VIAGEM PARA O INFERNO

Anjos e feras

Era sempre assim. Enquanto tia e sobrinha preparavam doces e salgados do sustento diário, ambas conversavam.

− Eu sei, tia, que essa viagem nós não faremos.

− Que viagem, Milena?

− Para o inferno, tia.

− Não, Milena. Não faremos.

− A locomotiva, tia, que puxava apenas um vagão parou na estação. O servidor responsável pelo recolhimento dos trastes, após verificar na tela do computador o histórico da candidata, desceu, acendeu o cigarro e ficou observando−a. Envolvida pela penumbra da estação, conversava com meia dúzia de pessoas que assim diziam para ela: “Entendemos... Está na hora de ir... Estão aguardando−a...” Despediu−se, caminhou de encontro à locomotiva, saudou o servidor e adentrou. O servidor responsável pelo recolhimento dos trastes, após atirar o cigarro fora, imitou-a e a locomotiva partiu. Ele, tia, o responsável pelo recolhimento dos trastes, se acomodava à sua mesa e as pestes recolhidas, despojadas nas desgastadas cadeiras permanentemente em desalinho.

− Como se fosse uma sala de aula bagunçada.

− Exatamente, tia. Ele, a autoridade do respectivo ambiente, costumava encarar os recolhidos com ar de deboche e provocá−los com verdades. Então, quando não mais resistiu, disse para a recente recolhida que não tinha percebido ninguém chorando com a transferência dela. Aliás, empurravam-na, dizendo mentalmente: xô desgraça ruim! Vá logo! Se pique! Loucos para se livrarem da porcaria que ela era. Porcaria sim. Pois, sobre os ombros da ordinária, pesava um garoto com 90% do corpo queimado e o irmão tetraplégico. A barbaridade com outros indefesos só não avançou graças a um bem−aventurado automóvel. Apanhou-a sobre o passeio, subiu igual a balão e, ao cair, foi pronta para conhecer Satanás.

− Então ela estava morta?

− Sim, tia. Estava morta e viajavam para o inferno. Preste atenção na história, tia... A transferida enfezada depositou as vistas na paisagem. Observada, através do grosso vidro da janela resistente a altas temperaturas. Mas o responsável pelo recolhimento dos trastes, ainda não satisfeito, pediu para que ela olhasse para a desgraça gorda que lhe fazia companhia. Referia−se, tia, a um transferido que havia sido recolhido na estação anterior. Obedecendo−lhe, ele disse que a curiosidade debruçava sobre os acolhidos por aquela locomotiva. Ainda não havia conseguindo entender o motivo da generosidade do sopro da vida para com eles. Aquela desgraça gorda, por exemplo, viveu para instigar desavença. Certamente a causa da vingança do generoso gradil. A locomotiva, tia...

− Generoso gradil?

− O gradil da sacada do apartamento da nova namorada, tia, não suportou o peso da desgraça. O bolota em queda livre desceu os vinte e três andares e espatifou−se no chão igual a jaca mole apodrecida, pronto para conhecer Satanás. A locomotiva que desenvolvia alta velocidade já havia cruzado quatro estações sem ter recolhido um único lixo. Mas o responsável pelo recolhimento dos trastes sabia que o mesmo desprazer não aconteceria nas três estações vindouras. A locomotiva começou a diminuir a velocidade; diminuiu até parar. Na semiescuridão da estação dois homens conversavam. Olharam para a locomotiva e se abraçaram. Encontro finalizado com doloroso aperto de mãos. O transferido adentrou o vagão e se acomodou. O responsável pelo recolhimento o olhava dedilhando os dedos sobre a mesa. A locomotiva partiu. Disse então o responsável pelo recolhimento dos trastes que apostava que aquele homem que lhe prestou a última condolência era o pai dele. E que ele, o recolhido, não havia estudado na cartilha do sofrido senhor. Deveria se envergonhar de não ter sido gente. Quatro assassinatos. Três assaltos e cinco estupros. Carreira, no entanto, encerrada graças a um bem estudado projétil. Estrebuchou no chão pronto para conhecer Satanás.

− E assim a locomotiva seguia.

− E assim a locomotiva seguia, tia. Recolheu um moleque, o qual, ao adentrar, o responsável pelo recolhimento dos trastes gargalhou...

− Por que, Milena?

− Fora traído pela motocicleta que havia roubado, tia. A roda dianteira da motocicleta travou e ele, impulsionado, acabou sendo fulminado pelo fio de alta tensão.

− Que triste, Milena.

− A locomotiva parou na derradeira estação, acolheu um demagogo “artista”, e partiu. O feliz servidor encarando-o, dirigiu−lhe depreciativa piada. Então, tia, em dado momento, os recolhidos começaram a arregalar os olhos e a bufar. Pois o calor aumentava assustadoramente. O responsável pelo recolhimento dos trastes, como de praxe, protegeu-se sob uma manta térmica e passou a assobiar uma alegre canção. A locomotiva, por sua vez, continuava a correr; apitou e adentrou o túnel de altas labaredas.