RELATO


As chaves do condomínio de casas, haviam sido entregues recentemente. Então, a senhorita Elizabeth conta que, numa certa manhã, o retardatário morador da residência em frente, senhor Dylan, após atravessar a rua, dirigiu-se a ela e perguntou pelas crianças do condomínio. Respondeu que era ouro.

-Não existe criança por aqui?

-Gato pingado.

-Idade?

-Abaixo de cinco, senhor.

A conversa progrediu e ela, compreendendo o motivo do questionamento, se interessou, uma vez que coincidia com a revelação que lhe fora feita pela mamãe: “Pai... Mãe...” Era o que ambos afirmavam ouvir sempre, às três horas da madrugada. Naquele mesmo instante, os apresentou, conversaram e marcaram de dar uma volta no condomínio, durante a madrugada.

Durante a madrugada, caminharam conversando e atentos a ruídos. Em dado momento, consultou o relógio. A mamãe, tão logo estancou os passos, e disse que estava ouvindo. O senhor Dylan, que também havia estancado os passos, confirmou: “‘Pai... Mãe...’ Estou ouvindo sim”. Voltou a olhar para o relógio. Eram três horas e poucos minutos. Postou na sua página a experiência vivida e, ao meio-dia, havia um comentário registrado de uma pessoa que se identificava como Kelly, engenheiro de certa empreiteira de eletrificação, dizia que a história era familiar, narrada por um técnico. O número do telefone que deixava exposto estaria à disposição dela. Telefonou para o engenheiro e ele forneceu-lhe o número do telefone do técnico. O técnico confirmou as suas indagações. Disse-lhe que durante o serviço de revisão elétrica do condomínio, realizado à noite, tinha a impressão de ouvir, sempre às três horas da madrugada, alguém chamando pelos pais: “Pai... Mãe...” Era o que acreditava ouvir. A sensação acontecia em qualquer parte do condomínio e, com intensidade maior, na quadra de esporte. Agradeceu e como uma boa blogueira, postou a novidade. Tinha poucos seguidores mas, ao postar aquilo, houve um aumento expressivo. Confessa ainda que videntes, religiosos e curiosos queriam passear no condomínio durante as madrugadas. Dias depois, num final de tarde, recebera a visita do senhor Cassius. Combinaram conversar pessoalmente. Após permitir que entrasse e se sentasse, abriu lentamente a pasta que trazia consigo, retirou um recorte de jornal e lhe entregou. Via-se, na foto, um automóvel de encontro a uma árvore, seriamente comprometido. Ela fitou a reportagem. O senhor pediu-lhe desculpas e disse que costumava colecionar tragédias. O jornal era datado presumivelmente de sessenta anos atrás. Como se podia observar, uma pequena família havia falecido naquele acidente. Não havia nenhum parentesco e nem muito menos os conhecera. Acompanhando a sua página, juntamente com um dos netos, recordou-se do acidente e ali se encontrava para colaborar. Disse ainda que uma antiga estrada cortava o condomínio e que, na época, era permitido que corpos envolvidos em acidentes fossem enterrados às margens da estrada.

-Uma cruz sinalizava o local, senhorita. Entretanto, vândalos costumavam retirá-las.

Continuando, disse que, como constava na matéria, o acidente ocorrera provavelmente às três horas da madrugada. Assim se acreditava em razão de o relógio do motorista ter sido encontrado parado marcando tal horário...

“Voltei a fitar a reportagem e ficamos nos olhando por momentos. Oferecendo-lhe suco, perguntou-me se não seria o garoto procurando pelos pais? Abri as mãos. Consentiu-me que escaneasse o recorte de jornal, agradeceu-me pela atenção, disse-me mais uma vez o seu nome e se foi.”

Prosseguindo com a experiência, publicou a recente novidade fornecida pelo senhor Cassius, o número de visitantes triplicou. Numa não distante noite, recebera um telefonema de um dos diretores da construtora do condomínio. Disse-lhe que a história estava sendo apurada e que em breve voltaria a manter contato. Como prometera, dias depois voltou a ligar. Afirmou que houve irresponsabilidade de certo órgão público, e que a quadra de esporte do condomínio teria de ser interditada para a realização de um serviço. Isso se daria, uma vez que, durante os trabalhos de terraplanagem, apenas dois restos mortais daqueles anônimos, envolvidos naquele acidente, foram removidos e sepultados no cemitério da cidade, e o terceiro ficado para trás: o do garoto, certamente. Que se tranquilizasse o público dela. Em breve, e num grande estilo, os restos mortais do garoto seriam colocados ao lado dos entes queridos... Como o diretor da construtora prometera, os restos mortais do garoto foram transportados em um cortejo do carro de bombeiros com o acompanhamento de uma multidão. Ao lado dos pais, nada mais foi escutado.