Tributo aos falsos vencedores

O senhor Temporã, 65 anos, aposentado recente do Diário Veloz, onde exerceu por dezesseis anos a função de redator-chefe, reúne-se com a turma de amigos no clube de dominó, pincela episódios dos três insolúveis assassinatos ocorridos há doze anos naquela cidade e pergunta:

−Algum de vocês escutou de alguém ou até mesmo de algum meio de comunicação qual teria sido a motivação?

−Foram casos isolados. Se bem que nunca detalhados.

−Nem mesmo o próprio Diário Veloz se manifestou... Um mês antes do primeiro assassinato, recebi uma correspondência anônima. Na curta mensagem, ‘Dia marcado’ dizia que, tão logo escutou a canção My Way, interpretada na voz de Frank Sinatra, passou a se questionar sobre o que seria ser um vencedor. Fazer do seu jeito daria status de ser um vencedor?

–...

–Assassinaria três pessoas. A primeira, na tarde do dia 14 de abril, em uma das dependências do Shopping Robusto. A segunda, na manhã do dia 14 de maio, durante a concorrida procissão Divina Mãe Santíssima, e a terceira vítima seria um dos jogadores em campo, durante a partida final do campeonato estadual. Devaneio de um louco? Não iria apostar. Deixei a sede de o Diário, me dirigi ao prédio da Secretaria de Segurança e a entreguei pessoalmente ao secretário. Dez minutos depois do feito, cinco delegados nos faziam companhia. Não queiram alarde. Então negociamos manutenção de sigilo: receberia autorização expressa para que, na condição de repórter, participasse da tocaia que seria realizada ou das tocaias que seriam realizadas. 14 de abril - o Shopping Robusto, alheio à ameaça respirava. Policiais à paisana circulavam no meio da descontraída multidão. Então, manhã vencida, vigiada por precaução, pois ‘Dia marcado’ dissera que seria à tarde. Adentramos as horas vespertinas. Avançavam como se nada fosse acontecer, quando, de repente, escutamos rumores de que uma jovem havia se deparado com o corpo de uma também jovem, degolada em um dos vestuários da loja Asper especializada em trajes núpcias... ‘Dia marcado’ não blefava... Reunião da cúpula governamental e mais reuniões, enfim... 14 de maio, dia da majestosa procissão. Manhã ensolarada, fiéis vigiados acompanhavam o cortejo. Depois de longa caminhada, o nobre andor da Mãe Santíssima, erguido por quatro adoradores, que revezavam, adentrou a reta final festivamente aplaudido, quando, de repente, tombou. O fiel idoso que o carregava havia sido estocado mortalmente no rim direito. ‘Dia marcado’ mostrava que era um vencedor. Solicitado pelas autoridades policiais, a fim de encontrarem uma luz, o disque-jóquei Trampolim, proprietário da rádio que levava o seu nome, passou a tocar insistentemente a canção My Way. Outros disque-jóqueis, entendendo como sendo a canção do momento, passaram também a executar a vigorosa melodia. Como em nada resultou, discutiram sobre a final do campeonato: aconteceria ou não? No entanto, aconteceria, pois a segurança a ser empregada seria semelhante à de personalidade internacional, antipatizada em visita ao país. O estádio estava lotado. O Real Azul era o grande favorito. Aos quinze minutos do primeiro tempo, marcou o primeiro gol, fazendo com que a torcida explodisse. A bola voltou a rolar. Oito minutos se passando, resultante de uma falha da zaga adversária, saía o segundo gol. Porém, o autor da bela jogada, que resultou no esplêndido gol, ‘desistia’ de comemorar. Invadimos o campo ao constatarmos a tragédia, olhamos em volta. Ele havia sido atingido mortalmente por uma arma de longo alcance, disparada dali de dentro. O facínora havia destruído mais uma alegria... Um mês depois, a polícia, atônita, orando a São Longuinho para que lhe mostrasse o danado. ‘Dia marcado’ enviou a segunda e derradeira mensagem: "Fiz do meu jeito." Dizia.