios.
b)    Paulo não procurava nenhuma posição na igreja que fosse superior aos outros cristãos, mas sim o dom de liderança e outros dons (I Co. 12.28).

2)    No seu discurso aos anciãos de Éfeso, Paulo descreve aspectos significativos da ancianidade, que são evidentes na terminologia de liderança, de pastores e de bispos (supervisores).

3)    Visto Paulo não poder estar presente em Éfeso na sua última viagem, mandou chamar os anciãos para que fossem a Mileto (Act. 20.17).
a)    O vocábulo em grego equivalente a ancião (presbuteros) simplesmente significa “mais velho” (segundo Luc. 15.25: (filho mais velho).
i)    A liderança composta de homens mais velhos era comum no mundo antigo, sobretudo no judaísmo.
(1)    Os judeus reconheciam a autoridade dos anciãos (Mat. 26.57; Act. 4.23; no A.T. em Êx. 19.7; Num. 11.16,24).
(2)    A liderança exercida por um conselho de anciãos era comum nas cidades antigas, como ainda hoje acontece nos povos não industrializados.

ii)    Os primeiros cristãos desenvolveram naturalmente uma liderança presidida por anciãos; Paulo promoveu a eleição de anciãos em cada cidade (Act. 14.23).

4)    A liderança de homens maduros, ou mais velhos, era um fato evidente nas sociedades antigas, onde a idade estava associada à sabedoria. Para discussão: Se na época actual o mundo não procura liderança entre os anciãos, qual será o nosso desafio para nomear anciãos nas nossas igrejas?
a)    A descrição que Paulo faz de si mesmo indica que ele era modelo para a conduta que esperava dos seus seguidores. Serviu ao Senhor com humildade e lágrimas (v. 19).
i)    Paulo deu instruções detalhadas aos anciãos, educando-os na fé cristã.
ii)    Baseados nessa passagem, que devemos esperar de um ancião?
iii)    As duas passagens apontam para I) Alguém que pode ser exemplo de sacrifício pela fé e II) Alguém que tem um bom conhecimento da fé cristã. Para discussão: Quais são os obstáculos ao pôr em prática os dois critérios?

5)    Paulo expõe as responsabilidades dos anciãos nos vs. 28-31
a)    “Cuidai pois de vós mesmos”. Isto significa que o primeiro dever do líder é garantir a sua integridade e carácter. Segundo o exemplo de Paulo, só podiam ser líderes os que manifestassem sacrifício pela obra.
i)    A passagem faz uso amplo da imagem do pastor: “… e de todo o rebanho… para apascentardes (lit. ‘pastoreardes’) a igreja de Deus”.
ii)    A imagem do pastor passou a ser a que usamos para definir o líder da igreja, ainda que seja usada somente em Efésios 4.11 e em I Pedro 5.2.
iii)    Embora a imagem se use regularmente, não significa que fique totalmente claro para aqueles que não vivem em zonas rurais.
iv)    Paulo, no seu discurso, explica qual é a obra dos pastores.
v)    O dever do pastor é “apascentar a igreja” (v. 28 RV).
(1)    Esse dever inclui reunir e alimentar o rebanho.
(2)    O vers. 29 indica que também deve proteger o rebanho contra “lobos vorazes”. A imagem de “lobos vorazes” aponta para o ensino dos falsos mestres.
(3)    A ênfase para reunir e alimentar é evidente em Ezequiel 34.13-16, onde Deus toma o lugar de pastor.
(4)    Note o dever do pastor no Salmo 23.
(5)    A descrição que faz Jesus Cristo de si mesmo é a do bom pastor (Jo. 10.7-9), o que nos dá uma outra dimensão: a consagração do pastor.

6)    Para discussão: Que imagens surgem na nossa mente quando falamos do líder cristão como pastor? Explique o que isto significa para nós. Há alguns que usam a imagem para enfatizar a ternura do pastor, mas não a autoridade do mesmo. Há que ter em conta que o pastor é responsável pelo alimento do rebanho e pela protecção contra os “lobos”. Por isso, o pastor necessita de um bom conhecimento da fé cristã. O pastor deve também estar pronto para se sacrificar pelo rebanho.
7)    Paulo descreve os líderes da igreja como supervisores ou bispos (v. 28). Em grego, a forma original “episkopos”, traduz-se como bispo ou supervisor. Esse era um vocábulo conhecido na vida secular de um supervisor no trabalho ou no campo. A passagem sugere a autoridade que tem todo prebitero, ancião e bispo.
8)    O nosso desafio, como mencionado acima, é transferir as funções desempenhadas nas igrejas-casas do primeiro século e aplicá-las á igreja actual. Falar do desafio de proteger a igreja de lobos, é o mesmo que dizer, de falsos mestres. (Mencionar o que aconteceu nas igrejas de Chiapas por falta de presbíteros)
9)    Nos versículos 33-35 Paulo descreve novamente a instrução dada, no que respeita ao seu exemplo pessoal. Se Paulo era um exemplo sobre como ajudar os fracos, isso deveria ser também o trabalho da igreja e o dever do presbitero.

 

 

LIÇÃO 4 – O trabalho dos presbíteros



1)    Nas lições anteriores, enfatizamos que a igreja requer líderes, como qualquer outra organização, evitando formas seculares de liderança, insistindo que Cristo oferece uma norma baseada no serviço (contra as ideias culturais).
a)    Cristo ensinou e viveu a verdadeira liderança, começando com o sacrifício de si mesmo e a recusa de ambições egoístas (Mar. 10.41-45).
i)    Vimos nas epístolas de Paulo que a liderança ocorre num contexto onde todo o cristão está activo no serviço.
ii)    Vimos que a função precede títulos e posições (I Tes. 5.12-14).

2)    Nas igrejas de Cristo temos dedicado uma atenção especial às características descritas em I Timóteo e Tito como modelos para a igreja em todas as épocas.
a)    Em ambas as cartas, Paulo deduz que não estaria presente para ajudar as igrejas enquanto elegiam os seus respectivos presbiteros.
b)    Timóteo e Tito não eram pregadores locais, mas sim enviados por Paulo, que seguiam as suas instruções.
c)    Em I Timóteo, os que assumem posição de liderança incluem bispos (supervisores, I Tim. 3.1), diáconos (servos, 3.8) e as mulheres (3.11, podem ser as esposas dos diáconos). Notemos também as características das viúvas (5.3-16). Os anciãos são mencionados em 1 Tim. 5.17. Deduzimos que é o mesmo que bispos.
d)    Tito menciona só presbiteros (Tt. 1.5-16).
e)    Em I Tim. 3, Paulo conclui que o povo estava familiarizado com essas funções. Quanto a Tito, é instruído para que “em cada cidade constituísses presbíteros” (Tt. 1.5).

3)    Esta forma de liderança era comum no mundo antigo onde as comunidades normalmente procuravam homens mais idosos para a liderança. Este tipo de liderança era comum nas sinagogas e continua sendo comum nos países não industrializados.
a)    Se vemos o contexto das instruções em Timóteo e Tito, vamos ver que Paulo responde a uma crise com que a igreja se enfrentava, em que os bispos e prebíteros proveriam a liderança e a estabilidade.
b)    Em I Tim. 1.3-7, Paulo descreve a crise causada pelos falsos mestres; também em 1.18-20; 4.1-6; 6.3-10.
i)    Paulo instrui Tito a “constituir” (nomear) presbíteros por causa da situação crítica provocada pelos falsos mestres (Tito 1-10-16).
ii)    Aquelas instruções recordam-nos que a igreja se enfrenta com novos desafios em cada geração, que determinarão a missão e a identidade da mesma.

4)    A descrição das características chama a atenção para o carácter e bons hábitos do líder cristão, do qual se espera que seja um modelo da fé que professa.
a)    Algo difícil para as igrejas, tem sido a ausência relativa de uma descrição do trabalho do presbítero. Dá-se toda a atenção às características (I Tim. e Tito falam das “qualidades do carácter”).
b)    Uma das partes mais importantes de I Timóteo e Tito, é a necessidade do líder ser um bom exemplo de vida cristã.
c)    Para mais informação do modelo de vida cristã, ver I Tim. 4.12; Tito 2.7.
i)    Devemos prestar atenção, também, às qualidades de carácter que encontramos em Tito 2 que são para todos na igreja (anciãos, anciãs, jovens, escravos), e que é paralela à lista das características dos presbíteros. Isto é, estas características sugerem que os líderes cristãos devem demonstrar as mesmas qualidades que se esperam dos outros cristãos.

d)    O nosso maior desafio, e um tema que tem causado muita divisão, consiste em como devem funcionar as listas das características. Discutir as maneiras diferentes como usamos estas listas. Usamos as listas como características essenciais e outras como guias. Como se pode interpretar a lista das características? Contêm tudo que é necessário? São todas as características de importância idêntica?
i)    Podemos entender melhor as listas quando entendemos como funcionam em I Timóteo e Tito.
ii)    Além de descrever bons exemplos (ver acima), aborda-se a boa reputação dos líderes cristãos em comunidades cristãs maiores, enquanto convivem entre pagãos.
(1)    É incrível, enfocando-nos na liderança contra a cultura, que as características sejam basicamente seculares, isto é, valores apreciados pela sociedade em geral. De fato, uma inscrição descoberta faz poucos anos, listava as características de um bom general. A inscrição tem muitos paralelos com a lista de I Timóteo 3.
iii)    A primeira característica da lista, “irrepreensivel” é a base das outras, e a última (“que tenha bom testemunho dos de fora” 3.7), apontam para a reputação do líder entre os não cristãos.

      e) Características como “sóbrio, prudente, decoroso” (I Tim. 3.2) eram virtudes  
           admiradas por todo o povo.

i)    “Não dado ao vinho, não violento” eram virtudes importantes para todos os que aceitavam responsabilidades e isso era o que todos esperavam.
ii)    “Não neófito” (recém-convertido, 3.6), é uma admoestação para a importância que tem a experiência necessária para ser um líder cristão.
iii)    “ Não avarento”, é uma virtude cristã comum (segundo Heb. 3.5; I Tim. 6.10; II Tim. 3.2). Os presbíteros eram, com frequência, responsáveis pelas finanças, e alguns eram pagos (I Tim. 5.17,18).
iv)    Estudaremos mais características na próxima lição.

5)    Já que estas características são basicamente imprescindíveis para os líderes, que outras virtudes importantes esperamos de um líder? Discutir a importância da experiência da vida cristã e da idade como requisito.

 

LIÇÃO 5 – A liderança e a família



1)    Ainda que a autoridade principal venha de Deus, Paulo reconhece a necessidade do líder local desde o início. No princípio, dita liderança emergia da vida familiar.
a)    O lar, indubitavelmente, influenciava a identidade e o conhecimento da liderança.
b)    Notemos imagens da família para descrever a igreja:
i)    Naquele tempo e cultura, a linguagem do “amor fraternal” (Rom. 12.10; I Tes. 4.10; Heb. 13.1; I Ped. 1.22) aplicava-se só entre familiares.
ii)    A imagem mais comum para a igreja veio da vida familiar; notemos as referências a “irmão”, “irmã” na fé.
iii)    O facto dos cristãos se verem como irmãos é vital para o seu entendimento sobre liderança. Por exemplo: Paulo por vezes se referia a si mesmo como pai das igrejas e pai espiritual de Timóteo.
c)    Os escritores bíblicos consideravam a família como o campo de provas para a liderança de todo o tipo.
d)    Embora a liderança cristã tenha surgido na igreja-casa, onde os cristãos viam o líder como o pai de família romano na sua severidade, eles adotaram somente algumas de suas caracteristicas.
i)    O pai de família romano tinha autoridade absoluta sobre o seu lar, uma qualidade que os cristãos não adotaram.
ii)    O pai romano tinha a responsabilidade da educação dos filhos e do bem-estar do lar, funções adotadas nas igrejas pelos líderes que se reuniam nos lares.

2)    Como modelo de lar da antiguidade, as igrejas possuíam propriedades e tinham orçamentos (administravam finanças, pagavam profesores da Palavra). Podemos discutir como a situação mudou quanto á propriedade, às questões legais, etc., e como isso altera a responsabilidade dos presbíteros.
3)    O conhecimento cristão sobre liderança, aprenderam-no no contexto do lar:
a)    “Hospitaleiro” (filoxenos, lit. “amigo de estranhos”) em 3.2 (segundo Tito 1.8), refere-se a receber estranhos em casa (isto não é convidar aos melhores amigos, mas sim aos necessitados de alimento ou hospedagem).
b)    Notemos a importância da hospitalidade como uma virtude praticada por todos em Romanos 12.13. Vejamos também Heb. 13.2; I Ped. 4.9.
c)    Os estranhos, neste caso, eram quase sempre crentes de outras cidades que necessitavam de hospedagem. Não era possível selecionar os estranhos que entravam em cada casa.
d)    Os que eram “hospitaleiros” também permitiam que em sua casa se reunisse a igreja.
e)    Para discussão: Como esta característica (hospitaleiro) se traduz na nossa época já que não nos reunimos em casas? A ideia básica de receber estranhos se aplicava em qualquer circunstância?

4)    “Marido de uma só mulher”, encontramos tanto em I Tim. 3.2, como em Tito 1.6, conforme a característica da viúva em I Tim. 5.9 “mulher de um só marido”. A frase é ambígua tanto no grego como em português. Possíveis significados:
a)    Não um bígamo.
b)    Não um viúvo que voltou a casar.
c)    Não um viúvo.
d)    Não um divorciado que voltou a casar.
e)    Temos que levar em conta o teor das características:  

5)    O ambiente do lar prepara a descrição do trabalho do ancião.
a)    A falta de uma descrição detalhada do trabalho do presbítero tem sido causa de confusão nas igrejas; como consequência, trabalham com deduções conflitivas a respeito das suas responsabilidades.
b)    O trabalho de um presbítero aparece em I Tim. 3.4. Notemos os detalhes:
i)    “Governa bem a sua própria casa” (‘sua família’ NVI). A conclusão é que o presbítero, diferente dos ateus (de acordo com I Tim. 4.3), estava a favor  do matrimonio e da família.
(1)    “Governa” (proistemi) tem uma conotação dupla de “ser a cabeça” e “cuidar, auxiliar”. NVI diz em Rom. 12.8 “liderança”. Alguém sugeriu que significa “autoridade bondosa” e “autoridade que cuida”. Ou seja, digna de um pai.
ii)    “Filhos em sujeição” sugere que o lar é um campo de provas para os deveres públicos. Uma pessoa, cuja vida de casa é caótica, não seria recomendável. Notemos as histórias bíblicas de lideres cujos filhos não estavam em sujeição (I Sam. 1.2).
iii)    Para discussão: Como se aplicam estas passagens no nosso próprio lar? Quanta responsabilidade devem ter os pais com respeito aos seus filhos? Aqui a passagem não comenta a idade dos filhos (seis ou dezesseis).
iv)    O paralelo em Tito da mesma característica é “Filhos crentes que não sejam acusados de dissolução, nem sejam desobedientes” (1.6). A frase qualificativa sugere adolescentes ou filhos adultos – não crianças.
c)    Em I Tim. 3.5, a frase em parêntesis distingue mais a descrição do trabalho e a relação entre família e igreja. Notemos o paralelismo entre “governa” e “cuidará”. Este comentário define bem o papel do presbítero. Os presbíteros têm autoridade para cuidar da igreja, procurando o melhor para os membros.
d)    Os cristãos têm ideias distintas quanto à natureza da sua autoridade. Um modelo é altamente autoritário, enquanto outro é uma reação ao padrão do presbítero autoritário.
i)    Discutir como a metáfora da família determina a natureza da autoridade, evitando que atinja algum extremo. Qual é o desafio de transportar o padrão do lar para a igreja contemporânea?
6)    A igreja moderna, como a antiga, requer a liderança dos que são exemplos de vida cristã, ensinam a fé cristã e guiam a igreja em direcção ao futuro.
a)    A igreja não é uma democracia.
b)    Ainda que os presbíteros não administrem cada detalhe da vida da igreja, guiam-na em todos os aspectos da sua vida.
c)    Os presbíteros são dignos de autoridade pelo serviço que prestam á igreja.



LIÇÃO 6 – A selecção dos presbíteros



Como se elegem os anciãos? Esta é uma pergunta que nos fazem sempre que apresentamos aulas sobre liderança Creio que todos estamos convencidos de que toda a congregação deve ter uma liderança partilhada, e se, contudo, não a têm é porque não sabem como eleger e reconhecer os seus líderes.

Visto que não há na Bíblia passos específicos para o processo de escolha e eleição de anciãos, temos a liberdade de o fazer de acordo com o que nos parece mais correcto. Se bem que não haja ditos passos, podemos inferir das passagens onde houve eleição de líderes e buscar alguma luz sobre o tema.

A.    Depois da morte de Judas, os apóstolos se reuniram para eleger outro apóstolo como substituto.
a)    Actos 1.14-17, 20.26: Por ser um apóstolo, Matias foi eleito pelo Senhor, mas os irmãos decidiram, entre os qualificados, quem tinha as características necessárias para servir e lhes apresentaram aos outros apóstolos. Então “deitaram sortes”.

b)    Actos 6.1-6: Toda a congregação participou da eleição dos sete diáconos (vs. 3 e 5).

c)    Actos 13.1-3: O Espírito Santo elegeu os anciãos, mas a congregação deu-lhes a sua bênção.

d)    Actos 15.22: Toda a igreja decidiu o sistema e também elegeu a homens que acompanhariam Paulo e Barnabé na sua viagem missionária.

e)    II Coríntios 8.18,19: Elegeram a Tito para levar um donativo à igreja em Corinto.

B.    O significado da escolha:
a)    A congregação é um organismo da escolha e eleição de Deus. Portanto, a igreja deve eleger homens escolhidos por Deus. É a sua responsabilidade. A escolha é importante e devemos dedicar a isto muita atenção, oração e jejum.

b)    O propósito de cada ancião: “com a missão de servir”, não forçados, nem por ganância, nem para demonstrar poder, nem para sobressair, mas sim solicito, com a atitude de servir a igreja.

c)    Não com a atitude de um chefe político, autoritário, mandão, mas sim pelo seu exemplo de serviço e humildade.

d)    Que o candidato tenha pelo menos as características listadas em I Tim. 3 e Tito 1. Que a sua conduta dentro e fora da igreja (como dentro e fora do seu lar) seja exemplar:

e)    Ensinar a palavra, em classes ou individualmente, deve ser um requisito para poder ajudar os membros quando há falsos mestres.
f)    Deve estar convicto da sua doutrina. Se tem dúvidas deve-as esclarecer antes de começar a servir.

C.    Os anciãos de Culiacán – dados baseados numa eleição recente de anciãos.
a)    O pregador, depois de ter sido ensinado por nós e reconhecer a necessidade de partilhar a liderança, fez o seguinte:
1.    Fez uma lista de possíveis candidatos.
2.    Orou dias seguidos por eles.
3.    Fez uma visita a casa de cada um dos que constavam na lista.
4.    Consultou com o possível candidato e com a sua família para ver se estavam todos de acordo.
5.    Reuniu-se com os candidatos várias vezes para:
a.    Orar
b.    Conviver
c.    Partilhar
d.    Comprometê-los

6.    Anunciou à congregação os homens candidatos.
7.    Como não houve oposição a nenhum dos candidatos, decidiram uma data para os apresentar à congregação como líderes.
a.    No domingo combinado, em que se reunia a congregação, fizeram a apresentação.
b.    Houve orações por cada um deles e por suas respectivas famílias e celebração.

D.    A preocupação de que o processo possa falhar.
a)    Quando Deus dá instruções, também dá os meios para as levar a cabo.
b)    O mesmo Deus que disse que as igrejas autónomas necessitam de reconhecer os seus líderes, disponibilizar os meios para que se cumpram as suas ordens.
c)    Perguntas para discussão: Que acontecerá com um homem, eleito ancião, que não funciona bem com os outros? Estará a congregação sujeita a essa pessoa para o resto da sua vida? Estas são algumas preocupações muito sérias que temos de levar em consideração.
d)    Já que a Bíblia não diz por quanto tempo um ancião deve servir, gostaria de sugerir que se faça um compromisso de pelo menos três anos, com uma apreciação de 12 em 12 meses.
1.    Na apreciação, a congregação deverá confirmar se quer que os anciãos continuem servindo.
2.    Isto será uma oportunidade para que o ancião que crê estar sujeito a uma posição que não lhe agrada e quer renunciar, poder fazê-lo nessa altura.
3.    Haverá, também, uma oportunidade para novos líderes.

e)   O pregador como jogador/treinador (I Ped. 5.1)
1.    Incluir o pregador no grupo de anciãos.
a.    Ele tem experiência no ministério.
b.    Ele pastoreou a igreja até esse momento.
c.    Ajudará os novos líderes a amadurecerem.
d.    Participará e orientará os líderes nas suas decisões.
 

“Fiel é esta palavra: Se alguém aspira ao episcopado, excelente obra deseja” (I Tim. 3.1)


(Para voltar ao site "Sermões e seminários" clicar aqui: www.luisseckler.blogspot.com